Jair Stangler, do Estadão.com.br
A senadora Marta Suplicy negou na manhã desta segunda-feira, 5, que a resolução do 4º Congresso Nacional do PT proponha a censura à imprensa. “Eu não aprofundei o que está sendo proposto, mas até onde eu entendo, e isso eu entendi com clareza é que não é uma proposta de censura”, afirmou.
“A mídia fica muito rebelada contra qualquer possibilidade, e eu entendo isso pela situação de anos que tivemos de censura, por algumas áreas de censuras atuais. Então causa uma preocupação. Mas o PT é um partido que absolutamente desde o seu nascimento tem se postado anti-censura. Eu não vejo nenhum perigo disso, “acrescentou.
Segundo Marta, é preciso estudar a maneira de fazer essa regulação sem entrar numa política de censura. Ela contou que quando foi deputada federal, fez um estudo em países que tinham um regulamento de mídia. “Eu lembro que a Inglaterra tinha um regulamento bastante forte. E ninguém acha que a Inglaterra tem censura. A França também. Se caminhar dessa forma, acho interessante. Mas entendo a posição de todo mundo muito apavorado com qualquer coisa, ainda mais do PT que ainda de vez em quando é visto como comendo criancinha. Apesar de oito anos de absoluta democracia e não censura à imprensa”concluiu.
Marta participa do Seminário Brasil Metropolitano, promovido em parceria entre a senadora e a Universidade Mackenzie.
Tags: censura mídia, censura PT, Congresso PT, imprensa PT, Marta Suplicy
André Mascarenhas
A presidente Dilma Russeff voltou a defender nesta segunda-feira, 21, o exercício da crítica como um dos pilares fundamentais para que o Brasil ingresse no clube dos países desenvolvidos. “Um governo deve saber conviver com as críticas dos jornais para ter um compromisso real com a democracia”, discursou a presidente durante a comemoração dos 90 anos do jornal Folha de S.Paulo.
“A multiplicidade de pontos de vista, a abordagem investigativa e sem preconceitos dos grandes temas de interesse nacional, constituem princípios indispensáveis para o pleno usufruto da democracia. Mesmo quando são irritantes”, asseverou Dilma.
Após cumprimentar todas as autoridades presentes, Dilma traçou um rápido panorama da história da imprensa, desde a independência do Brasil, para lembrar que, na maior parte do tempo, ela esteve sob alguma forma de censura. “A censura obrigou o primeiro jornal brasileiro a ser impresso em Londres”, pontuou a presidente. “De Libero Badaró a Vladimir Herzog, ser jornalista no Brasil tem sido um ato de coragem”, admitiu.
Nos cumprimentos iniciais, Dilma fez menção ao ex-presidente e seu adversário político Fernando Henrique Cardoso, presente na plateia, mas não citou o também ex-presidente, e seu aliado no Congresso, Fernando Collor de Mello – que também esteve na Sala São Paulo, no centro da capital, para a festa.
Segundo a presidente, uma imprensa livre, plural e investigativa é imprescindível para a democracia num país que, “além de ser continental, é um País que congrega diferenças culturais, apesar da nossa unidade”.
Dilma também destacou o surgimento de “novas fronteiras digitais”, com a consolidação do jornalismo em tempo real. Para ela, os dois grandes desafios da imprensa hoje são: conjugar a velocidade da informação com a profundidade exigida e a necessidade de se aceitar as críticas dos leitores como parte do processo comunicativo.
Ao fim de seu discurso, a presidente voltou a usar a frase com que defendeu a liberdade de expressão durante a campanha eleitoral de 2010. “No Brasil de hoje, nesse Brasil com uma democracia tão nova, todos nós devemos preferir, um milhão de vezes, os sons das vozes críticas de uma imprensa livre, ao silêncio das ditaduras”, concluiu.
Tags: censura, comunicação, democracia, Dilma Rousseff, Folha de S.Paulo, Imprensa, jornalismo, liberdade de expressão
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Jair Stangler
O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, afirmou nesta quinta-feira, 27, em seu Twitter, que o governo ainda não decidiu sobre a proposta de concessão única para os veículos de comunicação. Questionado por um internauta, o ministro afirmou que “Basta ler a matéria para concluir que não decidimos nada. quando houver decisão, enviaremos ao Congresso.”
