Se me apaixono? Muito. Como? Quando? Por quê? Puxa o banquinho aí:
Saca escada rolante? Pois bem, tem tudo a ver.
Pra mim, paixão, essa fagulha de amor, não é só química, não. Tem física da mais cabeluda. Há um não sei o quê na cinética daqueles degraus que, afirmo seguramente, funcionam na velocidade exata pro climinha rolar. Puro romantismo, talvez: no compasso daqueles rolamentos qualquer música ambiente de shopping vira trilha sonora de filminho mela cueca.
Foi assim na vez da Gabi, com cara de Fernanda; da Thaís, com cara de Bruna. Repete-se sempre: quando vou ao McDonalds, comprar pasta de dentes, quando vou tomar o metrô. Subindo, ou descendo. Tudo vira só uma questão de ponto de vista. Nos flertes verticais, muchachos, os olhos escalarão do sopé das pernas para descansar no sorriso, se subo; e se desço, escorregar da boca pra depois, bem, esquecer cerimônias, espantar as galhardias todas, fingir uma torcicolo e… Opa! Acabou a escada.
Paixões descaradas, todas muito desinibidas. Paixões de primeiro e segundo pisos, paixões underground. Que acontecem na ascensão ou no descenso, no Pátio Higienópolis ou na estaçao Corinthians Itaquera. Em qualquer lugar, a qualquer hora: basta o desnível que justifique a existência de uma escada rolante pro Cupido, querubim esperto, pintar e bordar, abrir janelas dos corações pra esse porvir incerto que, nessas horas, chamamos de amor.
Mas antes, nessas escadarias de Eros, a gente vai ensaiando o samba do crioulo doido. Ensaia pra aprender a hora de viver o grande amor, de muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso.
Pode ser que por isso, depois das escadas rolantes, os deuses e orixás inventaram o cinema. No cima-embaixo da vida, indo ao McDonalds, ou comprando pasta de dentes, quem sabe não eram o escurinho e o aconchego que faltavam pra sementinha da paixão parar de tanto chove não molha, de tantos degraus rolados pra cima e pra baixo, pra só então, finalmente, despontar em flor.
De duas, sorrio. Três, azedo, mas até encaro. Quatro, cinco, evito. Dobrou o quarteirão, esquece.Fila dos infernos!
Dos cacoetes da humanidade, a fila é o que mais me futrica: por que, meu Deus, por que essa linha de tédio que contorna tantas beiradas e quinas desse quadradão tropical? Ordem e progresso? Come on…
Às vezes fico pensando: parece que foi o meio que inventaram para alinhar todas as chatices do mundo num minhocão humano, demasiado humano, que vai indo, vai indo, vai indo, passa pela farmácia, bloqueia a entrada da loja de cosméticos e desemboca a umas 70 cabeças de onde você só pretende pagar a conta de luz.
É gente chata de todos os tipos. O chato chato. O chato impaciente. O chato falante. O chato baixo, o alto, o gordo, o magro, homem, mulher. A tiazinha que fala do tempo. E você que, se já não for um chato de galochas, está a um passo de se tornar mais um do bando se a fila não cooperar e empacar de vez.
Que demora!
Tá calor, não? Mas à tarde chove, tá muito abafado.
Olha o relógio. Cruza os braços. Olha pro céu. Bufa. Olha o relógio, bufa, céu…
Tesouras de nossos coitos as filas. Tiranas porque irrompem ao meio fio impondo a ordem que não nos dá sequer o direito de escolhermos com quem conversar. No rabo da bichana, sobra o senhor da frente, encasquetado com o horário do dentista. Estivesse na meiúca, o chato chato e a tiazinha do tempo. E lá na frente, onde não posso estar, ah, um anjo em forma de gente, amor da minha vida.
Elas penetraram nosso ser e, ditadoras, nos enfileiraram na cultura do um atrás do outro, à la indiana. Hoje a preferência quase que involuntária pela fila está ali, entre a necessidade de piscar e a sua tara por bolinhos de chuva.
Certo dia a sorte é grande: o amor resolveu colocar você e ela, ela e você, à espera pelo caixa vago, que naquele dia poderia durar anos, séculos, milênios. A centelha é o conversê, sem chatice. Mas aí, papo vai, papo vem, você descobre que ela namora; e ela apenas te lembra que a fila anda.
