ir para o conteúdo
 • 

Ricardo Chapola


Há um tempo, me desboquei: chamei o banheiro de santuário, seguindo cegamente a toada do texto e o instinto. Foi o anjo das trolhas, que sempre à espreita, me puxou pelo braço na ocasião: vai, Ricardo, ser gauche na vida.

Ora, evocar a imagem da privada no meio da igreja na mente de tiazinhas taradas na barra da batina pode ser profano. Mas não tanto, há males piores: as brigas de torcida, por exemplo, Brasília, as segundas-feiras, para não falar dos sacrilégios famosos, como os banhos no inverno, tão graves quanto os goles de Yalkult.

Agora, os banheiros… São divinais.

Não houve outro jeito de classificá-los se não os botando no mesmo balaio que uma Capela Sistina versão Duchamp – mais ready made impossível: da vasta coleção de urinóis, de novas noções da beleza exploradas na brancura dos azulejos de atacado e de uma atmosfera, sabe lá Deus por que, cheia de poesia. Filosofias finas, sabedorias que transbordam a mente humana e a privada entupida da terceira cabine. Penso, logo fui ao banheiro – teria dito Descartes, se o filosofal defunto me permitir a sanitária contextualização.

A conversa de uma mijadinha amistosa, senhoras, felizmente nem sempre foi o anúncio mal educado de um ogro apertado. A expressão é toda bem intencionada, porque o homem que vai nunca é o mesmo ao voltar. Banheiro vira toillet; xixi, urina. E, de ogro, o mulambo passa a galã.

O retorno, claro, como faz questão de informar, é flutuante, sem o peso da bexiga cheia. Vem em passadas folgadas, ares mais galantes, alardeando uma sabedoria atraente com citações de Goethe, Jung, ou mesmo só alguma grande filosofia recém elaborada sobre o nada, dessas pensadas entre o esmero da assinatura da obra e o arrepiozinho final.

A magia banheirística proporciona o direito à licença poética a qualquer cabeça de bagre, seja eu ou o autor da frase atrás da porta da última cabine da empresa: “não faça na vida o que você faz aqui dentro”, disse o poeta de ocasião. Eis aí a beleza, toda pública, para o livre uso de almas que, por um instante, viram nas costas da porta de um banheiro público a salvação para o seu sofrimento.

Ah, as frases e seus efeitos, filhas da filosofia marginal dos banheiros de estrada. Por isso, lindas! Ou há outro adjetivo para toda a versatilidade do “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”? Genérico? Talvez, mas quem se importa? Na hora do aperto, o plebeu sempre parecerá o mais belo.

Poxa… Se ela soubesse tudo, exatamente de tudo sobre a cantada que nos uniu feito tampa e panela, eu não sei, talvez nem estivéssemos juntos. O beijo seria um sopapo de mão cheia, pode ser. E talvez até hoje eu estaria sentado em algum banheiro por aí, caçando cultura barata. Mas linda.

Banal.

Mas eficiente.

Comente!

08.maio.2012 14:07:38

Bar do coreano

Deve estar escrito no rótulo do xampu, ou no verso das tampinhas de refrigerante que nós brasileiros somos seres abençoados e predestinados à infâmia das piadinhas envolvendo futebol, mulher, carnaval e a nossa amiga cerveja, que vai muito bem, obrigado. Justo ela, a loura que ganha as curvas ao bel prazer de nossos copos, a preciosidade que fungos e leveduras escondem nas mesmas profundezas onde nascem as micoses e as frieiras, virou alvo de ultraje daqueles que se orgulham em tomar, em vez disso, um desgraçado copo de Coca-cola.

Isso não é um desabafo de um trauma pessoal, mas se trata de uma realidade compartilhada entre nós brasileiros sem nenhuma exceção posta por classe, sexo, profissão, preferências por cor, ou por música. Todos preferem, é verdade, os laços da refrescante amizade que a cerveja nos traz nos mais diversos dias, climas e ocasiões. Não tem como negar, se até mesmo nosso ex-presidente nunca foi poupado das barbaridades que já disseram a respeito de sua intimidade com ela: era na cama, na mesa, no sofá; em casa, na casa da sogra, do amigo, de um conhecido, não importava, bastava ela estar ali, aguardando, toda encorpada na geladeira.

