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Radar Global

Visão Global

Expurgo de importante governador pode ser o início de mudanças pelas quais a China deve passar com urgência

JONATHAN FENBY
THE NEW YORK TIMES

A poeira ainda não assentou sobre o dramático caso de Bo Xilai na China. Na realidade, talvez isso nunca aconteça, apesar de um informe de Pequim no qual o Partido Comunista anuncia a decisão de suspender Bo e a prisão de sua esposa. Faz 41 anos desde que a fulgurante figura da política chinesa, Lin Piao, considerado o sucessor de Mao, caiu em desgraça e morreu num acidente aéreo depois de uma aparente tentativa de golpe e ainda não sabemos exatamente o que aconteceu na época.

Mas entre os boatos de uma tentativa de golpe e as divisões do Politburo, além da morte em circunstâncias obscuras de um empresário britânico na antiga fortaleza de Bo, começam a aparecer importantes elementos que provavelmente terão um peso considerável para entender a evolução do último grande país governado pelo Partido Comunista.

Este ano assinalará o começo de uma significativa transição na liderança política da China, no congresso quinquenal do Partido Comunista (provavelmente em outubro) que se reunirá para escolher um novo Politburo. Pelo menos seis dos nove membros atuais do organismo supremo do partido, o Comitê Permanente, serão substituídos por terem atingido a idade limite para exercer o cargo. A demissão de Bo Xilai foi considerada uma bomba que subverteu o processo.

E isso não deixa de ser verdadeiro. Ambicionando tornar-se membro do Comitê Permanente, Bo, um expert em comunicações, tornara-se uma personalidade da política chinesa com propostas populistas de apelo para o grande público, de uma evolução do Estado de cima para baixo, de programas sociais, uma cruzada contra a criminalidade e a evocação dos antigos valores, obrigando as pessoas a cantar “hinos vermelhos”. Bo mandou também erguer uma estátua de Mao de oito andares de altura na cidade universitária. Por isso, o drama de sua queda ganhou naturalmente as manchetes. Mas ao mesmo tempo produziu uma maior estabilidade no topo porque as principais facções cerraram fileiras.

Bo não se coadunava com a estratégia do consenso utilizada pelo líder do partido, que hoje está prestes a sair, Hu Jintao. Sua base de poder em Chongqing, com 32 milhões de habitantes, fazia com que ele parecesse uma versão política dos caudilhos regionais que governaram a China na década de 20. Era um político de enormes ambições que mais cedo ou mais tarde seria derrubado, e quando permitiu que a saga ainda misteriosa envolvendo um ex-chefe de polícia de Chongqing com a morte do empresário britânico escapasse do controle, seu destino foi selado.

A China está às voltas com uma grave crise ambiental e uma aguda escassez de água está se ampliando no norte do país. Pequim carece de uma política externa coerente. A corrupção grassa. As regulamentações e as normas de segurança são fracas. Há uma enorme falta de confiança nas instituições. A queda da taxa de natalidade e o aumento da longevidade indicam que a demografia passará por uma mudança ao longo desta década, de modo que os membros da República Popular poderão se tornar cada vez mais longevos antes de se tornar ricos. O materialismo derrubou ao mesmo tempo o comunismo e o confucionismo. Os monges e as freiras tibetanas estão se imolando para protestar contra o governo chinês e há constantes confrontos étnicos.

Todos reconhecem a necessidade de reequilibrar a excessiva dependência da economia dos investimentos em infraestrutura e no setor imobiliário, além das exportações, e de fazer com que ela se volte para o consumo interno. Os reformadores enfrentam uma formidável oposição. Wen e Li talvez falem de mudança, mas o Partido Comunista é mais poderoso do que o governo e o movimento outrora revolucionário tornou-se um agente da situação. As empresas estatais exercem monopólios ou oligopólios estreitamente ligados ao sistema político. O governo de consenso impede a adoção de medidas rigorosas.

A evolução desse processo determinará se a China encontrará um futuro por si mesma ou se tornará enredada nas consequências do seu sucesso. O resultado terá importantes implicações para o globo. Se a queda de Bo ajudou a abrir as portas da mudança, terá sido de certo modo benéfica. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

EX-DIRETOR DOS JORNAIS THE OBSERVER E THE SOUTH CHINA MORNING POST

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Os dois principais candidatos republicanos se apresentam como defensores dos valores tradicionais americanos, mas conspiram contra o maior deles: educação para todos

POR PAUL KRUGMAN, DO THE NEW YORK TIMES*

Uma área na qual os americanos sempre foram excepcionais é o amparo à educação. Primeiro assumiram a liderança na educação primária universal. Depois, o “movimento high school” tornou o país o primeiro a adotar a educação secundária generalizada. Após a 2ª Guerra, o respaldo público, incluindo a GI Bill (lei que garantia ensino secundário e vocacional a veteranos da 2ª Guerra) e uma enorme expansão das universidades públicas, ajudou uma grande quantidade de americanos a obter uma formação universitária.

Agora, porém, um dos principais partidos políticos fez uma virada brusca à direita contra a educação, ou, ao menos, contra a educação que americanos trabalhadores podem pagar. O curioso é que essa nova hostilidade à educação é compartilhada pelas alas conservadora social e conservadora econômica da coalizão republicana, ora representadas nas pessoas de Rick Santorum e Mitt Romney. E isso vem num momento em que a educação americana já se encontra em dificuldades profundas.

Sobre essa hostilidade: Santorum ganhou manchetes ao declarar que o presidente Barack Obama quer ampliar a matrícula universitária porque as faculdades são “usinas de doutrinação” que destroem a fé religiosa.

A resposta de Romney a um aluno do último ano do ensino secundário preocupado com os custos da universidade é, possivelmente, ainda mais significativa, porque o que ele disse aponta para opções políticas reais que prejudicarão ainda mais a educação americana. Eis o que o candidato falou ao estudante: “Não vá para a que tem o preço mais alto. Vá para a que tem o preço um pouco mais baixo onde você possa obter uma boa educação. E você, com certeza, a encontrará. E não espere que o governo perdoe a dívida que assumir”. Uau. Isso sobre a tradição dos EUA de oferecer ajuda a estudantes. As observações de Romney foram ainda mais insensíveis e destrutivas, dado o que vem ocorrendo ultimamente na educação superior americana.

