Estadão.com.br
1
Renato Cruz
SEÇÕES
TAMANHO DO TEXTO
Renato Cruz
  • Twitter
  • Facebook
  • DIGG
  • RSS  ?

Vídeo: O IPO do Facebook

  • Por Renato Cruz

Comento, para a TV Estadão, o IPO do Facebook, realizado hoje.

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Tópicos relacionados

Grupo Ultra troca de comando

  • Por Renato Cruz

O Grupo Ultra – dono de empresas como Ipiranga, Ultragaz e Oxiteno – anunciou ontem uma mudança de comando. Pedro Wongtschowski, diretor-presidente da Ultrapar, a holding do grupo, será substituído a partir de 1.º de janeiro de 2013 por Thilo Mannhardt, ex-sócio sênior da McKinsey e integrante do conselho de administração da Ultrapar.

“Há cinco anos, planejamos que a sucessão seria agora”, afirmou Paulo Cunha, presidente do conselho de administração da Ultrapar. “Fizemos um processo de escolha muito cuidadoso, e, por isso, a sucessão será em seis anos, no lugar de cinco.” Wongtschowski está à frente do grupo desde o começo de 2007.

“Foram seis anos extraordinários, com crescimento de 20% ano a ano e aquisições de novos negócios”, disse Cunha. “A administração do Pedro colocou o grupo em outro patamar.”

O presidente do conselho da Ultrapar afirmou que o novo diretor-presidente tem como missão dar continuidade a esse trabalho, e não reestruturar o grupo. “O Pedro recebeu o objetivo de dobrar o valor do grupo em cinco anos, e superou isso. O Thilo também vai receber essa meta, de dobrar o valor em cinco anos, seguindo a tradição.”

Segundo Cunha, um dos objetivos de Mannhardt será “reforçar o equipamento humano” nas empresas do grupo. “Fiquei um pouco frustrado de que o sucessor não foi interno, porque não tinha ninguém pronto”, disse o presidente do conselho. “Uma das missões do Thilo será preparar não só alguém, mas ‘alguéns’ para daqui cinco anos.”

Mannhardt foi um dos responsáveis pelo lançamento e pela gestão da consultoria McKinsey no Brasil nas décadas de 80 e 90, tendo dirigido também as operações da empresa no México e na África do Sul. Cunha destacou que, apesar de vir da McKinsey, o executivo trabalha em projetos do Grupo Ultra há mais de 15 anos, e participa do conselho de administração da empresa desde abril de 2011.

“Fazer um anúncio antecipado de sucessão é inédito nas grandes empresas brasileiras, mas comum internacionalmente”, afirmou Wongtschowski. “É um marco civilizatório no nosso mercado.” A partir de 2013, Wongtschowski será integrante do conselho de administração da Ultrapar.

Expansão

Com cerca de 9 mil funcionários, A Ultrapar teve receita líquida de R$ 48,7 bilhões no ano passado, e lucro líquido de R$ 854,8 milhões. O grupo começou com uma empresa de venda de botijões de gás de porta em porta, em 1937, que deu origem à Ultragaz. Em 2007, a empresa adquiriu as operações do Grupo Ipiranga nas regiões Sul e Sudeste. O grupo também controla a Oxiteno, que atua no setor petroquímico, e a Ultracargo, de transporte e armazenagem.

A Ultrapar planeja investir R$ 1,088 bilhão este ano, valor que não inclui possíveis aquisições. A maior parte do investimento será destinada à Ipiranga, que receberá R$ 775 milhões, principalmente para a ampliação da rede de postos. “Buscamos oportunidades de aquisições em todos os negócios”, disse Wongtschowski. Em abril, a Oxiteno anunciou uma aquisição nos EUA. A empresa pagou US$ 15 milhões por uma unidade de especialidades químicas da Pasadena Property, em Pasadena, no Texas.

“Foi somente uma aquisição pequena, somente o primeiro passo para entrarmos no mercado americano”, explicou o diretor-presidente da Ultrapar. “Temos tecnologia, processos e produtos para alcançarmos o sucesso nos EUA.”

“Nenhuma empresa do setor petroquímico pode estar fora dos EUA”, afirmou Cunha. “A matéria-prima custa a metade do que custa no Brasil. A energia é um terço. Não dá para ser competitivo sem estar nos EUA.” A Oxiteno também tem operações no México e na Venezuela.

