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Copa cosmética

Ricardo Chapola

quinta-feira 19/06/14

Bem-aventuradas as criaturas que batizam os esmaltes com a precisão de um Pirlo marcando de falta no próximo jogo da Itália

Ilustração: Felipe Blanco

Prodígios da humanidade se espraiam alguns pelos ramos da astronomia, outros pelas veredas da cosmética, onde lidam parte entubando pastas de dente, parte batizando os novos esmaltes lançados no mercado. Manter as cores do creme dental sem misturar e nomear tons de tinta para unhas são dons de poucos e, por isso, essa horda de crânios merecem minha absoluta admiração.

 

Foi a Copa do Mundo que fez minha crônica pendurar as chuteiras, tomar uma chuveirada e ir direto para a loja de cosméticos. Se continuasse ali, fazendo firula dentro do campo, eu jamais encontraria respostas tão preciosas quanto as que vertem dos imensos paredões que são as prateleiras de esmaltes. Nunca saberia que o samba, ao contrário do que sempre achei, fosse amarelo. Pensava em preto por questões de origem. A risada é rosa ping-pong se for HA HA HA. Os estudiosos manicuristas ainda não concluíram as pesquisas que definem as matizes das variantes RSRS, nem do tímido HEHE, embora já tenham pistas de que sejam cores mais discretas.

 

Sempre soube que uma pura sedução pode ser uma poção de amor se o coração ainda não ampliou os cômodos para dois. À sombra daquela espécie de muro das lamentações da vaidade manual a gente tem a epifania de que somos seduzidos pelo vinho forte e brilhante que até deduzimos ser amor. Mas, de perto, preferimos infalivelmente o vermelho ardente do amor verdadeiro.

 

Minha maior e mais recente descoberta foi constatar pelo simples exercício da tagarelice que eu não sou o único a admirar o talento de pessoas capazes de explicar um mundo que, outros como eu, tentam destrinchar pelos seus próprios meios. Pelejaria anos para destacar o amor dos latifúndios de paixão que preenchem o planeta apenas escrevendo. Ou talvez nem conseguiria.

 

Mas o fato é que eu não sou o único entusiasta. As mulheres – suspeitíssimas, diga-se de passagem – também pagam um pau lascado para os gênios das unhas coloridas. A comprovação foi tirada depois de lançar o assunto no meio de uma roda de amigas. Acendi ali o estopim de um barril de histerismo. A porta-voz do grupo era fã confessa de esmaltes e sabia decor os nomes prediletos. Ela usava chá em 8 unhas das mãos, com a ousadia do pop nas dos dois anelares.

 

Entender demais as coisas de repente me fez correr um frio na espinha. A ignorância me parecia mais reconfortante. Mas agora já foi: a esmalteria fez a crônica descambar de volta para os gramados agora que já sei que as cores da nossa seleção já foram decifradas:

 

Amarelo é samba.

 

O azul, segundo pesquisas feitas por estudiosos que já foram da NASA, frio na barriga.

 

E o verde, haja coração.

 

O melhor a ser feito é, sabendo disso tudo, sugerir que o Brasil adote o uniforme dois daqui em diante. Porque o brasileiro prefere um friozinho na pança de nervoso do que sambar. Sambar e cair. Sambar e perder, que é o que vai acontecer se a gente continuar jogando o que jogou contra o México.