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Na edição desta quinta-feira, 27, o jornal ‘O Estado de S.Paulo’ informou que o governo estuda a possibilidade de desistir do veto à propriedade cruzada e de permitir a concessão única. Para o governo, a discussão sobre propriedade cruzada ficou obsoleta em decorrência do desenvolvimento tecnológico e da convergência de mídias.
A outra internauta, o ministro afirmou ainda sobre a reportagem do ‘Estado’: “O que leu é apenas matéria sobre uma das possibilidades futuras, na regulação do setor. Não se assuste com um debate que está começando. rsrs. Ainda vamos falar muito a respeito.”
Tags: Comunicações, Imprensa, Internet, mídia, Paulo Bernardo
Jair Stangler
O deputado federal e ex-ministro das Comunicações, Miro Teixeira, se disse preocupado com o que chamou de tentativas de controlar a internet. Ele participou da mesa redonda do Seminário Cultura de Liberdade de Imprensa, realizado pela TV Cultura entre a quinta-feira, 25, e a sexta, 26, em São Paulo.
“Precisamos discutir internet. Parece que estão querendo controlar a internet. As autoridades não querem ser fiscalizadas e a internet aumenta o controle sobre eles”, afirmou. “A internet é anárquica e estão querendo controlar a internet”, acrescentou.
O deputado também se mostrou perplexo com a discussão que está acontecendo sobre o marco regulatório. “Eu ouço um palavreado nessa conversa toda sobre controle de mídia e fico me perguntando: Qual é o lide? O que se quer controlar? Quem viu o anteprojeto? O que pretendem aqueles que querem um marco regulatório para a mídia?”
Contou até uma anedota para ilustrar seu pensamento. “Isso parece aquele caso em que o repórter vai cobrir um casamento. Quando ele volta, diz que não tem história porque a noiva faltou”, disse.
Ele também ironizou a declaração de Franklin Martins no mesmo evento, que disse que a lei de radiodifusão de 1962 é antiga. “E a lei de 1943 usada para cobrar impostos não é antiga?”, perguntou.
O advogado e articulista da ‘Folha de S.Paulo’, Luiz Francisco Carvalho Filho, lembrou a tentativa de Lula expulsar o jornalista do NYT e a proposta da Fenaj para criar um conselho nacional dos jornalistas para afirmar que há sim propostas do goveno no sentido de restringir a liberdade de imprensa. Ele também concordou com Miro Teixeira na avaliação de que ninguém o que o governo de fato quer com a proposta de regulação da mídia. “A função da imprensa é fiscalizar e o poder público não gosta disso”, declarou. Carvalho disses ainda que não vê diferença entre censura de militares e censura de juízes, concordando com a avaliação de outros participantes do seminário de que a censura judicial é hoje a principal ameaça à liberdade de imprensa.
Já a senadora eleita Ana Amélia Lemos (PP/RS) acha que essa discussão deveria ter sido deixada para Dilma, ainda que seja uma continuidade do mesmo governo. “É até uma falta de delicadeza”, disse. Declarou que nenhum tipo de tutela será aceito e que, na verdade, o que deveria estar sendo discutido era a reforma política.
Reclamou ainda da confusão em torno do debate. “Fernando Henrique disse hoje pela manhã coisas que a mim me interessam. Estabeleceu uma discussão em que uma hora se fala em controle social da mídia, outra hora de regulação. São coisas totalmente diferentes. E quem tem que dizer é quem faz a mídia. Nós jornalistas temos a responsabilidade de assumirmos uma discussão interna”, afirmou.
Tags: Internet, liberdade de imprensa, marco regulatório, mídia, Miro Teixeira
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Jair Stangler
O ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, declarou nesta sexta-feira, 26, que o Poder Judiciário é, hoje, a maior ameaça à liberdade de imprensa em nosso País. O ministro participou na tarde desta sexta do Seminário Cultura de Liberdade de Imprensa, promovido pela TV Cultura. Também participaram do evento o ministro Franklin Martins e o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.