No Estado de hoje (“Grupo Ultra anuncia mudança de comando“, p. B18).

Siga este blog no Twitter: @rcruz

56 episódios de Star Trek

  • Por Renato Cruz

Para quem está sem tempo, twilight1138 juntou num vídeo só 56 episódios de Jornada nas Estrelas, com áudio. São as duas primeiras temporadas, menos o piloto da série, que foi trocado pelo primeiro episódio da terceira temporada “porque era longo demais”.

Via Neatorama.

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Tópicos relacionados

iPhone tijolão

  • Por Renato Cruz

iPhone tijolão

A designer Addie Wagenknecht, da Nortd Labs, criou um acessório, feito com impressora 3D, que transforma o iPhone num tijolão, parecido com os celulares que existiam há 20 anos.

Para impressionar amigos, vizinhos e parentes.

Via Make.

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Tópicos relacionados

Siemens procura startups

  • Por Renato Cruz
Ronald Dauscha, diretor de Tecnologia e Inovação da Siemens no Brasil

Ronald Dauscha, diretor da Siemens

As empresas iniciantes brasileiras atraem a atenção do mundo. A Siemens resolveu trazer ao País o programa New Ventures Forum, para investir em startups brasileiras das áreas de energia e biocombustíveis. A empresa alemã receberá projetos até 15 de junho, e vai selecionar de seis a dez deles, que podem receber até US$ 1 milhão cada, em troca de uma participação acionária.

A ideia é que, em até dois anos, as empresas de sucesso sejam absorvidas pela Siemens. Esse programa de “spin in” (incorporação de empresas) da Siemens existe somente em duas outras cidades: Berkeley, nos Estados Unidos, e Xangai, na China.

“Foi uma vitória conseguirmos trazer a iniciativa para o Brasil”, disse Ronald Dauscha, diretor de Tecnologia e Inovação da Siemens no Brasil. “Outros países em que estamos presentes, como Israel e Japão, também estão interessados em recebê-la.”

A Siemens espera receber cerca de 120 inscrições. O público-alvo são as 6 mil empresas das cerca de 400 incubadoras existentes no País. As candidatas devem faturar até R$ 2 milhões. “Pode ser também uma ideia, um plano de negócios”, explicou Dauscha.

As empresas selecionadas passarão por um processo de preparação de três dias, em setembro, e depois serão avaliadas por uma equipe formada por especialistas independentes e representantes da Siemens. As inscrições devem ser feitas até 15 de junho, e as informações estão em www.siemens.com.br/ttbx-brasil.

O objetivo é fortalecer e ampliar o portfólio de produtos e serviços da Siemens. Já foram incorporadas uma dezena de empresas que passaram pelo programa em Berkeley e uma dezena em Xangai. Uma das empresas americanas desenvolveu um sistema de Wi-Fi (rede local sem fio) resistente a ruído, para ser usado em ambientes industriais, e se transformou num negócio de US$ 40 milhões.

A Siemens tem seis centros de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, e está para inaugurar o sétimo, no Rio de Janeiro, especializado no setor de óleo e gás.

Interesse

O Brasil tem atraído investidores do mundo todo. A Telefônica lançou no ano passado o projeto Wayra, para investir em startups brasileiras. A Intel Capital já investe há vários anos em empresas locais. Além disso, os fundos internacionais de investimento têm criado escritórios no País, como é o caso do Redpoint, que colocou recursos em quatro startups brasileiras.

Foto: Teque / Divulgação

No Estado de hoje (“Siemens investirá em empresas iniciantes brasileiras“, p. B20).

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Tópicos relacionados

O Instagram vale US$ 1 bi?

  • Por Renato Cruz

Custo por usuário do Instagram e de outras empresas

O empreendedor Andy Baio, que escreve para a Wired, acha que sim. Ele comparou os valores pagos por usuário em 30 aquisições de empresas de internet, que aconteceram na última década. O Facebook pagou cerca US$ 28 por usuário do Instagram, levando em conta uma base de cerca de 35 milhões de pessoas. É menos, por exemplo, que os US$ 240 por usuário do Skype que o eBay pagou em 2005. Ou mesmo que os US$ 48 que o Google pagou por usuário do YouTube, em 2006.

