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Rivais adotam modelo da Apple

  • Por Renato Cruz
Henrique de Castro, do Google

Henrique de Castro, do Google

A Apple tem um modelo de negócios que costumava ser somente dela. A empresa fundada por Steve Jobs projeta os equipamentos, desenvolve o software e oferece uma série de serviços, como a venda de músicas, vídeos e aplicativos, para seus clientes, num sistema verticalmente integrado.

Esse modelo garante uma experiência superior para o usuário, pois evita a possibilidade de erros e conflitos que podem surgir da combinação de fornecedores múltiplos, e ao mesmo tempo, o deixa totalmente dependente da empresa.

Recentemente, o Google anunciou seu tablet Nexus 7 e a Microsoft apresentou o seu Surface. O objetivo das empresas é oferecer essa experiência superior, e garantir a fidelidade do cliente com essa estrutura vertical.

Henrique de Castro, presidente de mídia, mobilidade e plataformas globais do Google, participou na semana passada do evento Fortune Brainstorm Tech 2012, em Aspen, nos Estados Unidos. A Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) foram patrocinadoras do evento.

Durante um painel que tinha como tema “Tablets 2.0″, ele afirmou que o sistema Android, do Google, deve ultrapassar a Apple em tablets, como aconteceu nos smartphones, por ser aberto a diversos fornecedores. “O produto é melhor quando o ecossistema ao redor dele é melhor, e um sistema aberto é melhor que um sistema fechado”, disse Castro, com um Nexus 7 nas mãos.

Na edição mais recente da revista Wired, o colunista Anil Dash apontou que, em maio de 2011, chegaram ao fim restrições à atuação da Microsoft, que foram resultado do acordo antitruste que a empresa fez com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos nove anos antes. Com sua capa que também funciona como teclado, o tablet Surface refletiria esse momento da empresa fundada por Bill Gates, da sua volta ao mercado sem amarras.

“O Surface não é um equipamento ‘eu também’. Ele empurra adiante toda a categoria”, escreveu Dash. “E, com o Surface, a Microsoft não está indo para cima só da Apple; ela está sacudindo os punhos na direção de todos os seus parceiros que fabricam PCs, que têm lançado tablets e laptops medíocres por anos.”

Volta

Marc Andreessen deu início à revolução da web em 1993, quando criou o Mosaic, primeiro navegador gráfico do mundo. Homem de software, ele apontou para um ressurgimento da indústria de hardware.

“Acho que o software está se tornando tão importante que, na verdade, está levando a um novo tipo de renascimento do hardware”, disse Andreessen, semana passada, na abertura do evento. “Acho que os eletrônicos de consumo podem estar num processo de volta aos EUA. Há 30 anos, quando eu estava crescendo, havia uma grande discussão de todas as empresas de eletrônicos de consumo que estavam deixando os EUA por ser uma manufatura comoditizada.”

Ele destacou que mesmo o iPhone, apesar de ser fabricado na China, tem muitos de seus componentes produzidos nos EUA. “Todos os lucros voltam para os Estados Unidos”, disse Andreessen. Entre as empresas que receberam investimento da sua empresa, a Andreessen Horowitz, estão a Jawbone, que fabrica alto-falantes, e a Lytro, que produz câmeras. “Esses produtos são software extremamente sofisticado embalado em hardware especial. Mas as companhias que só fazem hardware vão passar por um momento muito difícil.”

Junto com o Nexus 7, o Google anunciou o Nexus Q, um aparelho que transmite vídeos, músicas e fotos de computadores e da internet para televisores, fabricado nos Estados Unidos. Andreessen acha que mais equipamentos podem começar a ser produzidos em seu país, mas ele não considera essa questão importante. “Muito do que acontece na China é juntar componentes fabricados em outros lugares. Ou fabricados na China com tecnologia americana”, destacou o investidor. “Enquanto os equipamentos forem projetados nos EUA, não importa muito onde são fabricados. Isso não tem a ver com a criação de empregos de alto valor e, francamente, existem poucos americanos dispostos a trabalhar numa linha de montagem chinesa a esses salários.”