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Para Eugênio Bucci, liberdade de imprensa sofre ameaças no Brasil
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“Não perco oportunidade de cortar na própria carne”, continou Ayres Britto. “Há nichos que parecem vigorar no passado. A lei de imprensa foi sepultada pelo STF e uma parte do Judiciário parece não entender isso”, completou. O ministro concordou que constituem censura decisões como a que proibiu o jornal ‘O Estado de S.Paulo’ de publicar reportagens sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investiga o empresário Fernando Sarney, filho de José Sarney.
Ayres Britto comentou ainda a decisão do STF que derrubou os dispositivos da Lei Eleitoral (9.504/1997). “O humor é o tipo de crítica mais sarcástico, mais cáustico. E a gente disse o quê? É plena a liberdade de imprensa, inclusive em época de eleição. Conseguimos emplacar a ideia de que o humor a sátira são atividades tipicamente de imprensa”, afirmou.
Para Ayres Britto, não pode haver outra lei sobre liberdade de imprensa além da própria Constituição. “Para a nossa Constituição, a liberdade de imprensa não conhece meio termo, não é uma liberdade pela metade. Ou é total ou não é liberdade de imprensa”, afirmou.
“Há um regime constitucional sobre a liberdade de imprensa, a Constituição é a lei orgânica sobre liberdade de imprensa. Nenhuma outra lei pode ter a pretensão de conformar a liberdade de imprensa, a não ser pontualmente. Direito de resposta, direito de indenização, participação de empresas estrangeiras, tudo isso é matéria lateralmente de imprensa, mas não é o núcleo duro. Onde se afirma o núcleo duro da liberdade de imprensa, não pode haver lei. Não pode haver lei dispondo sobre o tamanho e a extensão da liberdade de imprensa, e sua duração”, acrescentou.
De acordo com o ministro, a liberdade de imprensa se antagoniza com outros bens de personalidades como o direito à intimidade, à imagem, à vida privada e à honra. “Não há como conciliar esses blocos sem uma precedência cronológica de um sobre o outro. Os países que se orgulham do patamar elevado de civilização, esses países chegaram a uma conclusão: a liberdade de imprensa tem precedência, tem primazia, seja qual for o debate físico ou tecnológico”, afirma. “O outro bloco incide a posteriori, no plano das responsabilizações. dizer o contrário, é defender a censura prévia. Nenhum poder pode dizer o que o jornalista pode ou não pode escrever, isso é rechaçado radicalmente pela Constituição”, completa.
Ao longo de sua fala, o ministro Ayres Britto fez uma defesa apaixonada do jornalismo. ”Quem forma a opinião pública, por definição, é a imprensa. É o locus do pensamento crítico, que é um pensamento elaborado, racionalmente urdido. A imprensa cumpre o papel de buscar a essência das coisas, tem uma função emancipadora, é irmã siamesa da democracia. No mundo inteiro, mantém uma relação de unha e carne com a democracia. A imprensa é serviente da democracia, e a democracia é a meninas dos olhos da Constituição, o valor mais alto”, afirmou.
Tags: Carlos Ayres Britto, Fernando Sarney, humor, Internet, José Sarney, judiciário, Justiça, liberdade de imprensa, O Estado de S.Paulo, Operação Boi Barrica, Polícia Federal, STF
Jair Stangler
O jornalista e professor da USP, Eugêncio Bucci afirmou nesta sexta-feira-26, que vê duas ameaças sérias à liberdade de imprensa: a censura judicial e o aumento da publicidade oficial. Bucci participou de mesa redonda sobre liberdade de imprensa nas TVs públicas ao lado de Fernando Vieira de Mello, da Fundação Padre Anchieta, de Tereza Cruvinel, da TV Brasil e de Américo Martins, da Rede TV, que falou sobre sua experiência na BBC. O evento faz parte do Seminário Cultura de Liberdade de Imprensa, promovido pela TV Cultura em São Paulo.
