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Radar Global

04.novembro.2011 08:08:24

VISÃO GLOBAL: Políticos fartos de democracia, polícia contra o povo

Visão Global; análises e comentários de especialistas

As forças de segurança vêm reprimindo com violência alguns protestos nos EUA, como no restante do mundo

Por Naomi Wolf, do Project Syndicate

Ao que parece, os políticos estão fartos da democracia. Por todo os EUA, a polícia, atuando sob as ordens das autoridades locais, vem pondo fim aos acampamentos montados pelos manifestantes do movimento Ocupe Wall Street. Às vezes com uma violência escandalosa e totalmente gratuita.

No pior incidente até agora, tropas de choque cercaram o acampamento dos integrantes do movimento em Oakland e dispararam balas de borracha (que podem ser fatais), bombas de efeito moral e granadas de gás lacrimogêneo, com alguns policiais investindo diretamente contra os manifestantes. No canal do Twitter do Ocupe Oakland surgiu uma notícia como se fosse sobre Praça Tahrir do Cairo “eles estão nos cercando; centenas e centenas de policiais; há veículos blindados e tanques”. Foram presas 170 pessoas.

Minha recente prisão, embora eu tenha obedecido as exigências contidas na autorização e realizado um protesto pacífico numa rua em Manhattan, trouxe a realidade da repressão bem próxima de nós. Os Estados Unidos estão acordando para o que foi criado enquanto dormiam: empresas privadas contrataram sua polícia (a JP Morgan doou US$ 4,6 milhões para a Fundação da Polícia da Cidade de Nova York); e o Departamento Federal de Segurança Interna forneceu às forças policiais municipais armas de padrão militar. Os direitos à liberdade de expressão e de reunião do cidadão foram prejudicados sorrateiramente por critérios opacos para obter as autorizações.

Repentinamente, os EUA assemelham-se ao restante do mundo que não é completamente livre, está furioso e protesta. De fato, muitos comentaristas não conseguiram entender completamente que uma guerra mundial está ocorrendo, mas que esse conflito é diferente de qualquer outro na História da humanidade. Pela primeira vez, as pessoas no mundo todo não estão se identificando e se organizando com base em posições religiosas ou nacionais, mas em termos de consciência global e as demandas são de uma vida pacífica, um futuro sustentável, justiça econômica e democracia. Seu inimigo é a “corporatocracia” que comprou governos e parlamentos, criou suas forças armadas, engajou-se numa fraude econômica sistêmica e saqueou ecossistemas e tesouros.

Em todo o mundo, os manifestantes pacíficos são satanizados como desordeiros. Mas a democracia é desordeira. Martin Luther King afirmou que a desordem pacífica é saudável, pois expõe a injustiça sepultada, que pode, então, ser restaurada. O ideal é que os manifestantes se dediquem a uma desordem disciplinada, não violenta, com esse espírito – especialmente a desordem do trânsito, que serve para manter os provocadores à distância e ao mesmo tempo deixar clara a militarização injusta da resposta policial.

Além disso, movimentos de protesto não têm sucesso em horas ou dias; manifestações geralmente implicam sentar num lugar ou “ocupar” áreas por longos períodos. Esta é uma razão pela qual os manifestantes devem arrecadar seu dinheiro e contratar seus advogados. O mundo corporativo está aterrorizado com a possibilidade de os cidadãos reivindicarem o Estado de direito. Em todos os países os manifestantes devem responder com um exército de advogados.

Comunicação. Eles devem criar a própria mídia, em vez de depender de agências de notícias tradicionais para cobrir seus protestos. Devem manter blogs, tuitar, escrever editoriais e comunicados de imprensa, assim como registrar e documentar casos de abusos da polícia.

Infelizmente, existem muitos casos documentados de provocadores violentos infiltrando-se nas manifestações em locais como Toronto, Pittsburgh, Londres e Atenas – pessoas que, segundo me disse um grego, são “desconhecidos conhecidos”. Os provocadores também devem ser fotografados e registrados e por isso é importante não cobrir o rosto durante um protesto.

Os manifestantes nas democracias têm de criar listas de e-mail locais, combinar suas listas com as nacionais e começar a registrar os eleitores. Devem dizer a seus representantes quantos eleitores registraram em cada distrito e devem se organizar para destituir políticos que são brutais ou agressivos. E precisam apoiar aqueles – como em Albany e Nova York, por exemplo, onde a polícia e o Ministério Público locais recusaram-se a reprimir com brutalidade os manifestantes – que respeitam os direitos de liberdade de expressão e de reunião.

Muitos manifestantes insistem em continuar sem uma liderança, o que é um erro. Um líder não tem de se colocar no topo de uma hierarquia: pode ser um simples representante. Eles devem eleger representantes com um “mandato” limitado, como em qualquer democracia, e treinar essas pessoas para conversar com a imprensa e negociar com políticos.

