Jair Stangler, do Estadão.com.br
Após quase quatro anos no Ministério da Defesa, Nelson Jobim deixou o governo nesta quinta-feira, 4. Uma série de declarações polêmicas nos últimos meses contribuíram para sua queda. A gota d’água foi a declaração dada à revista Piauí que chega às bancas na sexta-feira, 5, criticando o trabalho das ministras Gleisi Hoffman, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, de Relações Institucionais.
O ministro comia uma salada e comentava a discussão sobre a liberação de documentos sigilosos do Estado, quando emitiu a declaração fatal: “É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília.”
Isso, somado a outras declarações que vinham causando constrangimento no governo – insinuando a presença de ‘idiotas’ no governo e de que votou no tucano José Serra em 2010 -, acabou lhe custando o cargo.
No todo, o perfil apresenta um político vaidoso de suas realizações no ministério e bastante informado sobre as principais questões de sua pasta. Mostra ainda um ministro com orgulho de sua relação com os militares e com apreço pela hierarquia.
A entrada no governo
Na reportagem, Jobim conta como foi parar no governo. Segundo ele, resistiu bastante no início, pela vontade de sua esposa e também porque considerava já concluída sua contribuição na vida pública – ele havia sido deputado constituinte, ministro da Justiça de FHC, ministro do STF, presidente do TSE durante a eleição de Lula.
Quem primeiro o convidou foi o atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, então ministro da Justiça de Lula. “O Tarso me disse que o governo precisava de alguém para colocar ordem no negócio, e que eu tinha a cabeça organizada e autoridade”, lembra.
Jobim relata ainda que ouviu convites do então ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, de amigos parlamentares, do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e do próprio Lula, que define como um “sedutor”. “Aliás, ele e Fernando Henrique são sedutores. Só que de maneiras diferentes. O Lula diz palavrão, o Fernando é um lorde”, distingue.
Segundo Jobim, o que fez com que aceitasse o convite para ser ministro foi o acidente da TAM, em 17 de julho de 2007. No dia 25 de julho, aceitou o convite. Logo após assumir o cargo, foi até Congonhas com o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. “Alguém tinha que mostrar a cara, falar com as famílias, avaliar as condições do aeroporto, mostrar solidariedade”, afirma.
Na viagem, Jobim usou capacete de bombeiros, subiu em escada Magirus, circulou pela pista do aeroporto, foi ao Instituo Médico Legal. Acusado de exibicionismo, ele diz que foi a maneira encontrada para mostrar aos familiares das vítimas e à sociedade que o governo se importava com a tragédia.
A tática, aliás, foi usada em outras situações, como quando usou uma farda de general quatro estrelas – o que chegou a render uma ação criminal. Alguns generais, informa a reportagem, o chamam de “pavão” na surdina.
Jobim relembra ainda as ações tomadas para conter a crise na aviação. Segundo ele, o mais difícil foi a Anac, onde os diretores tinham mandato. “Aquilo era muito desorganizado, cada diretor tinha uma agenda própria e não se falavam entre si”, disse. Sobre Denise Abreu, uma das diretoras da Anac à época do acidente da TAM, Jobim refere-se a ela como “aquela que fumava charuto”.
Genoino
Ainda falando de questões de governo, Jobim tece muitos elogios a seu assessor, o petista José Genoino. Perguntado porque havia tantas idas e vindas no governo na relação com o Congresso, Jobim não teve dúvidas: “Falta um Genoino para ir lá negociar.” “O Genoino é muito competente, sabe tudo de legislação e de Congresso”, conclui.
Ele conta que quando o convidou para ser seu assessor, avisou antes à presidente Dilma.”Mas será que ele pode ser útil?”, teria perguntado Dilma. “Presidenta, quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu”, teria respondido o ministro.
Falando sobre seu amigo Serra, Jobim lembra que se absteve de fazer campanha para Dilma ou para o tucano quando Lula pediu seu apoio. “Presidente, o senhor sabe que sou muito amigo do Serra. Ele foi meu padrinho de casamento. Por razões pessoais inamovíveis, eu não posso fazer campanha senão para o Serra. No entanto, por razões institucionais removíveis, não posso fazer campanha para o Serra: sou ministro do seu governo. A primeira é inamovível, a segunda está em suas mãos”, conta.
Relação com militares
Jobim agradece ao ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, sua boa relação com os militares. “O efeito colateral do embate com o Paulo Vannuchifoi o estabelecimento de uma relação de confiança com os militares. Eu devo ao Paulo a construção da minha relação de respeito com os militares. Ele não sabe disso.” Sua avaliação é que seu posicionamento ao lado dos militares na questão da abertura dos arquivos da ditadura e no debate sobre a revisão da Lei da Anistia o ajudou.
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estadão.com.br
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, entregou há pouco uma carta de demissão à presidente Dilma Rousseff, em reunião no Palácio do Planalto. Segundo informou o Palácio do Planalto, o encontro entre Jobim e Dilma foi rápido e durou apenas cinco minutos.
Com a saída de Jobim, o ex-chanceler Celso Amorim assumirá a pasta da Defesa, segundo informou o Palácio do Planalto. Amorim já foi convidado para o cargo.
Jobim antecipou seu retorno a Brasília, previsto inicialmente para às 22h, para essa reunião com Dilma, após as repercussões negativas das declarações feitas à revista Piauí.
