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O amor nos tempos de Copa

Ricardo Chapola

12 junho 2014 | 00:24

Ilustração: Felipe Blanco

Começou bem antes desta Copa – antes da de 2002, da de 82, muito, muito antes da de 50. Ele sempre esteve conosco: nos viu erguer a taça as cinco vezes e se fez desabrochar em milhões de beijos em todas elas. E esteve lá também quando os gringos, vingativos, douraram seus lábios diante de nós, enquanto chorávamos encolhidos no chão tentando segurar o fio de esperança que se evaporava com a derrota. Ele jamais nos desamparou, na alegria ou na tristeza. O amor sempre foi assim e começou bem antes da bicicleta, ou do gol de letra.

 

O futebol, aliás, nasceu pelo amor do pé à bola. Virou filho postiço de brasileiro porque há quem leve o amor a sério pelas bandas de cá, ou simplesmente por ter quem ache que futebol não seja para inglês ver, nem jogar. Quando não as duas coisas juntas.

 

O amor, por sua vez, é feito atacante ensaboado: liso, ligeiro, habilidoso. Num piscar olhos ele vem, te dá uma caneta e deixa você ali prostrado, com cara de zagueiro brucutu. Dentro das quatro linhas da vida, o segredo é não desistir até o apito final: quem sabe, lá pelos acréscimos, quando a torcida começou a esvaziar o estádio, você não acerta a marcação? Às vezes, ganhamos além da caneta mais um belo chapéu de brinde. Às vezes, a graça por ter domado um craque.

 

Foi meio inevitável não fugir da nossa mania de pôr o futebol no meio de tudo, nas agendas de domingo, nas conversas com taxistas, agora mais ainda nas rodas de amigos. Hoje, não sei se numa atitude inédita, meti ele ali também entre o A de amor e o R do amor também. Tudo, diga-se, em função de uma Copa cuja estreia felizmente coincidiu com o dia da celebração desse sentimento tão exclusivamente humano. Há quem discorde. A Brahma, por exemplo. Uns dias atrás a empresa lançou uma propaganda em que pedia, creio que aos produtores de calendários, que o dia dos namorados fosse antecipado um dia antes.

 

Não, brahmeiros, eu não bebo Skol para estar aqui descendo a lenha na concorrência. Só estou fazendo um protesto legítimo de alguém que não teme ser tolhido pela namorada do direito adquirido por todo brasileiro, independente de sexo, religião, do Fla-Flu, de assistir aos jogos do Brasil nesta Copa tão caseira. Aposto todas as minhas figurinhas brilhantes que nem as enamoradas de plantão cogitaram tal crime antipatriótico.

 

Sabe por quê?

 

Pois, com o perdão do clichê, caro leitor, lembre-se que entre o amor e o futebol existem poucas coisas que os separam: talvez só umas almofadas no sofá. Talvez só a iniciativa de zapear a TV até o Brasil e Croácia narrado pelo Galvão. Depois é só gritar gol ele, você e sua namorada, logo ai do lado. E há quem diga ainda que futebol e amor não têm nada a ver… Pode isso, Arnaldo?