Desde cedo, aprendi a manter uma relação pacífica com as frutas, sendo muitas vezes repreendido quando recusava, com o entojo de “não sei o porquê “típico da idade, as garfadas generosas de mamão que minha avó insistia em me dar.
Impasses assim eram resolvidos com a mesma facilidade com que eu fechava os olhos e abocanhava o mamão perfurado por apenas três dentes do garfo: “Ricardo, coma ou não vai brincar na rua hoje”, dizia minha avó. E se a ameaça da rua não bastasse, chantageava-me com cortes do vídeo-game, TV, futebol, bem, com tudo aquilo que me fizesse comer mamão.
Nem por isso odiei as frutas, até cheguei a gostar mais delas e, se não fossem as bravezas da velha e da minha mãe, – sua aliada – eu provavelmente ainda não conheceria algumas das delícias da vida, escondidas dentro de umas carapaças pra lá de estranhas – peludas, ásperas, outras até com cores assustadoramente vibrantes.
Minhas amigas, as frutas, hoje, fazem parte do meu cardápio diário e, por tabela, as lembranças de poder ter sido uma criança sem desenhos animados, vídeo game e futebol também. São nas horas em que contemplo a tacinha de plástico caprichosamente preparada com as delícias que minha mãe destrincha das carapaças peludas que me convenço: santa a sabedoria materna.
Se lhe falta, leitor, mais uma prova de que precisamos ouvir as pessoas mais velhas, vá por mim: procure suas respostas nas frutas. Avós e mães, assim como as frutas, são coisas à frente do nosso tempo, da mesma forma que Einstein estava dos outros físicos, e Aristóteles, dos filósofos. E o que são as avós, mães e frutas senão grandes sucessoras da genialidade humana?
Graças aos métodos pró-mamão defendidos pela velha, sou alguém que deixou de chupar muitas mangas e descascar muitos abacaxis, não por entojo, mas porque aprendi a dar banana pra muita gente que preferiu abrir mão do vídeo-game e do futebol.
A quem pertença a qualquer ramo da vasta copa da árvore genealógica da família buscapé – mãe, pai, irmão e até para aquele seu primo chato -, São Paulo virou tipo um carma. Se não tanto, pelo menos virou um rito pelo qual, um dia, todos nós, caboclos paulistas, nômades potenciais das enxadas, passaremos. Por isso, adianto: a infeliz topada com o mala do seu primo pode ainda acontecer, lá ou cá.
A migração fará parte da história da mesma maneira que trepar nas árvores fez, tempo bom em que a nossa maior preocupação era decidir quem sentaria no galho mais alto – eleição que envolvia idade, quem tinha o Romário no bolo de repetidas e também se o cara fosse bom de bola ou não. Pernas de pau, nem pensar. Nessa época, nossos pais poupavam a gente da forte hipótese de que um dia o destino nos pegaria pelo colarinho e nos levaria para talvez subir em outros galhos. Mas não de árvores. Em São Paulo, as pessoas não trepam em árvores. Derrubam para construir prédios.
No fundo, no fundo, entendo: também livraria meus filhinhos de outra decepção da vida. Eles crescem e, cedo ou tarde – na minha opinião muito mais cedo do que tarde -, se certificam da morte, a precoce notícia que, pela precocidade, vai derrubando as mangueiras, as goiabeiras e os abacateiros que as nossas crianças subiriam, mas não vão poder.
Não bastasse a morte, São Paulo.
A gente acaba se conformando. Os papos mudam, os galhos ficam fracos e a gente acaba indo mesmo pra cidade grande, de enxadas nos ombros, assobiando a música do Rei do Gado para espantar o mau agouro de ter trocado o céu pelo inferno. A essa altura do campeonato, predestinado desde o ventre sertanejo de minha mãe, só me resta puxar a oração dos Capiaus: proteja-me em São Paulo, mas, por Deus, livrai-me do primo chato. Amém!
2013
2012