André Mascarenhas
Qual será a herança deixada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva às próximas gerações e como os historiadores interpretarão a passagem do primeiro operário pela Presidência da República? A discussão, que deverá ocupar os cientistas políticos das mais variadas orientações nos próximos anos, é o tema do primeiro debate do blog do Instituto Moreira Salles, que vai ao ar no próximo dia 24, e que reuniu o filosofo José Arthur Giannotti e o cientista político André Singer. O Radar Político teve acesso à íntegra do programa, que foi gravado em vídeo de alta definição. Assista aos melhores momentos.
Intermediado pelo jornalista Mário Sérgio Conti, o primeiro encontro teve como pano de fundo uma série de artigos sobre o lulismo escrita por Singer e que busca dar uma forma teórica ao que foram os últimos anos. Secretário de imprensa do primeiro governo Lula e ligado ao PT, o cientista político argumenta nesses textos que o aumento do salário mínimo, as políticas de distribuição de renda e ampliação do crédito deram cidadania a setores historicamente excluídos, provocando um realinhamento das forças políticas do primeiro para o segundo mandato de Lula. Segundo esse raciocínio, setores da classe média que tradicionalmente apoiavam o PT teriam abandonado o partido, enquanto as classes com menor poder aquisitivo, incluídas ao longo do governo Lula, passaram a apoiar eleitoralmente o projeto do presidente Lula. Singer ainda compara o fenômeno ao varguismo e vê, para os próximos anos, uma tendência de amadurecimento da classe média semelhante ao que ocorreu nos Estados Unidos após o New Deal.
“Meu problema é justamente se não vamos formar uma sociedade de classe média mixa. Isto é, que nós percamos certos padrões de excelência e de progresso e que nós chafurdemos no cotidiano”, opina Giannotti em sua primeira intervenção do debate, ao ser confrontado com as hipóteses de Singer.
Historicamente ligado a PSDB e amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o filósofo descarta as comparações entre o lulismo e o varguismo e argumenta que a era Lula encerra um ciclo iniciado com a abertura da economia brasileira durante o governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello e que culmina no amadurecimento do capitalismo no País nos últimos anos. Giannotti, no entanto, é pessimista quanto às perspectivas para o futuro, uma vez que, para ele, Lula demonstrou “uma enorme sintonia com a população”, mas, no “sistema político, teve um trabalho extremamente dissolvente, porque foi misturando todas as ideologias, todas as diferenças, no mesmo caldeirão”.
“O problema, agora, é como nós vamos rearticular o sistema político para que ele corresponda àquilo que está muito forte no Brasil. O capitalismo está muito forte”, aponta.
“Talvez eu esteja mais otimista com relação ao nosso sistema partidário”, rebate Singer, que embora critique uma tendência de “americanização” da política brasileira, argumenta que tanto o PSDB quanto o PT, na sua opinião os únicos partidos com chances reais de disputar a Presidência, encontram-se fortemente estruturados.
“O Brasil está vivendo um período de consolidação de dois grandes partidos, que são o PT e o PSDB. Com características meio americanizadas, mais do tipo de máquinas eleitorais, mas que não deixam de ser partidos estruturados”, afirma. “Acho que estamos consolidando um sistema partidário que funciona”, continua.
Leia, a seguir, os principais trechos do debate.
OPOSIÇÃO
Giannotti: “[A oposição] não foi capaz de ter um projeto próprio, aceitou o rótulo de neoliberal dado pelo PT e pelas forças dominantes. Não soube, inclusive, defender um tipo de regulamentação do Estado a partir das agências e aceitou, sem discussão, a ideia do Estado proprietário.”
BOLSA FAMÍLIA, CIDADANIA E CLIENTELISMO
Giannotti: “É uma cidadania inteiramente concedida. Não é uma cidadania conquistada. Numa democracia, o que importa é, basicamente, as pessoas conquistarem a cidadania”.
Singer: “Eu interpreto mais como um movimento no sentido de redução da pobreza e da desigualdade, que eu acho que guarda uma certa similaridade com o que aconteceu nos anos 1930 nos Estados Unidos.”
Singer: “Quando você diz paternalismo, acho que há uma avaliação de que é algo próximo do clientelismo, alguma coisa que não está na ordem da legitimidade democrática. (…) O clientelismo é caracterizado por uma relação de troca definida. Aqui você não tem relação de troca. O que foi feito foi uma política pública que é praticamente universal. O Bolsa Família se expandiu tanto que ele é hoje praticamente um direito de quem ganha aquém de um piso.”