Ele nem colocou no gráfico a aquisição da Broadcast.com pelo Yahoo, em 1999, por US$ 5,7 bilhões. O portal de internet desembolsou a fortuna de US$ 11 mil por usuário. A média dos 30 negócios é de US$ 92 por usuário.

Se a medida for outra, no entanto, o custo por funcionário, o Instagram está bem fora da curva. O Facebook pago US$ 77 milhões por funcionário (somente 13 pessoas trabalham no Instagram). A média das aquisições analisadas é de US$ 3 milhões por funcionário.

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Tópicos relacionados

O polo de tecnologia do Rio

  • Por Renato Cruz
Sistema de recebimento por cartão da Pagpop

Sistema de recebimento por cartão da PagPop

O mercado de tecnologia do Rio de Janeiro nunca esteve tão aquecido. Semana passada, a americana Cisco, maior fabricante de equipamentos de redes de comunicação, anunciou um investimento de R$ 1 bilhão para o Brasil, o que inclui a instalação de um centro de inovação na cidade. Outras grandes multinacionais, como IBM e GE, também anunciaram operações de pesquisa e desenvolvimento na cidade. A Petrobrás, com o projeto do pré-sal, atraiu centros de fornecedores como a Schlumberger e a FMC.

Mas nem só de grandes empresas vive a cena tecnológica do Rio. A cidade – que abriga centros de excelência de ensino e pesquisa como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) – é berço de startups promissoras. Esse ambiente tem atraído investidores nacionais e internacionais.

Para fazer a ponte entre investidores e empreendedores, foi criada no ano passado a aceleradora de negócios 21212 (que combina, no seu nome, os códigos de área de telefonia do Rio e de Nova York). Eles estão recebendo inscrições para a segunda leva de empresas a ser aceleradas.

Funciona assim: as empresas selecionadas ficam seis meses instaladas no escritório da aceleradora, recebendo consultoria (de negócios, de design, tecnológica, jurídica e contábil), para que, no fim desse período, estejam prontas para receber um investimento.

“Elas recebem R$ 200 mil em serviços”, disse Frederico Lacerda, um dos fundadores da 21212. Em troca, a 21212 recebe 20% de participação no capital de cada empresa acelerada. “Somos um grupo de ex-empreendedores, que resolveu criar uma iniciativa para que novos negócios se desenvolvessem de forma mais rápida.” Um dos modelos é a Y Combinator, do Vale do Silício.

Segundo Lacerda, apesar do mercado aquecido, existe uma distância enorme entre os empreendedores, que muitas vezes não estão preparados para receber investimento, e investidores internacionais, que têm interesse no Brasil e não conhecem o mercado. A 21212 tem como objetivo reduzir essa distância.

Mudança

Dez empresas já passaram pela aceleradora, num ciclo que foi de setembro a março. Uma delas é a PagPop, de meios de pagamento por celular, internet e telefone. Ela havia sido criada há mais de quatro anos em Ribeirão Preto (SP), como Vital Cred. “A mudança de marca aconteceu há um mês”, afirmou seu fundador, Márcio Campos. “Durante o tempo em que estivemos na aceleradora, ajustamos o que já vínhamos fazendo.”

Um desses ajustes foi a criação de um leitor de cartão de crédito que pode ser acoplado ao smartphone. Lembra bastante o que faz a americana Square, criada por Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter. “Não considero o PagPop um copycat do Square”, disse. “Estamos no mercado há quatro anos. Já fazíamos captura de transações por voz e internet.”

Aos 36 anos, o fundador da PagPop é dentista de formação. “Tive outras empresas, sou empreendedor desde os 19 anos”, afirmou. “Como dentista, me sentia incomodado de não poder aceitar cartões para parcelar os pagamentos. No cheque, a inadimplência é muito alta.”

O Brasil passa por um momento único de atração de investimento. No ano passado, o estoque de capital comprometido com private equity e venture capital no País chegou a US$ 36,1 bilhões, um crescimento de 29% sobre 2010, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Das empresas que receberam investimento, identificadas pela pesquisa, 15,5% estavam no Rio, que ficou atrás somente de São Paulo.