Nas duas últimas gerações, escolher uma escola menos cara geralmente significava ir para uma universidade pública em vez de uma universidade privada. Hoje em dia, a educação superior pública está muito mais sitiada, enfrentando cortes orçamentários mais duros que o restante do setor público. Corrigida pela inflação, a ajuda estatal ao ensino superior caiu 12% nos últimos cinco anos, apesar de o número de alunos continuar crescendo; na Califórnia, a ajuda diminuiu 20%.

Um resultado tem sido a elevação das taxas. A anuidade corrigida pela inflação em faculdades públicas de quatro anos subiu mais de 70%. Portanto, boa sorte para descobrir aquela faculdade com “um preço um pouco mais baixo”.

Outro resultado é que instituições de ensino com problemas de caixa vêm fazendo cortes em áreas cujo ensino é caro – que são precisamente as áreas de que a economia necessita. Por exemplo, faculdades públicas em alguns Estados, incluindo Flórida e Texas, eliminaram departamentos inteiros de engenharia e ciência da computação.

Os danos que essas mudanças causarão – tanto para as perspectivas econômicas dos EUA como para o evanescente sonho americano das oportunidades iguais – deveriam ser óbvios. Então, por que os republicanos estão tão ansiosos para sucatear a educação superior? Não é difícil perceber que o que está impelindo a ala de Santorum do partido. Sua alegação específica de que frequentar a universidade solapa a fé é falsa. Mas ele está certo ao sentir que nosso sistema de educação superior não é um terreno amigável para a ideologia conservadora corrente. E não são apenas os professores de ciências humanas: entre os cientistas, os democratas declarados superam de nove para um os republicanos declarados.

Imagino que Santorum veria isso como evidência de uma conspiração liberal. Outros poderiam sugerir que os cientistas têm dificuldade de apoiar um partido no qual a negação da mudança climática se tornou um teste político, e a negação da teoria da evolução está a caminho de um status similar. Mas e as pessoas como Romney? Será que elas não têm interesse no sucesso econômico futuro dos EUA, colocado em risco pela cruzada contra a educação? Talvez não tanto quanto se pensa. Afinal, nos últimos 30 anos, houve uma chocante desconexão entre os ganhos de renda enormes no topo e as mazelas dos trabalhadores comuns.

Pode-se defender que o interesse próprio da elite americana é mais bem servido assegurando que essa desconexão continue, o que significa manter baixos os impostos sobre rendas altas a todo custo, sejam quais forem as consequências em termos de infraestrutura precária e uma força de trabalho despreparada.

Se a educação pública subfinanciada deixa muitos filhos dos menos ricos sem mobilidade social para cima, bem, dá para acreditar mesmo naquela história de criar igualdade de oportunidades? Portanto, sempre que ouvir republicanos dizerem que eles são o partido dos valores tradicionais, tenha em mente que eles já fizeram de fato uma ruptura radical com a tradição dos EUA de valorizar a educação. E fizeram essa ruptura porque acreditam que o que você não sabe não pode prejudicá-los.

*É COLUNISTA

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Visão Global

 

Se você acha que o aquecimento global é um embuste, sinto muito; haverá outros dois bilhões de pessoas por aqui em 2050, e elas vão querer viver e dirigir carros

POR THOMAS L.FRIEDMAN, DO THE NEW YORK

Seríamos apenas eu e Fyodor Lukyanov, o editor do jornal Russia in Global Affairs. Ele escolheu o restaurante. Havia nevado naquele dia e o trânsito de Moscou – já quase inviável porque a cidade, que há 15 anos tinha 300 mil carros, hoje abriga quase quatro milhões de veículos registrados – estava ainda mais inviável que o usual. Logo começou a troca de e-mails entre nós. Eu fui o primeiro: “Vou atrasar alguns minutos”. Lukyanov disse o mesmo alguns minutos depois. E aí eu de novo: “Vou atrasar 20 minutos”. Ele viu então os meus 20 minutos e subiu mais 20. No fim, eu me atrasei 50 minutos e cheguei dois minutos antes dele. Nós fizemos uma entrevista corrida sobre a política externa russa em 30 minutos e eu tive de sair às pressas para não me atrasar no meu compromisso seguinte. Enquanto vestíamos nossos sobretudos, Lukyanov me deu um conselho, e não foi que os EUA deviam ficar fora da Síria.

Foi: “Tome o metrô”. É bem verdade que o engarrafamento de Moscou não foi tão ruim como o de agosto de 2010, na autoestrada norte-sul de Pequim à Mongólia Interior. Declarado o mais longo da história do planeta, aquele se estendeu por 96 quilômetros, os carros moviam-se a uma velocidade de 3,2 quilômetros por dia, o trânsito levou 10 dias para desengarrafar e criou-se uma economia local de vendedores de macarrão.

Mas essa não é um a coluna sobre o tráfego – em si. É uma coluna sobre energia e meio ambiente e sobre por que não devemos deixar que o debate venenoso sobre mudanças climáticas nos enrede tal forma que fiquemos sem qualquer política energética, em particular sem uma política focada no desenvolvimento de usos muito mais eficientes dos recursos naturais com projetos e sistemas melhorados. Se você é dos que pensam que toda a ciência do clima é um embuste e não aceitam os dados de que nosso planeta está ficando mais quente e os oceanos estão subindo, sinto muito. Isso fica entre você e sua casa na praia – e seus filhos, cujo futuro você está colocando em risco.

É melhor que acredite no seguinte: o planeta está ficando mais exaurido e mais povoado. Haverá outros dois bilhões de pessoas por aqui em 2050, e elas vão querer viver e dirigir carros como nós. E quando o fizerem, haverá um engarrafamento e uma nuvem de poluição monstruosos a menos que nós aprendamos a obter mais mobilidade, iluminação, aquecimento e resfriamento com menos desperdício – com tantas pessoas mais. Não podemos deixar que as guerras sobre o clima continuem a comprometer os esforços para termos uma política energética que eleve os padrões de eficiência para prédios, janelas, tráfego, habitação, embalagens e eletrodomésticos, que promova a inovação – que é a nossa força – no que precisa ser a próxima grande indústria global: a eficiência em energia e recursos naturais.