Que me perdoe Lula pelo atrevimento com sua paixão e me perdoe você, que está mais para morena que para A loura, mas fato é que ela é gostosa e ponto final, sem delongas sobre o misticismo de suas origens, ou sobre sua inconstância de comportamento quando não está devidamente resfriada. Afinal, quem liga pra isso?

Eu, você, o Lula, o Ronaldo… Todos nós ligamos. Pra se ter uma ideia, a cerveja tornou-se não só nossa figura de um amor shakespeariano, como também foi adotada como fator de qualidade que, muitas vezes, guia nossas escolhas em momentos de impasses cruéis que atravancam o encontro marcado com ela. Se a cerveja é gelada, ótimo; caso contrario, procuramos um lugar onde ela esteja no clima.

Numa dessas minhas jornadas, numa quinta-feira de muito calor, optei pela imundície de um boteco de esquina, obscuros esconderijos onde gelam aqueles corpanzis morenos de essência dourada. O bar era o certo, o dono é que não. Mais uma da série: “cerveja boa no lugar errado”, quer coisa mais broxante?

Um coreano era dono da mina de ouro. De português pouco entendia, embora esbanjasse uma facilidade marciana no assunto universal das cifras.

“Quanto tá o fardo?”, perguntei.

“Tlinta e seis leiais, tlinta e seis leais”, respondeu, ligando a opção “português”.

What?

A moral da história não é para você largar mão da louraça, imagine (toc, toc, toc). Mas tenha a certeza de que as piadinhas sacanas de nossa condição de amantes de cerveja estão não só nos rótulos de xampus e tampinhas de refri, mas habitam, acima de tudo, nos empreendimentos coreanos. Saibam, prezados orientais, que meu amor resistirá a qualquer custo a esse gosto por inflacionar a felicidade alheia.

Comente!

24.abril.2012 10:02:53

As frutas

Desde cedo, aprendi a manter uma relação pacífica com as frutas, sendo muitas vezes repreendido quando recusava, com o entojo de “não sei o porquê “típico da idade, as garfadas generosas de mamão que minha avó insistia em me dar.

Impasses assim eram resolvidos com a mesma facilidade com que eu fechava os olhos e abocanhava o mamão perfurado por apenas três dentes do garfo: “Ricardo, coma ou não vai brincar na rua hoje”, dizia minha avó. E se a ameaça da rua não bastasse, chantageava-me com cortes do vídeo-game, TV, futebol, bem, com tudo aquilo que me fizesse comer mamão.

Nem por isso odiei as frutas, até cheguei a gostar mais delas e, se não fossem as bravezas da velha e da minha mãe, – sua aliada – eu provavelmente ainda não conheceria algumas das delícias da vida, escondidas dentro de umas carapaças pra lá de estranhas – peludas, ásperas, outras até com cores assustadoramente vibrantes.

Minhas amigas, as frutas, hoje, fazem parte do meu cardápio diário e, por tabela, as lembranças de poder ter sido uma criança sem desenhos animados, vídeo game e futebol também. São nas horas em que contemplo a tacinha de plástico caprichosamente preparada com as delícias que minha mãe destrincha das carapaças peludas que me convenço: santa a sabedoria materna.

Se lhe falta, leitor, mais uma prova de que precisamos ouvir as pessoas mais velhas, vá por mim: procure suas respostas nas frutas. Avós e mães, assim como as frutas, são coisas à frente do nosso tempo, da mesma forma que Einstein estava dos outros físicos, e Aristóteles, dos filósofos. E o que são as avós, mães e frutas senão grandes sucessoras da genialidade humana?