Em sua intervenção, Bucci declarou não é verdade que não existam ameaças contra a liberdade de imprensa. “Elas existem. Vivemos um regime de plenitude democrática, mas poderia ser melhor. A presença da censura judicial é uma delas. Vem do poder judiciário, não do poder executivo. Mas não podemos agir como se fosse um dado da normalidade. nada impede que amanhã 3 mil assuntos sejam proibidos”, disse. A fala de Bucci fez com que a diretora da TV Brasil, Tereza Cruvinel, se retificasse e admitisse a ameaça da censura judicial. Momentos antes, ela havia dito que não há ameaça à liberdade de imprensa no País.
Segundo Bucci ainda, a segunda ameaça é o volume ‘mastodôntico’ de verba oficial. “Alguns até dizem que ajuda a financiar pequenos jornais”, afirma. Mas para ele, se o governo quiser de fato fomentar a pluralidade de opiniões, deveria abrir crédito para qualquer veículo tenha acesso em condições de igualdade, independente de alinhamento ideológico. “As verbas públicas crescem em velocidade vertiginosa, é uma promiscuidade muito grande”, afirmou.
Ele afirmou ainda que esse dinheiro público também abastece emissoras públicas. “A emissora pública não deveria veicular nenhuma peça publicitária”, disse. Para ele, a verba publicitária leva a uma subserviência ao mercado ou ao governo.
A publicidade foi colocada por Bucci como um dos quatro eixos apresentados por ele ao discutir a liberdade de imprensa nas emissoras públicas. Os outros três são gestão, vínculo com o Estado e os imperativos estéticos para a tv pública.
Para ele, as emissoras públicas carecem de transparência de gestão. Defende que deem mais transparência aos dados financeiros das TVS. “Ela só é do público, se o público puder controlá-la, precisa ter transparência”, disse. Segundo Bucci, a maioria das emissoras públicas do País é cabide de empregos de gente que não trabalha, de salários misteriosos. “Não há condição de liberdade de imprensa”, disse. “Querem discutir liberdade de imprensa, programação, comecemos pela gestão”, acrescentou.
Bucci disses ainda que não há independência na escolha dos gestores das emissoras. “Não conheço um único caso em que o dirigente da emissora tenha sido escolhido à revelia do governo”, afirmou. “No caso da TV Brasil, ela é vinculada à Secretária da Comunicação Social. Deveria ser vinculada ao Ministério da Cultura. É um órgão de cultura, e não um órgão de comunicação política”, disse. Segundo ele, na TV Brasil, a qualidade dos profissionais que estão garantem a independência, mas isso deveria ser feito pelo próprio sistema.
Ao falar sobre imperativos estéticos, Bucci afirmou que a TV Brasil deve ser mais ousada, já que não tem o compromisso com as vendas e com a audiência. “Almejar o invisível”, disse. “A TV pública deve desmontar a oferta do gozo pré-fabricado. A TV comercial prefere o que é fácil, digerível e repetido. A TV públoica deve quebrar isso.Fazer o que a tv comercial não pode, não quer ou não sabe
Ainda segundo Bucci, a TV pública deve se desvencilhar do medo do chefe. “O presidente da instituição tem medo do presidente da república, o diretor tem medo do presidente da instituição, o editor tem medo do diretor, o repórter tem medo do editor e assim se produz uma TV terrivelmente medíocre e chapa branca”, afirmou.
Bucci defendeu ainda a necessidade de se regular a mídia. “A Constituição ao tratar matéria pede regulação, legislação infra-constitucional. Cada um fala que estatal é uma coisa, cada um fala que público é uma coisa. Precisamos de marco-regulatório. Não é controle de conteúdo. Mas também é legítimo que a sociedade tenha dúvida quanto a isso. Há coisas ambíguas aí. O Brasil precisa organizar essa matéria”, afirmou.
Papel diferenciado
Para a presidente da TV Brasil, Tereza Cruvinel, a TV pública tem um papel diferenciado. “Nossa constituição prevê a complementaridade entre os sistemas público, estatal e privado. então a tv pública deve fazer o que a tv privada não faz”, declarou.