* O repórter viajou a convite da Brasscom

Foto: Fortune Brainstorm Tech

No Estado de hoje (“Modelo de negócios da Apple conquista concorrentes“, p. B13).

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Marc Andreessen, visionário

  • Por Renato Cruz
Marc Andreessen, sócio da Andreessen Horowitz

Marc Andreessen, sócio da Andreessen Horowitz

Ele é um dos nomes mais influentes do Vale do Silício. Em 1993, aos 22 anos, Marc Andreessen criou o Mosaic, o primeiro navegador gráfico de internet, que transformou a web num fenômeno de massa. Dois anos depois, a Netscape, companhia que criou ao lado de Jim Clark, abriu o capital e deu início à corrida do ouro que culminou no estouro da primeira bolha da internet, em 2000.

Mais de uma década depois, ele acredita que o jogo está começando agora. “Com a expansão dos PCs, da internet e agora dos smartphones, estamos finalmente chegando próximos do sonho de ter a internet nas mãos de todo mundo”, disse ontem Andreessen, que participou da abertura do evento Fortune Brainstorm Tech 2012, em Aspen, nos Estados Unidos. A Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) é um dos patrocinadores do evento.

“São 2 bilhões de usuários de internet no mundo e, em breve, serão 5 bilhões de smartphones”, disse.

Atualmente, Andreesen está à frente de uma empresa de investimentos chamada Andreessen Horowitz, que conseguiu levantar US$ 2,7 bilhões em três anos de existência. Fazem parte de sua carteira estrelas da internet, como Facebook, Foursquare, Groupon, Instagram, Pinterest, Skype, Twitter e Zynga. Quando a revista americana Wired, uma das publicações de tecnologia mais conceituadas do mundo, resolveu comemorar seus 20 anos com uma série de entrevistas com visionários, o primeiro da lista foi Marc Andreessen.

Num cenário em que a internet se torna disponível para a maioria das pessoas, companhias de diversos setores podem passar a funcionar como se fossem empresas de internet. “Vejo surgir companhias no estilo pontocom nas mais diversas áreas”, disse Andreessen, citando como exemplo a Solum, uma empresa de seu portfólio de investimentos, que aplica a tecnologia de computação em nuvem em testes de solo para agricultura.

Ele também apontou, como tendência importante, “uma nova renascença do setor de hardware”. “Os eletrônicos de consumo estão voltando para os Estados Unidos”, afirmou Andreessen. “São produtos com software extremamente sofisticados, que rodam hardware especial.” É o caso da Lytro, que também faz parte da carteira da Andreessen Horowitz, que criou uma câmera que permite ao usuário escolher o foco da fotografia depois que ela já foi tirada.

Andreessen prevê momentos difíceis, no entanto, para empresas especializadas somente em hardware. “O que diferencia a Sony da Apple é o software, e não o hardware”, disse. A Sony, que foi por muitos anos a grande referência no mercado mundial de eletrônicos de consumo, enfrenta uma séria crise, com perdas bilionárias, enquanto a Apple define tendências com equipamentos como o iPhone e o iPad.

Abertura de capital

Marc Andreessen é um dos integrantes do conselho do Facebook. Ele preferiu não dizer se achava a abertura de capital da maior rede social um sucesso ou um fracasso, mas fez alguns comentários sobre a situação do mercado acionário.

“Muitas empresas boas estão sendo mantidas com o capital fechado por mais tempo”, disse Andreessen. “As regras atuais tornaram muito difícil ser uma empresa de capital aberto.” Regulamentos como Sarbanes-Oxley, criados para trazer mais segurança ao investidor, acabaram tendo um efeito indesejado, disse.

Segundo ele, isso tem tirado opções de investimento de fundos de pensão e fundos mútuos, que não podem colocar dinheiro em empresas de capital fechado.

O Facebook aumentou o valor de suas ações antes da abertura de capital e o volume de papéis oferecido. No dia do lançamento, não subiu 100% como muitos esperavam, que caiu fortemente nos dias seguintes. Apesar de não poder comentar sobre o caso do Facebook, Andreessen disse que existem dois tipos de IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês).

