Morreu em São Paulo, aos 86 anos, o jornalista Paulo Schilling. Schilling foi um dos fundadores do PT e também atuou no Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master) nos anos 60, uma das organizações que inspirou o Movimento dos Sem Terra (MST).
Ele também foi assessor do governador Leonel Brizola no Rio Grande do Sul e repórter em jornais e agências de notícias da américa latina, como a Prensa Latina, durante o período da Ditadura Militar em que ficou exilado no Uruguai e na Argentina. Schillin escreveu ainda 32 livros sobre a região.
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Solange Spigliatti, do estadão.com.br
Morreu nesta quinta-feira, 12, Melanie Singer, de 79 anos, vítima de um câncer de pâncreas. Melanie, era casada com o economista Paul Israel Singer, e mãe de Suzana Singer, ombudsman na Folha de S.Paulo.
Segundo informações do secretário da jornalista, o velório começa a partir das 12h30 no cemitério Israelita do Butantã, onde será realizado o enterro, a partir das 15h30.
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Foto: Sergio Castro/AE – 22/02/2010
Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo
O cantor Eduardo Gomes de Farias, o Ravel, morreu, aos 64 anos, no início da tarde de quinta feira, 16, em São Paulo.
Ravel, da dupla Dom&Ravel, criadores de Eu te amo meu Brasil – grande sucesso do início dos anos 70, auge da repressão política no País -, sofreu um infarto fulminante quando tomava banho em sua casa, na zona Norte da cidade.
O corpo de Ravel foi sepultado nesta sexta-feira, 17, no Cemitério do Araçá.
O cantor deixou Rejane, a Janinha, sua mulher, com quem era casado há 37 anos, e uma única filha, Priscila.
Seu irmão, Eustáquio Gomes de Farias, o Dom, morreu em dezembro de 2000, de câncer de estômago.
Dom e Ravel eram cearenses de Itaiçaba. Crianças eles se mudaram-se para São Paulo.
Eduardo virou Ravel por causa de um professor, que via nele talento para a música e assim passou a chama-lo.
No início dos 70, o Brasil presidido pelo general Emílio Garrastazu Médici, os irmãos ganharam fama de cancioneiros da repressão com a música que empolgava os militares, “Eu te amo meu Brasil”, gravada inicialmente pelo conjunto Os Incríveis.
Abaixo, entrevista que Ravel concedeu ao Estado, em janeiro de 2010, em sua casa, ao lado de Rejane:
O pau cantava solto nos porões e eles recitavam Eu te amo meu Brasil com o orgulho de quem o Hino Nacional interpreta.
Nos palanques com a chancela dos generais falavam de praias ensolaradas e mulatas cheias de calor, singelos versos para um Estado de duas faces – a do milagre econômico e a de um povo sem direitos nem habeas corpus.
Era 1970. No México, nosso escrete de ouro, que tinha Pelé, Tostão e Rivelino, conquistava o tri mundial de futebol. A Jules Rimet nossa para sempre. Na vigência plena do AI-5 o País mergulhado no arbítrio. Ame-o ou deixe-o! as opções que o regime concedia.
Quarenta anos depois do lançamento de Eu te amo meu Brasil e às vésperas de uma nova Copa, a da África do Sul, o homem de passos inseguros, que busca equilíbrio e amparo no vazio, surge à porta em arco da casa antiga e desbotada, de roseiras e orquídeas perfumadas no jardim. “Olá, sou Ravel”, ele se apresenta, a voz firme, a mão direita estendida.
Seu nome é Eduardo Gomes de Farias, apenas Ravel, que é como o Brasil o conheceu nos anos de chumbo.
A história o tornou famoso como o cancioneiro da repressão, o porta-voz das sombras.
Dom, seu irmão, morreu a 1.º de dezembro de 2000, vítima de um câncer no estômago.
Óculos de aros largos e lentes escuras escondem os olhos de Ravel, olhos que não veem.
De um golpe inesperado, numa noite de inverno, julho de 2006, ele ficou cego enquanto dormia.
Houve um tempo em que Dom e Ravel, mais que a glória e o apreço dos generais, tinham dinheiro à farta.
