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Quem Faz

Nascido em Araras (SP), o jornalista RICARDO CHAPOLA escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.
quinta-feira 25/09/14 08:59

MIS

Doutor Abobrinha

Nós, subscritos neste documento, não temos nada contra os moradores do Jardim Europa. Até temos divergências, grande parte delas sócio-econômicas, mas pela garantia da causa atual, vamos tratá-las hoje como resignações. Aceitaremos a ostentação da riqueza a cada esquina. Nos conformaremos com mansões, carros importados, chofer, coisas que não pertencem à realidade de gente diferenciada como a gente. Não protestaremos contra nada disso. Esperávamos só alguma coisa em troca, ou apenas que nos deixassem ser felizes comendo cachorro quente na ...

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quinta-feira 18/09/14 01:35

Ciclofaixa

Ciclovia

Ilustração: Felipe Blanco

- Amor, onde você vai de mochila? - perguntei, acostumado a vê-la só de bolsa em suas andanças.   - Hoje vou pro trabalho a pé. É semana da mobilidade urbana.   Fechou a porta e saiu, sorrindo não sei se feliz com o beijo de despedida, ou se pela satisfação de tirar um carro da rua. O melhor dos mundos seria se fosse pelas duas coisas juntas.   Sempre quando ...

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quinta-feira 11/09/14 07:13

A dieta

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Mulheres acreditam quando a gente diz que as ama, mas jamais engolem quando a gente diz que não estão gordas. Ninguém sabe exatamente o porquê. Talvez desconfiem de nosso senso crítico, ou mesmo creiam que o amor esteja viciando a nossa visão de mundo. O que sei é que, via de regra, o fenômeno desemboca sempre na mesma coisa: dieta.

Ilustração: Felipe Blanco 

Se botarem isso na cabeça, camarada, ...

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quinta-feira 04/09/14 09:02

Machismo

trabalho

Ilustração: Felipe Blanco

Não é machismo, é preocupação, mulheres. Por que vocês vieram com essa de abrir as asinhas? Se eu tivesse a chance de poder ficar no conforto do lar, cuidando dos afazeres domésticos, ficaria. Mas como tive o importuno genético do pênis, coube a mim e a todos os homens, tal qual um dever natural, zelar pelo provimento da caça, pelas contas pagas, pela escola dos filhos.

 

Nós, sozinhos, daríamos conta do recado. Mas parece que vocês não acreditaram na gente. Rebelaram-se contra o sistema, achando que aquilo tudo fosse uma espécie de submissão. Não é bem assim, minhas queridas. É que ao dividir com vocês atribuições originalmente masculinas,  a balança do ecossistema se desequilibra: teremos o dobro em geração de renda, mas quem ficará por conta do jantar? Quem passará minhas camisas? E as crianças? Ficarão a Deus dará? É como se, de uma hora para outra, as mulheres resolvessem deixar as amarelinhas de lado para se aventurar ao futebol – tanto inapropriado quanto brutal a vocês.

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A gente quer protegê-las de um mundo atroz, não tolhê-las. Queremos poupá-las da selvageria do mercado de trabalho, às vezes demais até para nós mesmos. Tentamos blindá-las ao máximo dos problemas de fora, porque já bastam os que vocês já têm: roupa suja, o supermercado, a casa por limpar, levar o menino para o judô, a menina ao ballet. Nos sentiríamos mal se tivessem que engolir, por exemplo, além disso tudo, mais os desaforos de um chefe chato, é verdade, mas que só se exaltou por agir pela prudência, pois pensa exatamente como todos nós.

 

O problema é que vocês são teimosas. Descobriram os serviços da faxina, da babá, se deram conta da existência do drive-thru da pizzaria 24h, e foram desbravando, pouco a pouco, um território hostil – e viril. Ganham mais do que muito homem por aí, tão capaz quanto vocês, mas que foi jogado na contramão da natureza. Hoje, é ele quem cozinha, passa os vestidos da mulher, toma conta dos filhos.