Outra empresa que participou do processo de aceleração da 21212 foi a ResolveAí. Ela tem acordo com 50 cooperativas de táxi, e o consumidor pode consultar todas elas em uma só plataforma. “Além de poupar tempo, ele pode ver o carro se aproximando em tempo real no mapa”, disse Rafael Kaufmann, fundador da companhia.

Ele e seu sócio começaram a trabalhar no projeto em 2010, mas, até serem selecionados pela 21212, ainda tinham outros empregos, não se dedicavam inteiramente à ResolveAí. Os dois já receberam um aporte de R$ 500 mil de investidores-anjo brasileiros.

Yann de Vries é diretor do fundo Redpoint no Brasil. Ele é um dos investidores que acompanha o trabalho da 21212, em busca de oportunidades. A Redpoint já investiu em quatro empresas brasileiras: Grupo Xangô (antivírus), ViajaNet (viagens), Shoes4you (calçados) e 55social (marketing). Atualmente, a sede brasileira da Redpoint é no Rio. “Fico no escritório do Grupo Xangô”, afirmou Vries. “Existem muitas empresas interessantes no Rio, como o Peixe Urbano e o próprio Grupo Xangô. Mas vou me mudar para São Paulo, onde tem mais atividade.”

No Estado de hoje (“A tecnologia que vem do Rio“, p. N5).

Siga este blog no Twitter: @rcruz

‘Fazer o certo pode te matar’

  • Por Renato Cruz

Clayton Christensen, professor da Harvard Business School, é autor do clássico de administração O dilema da inovação, em que explica por que empresas falham por serem boas. Na biografia do Steve Jobs, Walter Isaacson apontou o trabalho como um dos livros de cabeceira do cofundador da Apple, que defendia ser melhor canibalizar o próprio mercado antes que uma outra empresa o fizesse.

Christensen deu uma entrevista ao Techcrunch, explicando como funciona esse dilema. “Fazer a coisa certa pode te matar”, disse o professor. Ele exemplificou com a Cisco, que conseguiu vencer rivais como a Lucent, Alcatel e Nortel, empresas dominavam o mercado de comutação de circuitos (equipamentos para redes de telefonia).

A Cisco lançou o roteador, equipamento com tecnologia de comutação de pacotes (usada pela internet), que, quando surgiu, servia somente para comunicação de dados. As concorrentes Lucent, Alcatel e Nortel viram aquilo e consultaram seus clientes, que disseram não precisar desse tipo de equipamento para suas redes convencionais de telefonia. Do ponto de vista de negócios, não compensava atacar o mercado de roteadores.

Mas os roteadores foram ficando cada vez melhores, até que chegou o momento em que passaram a ser capazes de fazer comunicação de voz. Daí, os clientes tradicionais da Lucent, Alcatel e Nortel começaram a comprar roteadores e, esses fabricantes, por terem ouvido esses clientes, acabaram perdendo mercado para a Cisco.

“Unidades de negócio não foram feitas para evoluir”, disse Christensen ao Techcrunch. “Uma empresa consegue evoluir somente se for capaz de criar e fechar unidades de negócio.” O exemplo que ele deu foi a IBM.

Existiam cerca de nove empresas de mainframe (computadores de grande porte), quando essas máquinas dominavam o cenário da tecnologia da informação. A IBM foi a única sobrevivente quando o mercado passou a usar minicomputadores. Isso porque a IBM criou uma nova unidade em Rochester, no Estado americano de Minnesota, para cuidar dessas máquinas, longe da sede em Newark, Nova York. Quando houve a transição para os microcomputadores, a IBM fez isso de novo, criando uma nova unidade em Boca Raton, na Flórida, que acabou desenvolvendo o PC.

Ele alertou que o Google tem somente uma unidade de negócios importante e lucrativa, e que, apesar de a Apple parecer imbatível, decisões aparentemente certas para o momento – como, por exemplo, o que pode ser terceirizado – podem acabar comprometendo o futuro.

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Um método perigoso

  • Por Renato Cruz
Keira Knightley como Sabina Spielrein

Keira Knightley como Sabina Spielrein

Mês passado, a Criterion Collection publicou fichas de avaliação de Videodrome, filme de David Cronenberg lançado em 1983. À pergunta “O que você especialmente gostou neste filme?”, espectadores responderam: “Nada” e “Absolutamente nada. É bem repulsivo”. A “O que você especialmente não gostou ou gostaria de mudar no filme?”, algumas respostas foram: “É muito vugar. Muito sexo, eles fazem isso demais. Mais história, menos sexo” e “Muito sangue e entranhas por todo o lado”.

