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Quem Faz

Nascido em Araras (SP), o jornalista RICARDO CHAPOLA escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.
terça-feira 12/11/13

Maioridade penal

Cueca

Ilustração: Felipe Blanco

É natural: a gente cresce, o corpo muda. Pinto vira galo, pombinha se transforma em aranha e em função dessas e de otras coisitas más nós, homens, uma hora deixamos de ficar pelados perto das primas. Eu, particularmente, fui além: quando isso aconteceu, destituí minha mãe da função de compradora oficial de cuecas e assumi o cargo. Afinal de contas, uma hora o pinto sai do ...

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terça-feira 10/09/13

Protesto anti-horário

tempo

Ilustração: Felipe Blanco

Dentro do relógio da sua cozinha, aposto, cabe muito mais do que 24 horas. Era só uma questão de boa vontade. Deixasse o 1 mais juntinho do 12, o 2 do 3, ficassem todos mais coladinhos um do outro e pronto: eu teria mais tempo pra escrever esta crônica, o Felipe, pra entregar a ilustração, e você, leitor, pra ler isso tudo, sem ter de se ...

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quarta-feira 21/08/13

@cartas.com

cartas

Ilustração: Felipe Blanco

Vai soar um pouco old school o que vou falar aqui, mas, ah, dane-se: que saudade das cartas... Na época que estava na moda o correio elegante, lembro que o mundo era mais gostoso, tinha mais approach. Eu, particularmente, era mais feliz com isso. Achava o máximo a liturgia: a escolha do papel, do envelope sem orelhas, escrever redondinho se o destino inspirasse caprichos, e se não, ...

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segunda-feira 22/07/13

Diferentemente igual

Se fosse pra ser por semelhanças, simples: não ia ser. Nada ia ser direito a bem da verdade. Porque para ser a dois, sim, preciso é sempre um bom arranca rabo, por menor que seja. Só assim há faísca, só assim há fogo. Fogo: o mesmo que queima os desavisados e aquece coraçõezinhos solitários.

Farofa não é farofa sem pimenta; Romeu seria chulezento demais sem a doçura e a textura macia da engoiabada Julieta. Só dá samba se tamborim batucar o amor que brota no azedo da tristeza, pode ver. Se tudo fosse pelos iguais, pode ter certeza que a vida toda não teria a menor graça.

Tudo seria o repeteco de ontem, passeios em torno do mesmo quarteirão – a insipiente decisão de transformar grandes expedições pelas pradarias virgens da vida numa voltinha pela praça.

Poucas aventuras, quase nenhuma história pra contar, pra cantar, pra encher os versos da poesia. Divergências enobrecem, lastreiam o rolo todo, seja lá em que pé ele esteja, engatinhando, vingando, indo aos trancos e barrancos ou já degringolando. Ainda bem, se não só existiriam ou só panelas, ou só tampas. Daí então nunca iríamos conseguir encontrar os nossos respectivos encaixes.

De repente me senti uma panela. Ou uma tampa, por ser meio chato, sei lá. De repente acho que ela também se sentiu assim.

Ela fala mansinho, eu não. Mansinha do tipo de poucas cerimônias, desapegada dos caprichos que, na hora, pra agradar, vá lá, eu superestimei. Tem uma risada deliciosa, diferente da minha sem ritmo, desafinada. Ela é independente. Eu também, embora ela não deva achar. Está numa vibe cool. Pode até ser: ela opera no rock n’roll da FM enquanto eu, eterno barnabé, cavalgo com meu pangaré pelas bandas da chamuscada AM. Ela tem tatuagem; eu não, mas não acho que isso queira dizer alguma coisa. Posso fazer,  há tempo e 1,86m de pele em branco para os mais abstratos rabiscos. Se bêbados, nossas contagens nunca batem – aquele tipo de diferença boba que ganha uma tremenda carga de importância quando estamos com umas e outras na cabeça.

Ela jurava ter 17 degraus na escada do restaurante, 112 palitos no paliteiro e, pelo menos, 20 pessoas com meias brancas no mesmo lugar que jantávamos. Nas minhas contas, eram 24 degraus, uns 200 palitos e, no mínimo, uns 10 com os pés alvos de algodão.  Tudo diferente assim porque, talvez, eu estivesse mais bêbado. Talvez ela. Mas o que importa?

As duas garrafas de vinho estavam deliciosas, deixavam nossas bocas mais vermelhinhas. A dela mais do que já estava por causa do batom que usava naquela noite. Estava linda.

De repente eu era a panela, ou a tampa. E ela também. De repente, todas as diferenças eram assim, justinhas: ela era aquilo que eu não era; eu tinha aquilo que ela não tinha, e podíamos trocar essas figurinhas para completar um álbum . Tudo então começou a se atrair. A começar pelas bocas, vermelhinhas de vinho.

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quinta-feira 27/06/13

Morrer bem

Barbeiro

Ilustração: Felipe Blanco

Quando eu era pivetinho de tudo, morria de medo de cortar as madeixas. Só agora entendo o porquê de tanto escarcéu naquele cadeirão, esperneando, me esgoelando de chorar na esperança do meu pai mudar de ideia e me levar, sei lá, pra tomar vacina. Seria melhor. Qualquer coisa seria melhor que ir ao barbeiro. Eu MORRIA de medo. De quê? Óbvio: de morrer mesmo, cazzo! É a ...

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quinta-feira 25/04/13

Rolou ali

ilust

Ilustração: Felipe Blanco

Se me apaixono? Muito. Como? Quando? Por quê? Puxa o banquinho aí: Saca escada rolante? Pois bem, tem tudo a ver. Pra mim, paixão, essa fagulha de amor, não é só química, não. Tem física da mais cabeluda. Há um não sei o quê na cinética daqueles degraus que, afirmo seguramente, funcionam na velocidade exata pro climinha rolar. Puro romantismo, talvez: no compasso daqueles rolamentos qualquer música ambiente ...

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quinta-feira 14/02/13

Mamãe não quero

Carnaval (1)

Ilustração: Felipe Blanco

Bom, agora num tem mais jeito. É hora de pegar no batente e seguir em frente, já diria o poeta. Ou, como bem realmente lamentou um - o grande Carlos Lyra - "acabou nosso carnaval". Acabou-se, c'est fini: fim de festa, da promiscuidade necessária, fim do tesão que no calor do momento a gente chamou de amor. Porque no carnaval tudo é amor ...

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sexta-feira 01/02/13

Peitinhos de pitomba

Palavras

Ilustração: Felipe Blanco

HAHAHAHAHAHAHA Rio assim de muita coisa: piada boa - e dependendo da ruim também - passarinho que esmerdeia cabeça alheia, Mister Bean, Mazzaropi. Rio até de palavra: palavras ditas até que soltas, ou enroscadas numa frase, me fazem gargalhar como o diabo, mal educado que só. São sorrisos impertinentes os dados de soslaio, escondidos nas dobrinhas do canto da boca. Te colocam na saia justa de precisar convencer o ...

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sexta-feira 18/01/13

O bigode, meu avô e eu

Pelas mulheres, conheço cabras amigos meus que adotaram o estilo "barbixinha". Outros que, pelo mesmo motivo, optaram pelo naipe "lenhador". Mais tantos que, para a sorte (ou azar) das amadas, encarnaram o tipo "Abraham Lincoln". E se me perguntarem a qual aderi, direi que pela minha cônjuge eu faria qualquer um deles se barba e bigode fossem pra mim uma questão de vontade. Ou de pura birrinha com a gilete. Lembro que, antes disso, quando não sabia muita coisa sobre "fetiche ...

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