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Quem Faz

Nascido em Araras (SP), o jornalista RICARDO CHAPOLA escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.
segunda-feira 27/02/12

Traídos

- Alô? - (…) - Ah, você… Tudo ótimo. - (…) - Não me interessa mais como você esteja. - (…) - Grosseria? Grosseria foi a tua de ter me tratado como cachorro ontem à noite. Aliás, acho que você não teria coragem de fazer isso com seu poodle, né? Coitadinho... Chega, Cláudio, chega! - (…) - Eu não estou sendo intransigente, estou é por aqui de tudo que você teve feito desde que voltamos de Amsterdã. Fui tolerante demais isso sim, generosa demais com quem não merecia. - ...

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sexta-feira 24/02/12

Vizinhos, sempre vizinhos

Num primeiro instante penso que já não dá mais para garantir as mesmas simpatias nos trambiques para os quais a vida moderna nos empurra. Faltou açúcar, não há bendito mercado aberto bem na hora em que mais se precisa da especiaria – às 2h da manhã? Ué, sempre haverá a porta ao lado: a mulher tem marido e dois filhos, batata que açúcar não faltará. A noite pede vinho, mas na mudança a gente jamais se lembra de que algumas ...

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terça-feira 14/02/12

Amor, tô de TPM!

Eu amo minha namorada. Sério. Poderia até gastar horas e horas, linhas e linhas a fio para falar daquilo que prefiro manter no sigilo das cartinhas, dos bloquinhos escondidos e das nossas caixas de e-mail. Mas como homem, e acima de tudo ser humano, com limiar até de tolerância, devo dizer que não é fácil aguentar suas crises de TPM. É uma semaninha ordinária no mês, em que qualquer gota lançada ao mar vira motivo para despertar uma tsunami que, ...

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quarta-feira 08/02/12

O sabonete

Não existe na Terra trabalho tão digno quanto o do sabonete. Como também não existe na Terra trabalho mais indigno que o dele. O mais prazeroso, mas nem por isso menos árduo; o mais honesto, mas nem por isso menos sujo [e eu digo absolutamente em todos os sentidos]. Os sabonetes merecem méritos e um busto na praça, entre os tantos outros como o da toalha, o das roupas íntimas e o dos “n” tipos de papéis higiênico.

Para ser sabonete, leitor, é preciso ser macho mesmo.

Ser chamado de cheiroso e sempre aparecer deslizando feliz e contente pelas cobiçadas curvas da gostosa do comercial é só a parte boa do negócio. O lado negro da coisa fica a mercê da sorte de quem  será a próxima figura a entrar no banheiro para um banho, ou mesmo só para dar uma breve lavada nas mãos.

Dá pena, porque os sabonetes, essas pobres criaturas inanimadas aromatizadas, nunca foram sequer alertados disso. Eles, vedados em embalagens mentirosas que os predestinam somente ao filé das texturas corporais, são embriagados pelas essências, hipnotizados pela foto de uma outra gostosa no rótulo e, quando menos esperam, já estão dentro da saboneteira de uma república de alunos de engenharia da USP.

O caminho do céu para o inferno não é tão longo: apenas um trecho na cesta do supermercado, depois tomar uma sacolinha no caixa e, por fim, chegar ao banheiro da casa onde a testosterona escorre pelos rejuntes dos azulejos.

E de testosterona os sabonetes sabem bem, muito bem, especialmente quando recebem sobre sua superfície recém umedecida, logo depois do banho de um dos jovens, uma tradução de hormônios não muito bem-vinda: pêlos. Pêlos das mais variadas cores e regiões: os mais escurinhos e enroladinhos, dos países baixos; os mais clarinhos e lisinhos, das zonas emergentes.

O ganho da pelugem tem tudo a ver  com a enganação vexatória pela qual passam os pobres sabonetes: eles vão ficando cada vez mais cabeludos na medida em que escorregam por partes nunca d’antes escorregadas. Rotas das quais só conheciam os trechos mais macios, carnudos, sedutores e ilusórios que lhes eram apresentados na TV, como se fosse um mapa para dourada Eldorado, em que não só o destino fosse a recompensa, mas sim cada centímetro de tez perfumada por sua espuma.

É triste a rotina de um sabonete mal-aventurado, transeunte de vias esburacadas, obscuras e que só lhes rendam tudo que deveria render em satisfação, em cabelos. Mas há também aqueles que caíram nas graças do bom humor do destino e foram brindados por toda a profecia dos rótulos: passeios deleitosos nos contornos dos seios, passando pela barriga, depois pela silhueta e finalmente pela perna, com a musiquinha do comercial de fundo se derem sorte.

Eu só fico com pena dos outros. O bom dos sabonetes é que todos eles, felizes ou não, carecas ou cabeludos, somem um dia, pelo menos – sem nenhum trocadilho [oportuno], por favor.

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quarta-feira 01/02/12

A boa notícia

A má notícia é que não sei quando, nem como vou passar a beber menos,  ou aprender a declamar poesias de cor. Tocar piano como Tom então, vá lá, é muito difícil, e até eu pegar o beabá da coisa pode ser que gente nem curta mais tanto Bossa Nova assim. Até lá, talvez eu comece a repetir os lugares onde a gente vai jantar, usar as mesmas cantadas que naquela época funcionaram - hoje você estará com os olhos ...

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