 

Nem ligamos para o fato dos salários maiores, minhas senhoras. Ligamos pela má gestão do dinheiro que vocês fazem, torrando grande parte dos ganhos em roupas, perfumes, ou outros adereços absolutamente dispensáveis. Vejam a gente: na nossa época, o dinheiro ia todo para as contas da casa, nota por nota, com exceção dos R$ 100 do bar de quinta à noite, direito inviolável a quem cumpre, a rigor, com todas as metas estabelecidas pela gente.

 

Depois é chegar em casa, tomar um bom banho, ficar cheiroso para uma boa transa com a patroa, sem a, nem b. Ou quando há, recorremos por fora: a secretária mesmo, quase todo dia, está louca por uns amassos.

 

As objeções da mulher ao sexo passaram de exceção a regra. Dizem chegar cansadas do trabalho, alegam dor de cabeça,  preferem passar a noite estudando para o mestrado, lendo, ou bebendo vinho com as amigas. Se forem esses os motivos a gente até vai entender, embora achemos que tudo isso já foi longe demais.

 

Vocês saíram de casa, ganharam o mercado, algumas são chefes ricas e bem sucedidas. Chegaram à Presidência. Ficaram mais gostosas. Agora ai de vocês se essa gostosura não for exclusividade de apenas um de nós.

 

Não é machismo.

 

Só queremos mulheres com boa reputação.

* O ministério da Crônica adverte: o texto acima continha alta dose de ironia. Ao persistirem os sintomas citados, um especialista deverá ser consultado. E rápido. 

 

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quinta-feira 28/08/14 10:36

Reunião de condomínio

condominio

A reunião de condomínio aqui do prédio, na semana passada, me fechou num casulo contemplativo:   "Que merda é essa?" - pensei por um longo período, até me dar conta de que aquilo era o que a vizinhança chamava de diplomacia.   Se um dia o Brasil virar a casa da mãe Joana, podem ter certeza, parte disso será por causa das das relações políticas entre os vizinhos. Afinal, são eles, é você, sou eu quem faz essa bagaça toda funcionar, à nossa imagem ...

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quinta-feira 21/08/14 09:33

Mau humor

busao

Ilustração: Felipe Blanco
Fazer cara feia, torcer o nariz, estragar seu humor pode ser legítimo, constitucional, justo, mas não vai resolver sua fome, que é muita, não mudará a personalidade do seu chefe, que é difícil, não será suficiente para fazer um mundo, que é caótico, melhor. Ficar emburrado o tempo todo, na verdade, além de não resolver em nada os problemas de ninguém, dá ...

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quinta-feira 07/08/14 08:20

Supermercado

carrinho

Esta é Inês. Não sei se é realmente o nome da moça em questão, mas decidi que fosse depois de ver o que levava no carrinho de supermercado: um pacote de macarrão, molho de tomate, duas garrafas de vinho. Romântica que é, ela fará uma bela macarronada de mimo para o marido que chegará cansado do trabalho. Inês é casada. Notei a aliança no dedo quando nos cruzamos na gôndola de temperos, enquanto ela se escarafunchava nas especiarias e eu ...

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quinta-feira 31/07/14 08:50

Banho de Cantareira

cantareira

Ilustração: Felipe Blanco
  Antigamente, lá de onde eu venho, quem tomava banho de cinco minutos era chamado de porco. Disseram-me que antigamente também a tal alcunha valia para os lados daqui da capital, mas acabou virando título de nobreza de uns tempos para cá pelo que vi. Uns dizem ser culpa de São Pedro, outros falam de politicagem, mas, no fim, a gente acaba ...

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quinta-feira 24/07/14 09:06

Soneca

Cama

Se o juízo final dependesse de uma canetada minha, eu certamente já teria absolvido os enrolões. Quem são? Fazendo vista grossa, eu, talvez você, muito provavelmente boa parte da humanidade hiperafeita ao sono. Num pente fino, creio que nem o papa escaparia. Os enrolões são, como o próprio nome já diz, aqueles que enrolam, ou melhor, se enrolam nas próprias cobertas à medida que o despertador os chama para a vida. Chama não, grita, tendo em vista a quantidade de vezes ...

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