O secretário municipal de Articulação de Grandes Eventos de São Paulo, Walter Feldman, virou ‘marineiro’. Feldman, que deixou o PSDB em abril e atualmente está sem partido, esteve reunido com a líder ambiental na última sexta-feira, 2, em São Paulo.
“Não falamos um milímetro sobre candidatura, sobre presidência”, contou o secretário. “A conversa com a Marina, depois de 35 anos na política, foi como o renascer dos meus sonhos. Foi uma conversa profundamente teórica. Falamos muito sobre psicanálise, sobre filosofia, sobre as nossas amarguras com o quadro atual, a constatação da saturação do sistema partidário”, disse.
O secretário definiu a ex-senadora e candidata derrotada à Presidência como “figura humana e política que me inspira”. Ele conta que disse a ela: “eu vou segui-la”. “Eu falei isso e ela não gostou. Ela disse: ‘nós vamos caminhar juntos’”, afirmou Feldman.
Mesmo sem planos futuros definidos ainda, Feldman elogiou a ideia de Marina de deixar amadurecer a criação de um novo partido. “Nossos governantes pegam um carisma que é dado pela representação popular e transformam em instrumentos pessoais. Carisma é uma escolha da população que determina a um líder a missão de levar adiante um projeto de sociedade, não dele”, afirmou.
Para Feldman, que atualmente trabalha em Londres observando como os ingleses estão organizando os Jogos Olímpicos, “se você não tomar cuidado, seus sonhos passam a ser as realizações do dia a dia. E o senhor humano precisa de sonhos estratégicos. Sonhos que possam ser construídos no longo prazo”.
PSD e os outros partidos
Feldman também disse que não é uma crítica as declarações feitas sobre o PSD em entrevista anterior ao Estadão.com.br. “Dentro do atual quadro partidário, as formas de organização partidária são muito semelhantes. Eu vi um estudo no Valor Econômico, a maioria dos partidos são de donos, caciques”, afirmou. Ele defende partidos com “enorme capacidade de debate e democracia interna”.
Ele avalia que esse problema com os partidos é um dos principais gargalos do País atualmente. “Eu diria que a democracia brasileira envelheceu muito rapidamente ou não amadureceu. Ou é o envelhecimento precoce, ou é um crescimento nanico. Não conseguiu dar o salto. Não conseguiu responder a essa expectativa mundial do Brasil bola da vez porque a política joga pra fora”, disse.
Para ele, os partidos estão no centro do problema porque “quem leva os políticos para governar são os partidos. Se os partidos não conseguem ser abertos, modernos, oxigenados, visíveis, resultarão em governos com dificuldades semelhantes, parlamentos com dificuldades semelhantes”.
Segundo Feldman, esse foi o centro da conversa que teve com Marina. “Ela falou muito isso, muito interessante essa análise. O sujeito da democracia é o cidadão, o povo. Visto no lado indivudal pelos seus direitos, mas visto pelo lado coletivo na escolha dos seus representantes. Como é que faz o sistema partidário brasileiro? O partido se torna o sujeito, e o cidadão deixa de ser sujeito. Depois da escolha, não é chamado para mais nada, só assiste. Nós temos que reverter esse jogo”, defendeu.
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Flávia D’Angelo e Jair Stangler, do Estadão.com.br
Após deixar o PSDB, o secretário Especial de Articulação de Grandes Eventos da prefeitura de São Paulo, Walter Feldman, tenta uma aproximação com a ex-senadora e ex-candidata à Presidência da República, Marina Silva. Feldman, assim como Marina, está sem partido e pretende continuar assim. “Vou fazer um gesto ousado”, disse ao Estadão.com.br.
Feldman atualmente está em Londres para observar como os ingleses se preparam para as Olimpíadas de 2012. Ele afirma que quando terminar seu trabalho lá não vai continuar na administração municipal e pretende retomar seu mandato na Câmara dos Deputados.
Prevê que o PSDB vai tentar reaver o mandato na Justiça, mas acredita que está protegido pela legislação eleitoral, que garante o mandato para seu ocupante em caso de divergência ideológica com o partido.
Feldman, que foi fundador do PSDB, repetiu as mesmas críticas à legenda que já havia feito quando anunciou sua saída: que o partido deixou suas raízes de lado e caiu na vala comum dos demais partidos. Cita Franco Motoro como o ideal tucano e lembra seu slogan: “longe das benesses do poder, mais perto do pulsar das ruas.”