Esse é o tema de dois livros interessantes que saíram recentemente. O primeiro chama-se The Sixth Wave: How to Succeed in a Resource Limited World (A sexta onda: como triunfar num mundo com recursos naturais limitados, em tradução livre), de James Bradfield Moody e Bianca Nogrady. Moody, que trabalha na agência nacional de pesquisa da Austrália, e Nogrady, uma jornalista científica, argumentam que, desde a revolução industrial, tivemos cinco ondas longas de inovação – da energia hidráulica ao vapor, à eletrificação da produção em massa, até as tecnologias da informação e das comunicações. Eles argumentam que a sexta onda será a eficiência no uso dos recursos naturais – porque as populações crescentes, com apetites crescentes, acarretarão tanto um aumento da escassez de recursos naturais como mudanças climáticas, poluição e desperdícios perigosamente altos.

Isso nos obrigará a desacoplar o consumo do crescimento econômico. No passado, diz Moody, “quanto mais consumíamos, mais crescíamos”. E, portanto, havia uma tensão entre “verde” e “ouro”. Isso não pode durar, diz Moody. Quando se tem um mercado global, com uma população em crescimento, que enfrenta uma escassez crescente de recursos naturais e ainda tanto desperdício na maneira como fazemos e consumimos coisas “há uma grande oportunidade de mercado para a inovação”. “Passaremos de verde contra ouro para verde igual a ouro”, diz Moody.

Porque a única maneira de crescer sem consumir mais recursos é com inovações sistêmicas na eficiência – desenvolver novos modelos de negócios para proporcionar mobilidade, aquecimento, resfriamento e iluminação com recursos e poluição dramaticamente menores.

Eis um exemplo simples que o especialista em energia Hal Harvey usa: “Considere uma lâmpada incandescente padrão, acionada por uma usina de eletricidade a carvão. Se a usina a carvão tem uma eficiência de 33% (a média nos EUA), e a lâmpada, de 3%, a conversão líquida de energia para luz é de apenas 1%. Isso é patético – e típico. Uma luz LED (diodo luminoso) acionada por uma turbina a gás natural eficiente converte 20% da energia total em luz – um aumento de 20 vezes”. Se for acionada por energias renováveis, então, há a vantagem adicional da redução das emissões de carbono.

É aí que Amory Lovins, o físico que preside o Rocky Mountain Institute, começa seu novo livro: Reiventing Fire: Bold Business Solutions for the New Energy Era (Reinventando o fogo: soluções empresariais corajosas para a nova era energética, em tradução livre), que está resumido no número atual de Foreign Affairs. O Rocky Mountain Institute e suas empresas colaboradoras mostram como empresas privadas – motivadas pelo lucro e apoiadas por uma política inteligente – podem tirar os EUA tanto do petróleo quanto do carvão até 2050, com uma economia de US$ 5 trilhões, mediante a inovação com ênfase em projeto e estratégia.

“Não é preciso acreditar em mudanças climáticas para resolvê-las”, diz Lovins. “Tudo que fizermos para aumentar a eficiência energética dará lucros, melhorará a segurança e a saúde, e estabilizará o clima.”

É COLUNISTA

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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Visão Global

Memorial planejado para homenagear o 34º presidente dos EUA não faz justiça a ele e dá mais destaque a aspectos de sua vida comum do que a seu heroísmo

ROSS DOUTHAT
THE NEW YORK TIMES

Duas decisões serão tomadas este ano que, em longo prazo, influirão muito na maneira como entendemos a presidência. Em novembro, os eleitores decidirão se vão conceder um segundo mandato a Barack Obama. E, antes disso, em algum momento a National Capital Planning Commission decidirá se leva adiante o projeto de Frank Gehry de um Memorial a Dwight Eisenhower.

O projeto de Gehry é, bem, é típico do arquiteto: ele reelabora o modelo tradicional de um monumento usando imensas telas metálicas para retratar o ambiente da infância de Eisenhower no Kansas, ao passo que consagra um espaço muito menor às suas realizações na 2.ª Guerra e na Casa Branca. A única estátua importante vai retratar Eisenhower como um garoto de pés descalços, não um líder da guerra ou um presidente).
O projeto foi amplamente criticado – pela família de Eisenhower, por arquitetos tradicionalistas e articulistas de centro-direita como George Will e David Frum. Algumas críticas têm a ver somente com a estética, mas as mais importantes se referem à essência da obra: da forma planejada, o memorial subestima a grandeza do comandante supremo das forças aliadas.

