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Renato Cruz

Para acreditar no ‘hype’

Coluna do Renato Cruz: Para acreditar no 'hype'

A expressão “internet das coisas” foi colocada pela consultoria Gartner como o ponto mais alto do “pico das expectativas exageradas” em seu relatório Ciclo de Hype para Tecnologias Emergentes 2014, divulgado na semana passada. “Hype” significa promoção excessiva e teve origem, provavelmente, na contração da palavra “hyperbole” (hipérbole).

O setor de tecnologia é cheio de “hype”. Produtos e conceitos surgem e passam a ser discutidos como se fossem resposta para todos os problemas. Esse hype acaba por direcionar a indústria, a atuação de empreendedores e a decisão de investidores. A web já foi alvo desse tipo de atenção a partir de meados dos anos 1990, o que acabou gerando a bolha de tecnologia que estourou em 2000.

A internet das coisas é a tendência de que todos os produtos e equipamentos passem a ser conectados. A comunicação entre máquinas, sem intervenção humana, deve ultrapassar em muito a comunicação interpessoal ou o acesso à informação por pessoas. Ela passa pelos carros autônomos e pelas cidades inteligentes (cheias de câmeras, sensores e processamento em tempo real de dados de inúmeras fontes), pelos robôs industriais que não precisam ser programados e pelas casas automatizadas, que sabem o que fazer a partir do comportamento dos residentes.

A Gartner analisou mais de 2 mil tecnologias de 119 áreas, e as dividiu em cinco estágios do “ciclo do hype”: gatilho da inovação, pico das expectativas exageradas, vale da desilusão, aclive do esclarecimento e platô da produtividade. Ou seja, a tecnologia surge, atrai uma atenção excessiva, decepciona as pessoas, começa a ser entendida de forma realista e, finalmente, é incorporada ao cotidiano.

Segundo a Gartner, a tradução da fala em tempo real está próxima de chegar ao pico das expectativas exageradas, assim como os veículos autônomos, que não precisam de motorista. A impressão tridimensional para uso doméstico e as criptomoedas (como as bitcoins) estão deixando esse pico e se movendo para o vale da desilusão. A realidade virtual começa a sair do vale da desilusão, rumo ao aclive do esclarecimento.

A realidade virtual tem uma história curiosa. Há mais de 20 anos a tecnologia de óculos especiais que permite interagir com um ambiente eletrônico imersivo, que cria uma alternativa à realidade, vem sendo promovida pela indústria. Nunca pegou de verdade. Recentemente, o entusiasmo voltou com o surgimento do Oculus Rift, comprado pelo Facebook, que promete realidade virtual sem enjoos. Esse era o principal problema da tecnologia original, insuportável para uma boa parcela da população.

Mas cabe a cada consumidor decidir se deve, ou não, acreditar no hype.

Retorno

Quando a linguagem de programação Java foi lançada, há quase duas décadas, a Sun Microsystems, que a havia criado, demonstrou um anel Java. Era um anel com um pequeno processador capaz de rodar programas escritos em Java. Não servia para grande coisa além de mostrar a possibilidade de se colocar software em qualquer dispositivo.  Na semana passada, uma startup americana, chamada Ringly, retomou a ideia e anunciou um anel inteligente, que se conecta ao celular e avisa o usuário de alertas de aplicativos, mensagens de texto e ligações.

Fundo

A tecnologia de Near Field Communication (NFC), que permite, por exemplo, pagar uma conta ao aproximar o celular de um sensor, e a computação em nuvem estão hoje no ponto mais baixo do vale da desilusão, de acordo com a Gartner.

No Estado de hoje (“Para acreditar no ‘hype’“, B9).

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