Graças aos métodos pró-mamão defendidos pela velha, sou alguém que deixou de chupar muitas mangas e descascar muitos abacaxis, não por entojo, mas porque aprendi a dar banana pra muita gente que preferiu abrir mão do vídeo-game e do futebol.

Comente!

10.abril.2012 14:09:21

Caipira pira pora

A quem pertença a qualquer ramo da vasta copa da árvore genealógica da família buscapé – mãe, pai, irmão e até para aquele seu primo chato -, São Paulo virou tipo um carma. Se não tanto, pelo menos virou um rito pelo qual, um dia, todos nós, caboclos paulistas, nômades potenciais das enxadas, passaremos. Por isso, adianto: a infeliz topada com o mala do seu primo pode ainda acontecer, lá ou cá.

A migração fará parte da história da mesma maneira que trepar nas árvores fez, tempo bom em que a nossa maior preocupação era decidir quem sentaria no galho mais alto – eleição que envolvia idade, quem tinha o Romário no bolo de repetidas e também se o cara fosse bom de bola ou não. Pernas de pau, nem pensar. Nessa época, nossos pais poupavam a gente da forte hipótese de que um dia o destino nos pegaria pelo colarinho e nos levaria para talvez subir em outros galhos. Mas não de árvores. Em São Paulo, as pessoas não trepam em árvores. Derrubam para construir prédios.

No fundo, no fundo, entendo: também livraria meus filhinhos de outra decepção da vida. Eles crescem e, cedo ou tarde – na minha opinião muito mais cedo do que tarde -, se certificam da morte, a precoce notícia que, pela precocidade, vai derrubando as mangueiras, as goiabeiras e os abacateiros que as nossas crianças subiriam, mas não vão poder.

Não bastasse a morte, São Paulo.

A gente acaba se conformando. Os papos mudam, os galhos ficam fracos e a gente acaba indo mesmo pra cidade grande, de enxadas nos ombros, assobiando a música do Rei do Gado para espantar o mau agouro de ter trocado o céu pelo inferno. A essa altura do campeonato, predestinado desde o ventre sertanejo de minha mãe, só me resta puxar a oração dos Capiaus: proteja-me em São Paulo, mas, por Deus, livrai-me do primo chato. Amém!

Comente!

29.março.2012 14:54:49

Dúvidas românticas

Ao lado das ciências obscuras – da álgebra, da geometria, da física e da química – de todas as que lidam com leis, teoremas e fórmulas, coloco também as mulheres. Ponho-as ali pelo simples motivo de que, tal como essas monstruosidades que misturam letras e números numa linha, as mulheres, como as fórmulas, servem pra ser fagocitadas pelo cérebro, sem que a gente as entenda nos detalhes. Nem tente, poupe-se – é conselho de amigo.

Atribuo a elas o mesmo grau de incompreensão de quando me foi dito que a soma dos quadrados dos catetos é igual à soma do quadrado da hipotenusa. Apesar de ter sempre confiado na mágica da fórmula de Pitágoras, confesso que nunca entendi patavinas dela.

O mesmo digo para as mulheres, verdadeiras incógnitas encarnadas em beldades da raça humana, que podem variar num universo de morenas, loiras, ruivas; de olhos esverdeados, amendoados, negros; que sejam magrinhas, gostosas ou gordinhas. E o pior é que para todas elas, Pitágoras, Tales e Arquimedes não resolveram absolutamente nada.

Mulheres são tenebrosas equações de 5º grau inseridas num exercício de estequiometria envolvendo a dinâmica de moléculas de Plutônio na superfície de Saturno. E isto se aplica a ‘n’ situações: seja quando precisam escolher uma roupa pra um churrasco de domingo na casa da prima, seja durante seus clamores por romantismo que nós homens abdicamos de nossa cultura.

Roberto Carlos e Fábio Junior não marejam mais os olhos de casais apaixonados como na época da brilhantina de nossos pais. Da mesma maneira que não se veem mais como antes amantes que curtem do bom e velho jantarzinho à luz de velas, enquanto, entre os goles de vinho, dançam “Como é grande o meu amor por você”, do rei.