Corriam o País, de Norte a Sul, com o seu Eu te amo meu Brasil, estupendo sucesso nas rádios e nos programas de auditório de TV.
Na casa avarandada que pertence à Eva, sua irmã, Ravel, aos 63 anos, leva uma vida despojada, na companhia da coleção de vinis, o bem que lhe restou.
Mantém-se com os quatro mínimos que a Previdência deposita em sua conta a título de aposentadoria por invalidez.
A casa onde mora fica no lado par de uma rua pacata de Vila Albertina, próximo a um córrego que corta aquele pedaço da zona Norte, e para lá ele se mudou há 9 anos, desde que sofreu a violência de um assalto a mão armada na Serra da Cantareira. “Levaram tudo, meu irmão…”
Na passagem lateral da residência dois carros velhos ao relento se desmancham.
São dois Ladas, um com 14 anos de rua, o outro com 18, e nenhum deles pega mais, nem no tranco. “Falta muita peça, estão aí parados, meu irmão.”
Dos carros sem valor não pode se desfazer porque estão em processo de inventário, assim como a casa.
O homem que idolatrava o Brasil amordaçado e que no peito dizia carregar o coração verde, amarelo, branco, azul, anil, agora tateia uma Nação corrupta, sem ética, varrida pela imoralidade e pela violência desmedida – segundo seu parecer.
Julga o País entregue a desmandos e à malversação da coisa pública, mas exclui desse quadro caótico o presidente Lula. “Ele é o cara”, faz eco a Barack Obama.
Passa horas a fio em seu retiro e a solidão ele tenta superar ao lado de Rejiane, a companheira que no auge conheceu e que o trata com amabilidades e carinho.
Janinha é como a chama e logo ela vem para servi-lo – na bandeja traz o copo de café preto. “Sim chefinho!”
Em um ambiente contíguo à sala de estar, que tem uma janela para o canteiro de jasmins, Ravel ainda compõe. Mas é só para ele. Sua rotina são as letras de protesto, canções marcadas pela angústia e lamentos.
A voz que idolatrou o Brasil submerso na repressão agora brada por Justiça, honestidade e transparência.
Aponta injustiças, clama por direitos de um “povo aflito” e de “irmãos sofridos”.
Amor e trégua para o País desajustado ele prega. “Eu peço paz, paz, paz”, cantarola, o indicador e o polegar da mão direita dando o ritmo.
Nos tempos em que cantava um Brasil feliz e dourado, a censura calava os opositores do regime.
Não há tesouras no caminho de Ravel, que ora aponta críticas à política e aos desmandos de governo.
A nova face do antigo ícone da ditadura não preserva nem mesmo os militares.
A mágoa que carrega, diz, é porque a História não lhe deu, nem a seu irmão, a oportunidade da réplica.
Alega que queria provar ao mundo que não fez serviço sujo e que não era cúmplice de uma repressão sangrenta, muito menos estava a serviço dos quartéis – marca indelével que Dom&Ravel carregam por todo o sempre.
Como era o País do Eu te amo meu Brasil?
Não era tão ruim assim como dizem. Era diferente. Eu sou contra a ditadura e todo tipo de repressão. Naquela época eu vivia como todo brasileiro, com medo, a gente tinha medo, mas tinha respeito pela autoridade, embora ela fosse abusada. Mas você podia sair a hora que queria, numa boa. Agora não, meu irmão. Você não sabe mais se tem medo do bandido, medo da polícia, não sabe quem é quem. Misturou tudo. Que façam uma varredura legal, quem é quem, separem o joio do trigo e comecem o exemplo lá de cima. Mas para isso precisa de governantes que conquistem a confiança de todos nós e que sejam honestos com o eleitor. Não é ir lá para ficar rico, pegar a chave do cofre do Banco Central e fazer o que dá na telha.
É um discurso de palanque?
Eu não sou político, nem pretendo ser. Não sou candidato a nada. Fui filiado, montei o diretório do PDT na zona Norte nos anos 80. Fui vice-presidente do diretório no Jaçanã, depois fui para o Partido da Mobilização Nacional, o PMN, eu me identificava com a filosofia deles. Mas não pretendo mais sair candidato. E olha que tem muito convite. Não quero porque tenho consciência que nasci para ser artista, compositor, para cantar e levar alegria. Deus me deu esse talento.