Descartou ingressar no PSD, legenda que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está criando. Vê como mais um partido comum no atual espectro político. Para ele, não faria sentido sair do PSDB para ingressar em outro partido que adote as mesmas práticas. Por isso, o movimento criado por Marina Silva ao deixar o PV surgiu como opção.
Segundo o secretário, que encontra Marina nesta sexta, se ela consentir, está disposto a ajudá-la na contrução de seu projeto. Feldman elogia o movimento, que entre outras coisas, quer reinserir princípios éticos na política. Avalia como positivo o processo adotado por ela e seus aliados para construir o movimento. Entende que ela não assume para si o papel de figura central desse processo e que um novo partido, quando surgir, será o resultado dessa aglutinação de forças – algo parecido com o que já foram PT e PSDB um dia.
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estadão.com.br
Os vereadores de São Paulo Ricardo Teixeira, Gilberto Natalini e Dalton Silvano, que deixaram o PSDB em abril, participarão na sexta-feira, 19, de uma cerimônia que marca sua filiação ao PV, sigla aliada do prefeito Gilberto Kassab. Com a adesão, a sigla passa a ter a quarta maior bancada da Casa, com seis vereadores.
A decisão de se filiar ao PV foi anunciada por Natalini na terça-feira, 16. “Estou a caminho do PV porque ‘fui saído’ do PSDB e porque é o partido que tem mais afinidade com meu mandato”, afirmou. A cerimônia de filiação será realizada no auditório da Câmara Municipal de São Paulo, às 10h.
Silvano disse na terça que a filiação ao PV dá “tranquilidade para a defesa das conquistas da gestão” Kassab, principalmente se o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, for mesmo o candidato apoiado pelo prefeito – no PSD, o vice-governador, Guilherme Afif Domingos, é pré-candidato à Prefeitura.
Palanques. Para Kassab, a adesão do trio de vereadores ao PV foi sob medida. Aliados do prefeito afirmam que ele não interferiu na escolha, mas aprovou a decisão dos parlamentares. Enquanto avalia qual será o melhor nome para sua sucessão, Kassab trabalha para construir uma ampla aliança para seu futuro candidato, seja quem for. E o PV é uma das prioridades dessa estratégia.
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Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo
O grupo político da ex-senadora Marina Silva aguardou até o final da semana passada algum aceno, algum sinal de disposição para a negociação do presidente do PV, o deputado federal Jose Luiz Penna (SP). Mas ele se manteve imóvel, aguardando em que a ex-senadora arrumasse as malas e fosse embora.
Para Penna, a partida de Marina, que saiu da eleição passada com quase vinte milhões de votos, é mais confortável que a permanência. Ele deixou isso claro dias atrás, quando integrantes da direção do partido, próximos a ele atacaram a ex-senadora tanto publicamente quanto no interior do partido, especialmente em redes sociais da internet. Dianta de possibilidade de se apresentar como mediador, preferiu o silêncio. Deixou a fogueira verde arder. Foi a gota dágua para integrantes do grupo de Marina que ainda acreditavam em algum tipo de acordo interno.
Com o desenlace final (anunciado para quinta-feira, quando Marina oficializa seu desligamento), o deputado paulista volta a conduzir o PV ao seu estilo, como faz há 12 anos. Segue ao lado do deputado Zequinha Sarney (PV) e cada vez mais sob a influência política do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, atualmente sem partido.
Marina perde a legenda, mas não o patrimônio político construído ao longo de décadas. Na semana passada quando o poderoso Partido Verde da Alemanha organizou um congresso para discutir o futuro, do ponto de vista político e ambiental, o convidado brasileiro não foi o presidente do PV do Brasil. Quem falou em Berlim em nome dos verdes brasileiros foi a ex-senadora.
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O ex-candidato ao governo de São Paulo Fábio Feldmann afirmou que pretende deixar o PV, partido ao qual é filiado desde 2005. “Não estou pensando em sair do PV simplesmente. Estou pensando em sair da vida partidária”, disse em entrevista à Rádio Estadão ESPN (ouça aqui), na manhã desta sexta-feira, 16. A declaração de Feldmann vem num momento em que o partido se divide em meio a crises internas e com rumores da saída de Marina Silva da sigla.
Feldmann se disse desanimado com o cenário político brasileiro atual e planeja se dedicar somente ao movimento ambiental. “Quero trilhar meu caminho pela sociedade civil. Os partidos perderam muito do seu conteúdo. São menos políticos e mais eleitorais. Essa é a verdade”, considerou.
