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Quem Faz

Nascido em Araras (SP), o jornalista RICARDO CHAPOLA escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.
sexta-feira 03/08/12

Achiropita…É de comer?

SÃO PAULO - 19/08/2011 - CIDADES - POR TRÁS DA ACHIROPITA - Como funciona o procedimento da preparação da comida na Paróquia da Nossa Senhora da Achiropita. As nonas fazem com muito cuidado: cortam as berinjelas uma a uma, tiram o miolo do pimentão sem co

Pare e pense: Achiropita. Em mim, nesse momento, algo vocifera da barriga, quase me convencendo de que o processamento daquele tipo de dado mudou de setor. Rolou goela abaixo, da cabeça para o estômago, em queda livre, sem escala. E acendeu o pavio que culminou na oportuna e faminta pergunta que fiz há uns 3 anos: “Achiropita… É de comer? “. Coincidência ou não, a ingênua questão que revelou minha latifundiária ignorância ...

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segunda-feira 18/06/12

No ônibus, dá filme

Pra muita gente, grandes enredos de livros, de peças de teatro e de filmes de Cannes nascem em algum beco habitado por figuras caricatas de boina, onde só se toca Raul e só se fala de arte, os vulgos points cult. Há também uma outra leva que partilha da teoria de que, se a comédia nasce nos shows de Stand Up Comedy dos barzinhos de playboy da Vila Madalena, o berço do drama é a prateleira da locadora em frente ...

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segunda-feira 21/05/12

Penso, logo fui ao banheiro

banheiro

Há um tempo, me desboquei: chamei o banheiro de santuário, seguindo cegamente a toada do texto e o instinto. Foi o anjo das trolhas, que sempre à espreita, me puxou pelo braço na ocasião: vai, Ricardo, ser gauche na vida. Ora, evocar a imagem da privada no meio da igreja na mente de tiazinhas taradas na barra da batina pode ser profano. Mas não tanto, há males piores: as brigas de torcida, ...

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terça-feira 08/05/12

Bar do coreano

Deve estar escrito no rótulo do xampu, ou no verso das tampinhas de refrigerante que nós brasileiros somos seres abençoados e predestinados à infâmia das piadinhas envolvendo futebol, mulher, carnaval e a nossa amiga cerveja, que vai muito bem, obrigado. Justo ela, a loura que ganha as curvas ao bel prazer de nossos copos, a preciosidade que fungos e leveduras escondem nas mesmas profundezas onde nascem as micoses e as frieiras, virou alvo de ultraje daqueles que se orgulham em tomar, em vez disso, um desgraçado copo de Coca-cola.

Isso não é um desabafo de um trauma pessoal, mas se trata de uma realidade compartilhada entre nós brasileiros sem nenhuma exceção posta por classe, sexo, profissão, preferências por cor, ou por música. Todos preferem, é verdade, os laços da refrescante amizade que a cerveja nos traz nos mais diversos dias, climas e ocasiões. Não tem como negar, se até mesmo nosso ex-presidente nunca foi poupado das barbaridades que já disseram a respeito de sua intimidade com ela: era na cama, na mesa, no sofá; em casa, na casa da sogra, do amigo, de um conhecido, não importava, bastava ela estar ali, aguardando, toda encorpada na geladeira.

Que me perdoe Lula pelo atrevimento com sua paixão e me perdoe você, que está mais para morena que para A loura, mas fato é que ela é gostosa e ponto final, sem delongas sobre o misticismo de suas origens, ou sobre sua inconstância de comportamento quando não está devidamente resfriada. Afinal, quem liga pra isso?

Eu, você, o Lula, o Ronaldo… Todos nós ligamos. Pra se ter uma ideia, a cerveja tornou-se não só nossa figura de um amor shakespeariano, como também foi adotada como fator de qualidade que, muitas vezes, guia nossas escolhas em momentos de impasses cruéis que atravancam o encontro marcado com ela. Se a cerveja é gelada, ótimo; caso contrario, procuramos um lugar onde ela esteja no clima.

Numa dessas minhas jornadas, numa quinta-feira de muito calor, optei pela imundície de um boteco de esquina, obscuros esconderijos onde gelam aqueles corpanzis morenos de essência dourada. O bar era o certo, o dono é que não. Mais uma da série: “cerveja boa no lugar errado”, quer coisa mais broxante?

Um coreano era dono da mina de ouro. De português pouco entendia, embora esbanjasse uma facilidade marciana no assunto universal das cifras.

“Quanto tá o fardo?”, perguntei.

“Tlinta e seis leiais, tlinta e seis leais”, respondeu, ligando a opção “português”.

What?

A moral da história não é para você largar mão da louraça, imagine (toc, toc, toc). Mas tenha a certeza de que as piadinhas sacanas de nossa condição de amantes de cerveja estão não só nos rótulos de xampus e tampinhas de refri, mas habitam, acima de tudo, nos empreendimentos coreanos. Saibam, prezados orientais, que meu amor resistirá a qualquer custo a esse gosto por inflacionar a felicidade alheia.

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terça-feira 24/04/12

As frutas

Desde cedo, aprendi a manter uma relação pacífica com as frutas, sendo muitas vezes repreendido quando recusava, com o entojo de “não sei o porquê “típico da idade, as garfadas generosas de mamão que minha avó insistia em me dar. Impasses assim eram resolvidos com a mesma facilidade com que eu fechava os olhos e abocanhava o mamão perfurado por apenas três dentes do garfo: “Ricardo, coma ou não vai brincar na rua hoje”, dizia minha avó. E se a ameaça ...

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terça-feira 10/04/12

Caipira pira pora

A quem pertença a qualquer ramo da vasta copa da árvore genealógica da família buscapé - mãe, pai, irmão e até para aquele seu primo chato -, São Paulo virou tipo um carma. Se não tanto, pelo menos virou um rito pelo qual, um dia, todos nós, caboclos paulistas, nômades potenciais das enxadas, passaremos. Por isso, adianto: a infeliz topada com o mala do seu primo pode ainda acontecer, lá ou cá. A migração fará parte da história da mesma maneira ...

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sexta-feira 23/03/12

Segundas intenções

A primeira intenção é a embalagem; a segunda, a receita do conteúdo. É assim que nossas ações são postas nas prateleiras logo que saem quentinhas dos fornos do nosso cérebro. Igual à Coca-Cola, ao sorvete, às bolsas, aos carros e a tudo o que existe, as ações humanas são produtos nascidos a partir de uma matéria-prima - não, resolver chamar a menina mais gatinha da sala pra sair não veio assim do nada, nem rolou das escadas do Olimpo a ...

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quinta-feira 15/03/12

Mudança

casa

Era cor de goiaba a casa de onde logo mais vou sair. Justo agora que vou embora, a pintaram de azul em degradê, coisa chique. É uma pena porque não vou poder me orgulhar de morar na única casa azul em degradê da minha rua, onde todas as construções tem cores de goiaba para baixo. Em 22 anos de vida, que não considero mais tãããõ pouco, esta é só a segunda vez ...

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terça-feira 13/03/12

A maior das crises

Não foi nenhum jornal, nem a conversa que ouvi entre as duas senhoras na saída da quitanda, ambas aproveitando a alta do preço da alface para apoiar uma engenhosa teoria sobre o cataclismo, que me convenceram de que a humanidade está em crise. Nunca achei o contrário, embora eu mesmo sempre tenha atribuído ao fato outras causas bem mais simples que aquelas que tornavam a saladinha do almoço das senhoras um pouco mais salgada. Deposito, basicamente, toda minha crença sobre a ...

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