Militares no poder outra vez?
Deus me livre, cruz, credo! O que é isso? Mangalô três vezes (bate na madeira). Não é por aí, meu irmão. O que precisamos no Brasil é de novidade, é gente nova. Parei de cantar para dar espaço para outros artistas, geração nova. O artista aqui quer ficar perpetuamente, não divide o espaço dele, não ajuda. É um ferrando o outro, meu compadre. É concorrência, é a lei da vantagem. Pisam no semelhante, ganância, maldade.
Virou as costas para quem o apoiou?
Não, estou sendo cuidadoso. Sou uma pessoa que parou para fazer uma auto crítica do passado, uma avaliação de tudo o que aconteceu comigo para traçar um novo caminho, uma nova estrada para seguir. Minha meta é ajudar o meu País, é ver o Brasil crescer. Não ficar fazendo espetáculo enganando o povo na TV.
Mas vocês abraçaram o lema Ame-o ou Deixe-o
Não foi assim meu irmão. Fizemos o Eu te amo no entusiasmo das belezas naturais do nosso País. Vivíamos um momento de grande expectativa do tricampeonato no México.
Hoje você acha que os generais foram um mal para o Brasil?
Olha, tinha gente boa, muito competente e honesta no governo militar. Um dos honestos eu vou citar, João Figueiredo (general-presidente entre 1979 e 1985). Eu tenho orgulho de dizer que ele era meu amigo. Era um homem sério, um homem correto, um homem de palavra. Eu tive a felicidade de conhecê-lo.
Você quer os generais de volta?
Não. Você pode recuperar tudo na vida, mas o que passou já era. Eu nasci com metas, ir para a frente. Esse negócio de andar de marcha a ré é para caranguejo.
E a aliança com a direita?
Meu irmão, Dom e Ravel foram perseguidos pela esquerda e pela direita, você já viu alguma coisa semelhante no Brasil? Chamavam a gente de filhotes da ditadura. É tanta da mentira que falam a meu respeito, tanta calúnia, tanta coisa errada, entendeu? E eu não vou atrás de processar ninguém, primeiro porque eu sou espírita, eu sou kardecista, eu me identifico com a doutrina. Nos anos 70, a gente vivia glórias. Mas nós éramos perseguidos pela esquerda. As pessoas achavam que éramos engajados. Os militares recrutavam a gente, nós éramos recrutados.
Eu te amo meu Brasil não era o hino do regime de exceção?
Nós fizemos Eu te amo meu Brasil, Só o amor constrói e Você também é responsável. Essas músicas têm tudo a ver comigo, com a minha infância, com a minha luta na periferia. Foi aí que veio a inspiração. Essas 3 músicas foram usadas, o governo militar usou.
Como foi a aproximação com o general Emílio Garrastazu Médici?
Nós o conhecemos sim. Nos encontramos no primeiro aniversário do Mobral, em 1971. Foi em Jundiaí, no ginásio de esportes. O Médici quebrou o protocolo, ele veio nos abraçar, a mim e ao Dom. Eu disse a ele: ‘É um prazer e uma honra conhecer o presidente Médici’. Ele respondeu: ‘A honra é minha porque vocês são pessoas com ideais patrióticos para fazer músicas como essas.’ Essa imagem foi muito explorada pelas pessoas invejosas. Todo mundo falava que Você também é responsável era hino do Mobral. Mas era apenas uma música que incentivava a alfabetização do adulto. Nunca recebemos dinheiro algum do governo. Nunca fizemos música encomendada para governo nenhum, nunca, um tostão, nada.
Mas você e seu irmão não enriqueceram com o aval da ditadura?