As críticas aos partidos, segundo ele, também cabem ao PV. “O partido precisa se democratizar. Caso contrário vai se esvaziar ainda mais e outras lideranças tenderão a migrar para outros partidos”, avalia. Após as eleições presidenciais, Marina deu início a um processo de discussões para promover mudanças na estrutura da sigla, iniciativa mal recebida por parte do partido. Desde então, o PV convive com disputas internas e alguns aliados de Marina dão como certa sua saída.
O ex-candidato disse não ter prazo definido para deixar a vida política e que discute seu futuro com amigos. “Não tenho pressa de tomar essa decisão.” Aos 55 anos, Feldmann atua na área ambiental desde 1970. Foi eleito deputado federal por três vezes (1986-1998), candidato à Prefeitura de São Paulo (1996) e secretário estadual de Meio Ambiente no governo Mário Covas (PSDB). Já foi filiado ao PMDB e ao PSDB, e desde 2005 está no PV. Em 2010, disputou o governo do Estado e recebeu 940.379 votos (4,13% do total).
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Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo
Líderes da Transição Democrática, corrente do PV da qual faz parte a ex-senadora Marina Silva, vão se reunir na quinta-feira, 19, em Brasília. O objetivo é discutir novas estratégias de ação diante das dificuldades que enfrentam para convencer o presidente do partido, deputado José Luiz Penna (SP), a atender suas reivindicações de mudança nos estatutos, convocação de convenção nacional e eleições diretas.
Já se admite que será quase impossível obter avanços até as eleições municipais do ano que vem. Por outro lado, existiriam possibilidades de mudanças substanciais para a corrida presidencial de 2014. Elas ocorreriam pela pressão de diretórios municipais e estaduais que veem com simpatia as propostas do grupo ligado à ex-senadora.
Para os líderes da Transição Democrática, Marina tem cacife para se firmar como a terceira via nas eleições de 2014 e ir além dos 19,6 milhões de votos obtidos no ano passado, quando ficou em terceiro lugar. Para isso acontecer, acreditam, ela precisa contar com um partido mais interessado em assumir o papel de protagonista no atual cenário político, em vez de ficar pendurado em partidos maiores, como acontece hoje com o PV.
Chama a atenção nas conversas do grupo, as manifestações em relação a 2014. Dão como certa a volta de Marina e do crescimento da terceira via. A ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente foi convidada para a reunião de quinta-feira, mas ainda não confirmou sua participação.
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Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo
Em seus dez minutos de propaganda gratuita, o PV tentou demonstrar na noite desta quinta-feira, 5, uma unidade partidária que ainda não alcançou na prática. Estremecido por uma disputa interna que põe em lados opostos a estrela maior do partido, a ex-senadora Marina Silva, e o atual presidente da legenda, deputado federal José Luiz Penna, o programa quis mostrar que todos estão unidos em torno das maiores bandeiras verdes. A principal delas seria a oposição à proposta de mudança do Código Eleitoral em tramitação no Congresso.
Quem deu a palavra final sobre o programa foi Penna. Estrategicamente, deixou a abertura para Marina, ficando para ele o encerramento. A ex-senadora atacou a proposta do código com sua costumeira veemência e retomou as propostas de crescimento sustentável da campanha. Não deixou, no entanto, de alfinetar Penna. Disse que o PV precisa de “uma nova militância, uma nova forma de fazer política”.
Discretamente, Penna, acusado de tentar se perpetuar no cargo, no qual permanece há doze anos, deu o troco. Após lembrar o notável sucesso de Marina na campanha presidencial, quando ficou em terceiro lugar, com 19,6 milhões de votos, ele disse que seria melhor o partido se concentrar mais na defesa de suas bandeiras do que em disputas internas. “As questões menores não podem atrapalhar o que é preciso fazer”, afirmou.
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Roldão Arruda
A irritação de partidários e simpatizantes de Marina Silva com a direção nacional do PV só aumenta. O motivo mais recente é uma reunião do diretório municipal de São Paulo, convocada pelo seu presidente, Carlos Camacho, para as 14 horas do próximo sábado, 9 de abril. Trata-se exatamente do mesmo dia e horário para o qual já estava agendado um encontro com Marina Silva e a militância verde, para discutir a democracia interna no PV.
A ala favorável à candidata derrotada na eleição presidencial não vê coincidência no fato, mas sim mais uma manobra do presidente nacional do partido, José Luiz Penna, de quem Camacho é aliado, para esvaziar o encontro com Marina. Os simpatizantes da ex-senadora também não gostaram da mensagem postada no Facebook por Patricia Penna, mulher do presidente, sobre o encontro do diretório municipal, dizendo: “Este sim vale a pena! Este sim é democrático.”