BIPARTIDARISMO
Giannotti: “Eu vejo a enorme importância do PMDB, que no fundo vai dar o equilíbrio do governo Dilma, e o fortalecimento do PSB. (…) O PSB mostra que é possível abrir uma política de centro que não está necessariamente confinada [ao PT e ao PSDB]. (…) Esse jogo bipartidário, a meu ver, tende a se desfazer, na medida em que nós vamos ter vários atores brigando pelo poder.”
Singer: “Nada indica no sentido de que, na eleição de 2014, os contendores sejam outros que não PT e PSDB. Então, nesse sentido, eu acho que nós estamos realmente caminhando a uma bipolarização no que diz respeito a eleição presidencial.”
NEOLIBERALISMO vs ESTADO PROPRIETÁRIO
Singer: “[O neoliberalismo] é uma visão de mundo que começou a ser aplicada ao Brasil a partir do governo Collor, foi acentuada e teve mais sucesso ainda no governo Fernando Henrique, e eu acho que o governo Lula, no mínimo, brecou essa tendência. E, em alguns aspectos, tendeu a revertê-la.”
Giannotti: “Nós temos que pensar como é que vai ser esse controle do capital [pelo Estado]. Pela apropriação dos meios de produção – que no fundo ainda é um velho resquício do centralismo democrático – ou se nós vamos tentar criar um Estado interventor, mais democrata. Porque aí nós temos, com as agências, a possibilidade de aumentar a democracia desse controle. E termos, realmente, ao invés do Estado neoliberal, um Estado democrático ativo, sem o peso das corporações e, em particular, dos sindicatos se apropriando dos mecanismos de acumulação do capital. (…) Simplesmente dizer ‘neoliberal’ é evitar que a gente tenha uma discussão clara de qual Estado nós queremos.”
Singer: “Essas agências reguladoras são montadas para regular a sociedade e não para regular as empresas. (…) Elas são representantes das empresas junto ao Estado. (…) Acho que as privatizações da Vale e da telefonia foram um sinal dentro de um projeto global. (…) Mas há uma visão claramente que tem a ver com o neoliberalismo. (…) A visão neoliberal é de que o mercado é mais eficiente, inclusive para gerir saúde e educação.”
Tags: André Singer, blog, IMS, Instituto Moreira Salles, José Arthur Giannotti
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Na lata, como dia antigamente.
Herança hedionda, não sei se esse é o termo.
Quando o sr máximo de uma nação desrespeita as leis, ri das instituições, dá mau exemplo em todos os aspectos, simplesmente está formando um bando de débeis mentais.
Isso é herança maldita. Emburreceu moralmente uma nação.
Na lógica do PT, “setores da classe média que tradicionalmente apoiavam o PT teriam abandonado o partido, enquanto as classes com menor poder aquisitivo, incluídas ao longo do governo Lula, passaram a apoiar eleitoralmente o projeto do presidente Lula”. Ou seja: Conforme a pobreza for acabando, por causa das oportunidades econômicas, o lulismo vai desaparecendo. Um pouco mais de informação e as pessoas já percebem o engodo em que estiveram envolvidas.
Fico estupefato em perceber que realmente tem gente que acredita que o desrespeito às instituições começou ontem.
Mas não é sobre isso que quero comentar, o que trago aqui é sobre a questão da força política que São Paulo – mais?! – teria caso um grupo de poder chegasse à presidência e não realizasse um governo de coalizão com as forças regionais desse gigante chamado Brasil.
Esses intelectuais ficam fazendo cara de paisagem, quando até mesmo os tucanos tiveram que se render a esses grupos de poder regionais.
Ou o PMDB, sem falar no DEM, então PFL, partido que tinha apenas força regional, não estava ligado ao governo do Fernando Henrique?
Penso que o gigantismo do país é um dos maiores calos dele mesmo, ou então teremos que nos contentar com um regime de governo mais fechado, mas também teremos que abrir mão da democracia.