Ao comentar a proposta de regulação da mídia, Tereza afirmou que não existe projeto para controle de conteúdo. “A questão é: como podemos avançar em marcos regulatórios democráticos em tempos de convergência de mídia?” Ela defendeu ainda a necessidade de se regular o direito de resposta no Brasil.
Em sua opinião, o compromisso com a liberdade de imprensa não deve observar diferença entre a empresa pública e privada, mas a emissora pública deve zelar ainda mais. “Elas são sustentadas pelo público, não há lucro, não veiculam publicidade para que tenham como único patrão, a sociedade”, declarou. Para ela, liberdade de imprensa não é apenas o direito de publicar tudo, mas também um compromisso com a pluralidade de opiniões.
Ela diz que a TV Brasil tem regulação e vê isso como positivo. Segundo ela, as emissoras públicas, “por terem regulação, tem um compromisso mais próximo da liberdade de imprensa. As emissoras tem ouvidorias, tem mecanismos de fiscalização da sociedade, como os conselhos. Regulação é aprofundamento da democracia, não é ameaça.”
Segundo ela “faz mais sentido ainda TV pública num país desigual como o Brasil. “Infelizmente, lá atrás, criamos apenas uma TV comercial. Neste momento de profunda transformação social no Brasil, é importante não dar apenas mais comida, não apenas linha branca, é importante também informação e cultura. A TV pública pode sim cumprir um importante papel”, afirmou.
Muito difícil repetir BBC
O diretor de jornalismo da Rede TV, Américo Martins, falou sobre sua experiência na BBC. Para ele, a BBC é o melhor exemplo de empresa efetivamente pública. “Primeiro, não tem publicidade nenhuma. O parlamento britânico aprova um imposto de 145 libras para todo mundo que tem TV em casa, dá 12 bilhões por ano, praticamente todo o bolo publicitário da TV no brasil. Estão cortando orçamento, mas a BBC sabe quanto terá pelos próximos 6 anos”, disse. Segundo ele, no entanto, é muito difícil repetir aqui.
Para ele, independência de gestão e independência financeira levam à independência editorial da BBC. Martins diz ser contra qualquer tipo de controle, mas defende que se tenha alguma maneira de impedir os abusos.
Tags: Eugênio Bucci, Internet, liberdade de imprensa, marco regulatório, Tereza Cruvinel, tv pública
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Jair Stangler
O diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, abriu sua participação no Seminário Cultura de Liberdade de Imprensa nesta sexta-feira, 26, afirmando que não é possível fazer uma gradação do risco à liberdade de imprensa no País. Gandour disse concordar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando este afirmou em sua palestra que a liberdade de expressão está permanentemente em risco e discordou da relativização feita pelo ministro Franklin Martins, que declarou não haver riscos para a liberdade de imprensa no País.
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Em seguida, Gandour citou como exemplo de risco à liberdade de imprensa no País o caso da censura ao jornal O Estado de S.Paulo e ao portal estadão.com.br, que desde 2009 estão proibidos pela Justiça de divulgar informações sobre a Operação Boi Barrica, que investiga o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney. Gandour lembrou ainda que existem muitos outros casos de censura judicial a veículos no País.
O diretor de conteúdo do Grupo Estado afirmou ainda que é preciso fortalecer as instituições antes de buscar novas leis e ressaltou “a importância das palavras, atos e gestos governamentais ao colocar uma agenda. O próprio presidente criticou a imprensa. A palavra do presidente não é impune”, acrescentou.
Gandour concluiu sua participação afirmando que um dia se poderá avaliar como foi possível que o País tenha evoluído tanto em aspectos do consumo e da economia com tantos riscos de retrocessos políticos.
Críticas a Lula e a Franklin Martins
O jornalista Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, disse concordar com as avaliações feitas por Gandour. Ele também criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por tentar qualificar a mídia como um partido. Para Merval, a mídia não age como partido e nem deve fazê-lo.