A assessoria de Camacho nega a intenção de esvaziar o encontro com Marina. Segundo suas informações, encontro do sábado estava previsto desde o mês passado e servirá para dar posse a novos conselheiros municipais, eleitos recentemente. O outro lado, próxima a Marina, lembra, no entanto, que essas reuniões do diretório ocorrem tradicionalmente no último sábado de cada mês (e não no segundo).
O encontro com a ex-senadora, denominado Que Democracia Teremos, está programado para a Assembleia Legislativa, na região do Ibirapuera, zona sul. O encontro arranjado pelo diretório municipal, curiosamente denominado Ato Democrático, será na sede da Fundação Idepac, no bairro do Tatuapé, na zona leste.
A assessoria de Penna também negou que ele tenha ligação com o episódio. Os partidários de Marina asseguram que ele vem tentando criar empecilhos para os debates sobre democracia partidária, uma vez que pode ser o maior prejudicado caso ela consiga convencer o partido a promover eleições para escolher uma nova direção nacional.
Autorizado pela diretoria executiva do partido, Penna, que já está no cargo há 12 anos, adiou para 2012 as eleições revistas para este ano. O grupo mais próximo se insurgiu contra a prorrogação e, a partir daí deu início à série de debates sobre democracia partidária.
Além do encontro no sábado, na Assembleia Legislativa de São Paulo, estão previstos debates no Rio, no domingo, e em Belo Horizonte, no dia 19.
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A ex-senadora Marina Silva manifestou em carta, divulgada nesta quinta-feira, 24, sua insatisfação com a executiva nacional do PV e defendeu a necessidade de mudanças no partido. Sem fazer qualquer menção de que deseja sair da legenda, Marina não escondeu a decepção com a ampliação do mandato da diretoria, decidida em reunião na semana passada em Brasília. “Não creio que o aprofundamento da democracia possa ser feito através da supressão, mesmo que temporária, da pouca democracia ainda existente”, escreveu.
Ao Estado o deputado estadual pelo Rio, Alfredo Sirkis, confirmou haver um “clima de ódio” entre a direação e o grupo aliado a Marina. No texto, a ex-senadora coloca a reestruturação do partido como condição para a evolução da legenda no cenário político. Segundo ela, é preciso afastar “de vez a zona sombria que ainda envolve o partido”. Abaixo, a carta na íntegra:
“São Paulo, 24 de março de 2011 – Os quase 20 milhões de brasileiros que me deram seus votos na eleição presidencial do ano passado, possivelmente tinham em mente que até poderiam não estar elegendo, naquele momento, a presidente da República, mas, com certeza, estavam elegendo uma expectativa de mudança profunda na política e na adoção do olhar socioambiental como eixo estratégico de organização da sociedade e de estruturação do Estado. Precisamos honrar o credito dessa expectativa, sob o risco de, eu e o PV, nos transformarmos em devedores de credibilidade, sonhos e esperança. Agora é o momento de mostrar com clareza e sinceridade que vamos saldar nossa conta.
Construir no país uma nova força política significa muito e não se pode confundir tal missão com cálculos imediatistas, nem com vaidades, nem com candidaturas. Não podemos ignorar a oportunidade que a sociedade brasileira nos deu de fazer História.
Agora é o momento de confirmar o que nos une, acima de divergências, erros e dificuldades de comunicação. E de traçar, a partir daí, a estratégia partidária que dialogue com a realidade política do país, mas como pólo inovador e não como mais uma usina de atraso. A esperança não pode ser traída pelas tentações do poder ou pela acomodação aos hábitos, aos costumes, às facilidades. Não estamos agora discutindo futuras candidaturas à Presidência da República ou a quaisquer outros cargos. Estamos discutindo de que matéria essas candidaturas serão feitas: da revitalização da essência democrática do espaço público, ou de política convencional, sem conexão com a sociedade, sem alma, sem causas.
Estamos discutindo aquilo que colocamos em perspectiva lá no início da campanha política de 2010, ou seja, a promessa de reestruturar o PV e, a partir de sua democracia interna, sua postura e seu programa, arejar a cultura política brasileira e apresentar propostas de desenvolvimento compatíveis com o que se espera no futuro, no século 21. Hoje, não há outro assunto mais importante do que esse, porque ainda não nos acertamos, nos detalhes, para seguir nessa direção. E se não é esta a direção, estaremos nos desconstituindo enquanto promessa e negando a própria gênese do PV no mundo.
