Retrospectiva da Década
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Cientista da Década

Quem foi o cientista mais importante da década? Em dez anos de cobertura científica no Estadão, essa talvez seja a pauta mais difícil que já precisei encarar.

Explico minha angústia: Grandes descobertas científicas não são trabalho de um homem só (ou mulher). A maioria dos grandes trabalhos da ciência moderna leva a assinatura de cinco, seis, dez, quinze, trinta ou até centenas de cientistas.

Vejamos, por exemplo, o trabalho de sequenciamento do genoma humano – certamente um dos grandes feitos científicos da nossa década. Quem deve levar o mérito? Francis Collins, que coordenou o projeto pelo NIH? Eric Lander, que foi quem chefiou o sequenciamento no Whitehead Institute? Ou mesmo James Watson, que também foi um dos mentores intelectuais do projeto? O trabalho original publicado na revista Nature, em 2001, tem uma página inteira só de autores (não tive paciência de contar, mas são centenas), e todos fizeram a sua parte.

E as mudanças climáticas então, outro grande tema da ciência moderna? Os relatórios do IPCC, que confirmam o aquecimento global como um problema real, emergencial e causado pelo ser humano, são produzidos com a contribuição milhares de cientistas do mundo todo. Quem recebeu o Nobel em 2007 foi o atual coordenador do grupo, o indiano Rajendra Pachauri, mas na verdade o prêmio foi dividido entre todos os participantes. Ninguém “descobriu” o aquecimento global por conta própria.

Outro problema: Quais devem ser os critérios para atribuir importância a uma descoberta científica? O que vale mais: uma descoberta que ajuda a curar doenças ou uma que ajuda a desvendar a origem do universo? Quem teria sido o maior cientista da história: Albert Einstein? Charles Darwin? Galileu Galilei? Alexander Fleming (descobridor da penicilina)?

Enfim, sei que até agora só apresentei dificuldades e perguntas sem respostas, o que vai totalmente contra os meus princípios jornalísticos … Mas a pergunta é realmente difícil. Quem foi o cientista da década???

Algumas sugestões que já apareceram, feitas por internautas e por cientistas brasileiros (via email):

Craig Venter (cientista/empresário, pioneiro da genômica e da biotecnologia, que sequenciou um dos dois primeiros genomas humanos e agora tenta criar vida no laboratório, um desbravador científico… ame-o ou deixe-o, ou saia da frente)

Francis Collins (um dos principais responsáveis pelo projeto público de sequenciamento do genoma humano, atual diretor do NIH e defensor da tese de que é possível ser cientista, estudar genômica, evolução e acreditar em Deus ao mesmo tempo)

Richard Dawkins (o mais bravo bull-dog do darwinismo moderno, defensor ferrenho da evolução e da ciência como um todo, autor de “Deus, um Delírio”, um dos livros mais polêmicos e provocativos dos últimos anos)

Shinya Yamanaka (japonês que inventou a técnica para criação de células-tronco de pluripotência induzida (iPS), que dispensam embriões e provam que uma célula adulta pode ser reprogramada geneticamente para se comportar como uma célula indiferenciada)

José Goldemberg (físico brasileiro, referência mundial em energia, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, já ganhou vários prêmios internacionais nos últimos anos)

Miguel Nicolelis (neurocientista brasileiro, conhecido internacionalmente por suas pesquisas pioneiras sobre funcionamento do cérebro e desenvolvimento de neuropróteses, construiu um super centro de pesquisa/escola de ciência/centro cultural-educacional  em Natal)

Carlos Nobre (meteorologista do Inpe, cientista multiuso, maior referência científica do Brasil sobre mudanças climáticas, desmatamento e desenvolvimento da Amazônia, questões energéticas…. quase tudo que você quiser que tenha a ver com sustentabilidade e o futuro do planeta)

Andrew Fire e Craig Melo (dupla que ganhou o Nobel de Medicina de 2006 pela descoberta da interferência de RNA (RNAi), processo pelo qual pequenas moléculas de RNA silenciam a expressão de genes dentro das células… mostrando que as regiões não codificadoras de proteína do genoma (ex-”DNA lixo”) também têm uma função importante, e criando uma super ferramenta de pesquisa para o estudo de genes e aplicações biotecnológicas)

Rajendra Pachauri (presidente do IPCC, órgão científico ligado à ONU que deu o alerta geral sobre o aquecimento global, comprovando que ele é causado pelo acúmulo de gases do efeito estufa lançados na atmosfera pelo homem. Poderia ser eleito pelo conjunto da obra, em nome de todo o IPCC)

Grigori Perelman (matemático russo que solucionou o famigerado problema da conjuntura de Poincaré … não sei explicar o que é, mas sei que é importantíssimo! Ele foi escolhido para receber a medalha Fields, o Nobel da matemática, mas recusou o prêmio … então o “cientista da década” do Estadão poderia entrar como prêmio de consolação)

Lyn Evans (físico bretão, responsável pelo projeto do Large Hadron Collider, o maior e mais caro experimento científico de todos os tempos, que tem como objetivo entender as partículas que compõem o universo… tá bom ou que mais? Poderia levar o prêmio em nome de toda a equipe do LHC)

Mike Brown (astrônomo americano, o tirano de Plutão … descobriu vários planetóides em órbitas distantes do Sol, forçando a União Astronômica Internacional a rever completamente a nomenclatura que descreve a estrutura do sistema solar … e o coitado do Plutão virou “planeta anão”)

O cientista anônimo (uma homenagem aos milhares de cientistas que passam o dia pipetando, anotando e apertando botões para que seus chefes de laboratório possam publicar grandes trabalhos e ficar famosos … Os guerreiros anônimos da “big science”)

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