Bom, agora num tem mais jeito. É hora de pegar no batente e seguir em frente, já diria o poeta. Ou, como bem realmente lamentou um – o grande Carlos Lyra - “acabou nosso carnaval”. Acabou-se, c’est fini: fim de festa, da promiscuidade necessária, fim do tesão que no calor do momento a gente chamou de amor. Porque no carnaval tudo é amor até que acabe a cerveja. Depois que a cuíca para de gemer, os pés também param de sambar, as bocas, de beijar e o tesão, de ser amor.
Inventou-se então a quarta-feira de cinzas pra tentar salvar o pouco da quintessência que resta nas coisas: o romance não é só um lance e a transa é dádiva pela paciência de uma pobre alma, que só fez o bem-bom depois de juntar os trapos. Antes disso, neca de pitipiribas. É um beijinho aqui, outro ali e olhe lá.
Na cinzenta quarta é preciso de muita cinza, sacas e mais sacas dela, pra purificar tanta gente que se perdeu no requebrado do pecado entre bundas, bundonas e bundinhas. Cantavam assim na avenida:
“A mulata foi rebolar na passeata. Olha aí!
Vinha caindo de charme,
Vinha caindo de amor,
No sorriso.
Ela trazia uma flor.
E jogava um beijinho lá
E jogava um beijinho cá”.
Com toda a putaria comendo solta, pensei eu, cedo ou tarde, capaz até que o Papa largue a batina, descrente da salvação desses tantos foliões acesos.
Bom, agora não tem mais jeito mesmo.
Não dá mais para enrolar, eu bem que tentei. O repertório de marchinhas acabou. Confetes e serpentinas também, tal qual meu estoque de groselhas pra contar.
Mil amores possíveis voltou a ser profano ofício de cafajeste.
O samba, música de boteco.
E o tesão, tesão – mesmo depois de tanta penitência, cinza e bacalhau.
Avante, incansáveis foliões da pátria amada Brasil! Dispam-se de vossas fantasias. À luta! Ano que vem tem mais.
Ilustração: Felipe Blanco
HAHAHAHAHAHAHA
Rio assim de muita coisa: piada boa – e dependendo da ruim também – passarinho que esmerdeia cabeça alheia, Mister Bean, Mazzaropi. Rio até de palavra: palavras ditas até que soltas, ou enroscadas numa frase, me fazem gargalhar como o diabo, mal educado que só.
São sorrisos impertinentes os dados de soslaio, escondidos nas dobrinhas do canto da boca. Te colocam na saia justa de precisar convencer o interlocutor que (não! pelo amor de Deus!) ele não está com um feijão nos dentes. Foi o que ele disse, sei lá, “sovaco”, “balacobaco”, “gorgonzola”… HAHAHAHA – como não rir?
“Desculpa! É que acho ‘bunda’ uma palavra engraçada”, argumentei certa vez a uma amiga, que contava alguma coisa sobre ter levado um pé nas fartas nádegas. E ela me entendeu. Rimos feito bêbados depois, noite adentro, até o dia raiar, porque descobrimos mais tarde que “bunda”, em húngaro, é o nome dos pêlos que enfeitam casacos.
É um desvio de comportamento preocupante, eu sei. Me dei conta da gravidade no dia em que comecei a rir de Chico – que é Chico: ele cantando os “peitinhos de pitomba” em “Carioca” e eu me mijando de rir em vez de mentalizar a delicadeza dos seios durinhos e salientes daiisxxxx mulheriiiiiisxxxxxxx de Ipanema.
Na mesa de um boteco abri o jogo, costuma ser a melhor terapia pras cagadas da vida. Aproveitando que estava com umas e outras na cabeça, contei tudo, da “bunda”, “pitombinhas” que me custaram caro, sobre meu problema com “verruga” (segurei pra não rir), poxa vida, disse em falso desespero, vou ficar pra tia assim.
E em vez de me tirarem do vício, me atolaram no lodaçal do meu distúrbio: terminamos a noite breacos, caçando na “gororoba” (HAHA) das nossas memórias a “paçoca” (HAHAHA), a “fronha”, as “bolotas de catotas” tiradas com esmero do nariz, numa conversa que durou horas e que podia ir, sem medo, direto pro “pinico” (HAHAHA – essa é boa demais!).