O interessante, contudo, é que ao dar mais destaque a aspectos comuns da vida de Eisenhower do que ao seu heroísmo, Frank Gehry está sendo mais convencional do que radical. Da maneira como foi concebido, o seu monumento só vai confirmar, e não alterar, o lugar que Eisenhower ocupa hoje na memória nacional.
Como escreveu Philip Kennicott, do Washington Post, a visão de Gehry sugere que embora “Eisenhower tenha sido um grande homem, houve outros Eisenhowers por trás dele, outros homens que podiam fazer o que ele fez”. Longe de uma reformulação corajosa da sua imagem, esse monumento é um resumo quase perfeito da maneira que muitos americanos veem hoje aquele que foi o 34.º presidente dos EUA.
Não quer dizer que os americanos não gostam de Eisenhower nem lembram com carinho do serviço que ele prestou. O novo livro Eisenhower in War and Peace, de Jean Edward Smith é a mais recente de uma série de biografias que se tornaram sucesso de vendas sobre Ike. Mas ele não é tão amado como muitos dos seus contemporâneos de meados do século. Como líder de guerra, ele foi ofuscado por Franklin Delano Roosevelt e por seus muitos subordinados pitorescos, e seus dois mandatos como presidente atraíram pouco daquele entusiasmo póstumo que fez do seu predecessor do “mostra para eles”, um herói popular e do seu sucessor martirizado um ícone.
Numa pesquisa Gallup de 2011 sobre o maior presidente que o país já teve, Eisenhower ficou em 12.º lugar, empatado com Jimmy Carter. Ele tem um desempenho mais sólido nas pesquisas acadêmicas, mas com frequência vem sempre atrás dos seus proeminentes rivais do século 20.
Em parte, essa desvalorização resulta da persona política que Eisenhower cultivou – uma fachada simpática, de avô, que ocultava o mestre implacável da política. E em parte ela reflete o fato de a sua presidência jamais ter tido um acento fortemente ideológico. Os liberais (que preferiam Adlai Stevenson) comumente lembram o governo Eisenhower como um parêntese entre eras democratas heroicas, enquanto os conservadores (que defendem Robert Taft) sempre evocam a situação estática em que estavam antes da sua ascensão, que começou com Goldwater até Reagan.
Mas, enfim, Eisenhower é subestimado porque na Casa Branca sua liderança não se enquadrou no padrão de “grandeza” que muitos americanos esperavam dos seus presidentes. Não era um homem de grandes projetos, cruzadas corajosas ou tentativas para mudar a história do mundo. Não houve nenhuma “revolução Ike” na política americana, tampouco uma “Eisenmania” entre ativistas e intelectuais, nenhum realinhamento estilo Eisenhower.
Inversamente, sua grandeza manifestou-se nas crises que ele aplacou e nos erros que não cometeu. Não criou programas de dotações orçamentárias proibitivos, não adotou teorias econômicas implausíveis e não deixou déficits insustentáveis para seus sucessores. Ele pôs fim a um conflito paralisante na Coreia, manteve os EUA fora da guerra no Sudeste Asiático e rejeitou uma política nuclear arriscada na qual seu sucessor tropeçou. Não permitiu que uma série de crises no Oriente Médio levasse os americanos a uma intervenção ao estilo do Iraque.
Não arriscou sua presidência com roubos de terceira classe ou aventuras sexuais. Era resoluto quando necessário, mas seus sucessos – prosperidade, paz, avanços sólidos no campo dos direitos civis – foram quase sempre o fruto da precaução estratégica e inação magistral.
Talvez “outros homens” pudessem ter conseguido essa combinação de firmeza, competência e sucesso na administração de crises, como o projeto impessoal deste Memorial Eisenhower parece sugerir. Mas poucos ocuparam o Salão Oval nestes últimos 50 anos. Pelo contrário, desde a década de 60, passando pelas eras George W. Bush e Barack Obama – do “pagar qualquer preço, suportar qualquer fardo” ou o “você nunca deve desperdiçar uma crise grave” -, os vícios definidores da presidência moderna têm sido o orgulho excessivo, a irresponsabilidade e a ambição desmedida.
É por isso que a controvérsia envolvendo o memorial é de fato importante. Eisenhower merece um monumento que o coloque onde ele deve estar – na primeira fila de líderes americanos – porque é preciso lembrar a nação onde está a verdadeira grandeza de um presidente. Muitos políticos combinam a retórica exaltadora com grandes ambições. Mas são poucos o que têm os dons necessários para conduzir o navio do Estado mantendo-o longe das rochas e penhascos e, depois de oito anos, conduzi-lo indene ao porto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ANALISTA POLÍTICO

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As coisas vão piorar na Síria antes de melhorar, mas a mulher de Assad já começou a comprar imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los

POR ROGER COHEN, DO NEW YORK TIMES*

Eis aqui algumas verdades a respeito da Síria. As coisas vão piorar antes de começar a melhorar. Ninguém pode obrigar esse gênio a voltar para dentro da lâmpada. Estamos diante da mãe de todos os conflitos indiretos. O inescrupuloso regime Assad está acabado, resta apenas saber quando será seu último suspiro.

Os países tomaram rumos diferentes na sua trajetória da tirania à liberdade. Quando o comunismo caiu, alguns planaram do império soviético para o Ocidente enquanto outros agonizaram. A Iugoslávia – uma ideia maravilhosa que nunca funcionou – é um dos muitos países citados como possível exemplo do destino sangrento que aguarda a Síria; outros exemplos incluem Líbano e Iraque.

Os ingredientes são conhecidos: a Síria é um Estado multiétnico governado com mão de ferro por uma minoria – os alauitas (quase xiitas) – e inclui minorias cristãs e drusas, entre outras, que juntas correspondem a aproximadamente um quarto da população. A maioria é sunita. Quando a mão de ferro é afastada desses países, a liberdade é mais imediatamente vista como um libertar-se uns dos outros, não como a oportunidade de unir-se no processo de concessões mútuas para a formação de uma nova ordem liberal.

Assim tem sido há um ano na Síria de Bashar Assad, que, aprendendo as lições do pai, buscou suprimir por meio de massacres maciços um amplo levante daqueles que almejam libertar-se do controle da família. Assad se formou médico! Nenhum doutor tripudiou tanto o juramento de Hipócrates.

Os Assad são uma máfia, uma minoria (a família) dentro de outra minoria (os alauitas) dentro de outra minoria (a polícia secreta Mukhabarat). Eles cooptaram os demais – principalmente a classe dos comerciantes sunitas – por meio de uma estabilidade imposta. Essencialmente, como todos os tiranos derrubados durante a Primavera Árabe, governaram o país como se ele fosse o seu feudo particular, um brinquedo a ser legado de pai para filho, beneficiando primos e capangas.

Bem, tudo isso acabou. Alepo não é a nova Marrakesh, afinal. Aqueles atraentes cartazes turísticos nos ônibus londrinos foram guardados. Os árabes se cansaram de seus poderosos chefões.

Eu disse que as coisas vão piorar antes de começar a melhorar. O pacto social sírio foi quebrado. Um novo pacto sob o mando dos Assad é inconcebível. Há interesses maiores envolvidos. A teocracia xiita iraniana, cada vez mais isolada, está defendendo o regime contra um Exército Livre da Síria fundado em parte por uma teocracia sunita saudita: essa é a guerra indireta.

Vladimir Putin, temendo eventuais primaveras russas no seu próprio quintal, optou com o cinismo habitual por defender um antigo aliado contra as demandas americanas, que exigem a saída de Assad, objetivo até agora não perseguido com coerência pelo governo Obama. Israel conhece Assad, que ajuda a armar o Hezbollah, mas é também um inimigo previsível e, em geral, passivo. Mas Israel não imagina o que pode haver além de um Estado policial de hábitos previsíveis.

Em resumo, a Síria é perigosa. Mas isso não é razão para passividade ou incoerência. Como mostrou a guerra da Bósnia, a base de qualquer acordo deve ser uma igualdade aproximada de forças. Assim, proponho que sejam intensificados os esforços – que já ocorrem discretamente – no sentido de entregar armas ao Exército Livre da Síria. Essas forças devem ser treinadas, assim como foram treinados os rebeldes na Líbia.

