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Andrei Netto, enviado especial de “O Estado de S.Paulo”

A 11ª edição do Fórum Social Mundial em curso em Dacar, no Senegal, marca o retorno do maior evento de movimentos sociais do planeta à África, mas representa também um caos organizacional para os participantes. Na terça-feira, no seu quarto dia de atividades, a conferência enfrentou falta de salas de aula para reuniões, cancelamentos e transferências de palestras, tudo com nível de informação mínimo.

Desde antes de seu início, o FSM 2011 em Dacar já gerava expectativas mais modestas em termos de organização. Participantes vindos da Europa para a África, por exemplo, demonstravam tolerância em relação à estrutura disponível. Mas o passar dos dias se mostraram ainda mais preocupantes.

Já no domingo, jornalistas de todo o mundo chegaram a passar quatro horas à espera de credenciais para a cobertura. Desde então, os problemas de logística se multiplicam. Falta de cumprimento dos horários e déficit de informação são problemas crônicos. A isso se soma a falta de entendimento com a reitoria da Universidade Cheikh Anta Diop, que retomou as aulas após um período de greve, ignorando o acerto prévio para a realização do fórum.

Na terça, a paciência de alguns participantes começava a se esgotar. “Por causa das dificuldades que estamos enfrentando com a organização, duas atividades foram marcadas simultaneamente com o mesmo convidado”, explicou ontem a brasileira Rita Freire, editora para o FSM da ONG Ciranda, pedindo desculpas à plateia pelo atraso de quase duas horas na palestra do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos ideólogos do fórum.

A desorganização fortaleceu a candidatura de Porto Alegre, cidade que pretende voltar a sediar o evento, que já recebeu em 2001, 2002, 2003 e 2005. A capital gaúcha recebeu até o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Acho bom”, afirmou, quando perguntado sobre a candidatura. “Porto Alegre já tem know how para fazer o fórum.” Lula, inclusive, antecipou sua participação se a candidatura se mantiver. “Eu vou, claro.”

Além de Porto Alegre, Montreal pretende organizar o FSM em 2013. Caso aconteça, seria a primeira edição do fórum realizada no hemisfério norte.

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Andrei Netto

DACAR – O Secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, afirmou nesta terça-feira, 8, em Dacar, no Senegal, que o reajuste do salário mínimo não é mais negociável nas conversas com as centrais sindicais. Segundo ministro, o governo segue disposto a conversar com sindicalistas sobre a alíquota do Imposto de Renda, mas não sobre os R$ 545 oferecidos pelo governo de Dilma Rousseff aos trabalhadores.

As declarações foram feitas às margens do Fórum Social Mundial que acontecem na capital do Senegal. Para Carvalho, o governo não tem uma situação fiscal que permita ir além do previsto no acordo em vigor, que prevê o reajuste do mínimo baseado na soma da inflação anual e da variação do crescimento do PIB nos dois anos anteriores. “Na questão do mínimo, nós entendemos que não há negociação. O acordo é bom. Esperamos até a última hora trabalhar isso. Vamos até o Congresso para trabalhar”,afirmou Carvalho.

Por outro lado, o ministro ressaltou que o IR segue negociável. “Nós vamos pacientemente voltar a negociar. Tem a questão da correção da tabela (impostor de renda), que é muito importante para os trabalhadores”.

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Andrei Netto, enviado especial a Dacar

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou países e líderes do G-20 nesta segunda-feira, 7, em Dacar, Senegal. “Eu participo do G20 (na verdade, não participa mais). Não pensem que lá tem sensibilidade para o problema da fome, para os pobres do mundo. Só fomos chamados para as reuniões dos países ricos porque eles estavam em crise e precisavam da nossa ajuda”, disse.

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Lula discursou nesta segunda-feira, 7, como destaque da 11ª edição do Fórum Social Mundial, que tem como tema “As Crises do Sistema e das Civilizações”.  ”Essas reuniões são nosso encontro com as ideologias que diziam estar perdidas. No Fórum nos reunimos para dizer que um outro mundo é possível e necessário. Esse é um sonho que não vamos abandonar nunca”, disse.

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Foto: Noel Kokou Tadegnon/Reuters

O ex-presidente ainda criticou os EUA. Segundo ele, a Rodada Doha só não foi finalizada em 2008 porque os EUA não quiseram. “Mas essa não é uma briga só de presidentes, também de ativistas como vocês”, acrescentou. Lula ainda condenou a especulação sobre preços e matéria prima.

Em sua fala, Lula também destacou as conquistas sociais de seu governo, como a criação de 15 milhões de empregos com carteira assinada e o “maior salário mínimo em 40 anos”, entre outros exemplos.

O ex-presidente também criticou “aqueles que pregavam o fim da história”. “É cada vez mais forte a consciência de que o Consenso de Washington faliu. Aqueles que com arrogância nos davam insttruções não evitaram a crise. Hoje somos parte essencial e incontornável da solução da crise internacional”, afirmou.

Até recentemente predominava a tese de que o desenvolvimento só era possível para uma pequena fatia da população, qualquer esforço para afrontar a pobreza era visto, e ainda o é, como assistencialismo e populismo. A história está se encarregando de desmentir essas teorias. Felizmente já não predomina a tese do estado mínimo, mas não podemos substituir um neoliberalismo que faliu por um nacionalismo primitivo e autoritário”, acrescentou.

