Críticas rondam organização que começou a inspecionar fornecedores da Apple
14 de fevereiro de 2012 | 14h39
Nayara Fraga

China. Foxconn é uma das principais fornecedoras da Apple
Atualizado às 19h10
Pressionada por protestos e notícias sobre condições sub-humanas nas fábricas que produzem o iPhone e outros equipamentos, a Apple anunciou a escolha da Fair Labor Association (FLA) — Associação pelo Trabalho Justo — para inspecionar de forma independente os fornecedores da companhia na China. A associação, no entanto, suscita críticas em relação a sua eficiência no combate aos abusos trabalhistas, como mostra reportagem publicada pelo New York Times.
A FLA foi fundada em 1999 por universidades, organizações sem fins lucrativos e fabricantes de calçados e roupas como a Nike, com forte apoio do ex-presidente americano Bill Clinton. Desde então, a associação inspecionou 1,3 mil fábricas na Ásia e na América Latina, descobrindo inúmeras violações, diz o jornal. “Mas, apesar dos resultados bem-sucedidos, muitos advogados do trabalho dizem que seus esforços pouco têm feito para melhorar as condições de trabalho”.
Críticos argumentam que a FLA e seus membros não deveriam qualificar como independentes as inspeções. “A FLA faz um bom trabalho, mas nós não achamos que seja apropriado eles chamarem a si mesmos de investigadores independentes, já que eles são, em parte, financiados pelas companhias”, disse ao NYT o diretor-executivo do grupo de monitores de fábricas Workers Rights Consortium, Scott Nova. Nesse caso, inclui-se a Apple.
Já no início de suas atividades, a FLA era acusada de ineficiente e pouco severa com as empresas. Um dos casos de negligência apontados na reportagem é o da PT Nikomas, fornecedora da Nike, que concordou em pagar US$ 950 mil por 600 mil horas extras que 4.500 trabalhadores deixaram de receber nos últimos dois anos. Tal problema teria sido descoberto se a investigação fosse completa, afirmou ao jornal a coordenadora do grupo contra o trabalho escravo United Students Against Sweatshops.
Folha de figueira
Outro integrante de um grupo de direitos trabalhistas disse ao NYT que a Fair Labor Association é uma “folha de figueira”. A expressão, que se refere à folha usada para cobrir partes íntimas em obras de arte (como em pinturas de Adão e Eva), também significa camuflagem, de acordo com o dicionário The American Heritage Dictionary. Para o entrevistado, a retórica da responsabilidade social encoberta a real intenção das companhias: forçar a diminuição dos preços.
O diretor-executivo da FLA, Jorge Perez-Lopez, afirma ao NYT que a associação já eliminou o trabalho infantil de fábricas na China e na América Latina, onde também pôs fim a práticas discriminatórias como submeter mulheres a teste de gravidez para não contratar gestantes.
Ele também diz que as inspeções são independentes, pois as companhias não têm a palavra durante o processo de investigação. Elas não sabem como nem quando ocorre a inspeção, segundo o diretor.
Ontem, a FLA visitou a Foxconn City, em Shenzhen, uma das maiores plantas na China. A Foxconn emprega mais de 1,2 milhão de pessoas em 18 países e tem operações em Taiwan, Brasil, México, Eslováquia e Vietnã, além das chinesas. Em janeiro, houve um boato sobre suicídio em massa em uma de suas fábricas na China e o presidente da companhia, Terry Gou, afirmou dar trabalho “gerenciar 1 milhão de animais“.
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