Renovação movimenta cartões-postais da cidade de São Paulo
5 de agosto de 2012 | 9h36
Redação
GUSTAVO COLTRI
Alguns condomínios não só estampam a paisagem paulistana, como também se confundem com as formas e a história da cidade. São os chamados cartões-postais da metrópole, que exigem de seus administradores mais do que boas habilidades de gestão. Para esses edifícios, o peso da tradição é quase tão grande quanto as necessidades e as dificuldades de renovação.
No Vale do Anhangabaú, o Mirante do Vale – o maior arranha-céu da cidade, com 170 metros, batizado oficialmente de Palácio W. Zarzur – chegou aos 46 anos com a ambição de abrigar cabos de fibra ótica em seus 45 andares de escritórios. “Foi uma parceria. Não custou nada”, conta o síndico do famoso prédio, Marcio Barros, nesse cargo desde a década de 1980.
Upgrade. Aos 46 anos,Mirante do Vale, no centro da capital, recebe cabos de fibra ótica (Foto: Werther Santana).
Ele mostra com orgulho as modificações que implementou em todos esses anos – de uma escalda de emergência na área externa do edifício à substituição da tubulação antiga. “Estamos também com uma campanha para que todas as salas adotem descargas com caixas acopladas nos sanitários. É uma preocupação com a sustentabilidade.”
Os proprietários, segundo ele, têm reclamações pontuais quanto à pintura e aos elevadores – o prédio tem ao todo 12 cabines, e apenas duas delas estão modernizadas pelo alto custo do investimento. De 8 mil a 10 mil pessoas passam por lá todos os dias.
Também comercial, o Edifício Itália prepara-se para o 50º aniversário sob a gerência do austero italiano Lorenzo Del Maffeo, de 80 anos. Há oito no posto de síndico, este ano ele foi questionado por alguns dos 280 condôminos do conjunto por seu salário de aproximadamente R$ 24 mil, mas permanece no cargo depois de obter, em março, cerca de 70% de apoio em assembleia.
O síndico elaborou em junho uma circular interna detalhando as melhorias de sua gestão – o documento cita, inclusive, os 966 degaus de uma das escadas de emergência. Entre as mais recentes obras, Maffeo destaca a instalação de um sistema mais moderno para a distribuição interna de energia, que teria aumentado em 41% a capacidade elétrica do tradicional Itália.
O administrador também acompanha de perto a instalação de aparelhos de ar-condicionado no prédio, impedindo que os aparelhos interfiram na fachada da edificação, tombada como patrimônio histórico do município. Na área externa, o condomínio iniciou a manutenção do sistema brises, as venezianas móveis do empreendimento.
“Quero melhorar o centro de monitoramento. Mas, quando vou colocar meia dúzia de computadores novos, o condomínio aumenta. Aí querem me…”, diz o síndico, com bom humor, simulando o próprio sufocamento. Atualmente o prédio, que não tem catracas na entrada, conta com 130 câmeras para dar conta de uma circulação diária de 8,2 mil pessoas – algumas delas visitantes interessadas principalmente no Terraço Itália.
A maior parte dos edifícios paulistanos mais famosos permite visitações, mas adota procedimentos especiais de segurança. No Copan, os passeios ao terraço são abertos às 10h30 e às 15h30 nos dias úteis e realizados somente com a supervisão de profissionais contratados – ao todo o condomínio tem 102 colaboradores. “Recebemos pessoas de 38 países de março até agora”, diz o síndico do conjunto, Afonso Celso Prazeres de Oliveira, há 19 anos no posto.
Mãos de ferro. Síndico do Copan investe em manutenção para garantir bom estado do condomínio idealizado por Niemeyer (Foto: Daniel Teixeira/AE)
Ele mantém pulso firme na manutenção predial para garantir a preservação do Copan, projeto ilustre criado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. “A dimensão dele é o meu maior desafio. Imagine que eu tenha que manter limpos 22 mil metros quadrados todos os dias”, conta. O condomínio tem, ao todo, 1.160 unidades variando de 26 m² a 219 m².
“Se a pessoa não tiver conhecimentos em áreas como elétrica, hidráulica e mecânica, além de paciência e bom senso, é muito difícil. Esse é o tripé”, diz Oliveira. Por lá, a participação nas assembleias, como em outros prédios menos renomados, mobiliza apenas 10% dos proprietários.
Também com os olhos no passado, o Edifício Dacon – que chama a atenção por seu cilíndrico formato na Avenida Brigadeiro Faria Lima – prepara uma reforma no hall de entrada. “O espaço está defasado, mas os proprietários são conservadores. Tudo terá de ficar com um aspecto austero”, diz o síndico Newton Jorge Kehdy, de 77 anos.
O regulamento interno do edifício também impõe restrições a mudanças de caráter visual. “Sempre querem conhecer nosso heliponto para tomadas de filmes e fotos. Mas, apesar dos pedidos, abrimos essa opção apenas para casos especiais.”
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