Quanto a isso, as mulheres estão cobertas de razão: o romantismo, algo que sempre costumou ser da alçada masculina, está entrando pra lista de raridades, em desuso, ao lado da mesóclise e de alguns jargões.

Mas por outro lado eu também saio em defesa dos homens – não de todos, só dos românticos que, assim como mesóclise e gírias antigas, ainda existem. São poucos. São discretos. Mas ainda existem.

Encontrar um por ai está como encontrar agulha no palheiro: demora – pode ser por isso que muitas damas se desolam no meio dessa expedição em busca de seu príncipe, mesmo até que ele tenha substituído o alazão branco por uma motoca.

O problema, no entanto, não é a busca, muitas vezes aparentemente desenhada sem um fim que se aviste. Tem fim sim, e é justamente nele que está o verdadeiro problema que inviabiliza enquadrar as mulheres nos domínios de nós homens, sejamos pitagóricos ou meros mortais – como eu e receio que quase todos os  cuecas do planeta.

Não dá pra encontrar o X da questão quando, num espasmo de alívio, a donzela acha ter chegado ao seu “feliz para sempre”. Às vezes, ela cai nesse abismo místico que foge de nossas explicações, alegando que não estava com estômago para romantismo. Ruim pra todos nós: qualquer hora dessas, a espécie dos românticos tomará chá de sumiço, na medida em que formos percebendo que, nos finalmentes, a mulher vira uma equação cabeluda ainda a ser resolvida. Enquanto isso, nos resta esperar pelo próximo gênio.

Comente!

23.março.2012 16:56:54

Segundas intenções

A primeira intenção é a embalagem; a segunda, a receita do conteúdo. É assim que nossas ações são postas nas prateleiras logo que saem quentinhas dos fornos do nosso cérebro. Igual à Coca-Cola, ao sorvete, às bolsas, aos carros e a tudo o que existe, as ações humanas são produtos nascidos a partir de uma matéria-prima – não, resolver chamar a menina mais gatinha da sala pra sair não veio assim do nada, nem rolou das escadas do Olimpo a pedido de nossas preces.

Em estado bruto, ações  são chamadas de ideias, assim como o vinho, na forma como veio ao mundo, é conhecido como uva; o pão, como trigo; a gasolina, como petróleo. Entendamos direito o ciclo:

As ações em seu estado bruto, portanto ideias, são invisíveis a olho nu já que estão diluídas no ar. Aspiradas para dentro das maquinarias cerebrais, as ideias passam por um processo industrial: sofrem manipulações, rearranjos, decantações, reprocessamentos, aquecimentos, resfriamentos. Pronto? Mais ou menos, temos um semi-produto chamado de intenção (mais precisamente a segunda, já que a produção da primeira é de competência de um outro departamento, o das embalagens, do outro lado da fábrica).

As segundas intenções são a força motriz dos nossos atos, o esqueleto de uma postura, a verdadeira explicação dos porquês de termos preferido o assim do assado. Ninguém sabe, além do próprio mestre cuca, a receita de seu melhor prato, como também ninguém sabe, além do próprio mentor, as intenções que compõem sua ação. Na verdade, os apreciadores tanto do prato quanto da ação só pensam que conhecem, porque vão pela aparência: acham que aquelas bolinhas pretas no meio do arroz (será que era arroz mesmo?) eram azeitonas, ou que aquele impávido convite para a menina significava só um cineminha sem amassos.

Arroz com azeitonas e cineminha meia boca vêm do outro lado da fábrica. São eles as embalagens, cientificamente conhecidas como primeiras intenções – aos leigos, em outras palavras, a tal capa do livro, objeto em que se baseiam nossos tantos julgamentos capengas, pai do preconceito.