Existe uma distância grande entre Videodrome e Um método perigoso, que estreou sexta-feira (apesar de ambos tratarem de sadomasoquismo). Pelo menos superficialmente. Os monstros e as entranhas sangrentas continuam lá, mas dessa vez você não vê. Tudo embalado num longa-metragem de época ao estilo Merchant Ivory.

Como você já deve ter lido por aí, o filme mostra a relação de Carl Jung (Michael Fassbender) com o mestre Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e  Sabina Spielrein (Keira Knightley), paciente e amante.

Um método perigoso conta a história de um parricídio, ainda que simbólico (em contraponto a Spider, filme de Cronenberg sobre matricídio). Jung é retratado como um canalha, mas com ele é possível se identificar. Freud é um gênio maior que a vida, posição inalcançável ao homem comum.

Jung erra, erra de novo e erra mais uma vez, mas essa é a única maneira de conseguir ver além da barreira de conforto de sua vida de médico bem-sucedido casado com mulher rica, e entender o mundo. Ele é mentiroso, fraco, covarde, egoísta. Trai a esposa, renega a amante, rompe com o mestre, mas, no final, o imperdoável é ter levado a psicanálise na direção do misticismo e da auto-ajuda. ”Devemos mostrar a realidade ao paciente, e não trocar uma ilusão por outra”, diz o Freud do filme.

Ficha de avaliação do filme Videodrome

Ficha de avaliação do filme Videodrome

Siga este blog no Twitter: @rcruz

Tópicos relacionados

Robô substitui até chinês

  • Por Renato Cruz
Linha de produção da Noma, no Paraná

Linha de produção da Noma, no Paraná

Na fabricante de carretas Noma, no interior do Paraná, não tem gente fazendo força. São os robôs espalhados pela fábrica que carregam as peças pesadas. São também robôs que soldam as diferentes partes dos veículos. Antes privilégio de grandes corporações, os robôs estão invadindo as linhas de produção de pequenas e médias empresas no mundo todo e prometem mudanças importantes na divisão global do trabalho, com prejuízo para os países emergentes.

Está em curso uma mudança no sistema fabril que pode significar um novo estágio da revolução industrial. Hoje, comprar um robô custa praticamente o mesmo que pagar o salário de um operário chinês. Dados preparados pela consultoria Gavekal mostram que o custo unitário de um robô industrial atingiu cerca de US$ 48 mil no ano passado, uma diferença pequena para os US$ 44 mil pagos a um funcionário pela gigante de montagem Foxconn durante dois anos.

Na verdade, os chineses recebem menos que isso na Foxconn – que, entre vários outros produtos, faz os iPhones e iPads da Apple -, mas o cálculo considera um fictício operário que trabalhasse 24 horas – como um robô. As jornadas de trabalho da China são pesadas, mas ainda não chegam a tanto. O resultado dessa aproximação de custos é que até a Foxconn já anunciou que pretende “empregar” 1 milhão de robôs até 2014.

Outra evidência do avanço da robótica é que a demanda por robôs industriais está indo além do setor automotivo, que já é tradicional nessa área. Em 2006, as montadoras respondiam por 36% dos robôs utilizados no planeta. Esse porcentual caiu para 28% em 2010. O setor elétrico e eletrônico, que detinha 18% dos robôs, saltou para 26%. Também se destacam os fabricantes de plásticos, produtos químicos e cosméticos.

“Estamos diante de uma tecnologia de ruptura. O excesso de mão de obra vai deixar de ser uma vantagem e as empresas vão começar a retornar para países com mão de obra qualificada, baixos custos e boa infraestrutura”, disse José Roberto Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Associados. “A robótica é um dos fatores que vai ajudar a indústria a renascer nos Estados Unidos”.

Mendonça de Barros projeta que, até 2015, o mundo vai assistir atônito a uma mudança radical nas relações de trabalho. Yuchan Li, analista da Gavekal baseada em Hong Kong e autora dos cálculos, disse ao Estado por e-mail que “é difícil colocar um prazo definitivo, mas que há sinais de que a revolução já está ocorrendo”. Segundo ela, as mudanças são mais rápidas em alguns países, como a Coreia do Sul, do que em outros.

