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Crônica gourmet

Ricardo Chapola

29 maio 2014 | 14:38

Ilustração: Felipe Blanco

Certa vez, num dileto restaurante da zona oeste de São Paulo, desejei um banheiro para um xixizinho vapt-vupt. Mas banheiro não tinha, só toilet. A constatação trazia implicações séríssimas considerando que, embora de mesma funcionalidade, toilet é uma coisa, banheiro, outra.

 

Permita-me então já me corrigir do começo: não era restaurante, era um bistrô – nome dado a lugares onde pessoas pagam pelo que comem, pagam pelo que bebem e na hora do aperto vão ao toilet.

 

Visitar um toilet é ascender socialmente o xixi para o patamar de água que se aloja nos joelhos. Secá-la é a atividade a que se dedica o usuário de toilet. O de banheiro mija, ou urina, ou, finalmente, faz xixi. Se você, caro leitor, é um usuário eventual como eu, atente para não mijar quando as placas gritarem “Toilet”. Esmere-se ali em secar as dobradiças das pernas e nada mais. Algo diferente disso talvez seja um grave desvio de conduta.

 

Lave bem as mãos depois, deixando-as cheirosas com as essências delicadamente encanadas até as pias com torneiras que funcionam pela mágica do sensor. Nada de sabonetes coloridos em bolotas giratórias de vidro típicas de postos de gasolina. Nada de papéis esfarelentos para se enxugar ao cabo de tudo. Xixi, sabonete colorido, bolota giratória, papel esfarelento: banheiro. Água, joelho, essência, caninhos, sensor: toilet.

 

Todo esse papo excessivamente higiênico para dizer que o mundo está muito mais gourmet do que nos tempos da luva de pelica, com muito mais toilets do que banheiros, mais bistrôs do que restaurantes. Vive-se a nova belle époque tupiniquim, fundada não sei exatamente quando, mas receio que a partir do momento que as padarias começaram a produzir croissant tanto quanto pães. Ao mesmo tempo, bife empanado virou cordon bleu enquanto a boa e velha torrada passou pelo cartório a fim de mudar seu registro para crouton. Se fez biquinho, raspou garganta, arregalou os olhos, é gourmet. Fez bicão pela grana que gastou pelos biquinhos? É normal e gourmet também, tendo-se assim o ponto alto da glamourização terrena: a descoberta do valor do frufru, revelado sempre pela delicadeza dos mais improváveis recipientes trazidos pelo garçom depois do crème brûlée, no papel de arautos da má nova. Já vi de bolsinhas de crochê a delicadas casseroles vermelhas.

 

Suponho que nosso amor pela firula a qualquer preço venha do futebol. Eu mesmo já testemunhei gente declarando amores às pedaladas do Neymar ao lado da bandeirinha de escanteio em jogo que o time está perdendo. Futebol moleque é gourmet, muito mais garboso que um gol de virilha do Fred na final da Copa.

 

Como não sou tão dado ao futebol, tentei jogadas de efeito pelas bordas do campo da literatura, gourmetizando a crônica com os biquinhos franceses. De cronista passei a sommelier da vida. Será que agora meu chefe trará a proposta de aumento dentro de uma casserole vermelha também?