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Renato Cruz

Inovação na indústria

Coluna do Renato Cruz: Inovação na indústria

Quando o governo anunciou a criação da Embrapii, há três anos, a ideia pareceu meio estranha. A Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – que tinha como proposta inicial se chamar Empresa, e não Associação – foi propagandeada como a “Embrapa da Indústria”. Não fazia muito sentido.

Grande parte do sucesso do agronegócio brasileiro se deve a trabalhos desenvolvidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Antes da criação da estatal, o cerrado era considerado uma região imprópria para o plantio. As tecnologias de sementes e de tratamento do solo desenvolvidas pela Embrapa permitiram que o Brasil alcançasse posição de destaque no cenário mundial de produção agrícola.

Mas a indústria é diferente. Um trabalho da Embrapa beneficia todo um setor, ou toda uma região. Por definição, commodities são produtos não diferenciados. Não existe problema se todos os produtores de soja cultivarem a mesma soja. Agora a indústria exige produtos com características próprias, diferentes daqueles oferecidos pelos concorrentes.

“A analogia é por causa do impacto esperado”, explicou João Fernando Gomes de Oliveira, diretor-presidente da Embrapii. Conversei com ele sobre os primeiros contratos de cooperação assinados pela empresa com institutos de ciência e tecnologia da Embrapii. Os centros credenciados são três – Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) –, que já haviam participado da fase piloto da Embrapii.

O modelo da Embrapii é bem diferente do da Embrapa. A Embrapii não toca os projetos de pesquisa diretamente, mas através de uma rede de institutos credenciados. Além dos três iniciais, existe um edital aberto para selecionar mais 10 e a ideia é que se chegue até o fim do ano com um total de 23.

Os projetos são desenvolvidos para empresas específicas, e não para setores ou regiões. Na fase piloto da Embrapii, por exemplo, o Senai Cimatec desenvolveu um bico queimador “multiflex” para a Votorantim Metais, para uso com combustíveis sólido, líquido e gasoso, num projeto de R$ 2,5 milhões.

A Embrapii entra com um terço dos recursos, e a empresa interessada no projeto com pelo menos um terço. O restante deve ser complementado pela instituição de pesquisa, e pode vir na forma de mão de obra e instalações. Os 10 institutos que vão ser escolhidos no edital que está em andamento devem receber um aporte de R$ 500 milhões, o que significa apoio a R$ 1,5 bilhão em projetos.

Para Rafael Lucchesi, presidente do Senai, além de alavancar recursos para projetos, a Embrapii deve aproximar os institutos de pesquisa das demandas reais da indústria.

Pessoal

Antes de comandar a Embrapii, João Fernando Gomes de Oliveira esteve à frente do IPT. Ele explicou que o modelo adotado pela empresa de inovação industrial deve ajudar as instituições de pesquisa a manter suas equipes. “Muita gente no Brasil tem infraestrutura, mas enfrenta uma dificuldade gigante de pagar o pessoal”, disse Oliveira. “Quando acaba um projeto, pode ser muito difícil reter pessoas.”

Competitividade

A indústria brasileira enfrenta um desafio de competitividade. Até o mês passado, a participação dos produtos manufaturados nas exportações brasileiras tinha ficado em 34,8% do total, abaixo dos 36,9% do mesmo período de 2013. Há 10 anos, em 2004, a fatia desses produtos nas vendas externas do País era de 54,3%. A mudança desse quadro exige, entre outras coisas, um esforço de inovação.

No Estado de hoje (“Inovação na indústria“, p. B13).

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