Não sei o que me causa esses efeitos, sinhô leitô. Talvez a pronúncia, terminações em “oba”, “ico”, “teco” “peleco” “telecoteco” são gozadas pra dedéu. Já sugeriram o dicionário, doutores Aurélio, Michaellis, o Larousse tem nome gringo, deveria ser bom. Eles sim, me dariam a cura, sinônimos que podem ter ares mais sérios. Eu me recuso: do que entendem esses parrudos assentimentais? São ginecologistas do léxico. Pegam a palavra que, arreganhada, revela todas intimidades etimológicas, as morfológicas, os detalhes tão precisos, tão verdadeiros, mas todos sem o menor pingo de graça.
Fica então só a frustração e um constrangimento bem maior do que aquele quando rio da cara de alguém por causa da “bunda”.
Quer saber? Vou parar com essa frescura.
Pelas mulheres, conheço cabras amigos meus que adotaram o estilo “barbixinha”. Outros que, pelo mesmo motivo, optaram pelo naipe “lenhador”. Mais tantos que, para a sorte (ou azar) das amadas, encarnaram o tipo “Abraham Lincoln”. E se me perguntarem a qual aderi, direi que pela minha cônjuge eu faria qualquer um deles se barba e bigode fossem pra mim uma questão de vontade. Ou de pura birrinha com a gilete.
Lembro que, antes disso, quando não sabia muita coisa sobre “fetiche sexual” – “fetiche” era o nome de uma loja, e “sexual”, algo que fazia meu pai falar sobre bebês e cegonhas – bigodes tinham um outro significado. Tinham mais a ver com o meu medo de ficar parecido com meu avô, não porque ele fosse feio – dizem até por aí que as minas piravam no mustache do Antonio: meio grisalho, nem farto, mas nem tão ralo. Acontece que tinha calafrios só de pensar em mim, um dia, dissecando jornais, falando difícil e descendo a lenha no governo por causa de uns tais de IPVA, IR, IPTU…
Até achava legal ostentar uma pelugem supralabial só pra posar de galã: parar no balcão do bar e ficar roçando o bigode, ou a barbixinha, ou o fiapo de pelos faciais que fossem dá um tchan no sex appeal de qualquer pangaré. De repente, o Clóvis, que nem era tão bonito assim, ficou rodeado por uma sorte de mulheres só porque ele resolveu ficar parecido com o Fred Mercury – numa versão Big Bang Theory, é verdade, se permite, leitor, a avaliação meramente científica e sincera deste imberbe que vos escreve.
É batata: na hora do vamuvê, barbados e caras peladas lado a lado, a gente que põe a mão no bolso, assobia, ou capricha no perfume no cangote não é páreo a todo o charme troglodita que emana de um homem brigado com a gi. Experiência própria.
O tempo passou, o medo de ficar igual ao Antonio durou, e a barba… A barba nem veio. O que os hormônios deveriam transformar em pelos deve ter irrigado a parte do meu cérebro responsável pelas besteiras que falo.
Mas papo sério?
O pior é que hoje disseco jornais. Volta e meia desço a lenha no governo por causa do IPVA, do IR, do IPTU. E quando vou tentar aproveitar a parte boa da história de ter um bigodinho – ‘inho’ porque é o que consigo cultivar a duras custas – sou repreendido pela minha irmã:
“Tira essa merda da cara!” – desfazendo-se da minha meia dúzia de pelinhos que nascem, esparsos, embaixo do nariz e do queixo.
Mas, mana, eu só queria posar de galã! Posso?
Achava o vazio a coisa mais triste deste mundo até a hora que tomei um peteleco de Gilberto Gil, pedindo pra, pelo amor de Deus, sacudir a poeira: “é sempre bom lembrar que o copo vazio está cheio de ar”, cantarolou o baiano tropicalista.
Não sei Gil, mas eu bebia água na ocasião. Antes disso, aquele mesmo corpo vítreo barato que agora eu encarava clinicamente me serviu vinho, uma cerveja gelada num dia quente, Coca certa vez e, cheio de ar como estava, era a promessa velada de mais vinho, mais cerveja e menos Coca – além de outros orgasmos etílicos.
Pra que tristeza então, guru das louças? Chore um pouco, sorria bastante depois. Há samba pra sambar, poesia pra ler, há dinheiro pra ganhar e depois gastar. Há amores pra descobrir que não são amores e um que deve ser o seu perdido em meio a tantos gueri-gueris carnavalescos.