O movimento é inevitável. De um lado, o esforço de países como a China para reforçar o mercado local, melhorando a renda e as condições de trabalho, acaba elevando os custos da mão de obra. De outro, os robôs acabam sendo beneficiados pela chamada Lei de Moore. Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, previu, na década de 1960, que a capacidade dos microprocessadores dobraria a cada dois anos. Isso faz com que os eletrônicos possam ser, a cada ano, mais potentes e mais baratos. E o mesmo acontece com os robôs.

Substituição

A crise global enfrentada desde a quebra do Lehman Brothers ajudou a acelerar o processo, porque forçou as empresas a buscar novas maneiras de reduzir seus custos e melhorar suas magras margens de lucro. Mas são duas tendências estruturais, para as quais não há sinal de alteração no curto prazo, que alimentam o processo: a queda do preço dos robôs e o aumento dos salários, particularmente na China, mas também no Brasil. Marcos Noma, dono da empresa paranaense, conta que os robôs que utiliza chegavam a custar R$ 800 mil há 10 anos e hoje não passam de R$ 200 mil. “Foi isso que permitiu o nosso investimento”, diz.

A queda dos preços globais dos robôs não foi tão significativa quanto relata o empresário brasileiro, mas não deixou de ser relevante. Entre 2000 e 2010, o custo médio de um robô industrial caiu 23%, conforme a Gavekal. A consultoria não possui dados tão antigos para os salários na Foxconn, mas entre 2003 e 2010, a remuneração dos operários da empresa na China cresceu 140%.

Considerada o chão de fábrica do mundo, os custos na China estão subindo porque o país não vai conseguir oferecer trabalhadores suficientes para acompanhar o crescimento da manufatura global, apesar do seu 1,3 bilhão de habitantes. Muitas empresas estão elevando sua produção a uma taxa anual de 10%, enquanto a oferta de trabalho na China cresce apenas 2% – reflexo da política do filho único adotada pelo governo comunista.

A China deve continuar a ser uma grande produtora global de manufaturas, mas é provável que daqui para frente as empresas instaladas no país se dediquem cada vez mais a atender o mercado interno, cujo consumo precisa acelerar para garantir um crescimento sustentável da economia. Empresas americanas e europeias, que produziam na China para atender seus mercados de origem, já começam a fazer o caminho de volta.

Os populosos e pobres países asiáticos, como Vietnã ou Bangladesh, devem ser os mais prejudicados pelas mudanças tecnológicas, mas o Brasil não vai passar imune. Algumas empresas brasileiras começam a recorrer a robôs para melhorar a qualidade e fazer frente a falta de mão de obra qualificada. O grande problema é que a indústria brasileira enfrenta hoje uma séria falta de competitividade, por conta da infraestrutura ruim e da segunda energia mais cara do mundo, o famoso custo Brasil. Com os robôs substituindo chineses, são esses fatores que vão determinar a instalação da indústria global nos novos tempos.

Estratégia

Para Yuchan Li, da Gavekal, a China pode provar, com a automação, que seu diferencial, no mercado mundial, é a capacidade de fabricar em larga escala, e não a mão de obra barata. Além disso, as empresas do país têm a chance de combater a imagem de exploradoras dos trabalhadores, de quem impõe jornadas de trabalho desumanas em ambientes insalubres.

Na semana passada, Tim Cook, presidente da Apple, visitou as fábricas da Foxconn na China. O executivo foi verificar pessoalmente as condições de trabalho nas instalações da fornecedora, e acabou anunciando um acordo para acabar com as ilegalidades apontadas pela Fair Labor Association (FLA), associação independente autorizada pela Apple a avaliar as condições de trabalho nas fábricas chinesas.

O anúncio, no entanto, acabou criando temores de queda de renda entre os funcionários da Foxconn. Muitos acreditam que, sem as horas extras além do que é permitido pela legislação, não vão conseguir se sustentar. De uma forma ou de outra, a fabricante do iPhone e do iPad resolveu tomar medidas para impedir que os problemas da Foxconn acabem prejudicando sua imagem.

