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Quem Faz

Nascido em Araras (SP), o jornalista RICARDO CHAPOLA escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.
quinta-feira 21/08/14

Mau humor

busao

Ilustração: Felipe Blanco
Fazer cara feia, torcer o nariz, estragar seu humor pode ser legítimo, constitucional, justo, mas não vai resolver sua fome, que é muita, não mudará a personalidade do seu chefe, que é difícil, não será suficiente para fazer um mundo, que é caótico, melhor. Ficar emburrado o tempo todo, na verdade, além de não resolver em nada os problemas de ninguém, dá ...

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quinta-feira 14/08/14

Um dia só sobre Campos

eucampos

Foto: JF Diorio/Estadão

Ontem, antes mesmo de todos nós da redação sabermos da tragédia, minha chefe ligou para que eu chegasse mais cedo no jornal. Disse que queria que eu me dedicasse exclusivamente a uma matéria proposta por mim no dia anterior. Uma triste coincidência. Se minha chefe tivesse deixado para me avisar um pouco depois, eu teria visto o governador Geraldo Alckmin sair às pressas da abertura de uma feira ...

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quinta-feira 07/08/14

Supermercado

carrinho

Esta é Inês. Não sei se é realmente o nome da moça em questão, mas decidi que fosse depois de ver o que levava no carrinho de supermercado: um pacote de macarrão, molho de tomate, duas garrafas de vinho. Romântica que é, ela fará uma bela macarronada de mimo para o marido que chegará cansado do trabalho. Inês é casada. Notei a aliança no dedo quando nos cruzamos na gôndola de temperos, enquanto ela se escarafunchava nas especiarias e eu ...

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quinta-feira 31/07/14

Banho de Cantareira

cantareira
Ilustração: Felipe Blanco

 

Antigamente, lá de onde eu venho, quem tomava banho de cinco minutos era chamado de porco. Disseram-me que antigamente também a tal alcunha valia para os lados daqui da capital, mas acabou virando título de nobreza de uns tempos para cá pelo que vi. Uns dizem ser culpa de São Pedro, outros falam de politicagem, mas, no fim, a gente acaba ficando sem explicações sobre essa evolução tão meteórica.

 

Fato é que o Cantareira está secando e quanto mais os porcos economizam na água e no sabonete, mais heroica fica a nossa nação. A epopeia é, em tese, bem simples: quanto mais rápido um cidadão fechar as torneiras, maior herói será.

 

Na  mais tenra infância, lembro bem, eu pouco me importava com a pecha de Cascão. Tomar banho  implicava em perder meu tempo lavando o que iria sujar de novo no pega-pega que me esperava lá na rua, com meus amigos. Houve vezes, até, que a gente apostava: o último a voltar do banho seria mulher do padre. Nunca fui –  por sorte, mas também pela minha agilidade toda.

 

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Minha fase suína levou algumas chuveiradas expressas até descobrir as propriedades terapêuticas de um banho bem tomado. Foi quando me dei conta que, enchendo o banheiro de vapor, fazendo desenhos com o dedo nos vidros embaçados, podia ser um pouco mais feliz todos os dias. Havia, afinal, coisas legais a se fazer nesses momentos que até então considerava um porre: bolhas de sabonete, realizar experiências químicas com o xampu e o condicionador da minha irmã, deitar no chão para sentir a água fazer cócegas na barriga, xixi no ralo. Banhos assim, de 10 minutos para mais, por muito tempo lavaram o meu corpo, recuperaram minha dignidade, tornaram-me uma pessoa melhor.

 

Hoje, talvez pior, mas não tem sido fácil superar a tentação de um banho quente em dias frios. Chego a encarar os registros do chuveiro, ouvindo o Cantareira derramar suas últimas gotas em mim, seus últimos suspiros de vida sendo mal aproveitados por alguém que não está se lavando, não está matando a sede. Estava só ali, desfrutando os jatos massageadores do chuveiro, olhando a água ir embora pelo ralo. Quando finalmente fecho as torneiras estou verdadeiramente feliz pelo banho, mas igualmente incomodado por ter demorado demais.

 

Tal como um bipolar, saio da euforia para a depressão profunda ao me ver abrindo mão das poucas alegrias que um trabalhador pode ter sete dias por semana. Os níveis do Cantareira viraram uma obsessão, a ponto de mentalmente eu regular banhos meus e de terceiros, calculando a parcela de culpa de cada um no agravamento da situação à espera de um pouco mais de proatividade.

 

A culpa bate sempre a minha porta todas as vezes que meus atos me levam à água. Passei a repensar em tudo, procurando alternativas, mas para muita coisa ainda não achei uma saída.

 

Já cortei a academia, pois ela me faria tomar mais banhos, beber mais água, sujar mais roupas, que seriam limpas com sabão em pó e água. Cortei a cerveja, porque me faria ir mais ao banheiro, dar mais descargas, gastar mais água.

 

Para os banhos, só há uma solução: a porquidão ou a morte. Do Cantareira primeiro. Depois de todos nós, se nos decidirmos não ser os porcos de ontem, os heróis de hoje.

 

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quinta-feira 24/07/14

Soneca

Cama

Se o juízo final dependesse de uma canetada minha, eu certamente já teria absolvido os enrolões. Quem são? Fazendo vista grossa, eu, talvez você, muito provavelmente boa parte da humanidade hiperafeita ao sono. Num pente fino, creio que nem o papa escaparia. Os enrolões são, como o próprio nome já diz, aqueles que enrolam, ou melhor, se enrolam nas próprias cobertas à medida que o despertador os chama para a vida. Chama não, grita, tendo em vista a quantidade de vezes ...

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quinta-feira 17/07/14

Facebook com moderação

facebook

Todo o meu respeito às pessoas que decidiram pelo assassinato de seu "eu" nas redes sociais. Se há um crime que compensa, dizem elas, o crime é esse: acabe com o seu Facebook antes que ele acabe com você primeiro. Muitos tentaram me convencer usando todos os artifícios imagináveis de persuasão, mas cá estou, resistindo firmemente a um deleite que não sei bem como explicar.

Ilustração: Felipe Blanco

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quinta-feira 10/07/14

Denúncia

araras

Ilustração: Felipe Blanco

Estou possuído neste momento por algo maior do que eu. Peço então que leve isto em consideração ao término da leitura: tenha certeza de que não era a  minha maior intenção fazer esta denúncia. Estive movido só pelo torpor dos 7 gols da Alemanha, mas daí veio a Argentina, ganhou e logo estava lá bebendo Quilmes na final da Copa do Mundo, bem no lugar ...

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quinta-feira 03/07/14

Por um fio de cabelo

cabelo_branco

Ilustração: Felipe Blanco

Aos quatro, ficar mais velho era mais questão de perícia do que longevidade. Entraria para o clã quem adquirisse poder sobre os próprios cadarços: uma vez amarrados por você mesmo, aquelas duas orelhinhas mais ou menos simétricas do laço seriam o passaporte da alegria do Playcenter que era a vida adulta. As melhores pás da caixa de areia, o balanço que ia mais alto, entrar ...

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quinta-feira 26/06/14

A dois

escova

Ilustração: Felipe Blanco

Começou por um par de meias. Depois, duas cuecas e uma muda de roupa. Pra coroar, terminou com as escovas de dente, minha e dela, pareadas dentro de um copinho na pia do banheiro. Estava sacramentado: éramos um casal na mais precisa definição, unidos em matrimônio pelas nossas informalidades e uma caixinha de fio dental.   Foi tudo muito rápido. Quando vi, já tinha arrombado as portas ...

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