Se não fosse esse latifúndio de nada não teríamos espaço pra rebolar, pra gostar do errado, odiar o certo e, no fim, descobrir que era pra ter sido tudo ao contrário. Se não fosse o vazio e as taças da vida cheias de ar não teríamos chance pra um vinho rosé, que culminaria em outra paixão, que te apresentaria a boa música, que te ensinaria alemão, que terminaria (ou começaria) quem sabe na cama, que te fizesse sorrir então depois de muito tempo.
É quando pés na bunda devem ser cartas de alforria pra desejos recalcados e quando a gente descobre que o abismo em que acreditávamos ter chegado na verdade não existia, era só um mata-burro entre um fim e um novo começo, a pausa entre um bloody Mary e uma cuba-libre. Ah, meu caro leitor, a carta de vinhos é vasta, o bar, cheio de surpresas engarrafadas. Não há vazio que suporte a sedução de um corpo, nem plenitude que se renda à leveza de um nada. Por isso, sente-se ao balcão sem nada pra dar, só a receber: aventure-se na secura de um dry martini, depois passeie com o Jhonny Walker, mas esteja aberto mais tarde pra uma loiraça encorpada e oferecida.
O emprego perdido não será o primeiro, o segundo, o último. O mesmo digo pros pés na sua e na minha bunda: muitos serão. Com eles, copos cheios se esvaziarão e nós teremos a ciência de que aquele Atacama a nossa frente é o fio da esperança que se renova e que dá toda a graça à vida.
Enquanto isso, apenas não chore. Senta. Toma um copo. No fim estaremos todos rindo.
Mais uma taça de vinho rosé, por favor! (hic!).
Pare e pense: Achiropita. Em mim, nesse momento, algo vocifera da barriga, quase me convencendo de que o processamento daquele tipo de dado mudou de setor. Rolou goela abaixo, da cabeça para o estômago, em queda livre, sem escala. E acendeu o pavio que culminou na oportuna e faminta pergunta que fiz há uns 3 anos: “Achiropita… É de comer? “.
Coincidência ou não, a ingênua questão que revelou minha latifundiária ignorância veio rebocando comida. Toneladas dela. Quantidades inimagináveis para a cabeça e desafiadoras para a elasticidade de qualquer calça – nisso, senti num solavanco um outro ronco grave e abafado, afinando no fim, provavelmente em protesto do que acabei de escrever.
Mas falar de comida é justamente falar de Achiropita. Nossa Senhora da Achiropita: santa não por saber fazer um primor de polenta – pode ser que ela nem soubesse cozinhar – mas porque é santa mesmo, canonizada pela Igreja Católica e tudo mais.
Onde entra a comida? Na festa, é claro. Como em toda boa folia, os comes e bebes não podem faltar. Sobretudo nas da Paróquia da Nossa Senhora da Achiropita, no Bixiga, muito bem abastecidas com as 16 toneladas de farinha; 12, de macarrão; 11 toneladas de queijo, as 5 de linguiça e por ai vai, tudo em medidas gordas. Tutta l’Itália!
Não é pra menos. São 30 mil pessoas por noite de festa. Trinta mil bocas. Trinta mil estômagos. Para dar conta disso, só 40 nonas pilotando panelas de 55 litros. Se soubesse disso tudo desde o começo, deixaria a sinfonia de resmungos gástricos continuarem. E talvez em homenagem repetiria: “Achiropita… É de comer?”. Ah, e como…
Pra muita gente, grandes enredos de livros, de peças de teatro e de filmes de Cannes nascem em algum beco habitado por figuras caricatas de boina, onde só se toca Raul e só se fala de arte, os vulgos points cult. Há também uma outra leva que partilha da teoria de que, se a comédia nasce nos shows de Stand Up Comedy dos barzinhos de playboy da Vila Madalena, o berço do drama é a prateleira da locadora em frente da qual se concentram o maior número de senhoras pensativas, visivelmente indecisas sobre o que escolher para assistir nas tardes de terça.
Eu, no entanto, diferente de todos esses, acredito que obras-primas nasçam nos ônibus. Acredito, aliás, que das entranhas daqueles monstrengos motorizados que arrotam quilômetros cúbicos de monóxido de carbono, saiam também lindos arroubos românticos, tragédias e comédias.
Antes de qualquer outra coisa, sempre dividi das mesmas impressões universais a respeito deles: ora a salvação de nossas vidas para encurtar as distâncias de casa até o médico que é lá na zona Sul; ora um trambolho que empaca o trânsito quando se está atrasado para a primeira reunião da empresa. Fora essa dicotomia em comum, acho que o restante é uma concepção bem particular sobre a coisa.