Tags: Celso Amorim, Defesa, Nelson Jobim
Eduardo Bresciani, do estadão.com.br
Mesmo antes de ser oficializada a demissão de Nelson Jobim do cargo de ministro da Defesa, o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), o tratou em entrevista como ex-integrante da administração Dilma Rousseff. Vaccarezza elogiou o trabalho de Jobim, mas afirmou que a política implementada é do governo e não do ministro.
“Não existe política de ministro, existe política de governo. No sistema presidencialista a política é a do chefe de estado e quem a presidente escolher vai continuar este trabalho”, disse Vaccarezza, que ressaltou não saber ainda oficialmente da saída de Jobim.
O ministro da Defesa deverá perder o cargo nas próximas horas após uma série de declarações polêmicas. A pressão sobre ele começou quando no aniversário de 80 anos do presidente Fernando Henrique Cardoso criticou quem trata mal os subordinados e se disse “cercado de idiotas”. Em outra entrevista afirmou ter votado em José Serra para presidente no ano passado.
A gota d’água, porém, foi a entrevista de Jobim à revista Piauí. O ministro afirmou que sua colega das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, é “fraquinha” e que a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, “nem conhece Brasília”.
Para Vaccarezza, o ministro não pode ter todo o seu trabalho julgado pelas “declarações infelizes”. Questionado se a situação de Jobim era insustentável o líder do governo brincou: “Se eu responder a esta pergunta é a minha situação que fica insustentável, chega de frases infelizes”.
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Em entrevista à edição deste mês da revista Piauí, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, fez novas críticas ao governo da presidente Dilma Rousseff e às ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil). ‘É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília’, afirmou sobre a condução do Planalto na discussão do fim do sigilo de documentos ultra-secretos. Abaixo, trechos exclusivos da reportagem:
‘Numa quinta-feira de julho, Nelson Jobim marcou apenas um compromisso na agenda, na parte da manhã: participar da comemoração dos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, no Senado. De terno escuro e gravata azul-clara, foi o único ministro do governo a participar da cerimônia. Quando o aniversariante chegou, Jobim sentou-se à mesa armada no palco do auditório do Senado, cercado de políticos do PSDB e do DEM. Fez questão de falar e chamou seu discurso de um monólogo para Fernando Henrique. ‘Fui seu amanuense, ou escrivão, durante a Constituinte’, brincou. ‘Fui seu ministro da Justiça e indicado por você para o Supremo Tribunal Federal. Se estou aqui hoje, Fernando, é por tua causa.’ E encerrou o discurso com uma citação que causou surpresa na mesa e na plateia: ‘Nelson Rodrigues dizia que, no tempo dele, os idiotas entravam na sala, ficavam quietos num canto ouvindo todo mundo falar e depois iam embora. Mas hoje, Fernando, os idiotas perderam a modéstia.’ Ao fim da cerimônia, à uma da tarde, Jobim foi para o gabinete do senador Fernando Collor. (…)
Jobim deixou a sala de Collor e foi para o Ministério, onde almoçou rapidamente. Enquanto comia uma salada, comentou a discussão da liberação de documentos sigilosos do Estado. ‘É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília’, falou, referindo-se à ministra das Relações Institucionais e à da Casa Civil.
Disse que o Collor não criaria empecilhos, mas que estava chateado porque, enquanto ele discutia o projeto, foi atropelado por um pedido de urgência na votação, feito pelo senador Romero Jucá, da base governista. ‘Ele se sentiu desrespeitado, não havia razão para o pedido de urgência’, afirmou Jobim. Na conversa, Collor lhe contou que faria um discurso contra o projeto e Jobim lhe pediu que não o fizesse, no que foi atendido. ‘Eu disse a ele que havia muito espaço para negociação e que, se ele fizesse o discurso atacando o governo, estreitaria essa possibilidade.’ Perguntado sobre por que havia tantas idas e vindas no governo na relação com o Congresso, Jobim não teve dúvidas: ‘Falta um Genoíno para ir lá negociar.’
José Genoíno se candidatou a deputado, não se elegeu e, no começo do ano, Jobim o chamou para ser seu assessor. Antes de convidá-lo, porém, informou a presidenta da sua intenção. ‘Mas será que ele pode ser útil?’, perguntou-lhe Dilma. E ele respondeu: ‘Presidenta, quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu.’”
Rosa Costa, da Agência Estado
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), rebateu com ironia nesta quinta-feira, 4, a afirmação do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, “é fraquinha”. Sarney disse que não leu a declaração de Jobim, mas acredita que ele “jamais” faria um comentário para atingir o governo ou seus integrantes. “Eu acho até que esta [declaração] não combina com a ministra Ideli porque a Ideli é até bem gordinha, não é bem fraquinha”, afirmou o senador.
“O que posso dizer é que o ministro Jobim é um homem muito experiente, muito equilibrado. Jamais faria comentário qualquer que pudesse atingir as pessoas ou pudesse atingir o governo”, acrescentou.
O senador não acredita que a crítica do ministro da Defesa com relação à atuação das ministras Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Ideli Salvatti resultem na sua exoneração do cargo. Sarney lembrou que Jobim já disse que “está muito bem no governo”. “Ele realmente não tem nenhuma intenção de deixar sua posição de ministro e esse comentário não deve ter sido feito por ele”, defende.
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