Guilherme,
Concordo contigo que é complicado o quadro político, onde as composições de forças são determinantes não só para ganhar eleições como para governar, por isso não podem ser ignoradas. Isso não é de todo ruim, mas tem levado uma situação trágica para a democracia brasileira visto que prenuncia um bipartidarismo, onde as eleições plebiscitárias (o “nós ou eles” que Lulla tentou implantar) têm por finalidade retirar do cidadão as opções de escolhas e garantir o poder. Mesmo com tantos partidos políticos, ficamos próximos desse feito, onde os azuis ficaram em seus ninhos e os demais foram para debaixo das asas do PT para garantir os votos de legenda. Marina Silva impediu uma eleição plebiscitária, mas não evitou a corrida pelos votos de legenda. O bipartidarismo funciona razoavelmente bem nos Estados Unidos, mas no Brasil estamos em uma democracia muito tenra e uma justiça eleitoral ainda mais frágil onde se tolera a falsidade ideológica dos partidos e dos candidatos que pregam uma coisa e fazem outra, sempre em função do poder e jamais pela ideologia. Espero que os verdinhos sobrevivam, não apenas por sua ideologia, mas para termos direito de escolha, e que a sociedade brasileira saia logo da grande armadilha criada com o “nós ou eles”, uma pobreza democrática e em todos os demais sentidos.
responder este comentário denunciar abusoO cidadão eleito, como operário acredito que teve uma participação ativa na geração de aspectos positivos para os “pelegos” do sindicalismo, entretanto colaborou com a letargia jurídica nacional e em parte da celeridade da corupção. Para finalizar, no apagar das luzes, apresenta um nó para todos com o caso do Batistini. Isso é um legado ou não… pode até ser, mas… como o cidadão teve seu parecer favorável em 83%, será que ocorreu pesquisas sérias a respeito… o que está ocorrendo, até alguns ditadores no passado também tinha esse perfil, onde estão os brasileiros. E agora, o criador e a criatura, como será o nosso futuro…
Eita gente preconceituosa! A elite sulista não engole o fato de ter sido governada por um braisleiro do nordeste e ainda por cima, não ser portador de nível superior. Porém, mostrou ser um homem bom e decente, coisa que falta em muita gente nesses país.
Deixem o homem descansar e aguardem em 2014. Ele voltará!!
Chechelentos, ripongas e maconheiros da Esquerdolândia, correi para o Senegal.
Dizem que o velhaco volta à cena do Forum Social Mundial, que será realizado no Senegal. Senê, Senê, Senegal. Haja maconha. Haja falta de desodorante. Haja orgia nos acampamentos da juventude, onde os mais jovenzinhos vieram de woodstock a pé. O Forum Social Mundial virou um festival de diversidade, onde acontecem as mais diversificadas e divertidas efemérides em nome de um novo mundo possível. O velhaco não poderia estar de fora. Senê, Senê, Senegal. Chegaram a falar que ele reapareceria em um jogo do Corinthians. Chechelentos, ripongas, maconheiros e saudosistas do lingua presa, se quiserem ver o velhaco em público, arrumem a batas indianas, as sandalinhas de caramujo, as bolsinhas peruanas e peguem o rumo do Senê, Senê, Senegal. Olha aí a musiquinha…Esquerda, embaixo, rebolando, mexendo…
Marcela, pelo visto você já foi a uma das edições do Forum Social Mundial. Gostaria que você repartisse mais desta experiência conosco. Ou você nunca foi, nunca leu sobre, e apenas propaga a ideia que comprou, muito barato, de alguém?
responder este comentário denunciar abusoTodos os governantes são escravos do partidos, as promessas,são somente promessas para angariar votos , depois de eleitos vem a cobrança dos partidos
apoiadores que nem sempre agem em pról do país.
Quem é que faz a grandiosidade do Brasil.
Ñ são cientistas politicos e nem os chamados politicos defensores de sí mesmos.
SÃO OS EMPRESARIOS TRABALHADORES E SEUS AUXILIARES OS ADMINISTRADORES TRABALHADORES, JUNTAMENTE COM OS OPERARIOS
TRABALHADORES TÉCNICOS E BRAÇAIS. É VALIDO PARA TODAS AS VIAS EMPRESARIAIS, PRINCIPALMENTE PARA AS DO AGRO-NEGOCIO.
As outras-Educação-segurança-saúde-vias de transporte-energia-saneamento,
estão todas incorporadas as exigencias que as classes empresariais forem capazes de exigir dos governos federais, estaduais e municipais.
Presidentes -Governadores e Prefeitos ñ são precisamente Empresarios.
Até deveriam ser em função de tudo o que eu disse até agora.
Mas ñ são, são meramente politicos e nada mais, como foi o MEU AMIGO LULA.
É uma vergonha para as oposições levarem pera seus tumulos faraonicos.
Perderem para o meu amigo LULA, SOU PT,SOU ELEITOR DO LULA.