Os protestos devem ser o modelo da sociedade civil que se pretende criar. No Parque Zuccotti, em Manhattan, por exemplo, há uma biblioteca e uma cozinha; o alimento é doado; as crianças são convidadas a passar a noite ali; e aulas são organizadas. Músicos trazem seus instrumentos e a atmosfera deve ser alegre e positiva. Os manifestantes devem procurar manter a limpeza. A ideia é criar uma nova cidade dentro de uma cidade corrompida e mostrar que ela reflete o desejo da maioria e não de uma camada destrutiva e marginal.

Afinal, o que há de mais profundo no caso dos movimentos de protesto não são as demandas, mas sim a infraestrutura nascente de uma humanidade comum. Por décadas o que se tem dito aos cidadãos é que se deve manter a cabeça baixa – seja num mundo de fantasia consumista ou na pobreza e na labuta – e deixar a liderança para as elites. O protesto é transformador precisamente porque as pessoas emergem, encontram-se face a face e, ao reaprender os hábitos da liberdade, criam novas instituições, relacionamentos e organizações.

Nada disso pode ocorrer num ambiente de violência policial e política contra manifestações democráticas e pacíficas. Como indagou Berthold Brecht, após a brutal repressão dos comunistas alemães orientais, em junho de 1952, “não seria mais fácil…para o governo dissolver o povo e eleger um outro?”. Por toda a parte nos Estados Unidos, e em muitos outros países, líderes supostamente democráticos parecem estar considerando seriamente a irônica pergunta de Brecht.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Comentários (15)| Comente!

15 Comentários Comente também
  • 04/11/2011 - 09:57
    Enviado por: h_rj

    Sinceramente, me esforço, mas não consigo levar a sério essas manifestações nos EUA. Ao primeiro sinal de que a economia vai voltar a crescer e que o antigo padrão de consumo vai poder ser retomado, cada um deles vai voltar para a sua vida, esquecendo as palavras de ordem e os protestos. Faz parte do estilo de vida dos americanos se realizarem através do consumo. Sem isso eles não têm identidade, nem como indivíduo nem como grupo.

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    • 06/11/2011 - 18:39
      Enviado por: Roland Scialom

      “cada um deles vai voltar para a sua vida”. Isso é em parte verdade. Mas, nos Estados Unidos, há uma minoria de gente joia, lúcida e bem intencionada. Essa minoria continuará a pensar bem e continuará ligada para se engajar na próxima luta. Essa minoria não vai voltar simplesmente para sua vida anterior. Por outro lado, é possível que essa crise não passe fácil como os capitalistas do tipo especuladores e parasitas (porque há tipos de capitalistas comprometidos com a geração de progresso, Bill Gates e Steve Jobs por exemplo, não considero esses últimos como especuladores e parasitas) estão tentando com mais truques. Parece que a coleção de truques dos capitalistas especuladores e parasitas terminou. Não dá mais para enganar.

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    • 06/11/2011 - 19:27
      Enviado por: Antonio M. Oliveira

      Sei não. O modelo tá fazendo água e por mais que a mídia tente esconder, muita gente se dá conta disto. Imaginou uma cobertura da imprensa na dimensão da que foi feita no muro de Berlim ou nas ditaduras do Oriente Médio? Procura-se fazer de conta que está tudo bem, mas as pessoas começam a se sentir enganadas.

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  • 04/11/2011 - 10:08
    Enviado por: francisco

    Será que nao existem pessoas capazes de escrever bons artigos no pais? SOmente vejo “traduções” sem o nome do original. Que falta de pensar nesses blogs do estação.

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  • 04/11/2011 - 12:39
    Enviado por: Antônio

    Combater o exército polical com advogados na linha de frente e lista de e-mails como estratégia?
    De quem você acha que será o sangue a escorrer pelas ruas?
    Só uma coisa, os mesmos que pagam a polícia pagam os tribunais, de quem será a vitória? Dos que sofrem as cadeias infernais do capitalismo ou os capitalistas?

    Não há reforma para o sistema.

    Já aprendemos que flores não vencem o canhão.

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  • 04/11/2011 - 12:58
    Enviado por: Roland Scialom

    “Os Estados Unidos estão acordando para o que foi criado enquanto dormiam”. Isso é verdade.
    Mas é só parte dos Estados Unidos, porque, há uma maioria silenciosa, que não faz parte da
    elite, e que se beneficia de alguma forma com o estado de coisas. Pois, a situação não está
    ruim para todos e esta maioria silenciosa é composta de pequenos individualistas de classe
    média que só começariam a se manifestar quando as coisas ficassem ruins para eles. E se
    algum dia as coisas ficarem ruins para eles, eles seriam mais atraidos pelo discuso fascista
    do que o discurso humanista.
    Para que haja um progresso real das concepções humanistas, é necessário trabalhar no sentido
    de diminuir o tamanho dessa maioria silenciosa.
    Os americanos investiram muito em carnavalização da cidadania: muitas paradas com fanfarras,
    bandeiras nas janelas, botões nas lapelas, solgans afirmando que Deus está do lado dos
    americanos, etc. Cidadania e carnavalização são coisas ortogonais. Cidadania tem muito mais
    a ver com consciencia, lucidez, politização, engajamento etc.