O que eles não sabem é que, assim como para os livros, existe beleza além de um rótulo bem feito. Se não violarmos as embalagens, bisbilhotarmos a gororoba lá de dentro, a gente vai continuar não sabendo se o garoto realmente tava só a fim de um cineminha meia boca, ou se queria mesmo era tascar um beijo daqueles na top model da sala. Tá ai a verdadeira beleza.

Comente!

15.março.2012 09:27:46

Mudança

Era cor de goiaba a casa de onde logo mais vou sair. Justo agora que vou embora, a pintaram de azul em degradê, coisa chique. É uma pena porque não vou poder me orgulhar de morar na única casa azul em degradê da minha rua, onde todas as construções tem cores de goiaba para baixo.

Em 22 anos de vida, que não considero mais tãããõ pouco, esta é só a segunda vez que me  mudo desde minha vinda aqui para São Paulo. E a sensação não é a das melhores, afinal não se trata de um processo meramente espacial, mas de um processo que requer uma dolorosa readaptação psicológica.

Só quem já passou por mudança para entender. Explico melhor: o velho sentimento de domínio sobre o território, de poder sair da sala no escuro e conseguir encontrar a geladeira para sacar uma cerveja, esta relação íntima com a sua antiga morada, esta demorará a voltar.

Parecerá traído pelas suas próprias coisas enquanto, na realidade, quem o engambelará vai ser a nova organização de toda sua parafernália jogada num lugar onde você mal  dará 3 passos no escuro, quanto mais conseguirá atravessar da sala para a cozinha pegar uma cerveja. Até lá, isso vai lhe custar muitas cabeçadas na parede, chutes nas quinas dos móveis, tropeços aqui e acolá mais das vezes convertidos em hematomas.  Mas com o tempo (e só com ele), a relação se estabiliza e o percurso da sala para a cozinha lhe garantirá uma cerveja na certa, sem nenhum arranhão no corpo sequer.

Será com melancolia que deixarei minha velha conhecida casa cor de goiaba, que não deixou de ser conhecida depois de ser tingida de azul em degradê. Os caminhos ficarão obscuros novamente, terei muitos hematomas e galos na cabeça. Vou contrair crises psicóticas de traição e a cerveja ficará mais difícil por um tempo. Mas isto passa. Não vai passar a minha tristeza de não morar mais na única casa azul em degradê de uma rua onde as construções são cor de goiaba para baixo.

Comente!

13.março.2012 11:40:49

A maior das crises

Não foi nenhum jornal, nem a conversa que ouvi entre as duas senhoras na saída da quitanda, ambas aproveitando a alta do preço da alface para apoiar uma engenhosa teoria sobre o cataclismo, que me convenceram de que a humanidade está em crise. Nunca achei o contrário, embora eu mesmo sempre tenha atribuído ao fato outras causas bem mais simples que aquelas que tornavam a saladinha do almoço das senhoras um pouco mais salgada.

Deposito, basicamente, toda minha crença sobre a crise do homem moderno na abolição dos botões. Sim, os botões com os quais, algum dia, eu e você, leitor (a), já mantivemos a íntima relação baseada em apertões aqui e acolá sem qualquer pudor. Eles, cujas cores mil fisgam nossos dedos tão ávidos por pressão, estão virando o mico leão dourado de nossas selvas de pedra. Eu diria até que não se vê mais tantos botões como antigamente.

O homem nunca mais será o mesmo quando os botões forem extintos de uma vez por todas. Se realmente sumirem do mapa, serão jogados no esquecimento e no vazio da modernidade anos e anos de descobertas proporcionadas pelo toque de um dedo curioso. Evoluímos a espécie ao saber que o botão verde liga, e o vermelho desliga; decretamos feriado nacional quando descobrimos como chamar o elevador sem precisar assobiar e gritar: “Elevador, quero subir pro 10º”; soltamos rojões depois de perceber que a comida fica quente ao simples clique do “Aquecimento” no micro-ondas.

