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A dois

Ricardo Chapola

26 junho 2014 | 07:00

A informalidade de uma decisão, às vezes, diz mais sobre amor de alguém por outra pessoa

Ilustração: Felipe Blanco

Começou por um par de meias. Depois, duas cuecas e uma muda de roupa. Pra coroar, terminou com as escovas de dente, minha e dela, pareadas dentro de um copinho na pia do banheiro. Estava sacramentado: éramos um casal na mais precisa definição, unidos em matrimônio pelas nossas informalidades e uma caixinha de fio dental.

 

Foi tudo muito rápido. Quando vi, já tinha arrombado as portas um coração e ganhado uma gaveta de brinde, sujeita a virar uma divisória inteira de armário dependendo de minha voracidade amorosa, que não era pouca. Fui um bandeirante ambicioso a expandir seus domínios, de modo que em pouco tempo já ostentava territórios em absolutamente todos os compartimentos da nova casa. Nada além do amor, o amor de verdade, toleraria meu impulso imperialista de desbravador de primeira viagem. Sem ele, talvez o vídeo-game ficasse de fora, ou alguns dos meus livros fossem barrados na fronteira por constarem do index local. Mas não: para tudo encontrou-se o devido lugar. Era amor, não restava dúvidas.

 

Admitir interferências espaciais desse porte representa um grande avanço alcançado pela humanidade nas relações sociais costuradas pelo amor. Minha namorada não aceitou meus quadros de cafeteria francesa simplesmente por simpatia a eles, ou a mim. Foi preciso desprendimento para aceitar pitacos de quem chegou logo sentando na janelinha. Foi preciso amar, acima de tudo. Como assim quadros de cafeteria francesa nas minhas paredes tão eruditas? Para que tantos, meu Deus? Vai ficar cafona. Por ela, os quadros seriam vetados tanto quanto meus imãs no formato de pinguins, que ganharam espaço na porta da geladeira após debates intermináveis sobre o mundo animal, geografia e a importância de colocar aves antárcticas aos pés da Torre Eiffel.

 

Juntamos os trapos pelo bem da ciência romântica. Demorássemos mais, talvez o amor amornasse e aí, em outras condições de temperatura e pressão, nos desse respostas diferentes da que temos hoje a respeito de nós dois. A decisão por fazer disso tudo um laboratório pré-nupcial foi uma manobra astuta eu diria, através da qual vemos o amor prevalecer em reações corrosivas envolvendo de pinguins à cafeína.

 

A gente meio que já casou, vai. Meio que sem igreja, sem padre, convidados, festa e a coisa toda. Não é que a gente não queira: a vontade é grande, o amor maior ainda, vocês mal sabem. Mas a vida é dura, as contas dobraram, e as nossas receitas não acompanharam a inflação do mercado de bem-casados. O que importa mesmo é que as escovas estão lá, juntinhas no copo do banheiro pro que der e vier.