Chegou a hora do acerto de contas: os EUA alertaram Assad para o perigo de permitir que combatentes da Al-Qaeda entrassem no Iraque vindos da Síria. Agora, material bélico e forças especiais com a capacidade de treinar um Exército improvisado podem vir do Iraque – e de outros países vizinhos – para a Síria. Isso deveria ser um esforço conjunto dos países árabes e do Ocidente.

Ao mesmo tempo, devemos organizar uma grande operação humanitária coordenada pelas Nações Unidas centrada em enclaves de refugiados na Turquia, na Jordânia e em outros países, estabelecendo onde for possível corredores seguros conduzindo a esses refúgios. Temos de pressionar Rússia e China para que mudem seus votos: esses países não defenderão Assad se essa atitude passar a representar um risco para outros de seus grandes interesses nos EUA, no Golfo Pérsico e na Europa.

Já podemos ouvir as manifestações de indignação: se armarmos os oponentes de Assad, conseguiremos apenas exacerbar os temores das minorias sírias e uni-las, garantindo um maior derramamento de sangue e prejudicando os esforços diplomáticos atualmente liderados por Kofi Annan, um astuto e qualificado negociador da paz. Corremos o risco de transformar uma guerra indireta numa conflagração indireta. A esta altura, não há para a Síria nenhuma política que não envolva riscos importantes. O único cessar-fogo que consigo imaginar tem como base um equilíbrio aproximado das forças, caso contrário um acordo desse tipo não passará de um pedaço efêmero de papel. Para tanto, o Exército Livre da Síria precisa ser armado.

No fim, esse rumo vai reforçar – e não prejudicar – a diplomacia de Annan, possivelmente abrindo caminho para o tipo de transição sugerida pela Liga Árabe. Em troca, a dividida oposição síria precisa apresentar um firme compromisso com o respeito aos direitos das minorias. O tratamento dispensado a elas é um dos principais testes enfrentados pela Primavera Árabe, assim como a questão das mulheres.

Se Assad cair, o Irã se verá muito enfraquecido. O elo estabelecido por Teerã com o Hezbollah desaparecerá. Não há muito o que escolher entre engendrar a queda de Assad e bombardear as instalações nucleares iranianas: a primeira opção é inteligente e factível; a segunda não passa de tolice.

A mulher de Assad tem comprado imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los e libertar o povo sírio.

*É COLUNISTA

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Se a responsabilidade de proteger civis é um elemento legítimo do direito internacional, por que esta lei valeria para a Líbia, mas não para o da Síria?

STEVEN ERLANGER – THE NEW YORK TIMES

Passado mais de um ano desde o seu início, o despertar árabe teve diferentes estações. Após uma primavera que abalou o mundo, seguida por verão, outono e inverno, os diferentes países – Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen – derrubaram um a um seus autocratas, derramando diferentes quantidades de sangue. Alguns governos sufocaram as revoltas, como ocorreu no Bahrein. Outros experimentaram reformas modestas, como o Marrocos, ou permaneceram inertes fora do palco principal – caso da Argélia e Arábia Saudita.

A primavera está agora voltando, e temos a situação na Síria. Enquanto os mortos se acumulam e a diplomacia fracassa em conter a violência, torna-se claro que esse conflito é único, difícil de prever e extremamente significativo para o mundo.

Diferentemente da Líbia, a Síria é um país de importância estratégica, localizado no centro de rivalidades étnicas, religiosas e regionais que trazem o potencial de transformar o local num redemoinho capaz de arrastar para o seu centro potências maiores e menores da região e de outras partes do mundo.

“A Síria é talvez o único país onde a Primavera Árabe tem o potencial de alterar a composição geoestratégica da região”, diz Olivier Roy, historiador francês que estuda o Oriente Médio. Como contraexemplo, ele indica Egito e Tunísia, onde os novos líderes parecem estar conservando as alianças e posições geopolíticas anteriores. “Na Síria, se o regime for derrubado, teremos uma paisagem absolutamente nova”, afirma.

Muitos consideram o conflito outra revolução inevitável que acabará depondo o presidente Bashar Assad. Mas, nos meses transcorridos desde que os sírios decidiram lutar contra Assad – que respondeu mobilizando o Exército contra eles -, o país já se converteu no cenário de uma guerra indireta entre potências da região e de outras partes do mundo.

Durante décadas, a Síria foi o ponto central da velha ordem da segurança no Oriente Médio. O país possibilitou que russos e iranianos expandissem sua influência enquanto sucessivos governos da família Assad proporcionavam estabilidade aos olhos dos EUA e uma fronteira segura para Israel, apesar do apoio concedido ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas nos territórios palestinos.

A incipiente guerra civil na Síria derrubou esse paradigma, colocando russos e americanos – e seus respectivos aliados – em lados opostos. Trata-se de um conflito que intensificou muito as tensões entre xiitas e sunitas, e entre o Irã e a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico. Uma situação explosiva que deixa Israel com a esperança de que um inimigo cairá, mas também com uma aguda preocupação em relação a quem irá assumir o controle do arsenal dele.

Para a Rússia, a queda de Assad – seu aliado e comprador de suas armas – reduziria a influência do país na região. Se Assad cair, o novo governo não poderá ignorar o apoio concedido pelos russos a ele, que incluiu um constante fornecimento de armas.

Árabes de toda a região, que estão exigindo seus direitos e liberdades, também podem se mostrar ressentidos desse apoio. “A essa altura, não adianta nem mesmo mudar de lado”, diz Dmitri Gorenburg, estudioso da Rússia a serviço do Centro de Análises Navais, grupo de pesquisas financiado pelo governo americano com sede na Virgínia.

Para os EUA, o conflito representa um conjunto de riscos e contradições que obrigou Washington a assumir uma posição muito mais cautelosa.

A repressão desencadeada por Assad apresentou ao mundo um difícil dilema moral envolvendo a intervenção. Se a responsabilidade de proteger civis é um novo elemento legítimo do direito internacional, por que essa lei valeria para o caso da Líbia, mas não para o da Síria? Será que a democracia e a igualdade de direitos defendidas pelo Ocidente vão sofrer as consequências, ajudando os radicais islâmicos a chegar ao poder?