A modernidade é vazia, disse o autor americano Marshall Berman, cuja máxima, que também virou bordão de (pseudo) intelectuais modernos, é aplicável à minha tese dos botões. Vivemos numa constante vertigem, contaminados pela ideia de um culto excessivo à imaterialidade estendido ao nosso círculo de amizades, ao trabalho, ao amor e sobretudo, meus amigos, aos botões.

Não bastasse alimentarmos nossos bichinhos virtuais, conversamos por MSN e adicionarmos mais um amigo ao Facebook, hoje temos de lidar com a árdua sensação de fingirmos estar apertando um botão.

Steve Jobs é o inventor da desinvenção. Patrono da família dos I’s, imponente na modernidade com seus membros iPod, iPhone, iPad, iMac [...], ele transformou o botão num mísero e vazio conceito funcional. Pegou seus I’s, meteu uma telona plana e pôs apenas um botão que nem mesmo se parece como um. O resto é pura dissimulação de gozo: você bate o dedo na tela assim como se estivesse apertando um grande e atraente botão e pronto, o fenômeno acontece. Um verdadeiro sacrilégio!

Tento me esquivar do prenúncio de uma crise irreversível da humanidade, tanto quanto do sumiço de nossos queridos botões. Enquanto essa minha filosofia nostálgica não excitar a saudade nos dedos dos homens modernos, precisarei eu dar o braço a torcer. Largar mão dos botões e aprender os novos métodos para se chamar elevador, ou esquentar a comida, tudo isso assistindo, com aperto no coração, a Steve Jobs transformar história num grande e vazio conceito funcional. Tadinhos dos meus amigos botões.

Comente!

08.março.2012 16:05:57

Machas

Mulheres do meu Brasil varonil, recebam de peito aberto a efeméride deste tão afeminado dia. Mais rosa que o comum, mais perfumado que ontem, mais cheio da graça das meninas que vem e que passam no doce balanço a caminho do trabalho, do mercado, da faculdade. Do mar, aos fins de semana, se houver espaço na agenda entre a academia e a feira.

Não questionem. Deixem a mania do feminismo radical de lado, ala que volta e meia cria as maiores picuinhas que nós, homens, nunca vamos entender. Aliás, mais um pecado que nos tira o altar e, por tabela, o espaço precioso do rodapé do calendário. Justo, eu diria. Assim, cuecas pálidas, o máximo a que chegaremos serão nas marginais lembranças de um informativo bancário, ou quando muito constatarmos nossa existência no bem educado mural de pendências financeiras do bar do Aristides.

O lance do Dia Internacional das Mulheres é pura antropologia. Mulheres são celebradas pois são o que são. Ou – melhor – porque passaram a ser. Homens foram. E ainda são o que foram, vão continuar sendo o que foram, ficarão na chata mesmice, no ranço do pretérito para lá do mais que imperfeito. Criaturas tortas de tão retas, vendo que de lá para cá nada mudou: cabra dos machos, se for da pura estirpe, sempre foi do tipo protegidinho. Engana ninguém se disser que pastou na vida, oh raça dramática. A verdade? Que suou o suficiente para não cair de vez na marvada, fez suas descobertas para ter do que se gabar depois e pronto, num processo indolor. Machos de araque, porque escaparam de muita luta, várias vezes até por nem terem motivos para auê.

Só fico pensando nas mulheres, pobres fêmeas cujo sedutor corpanzil sempre teve que suportar o peso da armadura. Se não teve macho para briga, lá estavam elas, duronas enrustidas atrás de maquiagens, esmaltes e quetais.

O hiato evolutivo que ficou entre nós, eu e você, leitora – você evidentemente à frente do meu tempo – justificam o propósito da homenagem. Aceite o modesto tributo dos mancebos atolados no mangue temporal da vida, é um pedido encarecido num raro momento de humildade viril. Tudo bem, a gente mal entende a psicologia feminina, ela é complexa demais e então ficamos de chororô. Mas entendam: vocês são o que nunca fomos. Comemorem, se não por vocês, por todos nós, reles machos.

Comente!