Vejo naquele espaço de poltronas alinhadas nas laterais e uma catraca ao centro uma verdadeira arena onde milhares de atores interpretam choros, brigas e risos, em intervalos marcados pelo resmungo da roleta que contabiliza mais um na plateia ou na própria cena que, logo ali, vai se construindo.
Certa vez, numa dessas jornadas até o médico, assisti a alguns atos de um belíssimo drama, envolvente a nível de quase me fazer perder o ponto.
Foi assim: a senhora já começava em cena, posicionada estrategicamente num ponto onde a luz lhe cortava apenas metade do rosto, que mirava o colo cheio de documentos. Pelas maçãs ainda rosadas e pelas poucas rugas distribuídas ao lado das têmporas, a plateia consentia que a personagem deveria ter uns 50. Eu dava uns 40, até porque a maquiagem estava ótima [a produção era de onde, hollywoodiana?].
De repente o pessoal da sonoplastia, lá da última fila de cadeiras, solta uma música de fundo no exato momento em que entra o ator: um senhor de bigodes grisalhos, poucos cabelos, de camisa amarrotada entreaberta, deixando visíveis os pelos brancos do peito. Craaack, gemeu a catraca marcando sua entrada em cena. Com seus olhos de gavião, parecia procurar uma presa previamente farejada e, ao avistá-la no único canto à meia luz do palco, dirigiu-se até a mulher perdida em seu mundo branco de papéis.
Como quem não quisesse nada, sentou-se ao seu lado como qualquer um, sem mesmo dizer bom dia, ou pedir licença. Ela mantinha os olhos presos em sua (i)lógica pilha, que ia ganhando outras formas à medida em que ela revirava folha ante folha. O senhor tentava compreendê-la com os olhos, fitando-na atentamente enquanto enrolava o farto bigode com seus dedos grossos.
A música para. O senhor interrompe uma das manobras da senhora ao colocar sua mão sobre a dela. A plateia não respira. O velho mete a mão no bolso. Solta-se música de suspense, quando ele destrincha das profundezas da camisa amarrotada uma foto. Nela, timbrada com uma baita marca de sapato, os dois. Silêncio e os olhares cruzados, sem sorriso, sem nada. Ele deu o ponto e foi embora.
Ela ficou ali, empedernida, com os papéis e a foto pisoteada colorindo seu colo branco. Música de fundo mais alta. Plateia emocionada. Bravo, bravo!
Bem, é por isso que já digo a vocês, meus amigos, que vocês nunca verão essa história ganhando um Cannes da vida e também não a verão encadernada nas estantes da Cultura do Conjunto Nacional. E as senhoras que ainda procuram boas histórias nas prateleiras das locadoras, desistam: essa dai não vão achar mesmo. Afinal, ela não brotou dos becos onde se toca Raul e só se fala de arte. Ela nasceu, na verdade, junto com um indecoroso e sonoro arroto de fumaça. Uma tragédia, né?

Há um tempo, me desboquei: chamei o banheiro de santuário, seguindo cegamente a toada do texto e o instinto. Foi o anjo das trolhas, que sempre à espreita, me puxou pelo braço na ocasião: vai, Ricardo, ser gauche na vida.
Ora, evocar a imagem da privada no meio da igreja na mente de tiazinhas taradas na barra da batina pode ser profano. Mas não tanto, há males piores: as brigas de torcida, por exemplo, Brasília, as segundas-feiras, para não falar dos sacrilégios famosos, como os banhos no inverno, tão graves quanto os goles de Yalkult.
Agora, os banheiros… São divinais.
Não houve outro jeito de classificá-los se não os botando no mesmo balaio que uma Capela Sistina versão Duchamp – mais ready made impossível: da vasta coleção de urinóis, de novas noções da beleza exploradas na brancura dos azulejos de atacado e de uma atmosfera, sabe lá Deus por que, cheia de poesia. Filosofias finas, sabedorias que transbordam a mente humana e a privada entupida da terceira cabine. Penso, logo fui ao banheiro – teria dito Descartes, se o filosofal defunto me permitir a sanitária contextualização.
A conversa de uma mijadinha amistosa, senhoras, felizmente nem sempre foi o anúncio mal educado de um ogro apertado. A expressão é toda bem intencionada, porque o homem que vai nunca é o mesmo ao voltar. Banheiro vira toillet; xixi, urina. E, de ogro, o mulambo passa a galã.