África

Lula fez um discurso bastante direcionado à África, continente sede do evento. “É hora de colocar o desenvolvimento e a democracia no centro da agenda africana e mundial”. Segundo ele, o mundo desenvolvimento precisa dos país emergentes para sair da crise, e a saída para isso é incorporar os cidadãos africanos à economia mundial. Segundo ele, que “mais do que ajuda, a África precisa de oportunidade”.

O brasileiro lembrou ainda que o Brasil tem a segunda maior comunidade negra do mundo, só atrás da Nigéria, com oitenta milhões de afrodescendentes. “Nos 29 países que visitei como presidente constatei a vitalidade com que esse continente irmão afirma seu desenvolvimento, sem ingerências externas e com democracia”, disse. “A África tem um futuro extraordinário, e esse futuro está chegando”, completou.

Lula ainda pediu ajuda para que a África alcance a independência na sua produção de alimentos. ‘Não há soberania real sem soberania alimentar’, afirmou.

O ex-presidente também falou de passagem sobre os eventos das últimas semanas na Tunísia e no Egito e chamou os protestos de “ventos que sacodem o norte da África”. Lula voltou a se desculpar pela escravidão no Brasil, como já havia feito em 2005.

Lula também pediu, e foi muito aplaudido por isso, o reconhecimento de um estado palestino que seja “economicamente viável, socialmente integrado e que esteja em paz com Israel”.

Além de Lula e dos chefes de Estados africanos, as personalidades mais aguardadas na Universidade Cheikh Anta Diop, centro dos eventos, são o músico Gilberto Gil, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, e duas presidenciáveis do Partido Socialista da França, Martine Aubry e Ségolène Royal. O governo brasileiro é representado pelo secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que vai chefiar a delegação e terá a companhia das ministras de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Luiza Helena de Bairros.

Em sua primeira viagem ao exterior desde que deixou a Presidência, Lula não integra a comitiva oficial, mas tem status privilegiado no evento – no qual foi ovacionado no ano passado. Em 2010, em Porto Alegre, ele prometeu ir a Dacar na posição “de uma pessoa com o mesmo compromisso e talvez com mais capacidade para anunciar ao país as coisas que têm de ser feitas daqui para a frente”.

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Andrei Netto, enviado especial a Dacar

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou no final da manhã desta segunda-feira, em Dacar, no Senegal, que a vida de ex-presidente é melhor do que a vida de presidente. A declaração foi dada ao chefe de Estado do Senegal, Abdoulaye Wade, durante visita realizada às margens da 11a edição do Fórum Social Mundial, do qual o brasileiro será a grande atração nesta segunda-feira.

No Senegal, Lula encontra socialista e pede mulher na presidência da França

Lula e Wade se encontraram às 10h30min, no palácio presidencial em Dacar. O ex-presidente foi recebido com honras de chefe de Estado: carro escoltado por batedores, tapete vermelho, guarda presidencial e anfitrião à porta. Ao se encontrarem, os dois líderes políticos trocaram gentilezas.

Lula perguntou a Wade sobre sua saúde, e ouviu como resposta um elogio: “Comigo tudo bem. E você parece em forma”, disse o senegalês. O brasileiro, então respondeu, bem humorado: “É que a vida de ex-presidente é melhor do que a vida de presidente”.

Ambos caminharam então em direção a uma sala privativa onde posaram para fotógrafos e cinegrafistas, enquanto trocavam amabilidades. Wade afirmou estar feliz em reencontrar Lula, que mostrou satisfeito. Então, o senegalês pediu informações ao brasileiro sobre como está o novo governo no Brasil. “Nossa presidente está bem e ela vai fazer um bom trabalho, um governo exitoso”, disse Lula, antecipando: “Acho que ela vai fazer uma visita ao Senegal”.

Ao término do encontro, que teve duração entre 20 e 30 minutos, Lula recebeu de Wade como presente uma estatueta com a reprodução de um Kora, um instrumento típico do Senegal. O chefe de Estado africano explicou o funcionamento do instrumento e contou uma lenda que lhe é atribuída. “Pela tradição, a corda central não pode quebrar. Se quebrar, quer dizer que o músico vai morrer. E o músico acredita”, disse Wade. A seguir, o senegalês brincou afirmando que hoje a corda é de nylon, e não quebra mais. Lula ouviu a explicação com atenção, mas limitou-se a afirmar que o instrumento se parecia com uma mistura de harpa e violoncelo.

A conversa entre os dois então prosseguiu mais alguns instantes longe dos ouvidos da imprensa. Ao término da reunião, Lula dispensou o protocolo da presidência senegalesa, que havia previsto a realização de uma breve entrevista. O ex-presidente segue sem falar aos jornalistas.

Ainda nesta segunda, Lula discursará na 11a edição do FSM, em debate a ser realizado na Praça da Memória Africana, junto à orla de Dacar, com participação de Jean Ping, secretário-geral da Comissão da União Africana. O evento é esperado pela organização do fórum e ocorrerá em uma região nova da cidade, inaugurada em 2009 e no qual se situam dois panteões destinados a homenagear os heróis da ciência e da cultura africanas. Lula retorna à noite a São Paulo.

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