Além disso, o colunista criticou o argumento de Franklin Martins para regularizar a mídia, segundo o qual a legislação precisa ser atualizada porque é de 1962. Segundo Merval Pereira, a Constituição brasileira já fez essa atualização e também há outros dispositivos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O jornalista também lembrou o episódio conhecido como ‘bolinhagate’, ocorrido durante a campanha eleitoral, para mostrar a importância do contraditório. Em campanha no Rio de Janeiro, o então candidato José Serra (PSDB) foi atingido por um objeto na cabeça e chegou a fazer uma tomografia. Segundo Merval, quando o canal SBT mostrou a versão da ‘bolinha de papel’, o presidente se manifestou criticando o candidato tucano. Quando, ainda de acordo com Merval, a Rede Globo mostrou que houve um segundo objeto, Lula se disse “decepcionado” com a emissora.
A jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S. Paulo, focou sua participação na crítica à fala feita por Franklin Martins na quinta-feira, 25. Para ela, a própria fala do ministro dizendo que não há ameaça à liberdade de imprensa já evidencia o risco. Renata também argumentou que não houve distorção do que disse Franklin Martins sobre a regulação acontecer “com ou sem enfrentamento”.
Tags: censura, Fernando Sarney, Grupo Estado, Internet, José Sarney, liberdade de imprensa, Ricardo Gandour
Jair Stangler
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta sexta-feira, 26, que considera natural que a sociedade tenha medo de perder liberdade de expressão. Segundo ele, a liberdade de expressão está sempre ameaçada em todos os lugares e em todos os tempos.
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O ex-presidente participa do Seminário Cultura de Liberdade de Imprensa promovido pela TV Cultura em São Paulo para discutir o tema, que vem causando polêmica a partir da iniciativa do governo de propor um novo marco regulatório para a mídia. O seminário começou na quinta-feira, 25, com palestra do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Franklin Martins, que defendeu a necessidade de regular a mídia e afirmou que não há risco para a liberdade de imprensa no País. O seminário tem ainda outras mesas com debates e se encerra na tarde desta sexta-feira, 26, com palestra do ministro Carlos Ayres Brito, do Supremo Tribunal Federal.
‘Regular o quê?’
Fernando Henrique iniciou sua palestra questionando a necessidade de se fazer uma agência reguladora para a mídia. “Quando se fala em agência reguladora, já se pergunta: vai se regular o quê? Conteúdo?”, questionou. O ex-presidente lembrou ainda que foi responsável pela criação das agências reguladoras no Brasil e afirmou que o governo não pode interferir na gestão da agência reguladora.
“Isso é o contrário da tradição no Brasil, o Brasil tem tradição de poder pessoal de caudilhismo. A formação das agências foi para preservar o princípio da liberdade e da lei. Elas foram criadas para permitir que o privado atue em certa área que tem relevância pública. Mas a ingerência política está aumentando. Me parece razoável criar uma agência para regular as concessões, mas não para regular conteúdo. Nem me parece que seja a ideia do ministro Franklin Martins”, declarou.
O ex-presidente disse não considerar o ministério a instância correta para propor a regulação. “Até porque nem é Ministério das Comunicações, é Ministério da Comunicação Social, é uma pasta eminentemente política. O âmbito (para propor a regulação) não é o âmbito político”, disse. ”Como o ponto de partida foi um ministério eminentemente político, é natural que a população se assuste”, completou.
Ele se disse também preocupado com as declarações do ministro Franklin Martins, de que a regulação vai acontecer “com enfrentamento ou com entendimento”. Segundo ele, quando se diz que “vai ser feito de qualquer jeito, aí não é democrático”. “Não pode ser colocado ‘goela’ abaixo do Congresso, goela abaixo do País. Isso mexe com muitos intereresses, com interesses do donos dos meios e com os interesses da população. Não pode ser feito a toque. E acho que nem vai ser”, afirmou.
Fernando Henrique se mostrou também preocupado com a presença estatal na área. “O maior monopólio é o estatal, porque o Estado tem força reguladora e força financeira. Os principais anunciantes são as estatais. Isso tamém distorce a autenticidade da informação”, alertou.
O ex-presidente disse ver com preocupação “a ausência de debate”. “Não tem havido debate de nada. Vamos fazer o trem-bala. Quem quer? Vamos fazer o pré-sal. Não há debate. As coisas são decididas nos gabinetes e apresentadas à população como prato-feito”, acusou.