Fator Irã. Para Washington, a Europa e os sunitas do Golfo Pérsico e da Arábia Saudita, o destino de Assad é tão importante quanto o seu impacto sobre o Irã. A Síria é um dos aliados mais próximos da república islâmica. Os sírios apoiaram quase sozinhos o Irã na sua guerra contra o Iraque nos anos 80. A Síria é o principal corredor de acesso por meio do qual Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica recebem ajuda e armas do Irã. A queda de Assad representaria uma grande derrota para os iranianos que, por esse motivo, fornecem dinheiro, armas e conselhos ao governo dele.

Os EUA e a Europa isolaram o Irã econômica e diplomaticamente – com o tênue apoio de russos e chineses – na tentativa de retardar as tentativas de Teerã no sentido de construir um artefato nuclear. Um novo governo sírio poderia representar para os iranianos um golpe mais duro do que quaisquer sanções já aprovadas pelo Ocidente. Outro possível resultado seria o retorno de protestos democráticos em Teerã.

Por enquanto, Washington não pretende armar grupos da oposição síria. Os EUA estão também excluindo a possibilidade de uma intervenção militar direta. Depois de uma década de guerra no Iraque e no Afeganistão, e de uma intervenção limitada na Líbia criticada pelos republicanos, o presidente Barack Obama não deseja novas aventuras militares num ano eleitoral. A opinião é partilhada pelo Pentágono, que pensa especialmente no competente sistema sírio de defesa antiaérea, fornecido pela Rússia.

Outro fator considerado importante é a natureza incoerente e pouco clara da oposição armada a Assad, e representantes americanos destacam que o Exército de Libertação Sírio, formado por oficiais exilados do exército sírio, por desertores e milicianos, não controla territórios importantes na Síria por meio dos quais o fornecimento de armas poderia ser estabelecido.

Há provas de que radicais sunitas estariam voltando suas atenções para a Síria, com armas e combatentes atravessando a fronteira com o Iraque e os líderes da Al-Qaeda falando numa jihad na Síria. Mas há também motivo para ceticismo, pois a Al-Qaeda se tornou uma espécie de fantasma citado por quase todos.

A questão central é como acelerar o colapso do governo Assad, visto por muitos como inevitável, sem com isso mergulhar a sociedade numa guerra civil, afirma Volker Perthes, administrador do Centro Alemão para Questões Internacionais e de Segurança. “Armar os rebeldes e provocar a eclosão de uma guerra civil é algo que vai conferir mais tempo ao regime”, diz Perthes. “O que Assad quer é uma guerra de verdade, pois isso permitiria a ele superar a relutância em combater da ampla maioria nas Forças Armadas.”

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Ahmadinejad planeja uma versão nacional da web para enfrentar em até três anos a rede mundial de computadores

POR THOMAS ERDBRINK, DO WASHINGTON POST

Quando Maysam, conhecido blogueiro iraniano, entra na internet em seu escritório, ele o faz por meio de uma conexão especial que há anos tem conseguido evitar a barreira cada vez mais eficaz criada pela república islâmica.

Recentemente, o software – que permitia a ele e outros milhões de iranianos usarem a internet por meio de portais em outras partes do mundo – parou de funcionar. Quando ele retorna ao ar esporadicamente, a velocidade é tão lenta que sites como o Facebook e o balatarin.com, que cataloga as notícias não oficiais em farsi, tornam-se impossíveis de utilizar. “Houve uma mudança”, disse Maysam, que não forneceu seu sobrenome temendo ser convocado pela policia iraniana. “Parece que, cada vez mais, as autoridades estão ganhando a dianteira no universo online.”

Depois de verem como a mídia social ajudou a fortalecer as revoltas em todo o Oriente Médio, os líderes iranianos tentam controlar o que é distribuído, postado e discutido na internet. Depois de um início mais lento, as autoridades estão obtendo um sucesso crescente, afirmam os usuários da web.

Muitos temem que o desligamento do software usado para contornar a blindagem criada pelo Estado seja o prenúncio do que as autoridades rotularam como “internet nacional”. Os funcionários do governo responsáveis pela indústria da tecnologia anunciaram a construção de uma rede doméstica semelhante à internet e comparável à rede de um escritório, possibilitando o bloqueio de muitos sites populares. Eles deram a entender que a internet nacional pode ser lançada a qualquer momento e ela passará a funcionar gradualmente no decorrer dos próximos três anos.

As autoridades dizem que a decisão nasceu da necessidade de evitar que os inimigos ocidentais do Irã espionem os cidadãos do país. A repressão à liberdade na internet ocorre em meio a tensões no Irã envolvendo uma série de misteriosos assassinatos e explosões cuja responsabilidade foi atribuída a espiões americanos ou israelenses.

O Ocidente tem intensificado a pressão sobre o Irã nos últimos meses com o objetivo de fazer o país abandonar seu programa de enriquecimento de urânio, que o Irã descreve como pacífico, mas que, de acordo com os EUA e outros, teria como fim o desenvolvimento de uma arma nuclear.

Representantes iranianos acusaram empresas de tecnologia com sede nos EUA, como Google, Twitter e Microsoft, de estar trabalhando ao lado das autoridades americanas na espionagem dos perfis iranianos online, do uso que a população faz dos serviços de busca, das redes sociais e da correspondência eletrônica. As empresas negaram as acusações.

Durante os protestos ocorridos em 2009 e promovidos por grupos iranianos de oposição, o Departamento de Estado chegou a pedir ao Twitter que adiasse um serviço de manutenção do seu site, pois os diplomatas americanos acreditavam que o serviço de microblogs era usado pelos manifestantes iranianos para programar as manifestações em Teerã. “Estão roubando as informações das pessoas e buscando seus próprios… objetivos”, disse Reza Taghipour, ministro iraniano das comunicações e da tecnologia da informação, ao falar de governos estrangeiros e empresas da internet no mês passado. “Precisamos (da internet nacional) para proteger a privacidade das nossas famílias.”

Os funcionários do governo sublinham que o acesso à web não será extinto, sendo que a restrição será aplicada apenas a sites “perigosos”. Mas os usuários iranianos da internet e os ativistas temem que a ativação do modelo nacional possa isolá-los do restante do mundo, colocando-os sob uma vigilância ainda mais intensa das autoridades.

“Basicamente, eles já estão impedindo o acesso a todos os sites interessantes”, disse Maysam. “Se isso ocorrer, seremos como uma ilha isolada num mundo em constante mudança.”