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    • 04/11/2011 - 13:40
      Enviado por: Antônio

      Diminuir a classe média? É preciso extinguir as classes.
      O fascismo realmente nos ronda e as classes médias da sociedade tendem sempre a se alinhar com ele. Mas, o fascismo não brota da classe média, só e apoiado por ela. Em todos os lugares onde governos fascistas tomaram o poder, ex: Alemanha nazista, Itália fascista, Brasil ditatorial, eles foram criados e mantidos pela elite, só para tornar o termo menos amplo, elite é os donos dos capital, elite é patrão, elite é daslu. Governos fascistas surgiram em momentos em que a elite se via ameaçada, o fascismo é sua defesa, o exército é sua defesa, a polícia é sua defesa, o Estado está sempre, sem nenhuma exceção, a serviço dela, nunca do povo, o Estado e toda sua estrutura é contra o povo.
      Não é a classe média que tem que diminuir, mas sim o sistema que divide a humanidade em classes para poder manter o poder e privilégio de uns em detrimento da vida de muitos.

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  • 04/11/2011 - 16:59
    Enviado por: Edmond Dantes

    No Brasil acontece essas manifestações estudantil, contra corrupção, e por causa desses cães fardados, que se alimentam de restos, nos impedem de melhorar o mundo. Mundo esse que também são deles.

    Não vejo inteligencia por traz da politica de segurança para ler tais materias.
    E com esses pontos de vistas mudar o mundo conosco.

    Policia é, também um cidadão, e se o mundo(sistema) “melhorar”, essa mesma policia, não precisará erguer suas falsas autoridades.

    São pitbulls ociosos, e quando pedem para buscar uma vareta trazem sangue na boca.

    Ó Deus.

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  • 04/11/2011 - 18:20
    Enviado por: João Souza

    É só agora o pessoal do primeiro acordou…sei vcs deviam contar outra enqto tudo era flores e vcs lucravam bastante encima do resto do mundo tudo estava bom e a democracia era linda, agora que a crise bateu por lá o capitalismo é horroroso e vamos nos solidarizar aos nossos irmãos pobres…dá vontade de dar risada (se não desse vontade de vomitar antes) a verdade é uma só: o mundo rico nunca se importou com o que acontecia abaixo da linha do equador e qdo a crise passar tudo voltará a ser como antes com seus consumismo desenfreado e seu desprezo pelos que nada tem, deixem de ser hipócritas.

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  • 05/11/2011 - 02:27
    Enviado por: edson

    Uma crise mundial conjuntural a partir de informatização do mundo e desaparecimentos de muitas vagas de empregos e mudanças radicais como a inserção plena da gigante china no comércio mundial.Choque total entre legítimos interesses das nações cada uma puxando a brasa para seu lado nesta globalização e centralização total do poder economico e financeiro total na mão de poucas pessoas, a crise no fundo basea-se pelo dominio e controle de poder decisório na mão destes poucos que a partir de agora implementam uma verdadeira guerra sem armas e ditam para onde o mundo deve caminhar tudo isto tendo como agravante uma mutação geológica e climática sistemica bem perceptivel do planeta – a qual os socialistas sem bandeira atualmente resolveram adotar e chamar de mudanças climáticas.Na nova era este falso colapso do capitalismo é um engodo como já disse a partir de agora estes poucos trilhionários ditarão economicamente para onde o planeta deve caminhar pois a política passou a ser apenas um meio para a execução de seus planos.

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  • 06/11/2011 - 12:00
    Enviado por: Valeria

    É a teoria da conspiração, virando realidade!!!!

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  • 06/11/2011 - 12:01
    Enviado por: Valeria

    é a teoria da conspiração virando realidade!

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  • 06/11/2011 - 16:54
    Enviado por: lucas

    lá como cá as políticas neoliberais que tratam o povo como números que só servem para pagar impostos e sofrer cortes de direitos e salários para manter os privilégios dos banqueiros e políticos apanigaudos com eles é que sofrem e se ousam protestar os militares comprados que nunca tem os salários cortados vão lá bater e sufocar eles e ainda perguntam o porquê da luta para tirar a Pm da USP!!!!

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  • 06/11/2011 - 18:58
    Enviado por: Benedito Rufino da Silva

    06/11/2011 – Enviado por Benedito Rufino da Silva -A Democracia nos Estados Unidos exporta terrorismo econômico para Países pobres que dependem, exclusivamente daquele mercado: A Democracia ao estilo neo colonialista industrial facilita a manipulação de Poderes, facilita o aumento desenfreado das riqueza de Trustes e de Cartéis; A maioria dos cidadãos vive sob a égide do salário mínimo e .do salário comercial, nos Países em Desenvolvimento, favorecendo uma condição de vida de semi escravidão; A cada eleição, repete-se o chavão:” lutaremos por uma sociedade mais justa e igualitária.”

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  • 07/11/2011 - 16:04
    Enviado por: dezguedes

    É isso ai. Democracia é muito boa na casa dos outros!. Na Minha eu quero ordem!

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