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Quem Faz

Nascido em Araras (SP), o jornalista RICARDO CHAPOLA escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.
quinta-feira 24/07/14

Soneca

Cama

Se o juízo final dependesse de uma canetada minha, eu certamente já teria absolvido os enrolões. Quem são? Fazendo vista grossa, eu, talvez você, muito provavelmente boa parte da humanidade hiperafeita ao sono. Num pente fino, creio que nem o papa escaparia. Os enrolões são, como o próprio nome já diz, aqueles que enrolam, ou melhor, se enrolam nas próprias cobertas à medida que o despertador os chama para a vida. Chama não, grita, tendo em vista a quantidade de vezes ...

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quinta-feira 17/07/14

Facebook com moderação

facebook

Todo o meu respeito às pessoas que decidiram pelo assassinato de seu "eu" nas redes sociais. Se há um crime que compensa, dizem elas, o crime é esse: acabe com o seu Facebook antes que ele acabe com você primeiro. Muitos tentaram me convencer usando todos os artifícios imagináveis de persuasão, mas cá estou, resistindo firmemente a um deleite que não sei bem como explicar.

Ilustração: Felipe Blanco

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sábado 12/07/14

Vida pós-Copa

itaquerao

Ilustração: Felipe Blanco

E agora, José? E agora Maria, Thiago, Cláudia, Patrícia? Bruno, e agora? Como faz agora que Copa acabou, a gringaiada vazou e levou com ela a taça e a felicidade que, junto com a nossa, moveu o País neste mês?   Agora a vida segue. Chegou a hora de arrumar a casa, limpar os móveis, recolher os confetes, juntar os cacos, lembrando que é preciso fazer tudo ...

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quinta-feira 10/07/14

Denúncia

araras

Ilustração: Felipe Blanco

Estou possuído neste momento por algo maior do que eu. Peço então que leve isto em consideração ao término da leitura: tenha certeza de que não era a  minha maior intenção fazer esta denúncia. Estive movido só pelo torpor dos 7 gols da Alemanha, mas daí veio a Argentina, ganhou e logo estava lá bebendo Quilmes na final da Copa do Mundo, bem no lugar onde, sem dúvida, nos vimos um dia.

 

As araras do prédio ao lado não seriam meu maior problema atual se o Brasil se classificasse. Sua cantoria amazônica seria incorporada ao hino cantado à capela naturalmente, dando a ele a brasilidade que faltou para a seleção dentro de campo. Ao perder, foi como se agulha saísse do prumo na vitrola. De repente, a única coisa que as margens plácidas do Ipiranga começaram a ouvir não foi mais o brado retumbante de um povo heroico, mas a gritaria irritante das duas araras confinadas em algum apartamento da rua Duílio. Sim, duas, que por ironia do destino e infelicidade geral, reeditavam na sacada ao lado uma disputa pau a pau entre Brasil e Alemanha no gogó. Primeiro atacava a azul, amarela e verde: “rrrrrrrrrrrááááááá”. Logo em seguida, respondia a vermelha, com mais força: “rrrrrrrrrrrrrrrrrááááááááááá”!!!

 

No começo tinha raiva dos bichos. Muitas foram as tardes frustradas pelas tentativas de abafar o berreiro ararense com as músicas do iPod. Tentamos de tudo, dos tenores de Pavarotti a “Stayin Alive”, do Bee Gees, no último volume, mas não adiantou e nem sei se adiantaria. Fui obrigado a abortar a missão, pois o síndico começou a reclamar do volume do som em casa. Até agora estou sem entender como há quem prefira aquele tropé selvagem a disco music.

 

Todo o rancor passou dos animais de estimação para os seus donos, no princípio vistos por mim apenas como exotéricos, entusiastas da natureza. Hoje, depois dos fogos, depois do sufoco contra o Chile, a Colômbia, sempre sob a sinfonia infernal das araras, passei a vê-los como criminosos da mesma periculosidade que argentinos cantando “decime que se siente” bêbados pela Vila Madalena. Visse qualquer um pelas ruas do bairro, hermano ou o vizinho passeando com suas aves, partiria para a ignorância, cego pela ira, surdo pelo cazzo dessas duas algozes bicudas.