Meu irmão, essa é uma mentira das grandes. Onde estão os aviões?, as fazendas?, todo esse dinheiro que disseram que a gente tinha? Eu nunca tive um imóvel no meu nome, nunca comprei nada. Eu nunca tive sequer passaporte. A Janinha tinha um carro sim, mas foi obrigada a vender para ajudar aqui na casa. Eles queriam oficializar o Eu te amo meu Brasil como hino nacional. Mas nunca pagaram nada para nós. Andaram falando que a gente ganhou rios de dinheiro a serviço da ditadura. É mentira. O governo usou as nossas músicas e nunca deu um tostão para nós. Na verdade, de tanta aporrinhação, de tanta perseguição política, os nossos shows sofriam uma violência muito grande. Quando a gente chegava numa cidade o Dops (polícia política) escoltava a gente, era um comboio para nos proteger. Onde a gente chegava vinham aquelas pessoas influenciadas pela mídia para nos hostilizar. A gente sofria isso na pele. E os outros músicos nem queriam tocar com a gente.
Dom&Ravel não era o xodó dos generais?
Olha, tinha uma agência de publicidade que cuidava dessa mídia para o governo. Teve aquele evento, o do aniversário do Mobral, onde o presidente Médici veio nos abraçar. Isso aí foi explorado durante muito tempo. Com o presidente João Figueiredo (último dos generais no Planalto) a gente se encontrou em 78, quando lançamos Obrigado ao Homem do Campo. Em duas semanas a gravadora nos deu um disco de ouro. A gente decidiu dar esse disco para o João porque ele estava com a atenção voltada para a agricultura, era um homem que tinha interesse em valorizar a agricultura. Por isso a gente gravou Terra Boa e Você também é responsável.
O sr. se arrepende de ter subido no palanque dos generais?
Não me arrependo. E tem mais: se eu não fizesse isso eu podia ter o mesmo fim que outros artistas tiveram. Mas veja bem: acredito que o meu sucesso com o meu irmão causou um prejuízo muito grande para outros artistas e isso deve ter provocado uma dor de cotovelo tremenda porque tudo é competição. Todos os mercados são assim. A música não é diferente. Teu sucesso implica na infelicidade de outros, no prejuízo de outros. Aí criou-se uma animosidade na classe artística que já muito desunida, cada um para si, não divide o espaço. Ninguém ajuda ninguém meu irmão. O nosso estouro causou um monte de inimigos no meio. Dom e Ravel sempre gostaram de dizer a verdade. Não existia, nunca existiu mentira com Dom e Ravel. Infelizmente no Brasil em todos os setores o que mais rola é mentira.
E os porões?
Nós tínhamos conhecimento, ouvíamos falar que existia a perseguição política aos comunistas, aqueles que eram contra o governo. O pessoal da esquerda. A gente tinha medo também de que aqueles sumiços nos alcançassem. Tínhamos ciência do que estava acontecendo no País. A gente era observado e vigiado 24 horas por dia. Quando a gente chegava em qualquer cidadezinha para fazer um show tinha sempre os buxixos entre os seguranças que trabalhavam para as celebridades. Eu sempre fui muito atento a tudo pela minha origem de periferia. Tinha policial do Dops, tudo o que você pode imaginar, olha tem araponga na área, tem dedo duro, tem ganso, tem traíra, arapongagem para todo lado, pá e tal. Você sabia que estava sendo vigiado. Eu sou espírita, uma coisa diferente. Talvez a mediunidade muito aguçada. Você se arrepia com coisa boa e com coisa ruim e sabe distinguir isso com o tempo, com as orações, a dedicação à medida em que você vai limpando a área e se apegando a Deus. Você vai tendo isso mais forte e melhor na pele, entendeu? Então eu sentia quando as coisas boas estavam acontecendo e as ruins estavam para acontecer.
O que precisa mudar na política?
Tem que acabar com imunidade parlamentar, tem que fazer uma lavagem, uma varredura nesse País, em todos os políticos, em todos os homens públicos. Nasceu onde, quando, o que tem, o que o seu pai tinha… Faz uma varredura em todo político nesse País, pega a Federal e põe atrás, mas não é botar arapongagem. Hoje misturou tudo. Ninguém sabe quem é quem. Você tá deitado na cama com sua esposa e ela é espiã, conta tudo o que ela sabe sobre você prá outro.
O governo Lula?