Perdedor é perdedor e nada mais. Mas o Brasil está sendo vencedor.
Existem arestas para aparar. Ele está crescendo e se agigantando.
Sim gigante pela própria natureza.
Podem e devem comparar LULISMO COM GETULISMO.
Lembro qdo papai dizia que o sonho do Getulio éra VOLTA REDONDA DERRAMAR AÇO NOS ESTALEIROS DO RIO DE JANEIRO para dotar
o Brasil com a maior frota de navios do mundo para fazer o tranporte em uma das maiores costas do mundo, a Brasileira.e a Sul Americana.
Seu outro sonho éra LIGAR O ATLANTICO AO PACIFICO POR VIA FÉRREA com todos os equipamentos fabricados no Brasil com aço de Volta Redonda.
A partir do governo de meu amigo LULA e agora com DILMA tudo isso é possivel
Com a Petrobras dando cada vez mais certo q nunca. Realizaremos os sonhos de Vargas e muito mais. O sonho de sermos trabalhadores merecedores de nossos salarios, de nossa educação,de nossa segurança e de nossa felicidade familiar.
Eu nestes meus setenta e um anos de idade nunca vi a policia federal trabalhar tanto e tão bem como neste governo de meu amigo LULA.
E tambem ñ havia visto o Leão arrecadar tanto e tão bem.
Embora que ainda existam muito sonegadores de impostos a serem apanhados.
São em sua maioria aqueles que financiam as campanhas dos maus politicos
Me desculpem, ñ sou tudo o q eu gostaria de ser.
-SOU SÓMENTE AQUILO QUE COMO E QUE PENSO DE MIM MESMO-
-Bom fim de semana a todos, saúde boa e alegria junto as suas familias.
SHALOM!!!
Sr. Kaveski
Acredito que o sr. se ache amigo do Lula, mas garanto que o Lula não é seu amigo.
Este pais num teve problema de ordem economica (sempre houve recursos, embora, recentemente o capital humano brasileiro é um dos piores do mundo) ou financeira (sempre houve dinheiro, aqui e lá fora, a procura de oportunidades).
O que nunca tivemos é um jogo político minimamente de qualidade e que representasse os interesses da maioria.
Neste aspecto o seu querido amigo promoveu o maior desastre da história.
Acabou com os partidos (inclusive o dele) e ajudou retroceder o país quando fez milhões de ignorantes (e com todo respeito o senhor) acreditar que o que salva este país é um salvador da pátria.
Pra ficar mais bonito ainda a c….. que esse cavalheiro fez: desacreditou a educação e o conhecimento (se orgulhava de nunca ter lido um livro), desacreditou a Justiça e o sistema de leis (ca… para a legislação eleitoral por exemplo), se aliou com tudo que tinha de mais atrasado na política brasileira.
Mas deixou “amigos” e gente crédula aos milhões.
Os resultados disso num futuro próximo serão trágicos.
Quanta bobagem, o homem saí do governo de oito anos com 87% de bom e ótimo,será que todos eatão recebendo bolsa familia? Tudo mais é burrisse e falta de leitura e dor de cotovelo.Leia brasileiros pelo menos placas de sinalisação para diminuir o número de acidente no transito.
Como os do “sul” são difíceis de digerir um nordestino presidente, no caso o Lula, negar o legado positivo de Lula é se comportar como avestruz ameaçado.Menos preconceito com os nordestinos, em todo canto tem gente boa e ruim, é preciso aprender a separar o joio do trigo.
Está cada vez mais difícil aguentar debates entre cientistas políticos (mesmos os bons, como Gianotti e Singer) sibre neo-liberalismo e estatismo. Não entendem que existe uma coisa objetiva que se chama economia do setor público. É uma insensatez total achar que o Estado é bom produtor de telefone, aço e minério de ferro. Singer erra feio ao afirmar que o governo neo-liberal pretendeu privatizar os serviços públicos de educação e de saúde. Nunca foi objeto de discusão a distribuição de voucher para que as famílias pudessem escolher escolas privadas, pór exemplo. As limitações da economia pública não permitem pensar em universalizar os serviços públicos de educação e saúde. Ensino superior, nem pensar. Gastar mais recursos públicos com educação superior, quando a educação básica é tão mal atendida não tem o menor sentido. Qualquer debate sobre tais temas será mais esclarecedor se estiverem frente a frente um cientista político e um economista que entenda dos números das finanças públicas.
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