Num deles, as ações são subvalorizadas para o lançamento e dobram de preço no primeiro dia. “Quem compra as ações na oferta pública fica feliz, mas, por outro lado, a empresa que abriu o capital acaba com menos dinheiro sobre a mesa”, afirmou Andreessen.

No outro tipo, as ações são vendidas por um preço mais próximo do que elas realmente valem, os investidores reclamam, mas a empresa fica com mais dinheiro em caixa. “Acho que esse é o tipo certo”, disse o investidor.

* O repórter viajou a convite da Brasscom

No Estado de hoje (“‘Na internet, o jogo só está começando’, diz fundador da Netscape“, p. B12).

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Como investir em tecnologia

  • Por Renato Cruz

Casado com brasileira, o irlandês John O’Farrell (foto) fala português. Ele é sócio na empresa de investimentos Andreessen Horowitz, que tem participação em estrelas da mídia social como Facebook, Twitter, Zynga e Groupon. Com Marc Andreessen e Ben Horowitz, esteve à frente da Loudcloud, pioneira da computação em nuvem que, depois do estouro da bolha da internet, em 2000, foi transformada na empresa de software Opsware e vendida para a HP por US$ 1,6 bilhão.

“Marc disse uma vez que o empreendedor só experimenta dois sentimentos: euforia e terror”, destacou O”Farrell, referindo-se ao sócio, fundador da Netscape, companhia que tornou popular o navegador de internet. “É muito difícil criar uma empresa de sucesso.” O”Farrell recebeu o Estado em seu escritório na Sand Hill Road, em Menlo Park, para falar sobre como escolhe empresas para investir e sobre o que torna único o Vale do Silício único. A seguir, trechos da entrevista.

Como foi a experiência na Loudcloud?

Ingressei na Opsware, que na época ainda se chamava Loudcloud, em março de 2001. As condições econômicas eram bem diferentes, bastante difíceis. Tínhamos muitos desafios. Por um ano ou dois reduzimos muito a equipe. De uma empresa de infraestrutura, mudamos para software, e então tivemos bastante sucesso.

Vocês foram os pioneiros da computação em nuvem?

De certa forma, fomos a primeira empresa de computação em nuvem, dez anos antes do tempo. A tecnologia ainda não estava pronta. Os equipamentos eram muito caros. Não conseguimos tirar uma vantagem total daquela tecnologia. Tínhamos o conceito de oferecer serviços de cloud computing (infraestrutura e software com serviço), e os clientes gostavam. Mas era muito caro para operar. Vou dar um exemplo rápido. Cobrávamos de um cliente típico, para rodar um site crítico para ele, US$ 150 mil por mês, incluindo espaço de data center, servidores, armazenamento de dados e infraestrutura de rede. Hoje, na Amazon ou na Rackspace, é possível rodar o mesmo site por US$ 1,5 mil. Um centésimo. O conceito era ótimo, mas a tecnologia não estava pronta.

Como vocês escolhem as empresas em que investem?

Acreditamos que poucas empresas geram a maior parte do valor entre todas as companhias fundadas num determinado ano. Pesquisas indicam que 15 startups vão tornar-se responsáveis por 90% do valor gerado por todas as empresas fundadas naquele ano. Em 2011, milhares de empresas estão sendo criadas, e acreditamos que vale a pena investir em um porcentual muito pequeno delas. Nosso objetivo é encontrar essas empresas e investir nelas em qualquer estágio em que elas precisem de dinheiro. Somos investidores de múltiplos estágios. Investimos muito ativamente no estágio de semente, em que o montante pode ser de apenas US$ 50 mil. Somos muito ativos em capital de risco e também investimos em empresas em estágio mais avançado, que chamamos de estágio de crescimento. Não quero dizer empresas maduras, mas empresas que já têm um bom faturamento e muitos clientes e ainda têm um vasto mercado disponível, com grande potencial para crescer. Alguns exemplos são Facebook, Twitter, Zynga, Skype e Groupon. Não estávamos entre os primeiros investidores dessas empresas. Temos somente dois anos. Mas não hesitamos nem um pouco para investirmos nesse tipo de empresa.