Uma decepção. Estou completamente decepcionado. Eu votei no Lula. Não é essa a democracia. A corrupção continua aí, solta. A gente esperava que fosse transparente, mas não é. O que falta nesse país é isso. Transparência. Votei no Lula nas duas primeiras vezes (1989 e 1994). Sempre sonhei com um país democrático, com um candidato que pudesse dizer: olha, a primeira coisa que vou fazer é acabar com esse negócio de imunidade parlamentar. Para começar a moralizar o País e o político brasileiro. A maioria sai candidato por causa da sua ficha criminosa, por causa do seu passado, dos seus comprometimentos. Eles querem a imunidade para encher os bolsos de dinheiro. Pensam só neles, o povo que se dane. Pensam em alguma organização que bancou a campanha e deixou ele de rabo preso.
Cantaria Eu te amo no palanque do Lula e da Dilma?
Eu subiria no palanque deles, mas não aceitaria um tostão, cachê nenhum. Continuo amando o Brasil. Sempre foi assim. Quando Dom e eu pintamos num palco pela primeira vez, em 1967, nossa primeira música foi Terra Boa.
Como era a letra?
Terra boa, terra boa, tão plantando tudo compadre vamos plantar é da boa, é da boa, tão quebrando cana que é prá Joana chupar.
Por que Dom e Ravel romperam?
Nos separamos umas 4 ou 5 vezes. A primeira foi quando a gente estava no topo, em 1973. Com as perseguições políticas começou a pintar uns conflitos entre o público que era fã de Dom e Ravel e os que nos agrediam. A gente fazia muito show em praça aberta e aí o pau comia. Uma parte da plateia gritava ‘aí puxa saco do governo, filhote da ditadura’, entendeu? Palavreados pejorativos que a patrulha ideológica criou, o pessoal da esquerda não gostava da gente. Aí eu escrevi Animais Irracionais, por causa dessa violência toda contra a gente. Dom foi contra. Ele disse ‘você tá ficando louco’. Eu insisti.
Como criaram Eu te amo?
Meu irmão, foi na rua Tabatinguera (centro de São Paulo, esquina com a Sé). Foi no banheiro da quitinete onde a gente morava, minha mãe, o Dom e eu. A gente tinha um violãozinho velho. Naquela época criou-se um clima no País, aquela esperança, aquela corrente pelo tricampeonato de futebol. Aquilo uniu o povo. Era a euforia da Copa. Minha parte foi no refrão e na melodia. A gente foi lembrando das praias, das nossas mulheres belas, o Brasil ensolarado…Quem gravou primeiro foi Os Incríveis. Mas estourou mesmo foi com Dom&Ravel.
Ganharam dinheiro?
O governo usou Você também é responsável, que fizemos antes do Mobral existir. Depois é que veio o Mobral. E fizemos Só o amor constrói. O governo usou essas duas canções nossas e o Eu te amo meu Brasil. Usou as três, foi uma loucura. Usou de que forma? Nas emissoras de rádio tocando, massificando, o povo pedia aquela coisa toda nos eventos oficiais do Exército, como a Expoex, nas Minas Gerais. Eu dividi palco com a Elis, a Rita Lee com os Mutantes, entendeu? Da mesma forma que eu ia eles iam também. Eram recrutados para fazer essas exibições, participar desses eventos. Participei aqui no Ibirapuera, o aniversário do Mobral em Jundiaí, em 1971. Essas exibições se davam dessa forma. Eles vinham para cima: recrutamos vocês, para vocês se apresentarem em tal evento, assim assado. Nunca recebi um tostão por essas apresentações. A gente ia com a nossa banda, tudo certinho, a gente cantava.
Volta a gravar?