O retorno, claro, como faz questão de informar, é flutuante, sem o peso da bexiga cheia. Vem em passadas folgadas, ares mais galantes, alardeando uma sabedoria atraente com citações de Goethe, Jung, ou mesmo só alguma grande filosofia recém elaborada sobre o nada, dessas pensadas entre o esmero da assinatura da obra e o arrepiozinho final.
A magia banheirística proporciona o direito à licença poética a qualquer cabeça de bagre, seja eu ou o autor da frase atrás da porta da última cabine da empresa: “não faça na vida o que você faz aqui dentro”, disse o poeta de ocasião. Eis aí a beleza, toda pública, para o livre uso de almas que, por um instante, viram nas costas da porta de um banheiro público a salvação para o seu sofrimento.
Ah, as frases e seus efeitos, filhas da filosofia marginal dos banheiros de estrada. Por isso, lindas! Ou há outro adjetivo para toda a versatilidade do “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”? Genérico? Talvez, mas quem se importa? Na hora do aperto, o plebeu sempre parecerá o mais belo.
Poxa… Se ela soubesse tudo, exatamente de tudo sobre a cantada que nos uniu feito tampa e panela, eu não sei, talvez nem estivéssemos juntos. O beijo seria um sopapo de mão cheia, pode ser. E talvez até hoje eu estaria sentado em algum banheiro por aí, caçando cultura barata. Mas linda.
Banal.
Mas eficiente.
Deve estar escrito no rótulo do xampu, ou no verso das tampinhas de refrigerante que nós brasileiros somos seres abençoados e predestinados à infâmia das piadinhas envolvendo futebol, mulher, carnaval e a nossa amiga cerveja, que vai muito bem, obrigado. Justo ela, a loura que ganha as curvas ao bel prazer de nossos copos, a preciosidade que fungos e leveduras escondem nas mesmas profundezas onde nascem as micoses e as frieiras, virou alvo de ultraje daqueles que se orgulham em tomar, em vez disso, um desgraçado copo de Coca-cola.
Isso não é um desabafo de um trauma pessoal, mas se trata de uma realidade compartilhada entre nós brasileiros sem nenhuma exceção posta por classe, sexo, profissão, preferências por cor, ou por música. Todos preferem, é verdade, os laços da refrescante amizade que a cerveja nos traz nos mais diversos dias, climas e ocasiões. Não tem como negar, se até mesmo nosso ex-presidente nunca foi poupado das barbaridades que já disseram a respeito de sua intimidade com ela: era na cama, na mesa, no sofá; em casa, na casa da sogra, do amigo, de um conhecido, não importava, bastava ela estar ali, aguardando, toda encorpada na geladeira.
Que me perdoe Lula pelo atrevimento com sua paixão e me perdoe você, que está mais para morena que para A loura, mas fato é que ela é gostosa e ponto final, sem delongas sobre o misticismo de suas origens, ou sobre sua inconstância de comportamento quando não está devidamente resfriada. Afinal, quem liga pra isso?
Eu, você, o Lula, o Ronaldo… Todos nós ligamos. Pra se ter uma ideia, a cerveja tornou-se não só nossa figura de um amor shakespeariano, como também foi adotada como fator de qualidade que, muitas vezes, guia nossas escolhas em momentos de impasses cruéis que atravancam o encontro marcado com ela. Se a cerveja é gelada, ótimo; caso contrario, procuramos um lugar onde ela esteja no clima.
Numa dessas minhas jornadas, numa quinta-feira de muito calor, optei pela imundície de um boteco de esquina, obscuros esconderijos onde gelam aqueles corpanzis morenos de essência dourada. O bar era o certo, o dono é que não. Mais uma da série: “cerveja boa no lugar errado”, quer coisa mais broxante?
Um coreano era dono da mina de ouro. De português pouco entendia, embora esbanjasse uma facilidade marciana no assunto universal das cifras.
“Quanto tá o fardo?”, perguntei.
“Tlinta e seis leiais, tlinta e seis leais”, respondeu, ligando a opção “português”.
What?
A moral da história não é para você largar mão da louraça, imagine (toc, toc, toc). Mas tenha a certeza de que as piadinhas sacanas de nossa condição de amantes de cerveja estão não só nos rótulos de xampus e tampinhas de refri, mas habitam, acima de tudo, nos empreendimentos coreanos. Saibam, prezados orientais, que meu amor resistirá a qualquer custo a esse gosto por inflacionar a felicidade alheia.
2013
2012
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