Muitas vezes falei – falamos – da insatisfação da sociedade, da frustração da juventude com a incapacidade do sistema político para promover o bem-comum e para gerar dinâmicas democráticas verdadeiras em todas as esferas do processo de tomada de decisões de caráter público. Falei, falamos, dos avanços sociais, democráticos e econômicos conquistados com o processo de redemocratização do país, principalmente de FHC a Lula, mas também falei e falamos da necessidade de ir adiante na prática política e na concepção e prioridades do desenvolvimento.
O centro vital propositivo de nosso programa moldou-se a partir de três fontes poderosas de significados: a sustentabilidade, a educação e a renovação política. Não podemos abrir mão de nenhuma delas, ou gangrenamos. Em especial, se deixarmos de lado a renovação política dentro do partido, acabou-se a moral para falar de sonhos, de ética, de um mundo mais justo e responsável com o meio ambiente. Podemos até continuar falando, mas soará falso, como voz metálica de robô.
É impossível negar os problemas. É preciso termos mútua tolerância e respeito à nossa diversidade; é imprescindível termos a paciência para o desconstruir/reconstruir responsável e paulatino. Só não podemos deixar de fazer ou abrir mão do que é essencial. E essa é uma decisão coletiva a ser tomada com clareza, à luz do sol, sem nenhuma dúvida. E a clareza se constrói no cotidiano de nossas pequenas ações e intenções, debruçando-nos, dentro do partido, sobre os passos necessários para atingir aquilo que pregamos para fora: a mudança. Não há como recuar de nossa própria reforma política, e há que encará-la com a coragem e o desprendimento que faltam ao sistema como um todo.
Esse novo jeito de fazer política requer enfrentar a crise geral pela qual passam os partidos, que de instrumentos de representação e avanço social cristalizaram-se como máquinas burocráticas, amorfas e voltadas para a conquista do poder pelo poder, muitas vezes não importando os meios, e abandonando a disputa programática pela simples disputa pragmática.
Em contraposição, podemos criar um partido em rede, capaz de dialogar com os núcleos vivos da sociedade para realizar as transformações de uma forma radicalmente democrática. E a disposição do Partido Verde não pode ser menor do que iniciar, nele mesmo, esse movimento de mudança.
Temos que chegar a uma proposta que reflita esse destino histórico escolhido, apregoado e aceito e abraçado por quase 20 milhões de pessoas.
Considero esse projeto que emergiu da campanha eleitoral de 2010 como um legado. Não é uma espécie de espólio a ser dividido entre herdeiros, mas, sim, um conjunto de propostas que podem e devem ser apropriadas pela sociedade e até mesmo por outros partidos e políticos. Meu maior desejo e, creio, de muitos novos e antigos filiados que participaram ativamente dessa campanha, é que o PV discuta profundamente o significado dessa eleição e incorpore novas práticas ao seu longo e rico percurso de construção partidária.
Por isso, parecia natural que o caminho adotado na reunião da Executiva Nacional, em Brasília, fosse o da adoção inconteste do novo jeito de fazer política. Mas essa não foi a tônica. Ao contrário, a decisão da Executiva Nacional de ampliar seu mandato por até um ano e, assim, postergar qualquer mudança endógena imediata, vai na contramão do que foi dito na campanha e do compromisso feito perante o país.
A ampliação do mandato, segundo seus proponentes, é necessária para a realização de seminários, discussões e aprovação de propostas de democratização do partido. Não creio que o aprofundamento da democracia possa ser feito através da supressão, mesmo que temporária, da pouca democracia ainda existente.
No PV, a maiorias das Executivas Estaduais são provisórias, designadas pelo presidente do partido. O mesmo acontece com a totalidade das Executivas Municipais, designadas pelos presidentes estaduais. Praticamente não há convenções municipais e estaduais ou eleições diretas de dirigentes. Esses mecanismos provisórios têm sido vistos como forma de proteger o partido de atitudes oportunistas e da pressão do poder econômico. Agora, eles nos isolam da sociedade, nos fragilizam no que pode nos tornar mais fortes que é a nossa coerência e não nos protegem nem de nós mesmos.