06.março.2012 11:35:18

Viciados

Cá entre nós? Eu sou viciado. Pronto, confesso, sem nenhum acanhamento de que, assim como existem tantos outros por aí, eu descobri que faço parte de uma legião que perdeu a batalha e se rendeu ao inimigo. Por isso, como usuário ativo, serei bem truta dos caras que ainda acham que a maconha tá na moda e aviso: “Bixo, vocês tão por fora”.

O ecstase? Pfff, também não tá com nada. Acontece que a química está obsoleta e a ideia de trazer o vício em comprimidos, pastilhas, cigarros e seringas está igual a comprar CD. Quem mais faz isso? Os laboratórios químicos enfeitados com tantos recipientes de nomes difíceis contendo líquidos multicoloridos deram lugar aos laboratórios sem nenhuma louçaria e um tom monocromático, onde o que se vê é só computador.

É dali, de conversas faladas no idioma binário, que saiu o novo ópio da humanidade, a maconhazinha dos universitários estendida, agora, até pra gente mais grossa, tipo o presidente da República. Me refiro, meus amigos, ao Google.

Lembro de quando comecei. Os tempos eram outros, quando eu ainda era acostumado a fazer pesquisa escolar debruçado sobre a Barsa, cuja coleção coloria a estante de livros que minha avó também usava para montar o presépio no Natal. Depois disso, vieram o Cadê e o Altavista na internet, com os quais nunca me afinei muito bem, talvez por causa do nome, ou por conta de trazerem mais coisa escrita que figurinhas (aquilo que eu, pelo menos, encontrava na coleção pré-histórica da dona Aparecida).

Os tempos mudaram e as pesquisas começaram a ficar mais cabeludas, tipicamente daquelas cuja resposta não consta nem no rodapé de enciclopédias ancestrais. Os cientistas dos laboratórios sem decoração, mostrando que para ser cientista bom não se precisa de tubos de ensaio ou de frascos com nomes feios, lançaram, em resposta ao apelo do corpo discente enjoado de maconhazinha barata e encurralado nos dias de pesquisa, o Google.

Abandonei a Barsa. Pus o Google nos “favoritos” do PC e, em caso de qualquer dor de barriga, ia lá. É um clique aqui, outro ali, digitar no campo de busca e vvvrrrrrumm: uma imensidão de achados [até pré-históricos, como a Barsa] num único clique.

Para se tornar vicio foram dois passos: era fácil e dava barato. Tudo dependia de um bom faro investigativo na hora de escolher a palavra chave e o clique no mouse. Pronto, o Google pegou, virou ferramenta que ilumina nossos dias de eternos ignorantes, que começamos a achar em tudo um bom motivo para recorrer a ele.

Bota lá o seu nome, vê no que dá! Ou: escreva no Google Imagens “Amarilda da Rua Treze”, é um espetáculo de formas.

Cá entre nós? Você também é viciado, né? Suspeitei, eu duvidava  que você não fosse ver, depois de ler esta crônica, quem diabos é a tal da Amarilda da Treze. Não se preocupe. Além de nós dois, leitor, há muita gente que preferiu o Google à maconhazinha que é a Barsa.

Comente!

  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Chapola

    Nascido em Araras (SP), o jornalista Ricardo Chapola escreve crônicas desde 2008. Gosta de se apresentar como jornalista e cronista, não necessariamente nessa ordem.

Comentários recentes

  • Nina Vieira: Eu me perguntei o mesmo, quando ouvi da primeira vez. Beijão, sumido.
  • Rafa: Eu me orgulho de você a cada palavra que leio. Parabéns por esse seu dom. Beijo grande e até mais tarde
  • julitamaraJulita: Parabéns!!! ( primeiro para vc!!!) Parabéns, Parabéns ( por que escolheu o texto da minha...
  • Nina Vieira: Vou chorar.
  • Danilo Carandina: Gostei, cara! E me senti no meio daqueles os quais você deseja sorte, porque, aliás, você...

Arquivos

Seções

Blogs do Estadão