Como vocês avaliam o potencial?

Procuramos mercados gigantes, que permitem às empresas terem faturamento de muitos bilhões de dólares. Se a empresa precisa conquistar 90% do mercado para faturar US$ 1 bilhão, está no mercado errado e não é um alvo de investimento para nós. Somos muito focados no empreendedor. Temos preferência por fundadores com conhecimento técnico. É possível transformar um ótimo engenheiro num ótimo executivo, mas é impossível transformar um ótimo executivo num ótimo engenheiro. Isso levaria muitos anos de estudo universitário. Acreditamos muito em tecnologia. Principalmente nos estágios de semente e capital de risco, evitamos empresas que ofereçam inovações de modelo de negócios. Preferimos inovações tecnológicas. Somos muito seletivos. Passamos 99% do nosso tempo dizendo não. Analisamos muitas empresas boas, e escolhemos as que são mesmo excepcionais.

Como identificar vencedores?

Nunca temos 100% de certeza. Num estágio inicial, procuramos essa combinação de mercado, empreendedor e tecnologia. Quando analisamos o empreendedor, olhamos o que ele fez até agora. Nós investimos em empreendedores de primeira viagem, mas adoramos pessoas com experiência prévia. No nosso portfólio, metade são empreendedores em sua primeira vez e metade são indivíduos em sua segunda ou terceira empresa. Gostamos de ver fracasso no passado tanto quanto sucesso, porque o fracasso ensina muito. Do ponto de vista pessoal, somos muito focados no Vale do Silício, porque temos uma rede de relacionamentos muito forte aqui. Para qualquer empreendedor do Vale do Silício que venha até nós procurando investimento, conhecemos ou conseguimos encontrar, muito rapidamente, pessoas que trabalharam com ele no passado, muitas referências. Essa é uma das razões pelas quais não fazemos investimentos em estágios iniciais no Brasil ou outros países. Não temos essa rede de relacionamento. Fora daqui, podemos fazer investimento em empresas num estágio mais adiantado, que já provaram alguma coisa. Numa empresa em estágio inicial, a aposta é na pessoa.

Essa rede de relacionamentos é o motivo de vocês estarem aqui?

É um deles. Esta região é muito especial. Em primeiro lugar, levou muito tempo para se desenvolver. A indústria de tecnologia aqui tem mais de 50 anos. Muitos países do mundo, incluindo o meu, que é a Irlanda, tentaram criar um pequeno Vale do Silício. Tiveram algum sucesso, mas nada como este lugar, em termos de escala. Alguns motivos são ótimas universidades. O Vale do Silício começou ao redor de Stanford, e Berkeley também. Temos a comunidade de capital de risco, que é muito forte. A Sand Hill Road tem uma longa tradição de empresas dispostas a correr riscos. O ecossistema é muito importante. Existem empresas muito grandes, que eram iniciantes há alguns anos, e também empresas mais novas. Temos Google e Facebook, Apple e HP, Cisco e eBay e outras. Elas são parceiras, clientes e muitas vezes adquirem as empresas menores. Muitas pessoas ganham experiência nessas empresas, antes de criar a sua própria. A Califórnia atrai pessoas de toda parte do mundo, que querem fazer diferença. Num restaurante do Vale do Silício, é possível ouvir todas as línguas do mundo.

Qual é o papel do governo por aqui?

O governo exerce algum papel, por exemplo, no tratamento tributário dos investimentos, que sempre foi muito favorável. O investimento de capital de risco é tratado como ganho de capital, com uma taxa de 20%. Isso incentiva as pessoas a colocar dinheiro em investimentos de tecnologia de alto risco. Outros aspectos são educação e infraestrutura. Também é importante lembrar que muito da tecnologia desenvolvida aqui no início foi financiada pelo governo.

Mas foi intencional?

Não, e esse é um ponto importante. É difícil recriar este ambiente exclusivamente com ações de governo. Pode ajudar. Se eu fosse destacar uma coisa que o governo pode fazer, e que faz deste lugar um sucesso, é a educação.

No Estado de hoje (“‘Buscamos potencial de bilhões de dólares’“, p. B15).

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