América Latina
Fernando Henrique comentou ainda a situação em outros países da América Latina. Para ele, na Venezuela, “há um esvaziamento da diversidade de opinião, uma tendência ao pensamento único e hegemônico”. Sobre a Argentina, o tucano afirmou considerar “lamentável e indesculpável o que aconttece na Argentina. Não vamos sufocar a opinião através da coerção, como acontece no Clarín.”
Ainda sobre os riscos do autoristarismo, FHC lembrou que “a Alemanha de Hitler tinha pleno emprego. Mas nem por isso você endossa posições autoritárias. No Brasil, a democracia é mais forte, mas sempre existe o risco.”
Respondendo à pergunta da audiência, o ex-presidente afirmou não pretender fazer twitter ou blog. “Tudo que eu quero é não ter seguidores”, brincou. ”Sou muito favorável a tudo isso, mas me deixem na outra geração”, acrescentou. Também comentou sobre a possibilidade de estabelecer controle sobre a internet. “Quem tiver a pretensão de controlar a internet, vai perder tempo”, disse.
Tags: Fernando Henrique, FHC, Internet, liberdade de imprensa, mídia
O segundo debate do Seminário Cultura Liberdade de Imprensa levantou questões fundamentais sobre o tema novas mídias e a liberdade de imprensa. A mediadora Maria Cristina Poli iniciou a conversa ressaltando a importância do assunto na sociedade atual e a necessidade de um olhar para o futuro, levando em consideração os milhões de usuários de internet e a rapidez com a qual as informações circulam pela rede.
Dentro desse contexto, Poli deixou a pergunta “É possível um controle?”. O debate seguiu com as falas dos convidados: o jornalista do Terra Magazine, Bob Fernandes; o diretor de jornalismo do IG, Luciano Suassuna; e o jornalista, professor e consultor em novas mídias, Caio Túlio Costa.
Luciano Suassuna começou a palestra apresentando infográficos elaborados pelo portal IG e que fazem uma comparação entre os meios de comunicação tradicionais (televisão e impresso) e os portais de internet. Os dados mostram a ascensão da internet não só no Brasil, mas no mundo, e como esse fenômeno tem causado mudanças na forma de se fazer e consumir notícias. “Nos portais, o internauta pode ser o repórter, editor e crítico. E o espaço ilimitado permite que ele hierarquize a informação de acordo com o seu interesse”, afirmou Suassuna. Para enfatizar as diferenças entre a “velha” mídia e a “nova” mídia, o diretor de jornalismo do IG destacou que na internet é possível disponibilizar um maior número de fotos, reportagens, vídeos, e, além disso, uma quantidade mais significativa de manchetes e variadas abordagens de um mesmo tema no decorrer do dia.
O jornalista Caio Túlio Costa deu sequência ao debate afirmando que a questão mais ampla em relação ao tema novas mídias e a liberdade de imprensa é o problema do desejo de controle, que parte tanto do governo quanto da sociedade. Costa afirmou ser impossível controlar o conteúdo disponibilizado na rede. “Hoje, estudante, blogueiro e sindicalista têm poder de mídia. Pode não ter eficácia, mas tem poder”.
Já o jornalista Bob Fernandes destacou que a questão mais relevante para se discutir é a intervenção dos interesses políticos nas empresas de comunicação. A grande censura em relação à imprensa na opinião do jornalista é a patronal, feita pelos donos dos veículos de comunicação do país. “A sociedade se nega a discutir isso, mas não vamos ser hipócritas”, declarou. Fernandes lembrou a existência de regulamentações em vários países do mundo e que elas não podem ser confundidas com censura. O jornalista também acredita na impossibilidade de controlar as novas mídias.
No final do debate foram abordados os temas: a ética nas novas mídias, como os blogueiros podem se defender dos ataques de grandes grupos midiáticos, a reação da sociedade em relação aos conteúdos publicados na rede e a liberdade de expressão na internet, que, segundo Costa, não é ilusória.
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