Em setembro, a empresa holandesa de segurança na rede DigiNotar teve seus sistemas invadidos e os certificados de segurança – senhas digitais – de sites como Google e Yahoo foram roubados. O roubo tornou-se conhecido quando milhares de usuários do Gmail no Irã começaram a reparar num estranho desvio pelo qual sua correspondência começou a passar.

No seus e-mails, um hacker iraniano que se identifica como Sunich – nome de uma popular bebida que costuma ser distribuída nos comícios organizados pelo Estado – alegou ter roubado os certificados e os entregado às autoridades. “Aqueles que cooperam com os serviços ocidentais de informações devem ser castigados”, escreveu ele numa mensagem, dizendo que as autoridades iranianas tinham o direito de descobrir quais dos seus cidadãos estariam trabalhando para agências estrangeiras de espionagem.

Os blogueiros e ativistas já podem ser detidos em decorrência daquilo que publicam na rede. Saeed Malekpour, de 36 anos, programador iraniano de origem canadense, aguarda execução depois de ter sido sentenciado à morte em decorrência daquilo que o juiz descreveu como “disseminação de material pornográfico”. Malekpour insiste que simplesmente criou um site de armazenamento online que logo foi usado abusivamente por outras pessoas.

A divisão cibernética da polícia iraniana deteve na semana passada pessoas associadas a uma página no Facebook que organizava concursos de beleza online. Os responsáveis foram acusados de favorecimento à prostituição.

Mustafá, de 27 anos, trabalha como assistente numa gráfica e disse que se despediu da internet. “Nenhum dos sites divertidos, como o Facebook, funciona mais. Posso ler apenas os sites oficiais de notícias do Irã”, disse Mustafá, que pediu para não ter o nome divulgado. “Agora dedico meu tempo somente ao trabalho. Nada de internet.”

É JORNALISTA

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Campanha republicana à presidência dos EUA revela ignorância sobre um complexo aliado de Obama, um país referência para os regimes que a Primavera Árabe derrubou

POR JACKSON DIEHL, DO WASHINGTON POST*

Seria agradável pensar que a saída de Rick Perry da corrida presidencial do Partido Republicano teve algo a ver com a observação obtusa que ele fez sobre a Turquia no debate em Myrtle Beach, na Carolina do Sul.

O diálogo com Bret Baier, da Fox News, é sem dúvidas o ponto mais baixo no tema política externa das primárias republicanas até agora – o que significa muito. Ele chama a atenção também para um problema na compreensão americana – em particular, republicana – da transformação do Oriente Médio que é muito maior que Perry.

Baier fez uma descrição basicamente precisa, embora parcial, do governo de Recep Tayyip Erdogan, dizendo que “desde que seu partido orientado para o islamismo chegou ao poder… o índice de assassinatos de mulheres aumentou 1.400%, a liberdade de imprensa caiu ao nível da Rússia, (Erdogan) adotou o Hamas e a Turquia ameaçou usar força militar contra Israel e Chipre”. Em seguida, ele perguntou: “Acredita que a Turquia ainda tem lugar na Organização de Tratado do Atlântico Norte (Otan)?” Perry respondeu: “Bem, evidentemente quando se tem um país que está sendo governado pelo que muitos percebem ser terroristas islâmicos…”

Terroristas islâmicos? Isso, reparem, é sobre um governo que acaba de instalar um radar avançado em seu território que poderá ser usado para monitorar e abater mísseis do Irã. Que participou da operação da Otan contra Muamar Kadafi na Líbia. Que se tornou hospedeiro da oposição ao ditador sírio, Bashar Assad. E, tendo repetidamente vencido eleições democráticas livres, emendou a Constituição da Turquia para aumentar os direitos de mulheres, minorias étnicas e sindicatos.

Ok. Esse também é um relato parcial do currículo de Erdogan. Mas essa é precisamente a questão: a Turquia tornou-se um aliado complexo, dinâmico, difícil, algumas vezes exasperante, outras muito útil e, indiscutivelmente, importante dos EUA. Nesse sentido, o governo de Erdogan é um paradigma das relações que os governos americanos estarão gerindo – se tivermos sorte – no Egito, Iraque e outros lugares no Oriente Médio durante a próxima década.

A verdade é que, gostemos ou não, governos “orientados para o islamismo” estão perto de se tornar a normalidade numa região dominada durante décadas por autocratas seculares e generais pró-americanos. Por isso, o preconceito tosco sobre movimentos muçulmanos instalado na visão de muitos conservadores americanos – a de que eles são inevitavelmente fundamentalistas, antidemocráticos, anti-Israel e antiamericanos, se não explicitamente “terroristas” – virou problema grave. Se for levado a sério, ele tornará impossível ao atual governo dos EUA, e a outros futuros, transitar pela nova política da região e preservar alianças cruciais.

Alguns movimentos islâmicos poderão se tornar como o Hamas e o Hezbollah – implacavelmente hostis. Outros, porém, como a Irmandade Muçulmana, no Egito, provavelmente enveredarão por um terreno intermediário ambíguo, tentando equilibrar a necessidade de investimento ocidental e as aspirações seculares de suas populações com sua ideologia religiosa. A maneira certa de responder a eles é ser ágil: tolerar alguma turbulência, esquivar-se de alguns golpes, revidar outros e continuar pressionando os líderes a não se afastar dos princípios democráticos.

Isso é parecido com a maneira como Barack Obama tem lidado com Erdogan e seu governo – com um resultado líquido que, ao menos por enquanto, parece positivo. Escrevi não faz muito tempo sobre as falhas de Obama em várias iniciativas suas de política externa. Mas a maneira como tratou a Turquia e seu caprichoso líder pode ser classificada como uma de suas melhores realizações.

Fortuitamente, Obama começou a cortejar Erdogan desde o início de seu governo, escolhendo Istambul para uma de suas primeiras viagens ao exterior e pronunciando ali um discurso em que prometeu construir relações sólidas entre os EUA e a Turquia, e também com o mundo muçulmano em geral.

