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Renato Cruz

A reinvenção da música

Coluna do Renato Cruz: A reinvenção da música

Parte do charme retrô do filme Guardiões da Galáxia vem do walkman (daqueles antigos, de fita) que o protagonista carrega. O cassete sempre presente no tocador traz sucessos dos anos 1970 selecionados pela mãe de Peter Quill, também conhecido por Star-Lord. Ele ouve a fita em suas viagens espaciais como uma forma de se conectar com o passado terrestre.

São memórias de uma época em que música era um bem escasso. As pessoas gravavam cassetes com seleções de faixas dos discos de vinil (ou de outras fitas) e repassavam para os amigos. A internet mudou isso. Legal ou ilegalmente, as pessoas passaram a ter acesso a todas as canções que quisessem, e a música perdeu um pouco desse lado social.

Mas começou uma nova mudança. No ano passado, pela primeira vez, as vendas mundiais de músicas por download caíram. Apesar de ainda representarem dois terços dos US$ 6 bilhões que a música digital movimentou no ano passado, o faturamento com faixas em MP3 caiu 2%.

O modelo está se deslocando da posse para o acesso. Os serviços de streaming (em que as pessoas ouvem as músicas sem ter de baixá-las) renderam, também pela primeira vez, mais de US$ 1 bilhão, com um crescimento de 51%, segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica.

“Mais da metade foi o Spotify quem pagou”, afirma Gustavo Diament, diretor geral da empresa para a América Latina, com quem conversei semana passada. Desde seu lançamento em 2008, na Suécia, o Spotify pagou quase US$ 1 bilhão em royalties, sendo mais da metade em 2013. “No ano passado, tínhamos em média 24 milhões de usuários. Hoje, temos mais de 40 milhões. A curva para a indústria é exponencial.”

Disponível no Brasil desde o fim de maio, o Spotify é uma das principais alternativas de serviço de streaming. Por aqui, tem concorrentes como o Rdio, parceiro da Oi, e o Napster (hoje totalmente legal), parceiro da Vivo. Outros rivais são empresas como Deezer, Pandora e, principalmente, YouTube, que, apesar de ser um site de vídeos, é um dos principais destinos para quem quer ouvir música de graça na rede.

O Spotify oferece tanto a modalidade gratuita, com anúncios, quanto um pacote pago, que permite baixar as músicas no dispositivo móvel ou PC. Segundo Diament, os serviços de streaming acabam por reduzir a pirataria: “Estamos trazendo dinheiro novo ao mercado”.

Em 1999, o Napster surgiu e acabou transformando o mundo da música. As pessoas começaram a baixar arquivos piratas da internet, sem que houvesse uma alternativa dentro da lei. O efeito foi devastador. Somente com o iTunes, da Apple, lançado dois anos depois, as gravadoras encontraram um modelo viável de vendas pela rede. Da mesma maneira que substituiu o CD, o download está sendo substituído pelo streaming.

Coletâneas

Da mesma forma que a mãe do guardião da galáxia Star-Lord gravou uma fita cassete com as músicas que marcaram a sua adolescência, hoje, com os serviços de streaming, é possível criar seleções especiais. Existem listas prontas para as mais diversas ocasiões. Para malhar, para descansar, para estudar. Você escolhe as músicas, a ocasião, e o nome da playlist. Pode selecionar músicas alegres e colocá-las numa lista chamada “Candy Pink Stove”. Ou criar uma lista chamada “All I wanna do”, para quem você gosta. A experiência da música volta a ser ao mesmo tempo pessoal e social.

Modelo

Atualmente, um quarto dos usuários do Spotify contrata o serviço pago. Eles são, no entanto, responsáveis por 80% do faturamento da companhia. “Temos o privilégio de ter um modelo híbrido”, afirma Diament.

No Estado de hoje (“A reinvenção da música“, p. B10).

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