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Todas as minhas culpas

renatoessenfelder

25 agosto 2014 | 13:14

Culpamo-nos por tudo, o tempo inteiro. No fracasso e também no sucesso. Na adversidade e no triunfo a culpa está sempre lá, projetando sua longa sombra sobre nós.
Mas se o homem é o único animal a sentir verdadeiro pesar, irremediável culpa, o que nos destrói por dentro é também um traço de nossa identidade comum: demasiadamente humanos, irremediavelmente culpados.

arte: loro verz

 A culpa é toda minha.

O chá esfria lentamente. [Ela disse gostar de chá, e preparei um com toda a cerimônia.] A xícara repousa sobre a mesa. Infusão de cores e aromas num silêncio sem borbulhas, um silêncio sem misturas, um silêncio de folhas molhadas, névoa clara e gotículas condensadas.

Eis a única conclusão possível. Ainda que o tempo de minha culpa seja o mesmo do chá quente, e que se sucedam as culpas em espirais sem fim, as manchas úmidas sobre a mesa persistem.

Eu, poderia, afinal, ter feito melhor. Poderia ter me aplicado mais. Não quis dizer aquilo. Passe o açúcar. Não quis fazer isso. Adoçante, melhor. Eu poderia ter feito mais e melhor. Eu me culpo, puno, penalizo. Eu me mato. Torradas? Geléia?

Tudo faz com que eu me sinta culpado. Fracassar e, às vezes, vencer. Ter sorte no infortúnio. Ou azar. Perder o timing. Produzir menos do que poderia; mentir, desejar, querer mais do que deveria; abandonar planos, insistir em erros. A carne, o espírito. Passar pouco tempo com quem mais se ama, tempo demais desperdiçado. Ficar. Partir. Estamos sempre em outro lugar.

Mesmo não sentir culpa é motivo bastante para nos culparmos.

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Afundo na poltrona e me culpo por estar imóvel enquanto o mundo gira. Os livros não se escrevem sozinhos, os filhos não se criam, a casa não se limpa, o dinheiro não brota. Eu deveria trabalhar mais, limpar melhor a casa, ler mais, escrever melhor, exercitar corpo e mente, estar mais presente na vida de quem importa, sabendo que nada é para sempre.

Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. A culpa sobrevive nos meus pensamentos, dizendo-se constantemente, fazendo-se presente. É preciso me mover. Mais depressa.

Mas não podemos. O ser humano é o único animal a sentir culpa, verdadeiramente. Remorso, pesar. A culpa nos dilacera e reúne. Sob o mesmo sol, os mesmos pecados. Humanos, demasiadamente humanos.

As culpas todas, tanta gastura e flagelação inútil. Mares de sal, lágrimas de Portugal. Fardo insustentável sobre todos nós, que também nos identifica.

A culpa é toda minha, como sua, e eu sou como você.

 

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Um conto fantástico: A guerra das torres.

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