Quero participar das discussões para propor formas mais democráticas de organização partidária, juntamente com todos que estiverem de fato motivados a abrir o partido para a energia revitalizante que vem da sociedade. Lembro que a proposta de adequar o PV a esses novos tempos foi feita pela própria Executiva Nacional, quando do convite feito a mim para ingressar no partido. Ouvi do próprio presidente que a atualização programática e democratização do PV já eram um movimento em curso, uma determinação da própria direção e, acrescento agora, uma imposição da realidade, um desaguadouro natural dos 25 anos de Partido Verde no Brasil.
Por isso, o que está em jogo é se o PV vai fortalecer tudo de positivo que foi construído nesses 25 anos, afastando de vez a zona sombria que ainda envolve o partido. Se beberá da fonte do impulso criativo de milhões de jovens, homens e mulheres que voltam a se apaixonar pela política e se dispõem a colaborar com os verdes. Se vai pegar a trilha civilizatória que se abre no mundo todo, apesar das forças reacionárias de todo tipo que teimam em manter seus status quo à custa de um futuro melhor para a humanidade e para o planeta.
Estou no PV não como plataforma para candidaturas. Estou porque o respeito e vi no partido, pela sua história e pelo que conversamos antes de minha entrada, uma coragem, um arejamento, um frescor juvenil no melhor sentido de ousar mudar, de querer o aparentemente impossível. Reafirmo meu desejo de permanecer neste Partido Verde, contribuindo para o seu crescimento e qualidade política. Estou confiante que a militância verde, seus amigos e simpatizantes, além de todas as pessoas que querem o jeito novo de fazer política, contribuirão para o reencontro do PV consigo mesmo. Tenho plena convicção, como dizia Victor Hugo, de que forte é “a idéia cujo tempo chegou”. Não vamos deixar o nosso tempo passar. Ele está aqui, em nossas mãos e em nossos corações.”
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Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo
Após meses de atrito, as relações entre a atual direção do PV e o grupo de Marina Silva caminham para o impasse. Já se fala na possibilidade de Marina deixar o partido. Sairia acompanhada por militantes históricos, como o deputado federal Alfredo Sirkis (RJ) e o jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira (RJ).
O impasse foi explicitado na reunião da executiva nacional do partido, realizada ontem em Brasília. Ignorando os apelos do grupo de Marina e dos históricos para que se promovam eleições neste ano para a renovação dos quadros de direção, a executiva decidiu adiar para 2012 a convenção já programada para meados deste ano. Isso garante ao atual presidente, José Luiz Penna, que detém o controle quase absoluto da máquina partidária, a permanência no cargo por mais um ano. Será o 13.º à frente do PV.
“Tudo indica que estamos caminhando para uma presidência vitalícia, num partido que é parlamentarista”, desabafou ontem Sirkis. “É desalentador, porque 2012 é ano eleitoral e difícilmente a executiva convocará uma convenção.”
Sirkis disse que o grupo de Marina e os históricos ainda irão tentar mobilizar as bases do partido e os grupos que apoiaram a a candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente. Sua intenção é pressionar a executiva para que a convenção se realize neste ano, como estava previsto desde que Marina se filiou ao PV, no ano passado. “Vamos convocar reuniões realizar seminários onde for possível”, afirmou o deputado. “Não está descartada a hipótese, porém, de Marina e os verdes históricos saírem para criar um novo partido.”
O deputado ficou surpreso com resultado da reunião. Ele acreditava que o partido iria aproveitar o resultado da campanha eleitoral de 2010, quando Marina obteve cerca de 20 milhões de votos e mobilizou setores expressivos do eleitorado mais jovem, para promover a renovação e o arejamento nos seus quadros.
A história tomou outro rumo quando o deputado Zequinha Sarney (MA), apresentou uma proposta para se prorrogar por mais um ano o mandato da atual diretoria, presidida por Penna. Submetida a votação, ela foi aprovado por 29 votos a 16.
Segundo comentário feito ontem por Sirkis em seu blog na internet, a decisão teria sido motivada por “acordos com as clientelas internas que dominam muitos Estados mantendo o partido na sua condição de vergonhosa estagnação, garantias de cargos e também o medo que existe em relação a qualquer mudança mais profunda no pequeno partido que somos”.
Sobre o estado de ânimo de Marina, comentou: “Marina ficou perplexa ainda que não propriamente surpresa. A animosidade da burocracia no partido contra ela era algo que ela vinha reparando há tempos e eu constantemente lhe garantindo que exagerava. Naquela hora percebi que não. Digamos que, na melhor das hipóteses, criaram por ela uma relação amor-ódio. Amor pelo que de prestígio indireto pode lhes aportar. Ódio quando sua visão de transição democrática é vista como ameaça a seus poderzinhos…”
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