 

A cólera não diminuiu depois que encontrei na internet durante minhas buscas por respostas mais racionais que o exoterismo de pessoas como as do prédio ao lado salvam espécies do buraco negro da extinção. Bonito, devo confessar, porém nem o altruísmo a essa altura do campeonato me convence mais de que, para o bem da humanidade, é preciso dizer sim à liberdade das araras.

 

Espere tudo dos vizinhos, sejam de parede, teto, ou sacada. São o novo Kinder Ovo da vida moderna: a gente nunca sabe a surpresa que eles nos reservam. A minha foi um estorvo que não calculo por quanto tempo terei de aturar. As denúncias pelo rádio fracassaram. Restou apenas este espaço, onde encarecidamente faço o meu apelo: salvem-me das araras urbanas, please!

 

Meu álibi é o mesmo que vou adotar daqui em diante para tudo: ninguém é obrigado a tomar o vareio da Alemanha e ainda ver a Argentina se dar bem na mesma semana. Muito menos ainda a levar uma surra de sete, enquanto hermanos chupam a laranja e você se lasca com duas araras querendo ganhar as coisas no grito, que nem foi o Brasil esse tempo todo.

 

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quinta-feira 03/07/14

Por um fio de cabelo

cabelo_branco

Ilustração: Felipe Blanco

Aos quatro, ficar mais velho era mais questão de perícia do que longevidade. Entraria para o clã quem adquirisse poder sobre os próprios cadarços: uma vez amarrados por você mesmo, aquelas duas orelhinhas mais ou menos simétricas do laço seriam o passaporte da alegria do Playcenter que era a vida adulta. As melhores pás da caixa de areia, o balanço que ia mais alto, entrar ...

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quinta-feira 26/06/14

A dois

escova

Ilustração: Felipe Blanco

Começou por um par de meias. Depois, duas cuecas e uma muda de roupa. Pra coroar, terminou com as escovas de dente, minha e dela, pareadas dentro de um copinho na pia do banheiro. Estava sacramentado: éramos um casal na mais precisa definição, unidos em matrimônio pelas nossas informalidades e uma caixinha de fio dental.   Foi tudo muito rápido. Quando vi, já tinha arrombado as portas ...

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quinta-feira 12/06/14

O amor nos tempos de Copa

namoro_copa

Ilustração: Felipe Blanco

Começou bem antes desta Copa - antes da de 2002, da de 82, muito, muito antes da de 50. Ele sempre esteve conosco: nos viu erguer a taça as cinco vezes e se fez desabrochar em milhões de beijos em todas elas. E esteve lá também quando os gringos, vingativos, douraram seus lábios diante de nós, enquanto chorávamos encolhidos no chão tentando segurar o fio ...

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quinta-feira 29/05/14

Crônica gourmet

mortadela

Ilustração: Felipe Blanco

Certa vez, num dileto restaurante da zona oeste de São Paulo, desejei um banheiro para um xixizinho vapt-vupt. Mas banheiro não tinha, só toilet. A constatação trazia implicações séríssimas considerando que, embora de mesma funcionalidade, toilet é uma coisa, banheiro, outra.   Permita-me então já me corrigir do começo: não era restaurante, era um bistrô - nome dado a lugares onde pessoas pagam pelo que comem, pagam pelo ...

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segunda-feira 07/04/14

Pô, Lolla!

Sabe, Lollapalooza, eu até estava a fim de te conhecer. Não era pra menos: todo mundo falava bem de você e de como suas festas eram ótimas. Só eu não achava e por muito tempo continuei não achando. Só que eu mudei, Lolla, de verdade. Tudo bem que fui a sua festa mais a convite que por iniciativa própria. Mas não ia demorar minha proatividade, Lolla, eu juro, eu juro. Os elogios a seu respeito já tinham perfurado meus tímpanos e tinham ...

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