Até posso fazer uma produção se eu encontrar um talento novo, um bom artista. Posso produzir e transmitir tudo o que sei, meus conhecimentos. Mas não quero gravar. Não tenho interesse. Nem tenho contato com nenhuma gravadora. Do jeito que esculhambou o mercado, gente sem talento, padre fazendo sucesso, se metendo a cantar sem talento, pastor se metendo a cantor. Um monte de gente fazendo forró brega só porque tem dinheiro. E você não sabe de onde vem esse dinheiro, se vem do crime organizado. É muito lixo musical tocando. O que é isso meu irmão? Eu tenho vergonha, eu sou família, nunca me envolvi com droga. Músico para tocar na minha banda eu digo logo na cara: ‘meu irmão, se liga aí que aqui não rola droga, não quero droga, quero respeito porque venho de uma origem, de um período onde para você fazer sucesso tinha que ter muito talento.’ Mas também tinha veado e maconheiro, isso é verdade. Se fosse mulher tinha que ser prostituta ou sapatão, mais ou menos assim. Muito colega meu morreu na droga, na maconha, na cocaína e outras drogas aí, bebida e tudo mais. Morreram nos vícios. Não vou citar nome. Todo mundo sabe. Desgosto, decepções. Então ficava difícil para nós, tinha que mostrar talento, um negócio de doido, muita concorrência. Era gente que estudava música, que se dedicava, um melhor que o outro. Nos anos 70 tinha isso de bom. Hoje o camarada chega no show fedendo. Dá licença meu irmão.
A música …
O problema, meu irmão, é que hoje você põe padre prá cantar, pastor evangélico, bispo, prostituta, filha de não sei quem, amante do outro. Hoje fabricam o artista que não sabe de nada, não sabe o que é música, nunca estudou, não sabe o que é divisão musical e nem harmonia, não tem voz e nem talento. Mas põe prá cantar porque tem o rosto bonitinho.
A perda da visão.
Fui dormir enxergando e acordei assim, sem luz nos olhos. Foi em julho de 2006. Eu tinha sofrido um acidente muito feio, mas não foi por isso que fiquei cego. Fui a um especialista, o dr. Eurípides. Ele me disse que era um glaucoma. Eu sempre tive miopia. Sempre fui míope e tinha astigmatismo. Tinha 10 graus numa vista, 13 na outra, era miopia da alta. Depois ela foi aumentando rapidamente. Aconteceu esse lance. Eu sempre usei lente de contato. Fui dormir, quando acordei no dia seguinte: epa! não estou enxergando nada, Janinha me ajuda aqui!
Tags: anos de chumbo, Dom & Ravel, morte, música
Roberto Almeida
A Imprensa Oficial de São Paulo prepara para o dia 27 de abril o lançamento de um livro em homenagem ao ex-governador Mario Covas, morto em 2001. O evento deve ser realizado no saguão da Sala São Paulo.
Intitulado Mario Covas, democracia: defender, conquistar, praticar, o livro foi organizado pelo jornalista Osvaldo Martins, ex-ombudsman da TV Cultura e ex-coordenador de comunicação das campanhas de Covas. A obra não é uma biografia, mas a história do ex-governador contada em seis capítulos, somando 352 páginas.
O primeiro capítulo, escrito pelo próprio Martins, fala sobre o surgimento de Covas no cenário político em Santos. O segundo, do cientista político Humberto Dantas, descreve sua experiência na prefeitura da cidade.
Colaboram com capítulos da obra, ainda, o constitucionalista e ex-assessor de Covas José Afonso da Silva, o cientista político Sérgio Praça e dois ex-colaboradores do tucano: Antonio Angarita e Dalmo Nogueira, que trabalharam em sua gestão no Palácio dos Bandeirantes.
Encerra a obra o infectologista e médico particular de Covas, David Uip, que ressalta a transparência do ex-governador com relação ao câncer que o levou à morte em março de 2001.
Segundo Martins, o livro foi sugerido no ano passado pelo ex-presidente da Imprensa Oficial, Hubert Alquéres.
Tags: homenagem, livro, Mário Covas
Rose Saconi/Arquivo Estado

Clique sobre a imagem para ver toda a capa da edição de 5 de dezembro de 1960
Num ambiente alegre e festivo, o primeiro governador do recém-criado Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, tomava posse há 50 anos, no dia 5 de dezembro de 1960. “O Estado da Guanabara não tolerará em seu território o comunismo, nem sob a forma aberta e franca de outrora, que chega ao assassinato e ao terror, nem sob a forma atual, que disfarça de nacionalista e pacifista para conspirar contra o Brasil. Os comunistas são irrecuperáveis para a democracia”, falou Lacerda em seu primeiro pronunciamento.
