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Mau humor

Ricardo Chapola

quinta-feira 21/08/14

Nem a mais justa cara feia pode resolver as coisas por si só

Ilustração: Felipe Blanco
Fazer cara feia, torcer o nariz, estragar seu humor pode ser legítimo, constitucional, justo, mas não vai resolver sua fome, que é muita, não mudará a personalidade do seu chefe, que é difícil, não será suficiente para fazer um mundo, que é caótico, melhor. Ficar emburrado o tempo todo, na verdade, além de não resolver em nada os problemas de ninguém, dá rugas, se você tiver sorte. Mata, se tiver azar. De AVC, ou infarto. Você nunca escolhe.
Carrego esse discurso na ponta da língua como mecanismo de combate à resignação frente a tudo o que está aí. Pesquisas apontam que está todo mundo de saco cheio de desigualdade, corrupção ou corruptelas, ônibus lotado, trânsito sem fim. Sinto informar que, apesar de a vida ser dura, só amarrar a cara não ajuda.
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Foi o que tive vontade de falar à senhora que, não faz muito tempo, me odiou por um instante no ônibus que tomo pelas manhãs para ir ao trabalho. Odiou-me tanto que, se não estivesse usando toda a sua força para carregar as sacolas, certamente a teria convertido em cascudos na minha cabeça.
Pelo menos para isso serviu a bendita bagagem: salvar um inocente.
Não tive culpa em poder, naquele momento, fornecer a ela apenas os dois palmos possíveis de espaço para passar, não a avenida que seus olhos julgadores exigiam, sem dar qualquer importância ao esforço que fiz para abrir aquela passassem pequena, mas cheia de boas intenções. Pelo que captei em suas acusações telepáticas, a senhora condenou-me por me preocupar mais em manter a lisura da camisa do que amarrotá-la em nome de uma gentileza. Não era bem assim, o importante ali era equacionar tudo direitinho: ser cortês, sem ter que, para isso, meter a bolsa no nariz do cidadão da frente, dar uma bundada no cidadão de trás e ainda, de quebra, não deixar que o contorcionismo todo naquele aperto comprometesse a minha reputação.
A verdade é que os dois palmos eram suficientes para que passassem primeiro as sacolas e depois a senhora – meio de ladinho. Mesmo assim, como se dar o braço a torcer fosse sinal de fraqueza, a senhora continuou a me odiar. Bufou ao descer em seu ponto, dirigindo-me de novo o olhar diabólico assim que pisou na calçada.
Poderia retribuir em ódio, em caretas, fazer birra ficando parado no lugar, sem mexer um centímetro sequer para que ela pudesse descer com suas sacolas e e sua antipatia a tiracolo. Poderia rebater todas as acusações a que fui submetido com outras, criticando a senhora pela folga de querer viajar sentada, na janelinha, e ainda achar que tem direito a mordomia na hora de sair.
Mas não. Tive vontade de chamar a senhora para um papo amigo. Convencê-la de que ficar emburrada daquele jeito vai levá-la para o buraco mais rápido e que, quando isso acontecer, muito provavelmente não terá amigos em volta de seu caixão tamanha foi a sua chatice durante a vida. Ninguém deseja isso para si. Além do mais, veja só, eu diria: enquanto ficamos com picuinhas, você chegou ao seu destino, eu cheguei ao meu, e o pessoal que optou pelo conforto do carro, com ar condicionado e entrada USB no rádio, está lá parado no congestionamento até agora culpando o PT e os corredores de ônibus.
Não acaba aí. As sacolas estão cheias, sinal de que conseguiu ir ao supermercado comprar arroz, feijão, bife, até bolacha recheada para os filhos, a despeito da economia ruim, dos preços altos, do salário baixo, do patrão picareta. Por isso sorria, minha senhora!!! O mundo é cruel, o busão, ruim, e nada disso vai melhorar só com cara feia. Nem a sua, nem a minha, nem a de todos os brasileiros juntos somados nas pesquisas noticiadas pelos jornais.
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