No lançamento do novo iPad, um grupo de ativistas foi à loja da Apple na Quinta Avenida, em Nova York, para protestar contra as condições de trabalho na China. No começo do ano, cerca de 150 funcionários da unidade da Foxconn em Wuhan ameaçaram cometer suicídio coletivo, saltando do alto do edifício. Sua exigência era a melhora das condições de trabalho.

Em 2010, pelo menos 18 funcionários da Foxconn tentaram suicídio, com 14 mortes. No ano seguinte, foram mais quatro mortes. A decisão da Foxconn de anunciar um investimento massivo em robôs pode ser vista como uma maneira de enfrentar os custos crescentes da mão de obra, mas também como um jeito de fazer frente a essa situação.

Automação garante padrão de qualidade

Nem todo mundo é Apple. Na verdade, poucas empresas têm a força e a escala da fabricante dos iPads e dos iPhones para buscar fornecedores chineses com garantia de prazo e qualidade. Com o movimento de transferência de produção para a China, nas últimas décadas, as fabricantes chinesas mais bem preparadas estão sobrecarregadas, o que já provoca um movimento de quarteirização, em que o serviço de clientes internacionais pequenos e médios é repassado para fabricantes menores.

Com isso, essas empresas pequenas e médias começaram a receber produtos de qualidade inferior, fora do prazo . “O primeiro e o segundo lotes vêm com a qualidade combinada, mas, daí em diante, começa a haver perdas”, disse Wagner Bello, diretor da Fanuc Robotics do Brasil, subsidiária da empresa japonesa que é uma das maiores fabricantes de robôs do mundo. “Isso incentiva a demanda interna por robôs.”

Reportagem recente da revista Wired mostrou várias empresas pequenas e médias americanas que trocaram a produção na China por uma fábrica automatizada nos Estados Unidos. Uma delas, chamada Sleek Audio, produz fones de ouvido de alto padrão. Apesar de os donos visitarem a cada dois meses o fornecedor em Dongguan para garantir a qualidade, receberam uma encomenda de 10 mil fones de ouvido que precisaram ser descartados, porque não foram soldados da maneira certa, o que levou a milhões de dólares de prejuízo. Em 2010, decidiram transferir a produção para os EUA.

Segundo Bello, esse movimento também acontece no Brasil, em setores como autopeças. “O robô está se tornando extremamente barato”, disse o executivo. “O preço está em 25% do que custava há oito anos.”

Existem máquinas da Fanuc a partir de R$ 50 mil. E o robô ainda serve para resolver outros problemas, como a falta de mão de obra.

Sem citar o nome, Bello afirma que um de seus clientes, do setor alimentício, enfrentava dificuldade de encontrar pessoal para o terceiro turno da fábrica, que funciona 24h por dia. A solução foi comprar robôs. “Estamos quebrando o paradigma de que o robô tira o emprego das pessoas”. diz. No ano passado, o mercado brasileiro de automação industrial movimentou R$ 3,725 bilhões, 15% a mais do que em 2010, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica.

Enquanto os robôs avançam, muitos se perguntam quando vai se tornar realidade o robô doméstico, como a Rosie, empregada dos Jetsons. Durante a Cebit, evento em Hannover, na Alemanha, engenheiros do Instituto de Tecnologia Karlsruhe (KIT, na sigla em alemão), apresentaram um robô capaz de realizar pequenas tarefas domésticas, como colocar a louça na máquina de lavar. A bateria durava somente três horas, e o preço era de 200 mil euros.

O mais próximo que se tem hoje de um robô doméstico comercialmente viável é o aspirador de pó Roomba, que se desloca sozinho pela casa, limpando o chão. “De certa forma, sua máquina de lavar roupas já é um robô”, afirmou Dan Barry, professor da Singularity University, que esteve em São Paulo no mês passado. Segundo ele, o problema é que os robôs ainda são muito lentos. “Não servem para mim ou para você, mas já podem ajudar pessoas com deficiências. Acho que é por aí que vamos desenvolvê-los e barateá-los.”

Rosie, dos Jetsons

Rosie, dos Jetsons

Reportagem que escrevi com a Raquel Landim, publicada hoje no Estadão (“Cada vez mais barato, robô já substitui até trabalhador chinês” e “Automação garante padrão de qualidade“, p. B8).

Foto da Noma: Rafael Silva / Divulgação

Siga este blog no Twitter: @rcruz


Blogs do Estadão