Uma foto do primeiro governador eleito assinando o termo de posse, no Palácio da Guanabara, foi publicada no Estado, estampada em duas colunas, na última página do jornal (naquela época a capa dedicava-se apenas ao noticiário internacional; e na última eram dadas as principais notícias do Brasil).
Em clima de festa as pessoas saíram de casa e muitos se aglomeraram nas ruas e ocuparam o jardim e o Palácio da Guanabara para acompanharem a cerimônia de posse e a chegada de Carlos Lacerda. Aviões da Aeronáutica fizeram acrobacias no céu. As escolas de samba cariocas também participaram das comemorações. A primeira a chegar foi a Escola de Samba Unidos de Bangu.
Bastidores. A reportagem do Estado acompanhou toda a movimentação no Palácio Tiradentes. Logo depois que Carlos Lacerda chegou à sala da presidência falou baixinho a alguns dos presentes “Ao entrar agora nesta câmara estou me lembrando de certas coisas….”Em apenas cinco minutos fumou quatro cigarros. Depois de receber o diploma de governador todos os deputados constituintes conseguiram abraçá-lo, menos o deputado Miécimo da Silva, do Partido Social Popular (PSP).
A íntegra do discurso também foi publicada pelo Estado. As últimas palavras do discurso de Carlos Lacerda foram: “Vamos trabalhar”. Ao falar sobre a criação da Secretaria do Bem-Estar Social, o novo governador mencionou o estudo sociológico sobre as favelas, reportagem que circulou em caderno especial no Estado em abril de 1960, e anunciou o nome do orientador da pesquisa, José Arthur Rios, como o titular da nova pasta.
Lacerda também cumprimentou os paulistas pela vitória que deram ao candidato Jânio Quadros, da UDN, que tinha Milton Campos como vice.
Biografia. Carlos Frederico Werneck nasceu no Rio de Janeiro em 1914. Passou toda a infância em Laranjeiras. Na Faculdade de Direito foi eleito presidente do Diretório Acadêmico. Como jornalista trabalhou no Diário de Notícias, Diários Associados, O Jornal, Diário Carioca e Correio da Manhã.
Em 1945 foi eleito vereador com uma votação superior a 36.400 votos. Fundou o jornal Tribuna da Imprensa em 1949, veículo de comunicação que foi o principal porta-voz da oposição durante o segundo governo do presidente Getúlio Vargas. Também liderou uma campanha contra o jornal Última Hora, de Samuel Weiner, acusando-o de ter se beneficiado de um empréstimo fraudulento do Banco do Brasil para colocar o seu maquinário em funcionamento. Os ataques a Getúlio passaram a ser diários em seu jornal e ele passou para a história brasileira como o pivô do atentado que provocou o suicídio do presidente Getúlio, em agosto de 1954.
Lacerda morreu em 21 de maio de 1977.
Tags: Carlos Lacerda, Guanabara, semana política
Da Redação
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa transformou-se em personagem de um bate-boca sem precedentes na história da Corte em abril de 2009. Em 13 minutos, das 17h40 às 17h53, quando a sessão do tribunal caminhava para o encerramento, Barbosa transformou uma cobrança de informações do presidente do STF, Gilmar Mendes, em uma agressão verbal que levou os demais ministros a fazer uma reunião extraordinária para tratar do bate-boca – Barbosa foi embora do tribunal e não participou.
O confronto começou quando o STF analisava recursos em que era discutido se as decisões, sobre benefícios da Previdência do Paraná e sobre foro privilegiado, tinham ou não efeito retroativo. Essas decisões haviam sido tomadas em sessões em que Barbosa faltou aos julgamentos – ele estava de licença. O ministro Barbosa disse que a tese de Mendes deveria ter sido exposta “em pratos limpos”. Mendes respondeu: “Ela foi exposta em pratos limpos. Eu não sonego informações. Vossa Excelência me respeite”, e lembrou que o ministro faltara à sessão em que o recurso começou a ser decidido.
