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Renato Cruz

Dinheiro não basta para inovar

Empresa de biotecnologia em Belo Horizonte

Empresa de biotecnologia em Belo Horizonte

Nos últimos anos, o governo tem feito um esforço para financiar a inovação no Brasil.Os empresários vêm se mobilizando em torno do tema, essencial para a competitividade. Os indicadores de inovação,no entanto, avançam muito pouco, quando avançam.Por que isso acontece?

Financiamento é somente um dos componentes necessários para que a inovação deslanche. O governo americano, por exemplo, coloca muito dinheiro em ciência, tecnologia e inovação, por meio de diversas agências e departamentos.

O algoritmo de buscas do Google foi criado quando Larry Page e Sergey Brin faziam doutorado em Stanford, e participavam de um projeto financiado pela National Science Foundation (NSF), agência americana de apoio à pesquisa e à educação. O Vale do Silício surgiu na Califórnia graças a grandes investimentos do governo em pesquisa nas universidades da região depois da Segunda Guerra.

Mas não é só isso. Por aqui, ainda não são comuns projetos que nascem na universidade e se transformam em empresas.O relacionamento entre setor privado e academia tem melhorado recentemente, mas ainda existem muitas incertezas. Uma delas, apontada na durante o evento Fóruns Estadão – Inovação, Infraestrutura e Competitividade, na quarta-feira, diz respeito à propriedade intelectual. As empresas fecham acordo com universidades públicas e depois o acordo acaba sendo contestado na Justiça.

Um fator importante que dificulta a inovação no Brasil é a falta de internacionalização. Se um setor é protegido por impostos de importação, por exemplo, as empresas não precisam ser tão competitivas, e por isso não sentem tanta necessidade de inovar.

Muitas companhias brasileiras são voltadas para dentro, tendo como única ambição atender o mercado interno. É muito diferente do que acontece com as startups americanas. Você visita uma companhia recém-criada por lá,com três pessoas trabalhando, e eles já têm planos de dominar o mundo. As empresas de tecnologia de Israel, até pelo tamanho do país, nascem sempre com pretensões internacionais. Países como Japão, Coreia e agora China tiveram sucesso em criar gigantes globais de tecnologia. Tirando a Embraer, onde estão os nossos?

Uma exceção no cenário brasileiro é a agricultura. Antes da Embrapa, estatal de pesquisas agrícolas, a região do Cerrado era vista como inadequada à produção. Foi com muita tecnologia que as commodities brasileiras se tornaram competitivas no mercado global,apesar de todos os problemas de infraestrutura logística.

Grandes empresas instaladas no País, de capital nacional ou estrangeiro, investem em inovação. Mas a maioria das pequenas e médias está fora desse jogo.Elas consideram o processo de inovação muito caro e incerto, e não se arriscam nem mesmo a tentar.

Existe uma ideia errada de que, para inovar, é necessário desenvolver tecnologia. Mas não. O conhecimento transformado em dinheiro no processo de inovação não precisa ter origem na própria empresa. Ele pode vir da academia, de centros de pesquisa e até de clientes e fornecedores. O importante é o resultado que se tem a partir da tecnologia, e não sua origem.

A burocracia que torna tudo difícil por aqui também paralisa as atividades inovadoras. Existem mecanismos tributários interessantes de apoio à inovação,mas muitas empresas sentem insegurança de usá-los, porque não sabem se esse uso será contestado posteriormente pela fiscalização.

Para inovar, é importante poder errar e tentar de novo. No Brasil, isso é bem mais difícil. O risco que o investidor corre, ao colocar seu dinheiro em uma empresa iniciante, não se limita ao valor desembolsado. Em outros países, se a empresa quebra, ele perde o dinheiro e pronto. No Brasil, pode herdar o passivo da empresa que quebrou, e perder seu patrimônio pessoal para pagar as dívidas que sobraram.

No Vale do Silício, existem empreendedores que criam duas ou três empresas fracassadas antes de seu primeiro sucesso. Por aqui, se quebrar, o empreendedor pode levar muitos anos até conseguir se recuperar.

Para a inovação decolar no Brasil, falta ambiente econômico adequado. E também falta ambição. Tanto das empresas quanto das políticas públicas. Enquanto existir essa mentalidade voltada para dentro, de atender e de proteger o mercado interno, vai ser difícil inovar.

No Estado de hoje (“Dinheiro é só uma parte”, p. B9).

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