Quando Mendes disse que o ministro não tinha “condições de dar lição a ninguém”, Barbosa partiu para o ataque pessoal ao presidente do STF. “Vossa Excelência está destruindo a Justiça deste País e vem agora dar lição de moral em mim? Saia à rua, ministro Gilmar. Saia à rua, faz o que eu faço”, afirmou Barbosa. Em seguida, depois de Mendes dizer que estava na rua, Barbosa acrescentou: “Vossa Excelência não está na rua não. Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro.”
“Vossa Excelência quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite”, reagiu Barbosa. O presidente do STF nasceu em Diamantino, cidade do Estado de Mato Grosso.
Tags: Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, STF
Por Jair Stangler
Além de grande escritor, o português José Saramago, morto nesta sexta-feira, 18, também sempre assumiu que era um comunista convicto. Mas também sempre procurou deixar claro sua opção pela democracia em detrimento dos governos totalitários. Independente de apreciarmos ou não suas posições ideológicas, Saramago foi um homem de ideias que tomou partido nas principais questões de seu tempo.
Leia também: Saramago era conhecido por opiniões polêmicas e língua afiada
“Sou comunista e por isso sou tratado como inimigo da democracia. Pelo contrário, eu quero é salvar a democracia e para isso é preciso criticar esse simulacro de democracia em que vivemos”, afirmou em entrevista concedida em 2006 à revista francesa Le Nouvel Observateur.
Na mesma entrevista, Saramago esclarece que o comunismo “jamais existiu em nenhum país e em tempo algum. Mesmo na ex-União Soviética, o que havia não era nada senão um capitalismo de Estado”.
Para o escritor português, democracias do ocidente “são fachadas políticas do poder econômico”. “Foi o poder econômico que enfiou nas consciências que o mercado deve agir de mãos livres e, assim fazendo, levou à conclusão de que o pleno emprego é um obstáculo”, afirmou.
Foi por essa sua visão sobre a democracia em vigor nos principais países do mundo hoje que Saramago escreveu, em 2004, o livro “Ensaio sobre a lucidez”, uma autocitação que faz referência ao seu clássico “Ensaio sobre a cegueira”, de 1995.
Em ‘Ensaio sobre a cegueira’, um surto de cegueira atinge uma cidade indeterminada, e a partir daí o escritor constrói sua história, base para uma reflexão mais profunda sobre o homem, a ética e a moral. Já em ‘Ensaio sobre a lucidez’, os políticos são surpreendidos com mais de 70% de votos em branco em uma eleição, o que põe em xeque as instituições e todo o sistema democrático.
Seu livro foi entendido como uma defesa do voto em branco. O escritor negou. Mas entendia que esta é uma atitude política, diferente da abstenção.
Apesar de ser defensor da democracia, Saramago era amigo de Fidel Castro e se posicionou muitas vezes em favor do ditador cubano. Assinou em 2006 um manifesto apoiando a transferência do poder de Fidel, que renunciara, para Raúl Castro, seu irmão e atual presidente. Além disso, sempre defendeu o fim do embargo a Cuba. Em 2003, em episódio que culminou no fuzilamento de dissidentes cubanos, Saramago criticou o governo cubano.
Polêmicas
Muito em função de sua posição ideológica, Saramago se envolveu em diversas polêmicas.
Em 2003, em entrevista ao jornal O Globo, o escritor causou polêmica ao criticar a postura dos judeus na Palestina e declarar que “eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós” no Holocausto. Pela declaração, foi chamado de ‘antissemita’ por lideranças judaicas.
Mas provavelmente sua principal adversária foi a Igreja Católica. A primeira grande polêmica com a instituição veio quando outra obra clássica, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, que retrata o fundador do Cristianismo como um homem comum, altamente relutante em aceitar os desígnios divinos e em situações bastante humanas, como ao fazer sexo com Maria Madalena.
Saramago parecia se comprazer em provocar a Igreja: “Sobre o livro sagrado, eu costumo dizer: lê a Bíblia e perde a fé!”. Em entrevista concedida ao Estado em 2009, Saramago declarou que ‘deus não existe fora da cabeça das pessoas’.
Após o lançamento de seu último livro, ‘Caim’, em 2009, muitos católicos voltaram a criticar Saramago.
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