Seguiram-se algumas grandes decepções. Erdogan indispôs-se com Israel antes mesmo da desastrosa interceptação por comandos israelenses de uma embarcação turca que tentava furar o bloqueio a Gaza em 2010. Ele tentou barrar, e depois votou contra, a tentativa de Obama de aprovar no Conselho de Segurança da ONU sanções contra o Irã. Em casa, seus ataques a jornalistas críticos e a prisão de centenas de militares e ativistas seculares com base em acusações dúbias de conspiração provocaram críticas públicas do embaixador americano e, por fim, da secretária de Estado americana, Hillary Clinton.

Obama, entretanto, continuou trabalhando com o líder turco, telefonando para ele mais vezes do que para qualquer outro aliado estrangeiro, com a exceção de David Cameron da Grã-Bretanha. O resultado foi uma relação pessoal relativamente estreita. Questionado sobre suas relações externas numa entrevista na semana passada, Obama citou Erdogan entre os cinco líderes mundiais com os quais havia forjado “laços de confiança”.

Dirigentes do governo dizem que houve uma convergência entre as políticas americana e turca no ano passado – sobre Líbia, Síria, Irã e Primavera Árabe em geral.

Apesar de a tendência de Erdogan para uma autocracia doméstica continuar sendo uma grande preocupação, algumas autoridades americanas acreditam que a nova Constituição que seu partido está elaborando resultará em uma melhor distribuição de poderes e menos jornalistas na prisão.

Isso não fará da Turquia um aliado ideal ou corrigirá suas relações ainda problemáticas com Israel. Mas é muito melhor do que transformar islâmicos em adversários – ou não distingui-los de terroristas.

*É JORNALISTA

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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Se Putin cair logo, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática, quando a crise afetasse o padrão de vida das pessoas

POR BORIS AKUNIN, DO NEW YORK TIMES*

Em 24 de setembro, quando no congresso do partido governista na Rússia foi anunciado que nosso novo presidente mais uma vez seria Vladimir Putin, minha mulher disse: “Então é isso. Precisamos ir embora. Não quero passar o resto da minha vida no país de Dobby (o elfo escravo da série Harry Potter)”. “Esse não é o país dele”, retruquei. “Vamos esperar mais um pouco. Haverá uma comoção social. As pessoas não são idiotas, elas não vão gostar desta manobra.”

Mas se passaram os dias, as semanas, e não houve nenhuma comoção social. Na realidade, alguns dos costumeiros resmungões – como eu, por exemplo – resmungaram. Quanto ao restante da Rússia, aparentemente não se importou nem um pouco: se for Putin, que seja então. Mais 12 anos? Que fique pelo restante da vida, não tem problema.

Portanto, também comecei a pensar seriamente em ir embora. Se nós – aqueles a quem o governo Putin provoca enjoo – somos tão poucos, por que deveríamos impedir que nossos tranquilos compatriotas tenham uma vida feliz? Não seria exagero afirmar que o restante do outono foi o período mais deprimente da minha vida. É péssimo sentir-se um estrangeiro no próprio país – principalmente para um escritor.

Então veio dezembro, e literalmente em poucos dias a Rússia acordou e se tornou uma nação completamente diferente. De repente, estava claro que pessoas como eu não constituíam uma minoria marginal, que nós éramos muitos. Em Moscou, nós somos uma clara maioria.

A ideia de ir embora foi esquecida, como se nunca tivesse sido mencionada. A descoberta que nos deixou eufóricos pode ser resumida em quatro palavras: “Esse é o nosso país”. A última vez em que sentimos isso foi há 20 anos, quando o regime comunista desmoronou.

Para quem está fora, o que está acontecendo na Rússia pode parecer a mesma tempestade revolucionária que varreu os países árabes e os libertou de regimes autoritários. Mas a analogia é enganosa. A única semelhança é o importante papel das redes sociais na organização de protestos espontâneos. O que está acontecendo na Rússia é muito diferente e bastante inusitado: uma revolução da classe média, uma classe inerentemente não revolucionária.

Para muitas pessoas, até mesmo para os próprios russos, o repentino despertar da sociedade parece um milagre. Mas não é um milagre. É a consequência de um processo social natural. Mais precisamente, de dois processos diametralmente opostos.

O primeiro são as profundas mudanças que estão ocorrendo na sociedade russa nas duas últimas décadas. Milhões de pessoas aprenderam a viver num capitalismo “selvagem” – tratando de ganhar a vida sem a intervenção do governo, sobrevivendo num contexto brutalmente competitivo, proporcionando um padrão de vida razoável à própria família. Estas sementes germinaram, de maneira quase invisível, e de repente a grama estava brotando em toda parte. A terra nua, escura, de repente ficou verde.

Esta primavera repentina foi acelerada por um segundo processo social, que também começou há alguns anos: a degradação cada vez maior do regime de Putin. Na ausência do controle que deveria ser exercido por deputados eleitos, de tribunais ou da imprensa, o sistema caiu na ilusão de que tudo é permitido, e começou a cometer um erro após o outro, sem nem sequer perceber que estava destruindo a si mesmo.

A Primavera Russa em pleno inverno foi uma consequência direta da troca de Dmitri Medvedev por Putin anunciada em 24 de setembro e das fraudes igualmente vergonhosas nas eleições parlamentares. De repente ficou claro que os russos não tolerariam mais esse tipo de coisas. Eles cresceram e as fraldas do autoritarismo ficaram apertadas.

Entre os dois gigantescos comícios de 10 e 24 de dezembro, Putin ainda teve uma chance de argumentar com os manifestantes. Mas o “líder nacional” (como seus partidários chamam o primeiro-ministro) cometeu um erro fatal: insultou publicamente os participantes do movimento, afirmando que tinham sofrido uma lavagem cerebral e vendido a alma. Depois disso, o principal alvo da indignação pública foi o próprio Putin, e não o partido governista.

Naquelas duas semanas, Putin perdeu o país. Evidentemente, ele ainda não se deu conta disso. Está convencido de que os distúrbios são provocados por alguns moscovitas barulhentos e continua contando com o apoio do restante do país. Além disso, realmente acredita que ganhará as eleições presidenciais.

Vitória de Pirro. Nas atuais circunstâncias, isso só ocorrerá se houver uma fraude colossal. Mas será uma vitória de Pirro. Putin perderá o que resta de seus índices de aprovação, e se tornará objeto de ódio e de ridículo de todos os russos. Será um presidente muito fraco, que provavelmente não conseguirá se manter por muito tempo no poder.

Por mais paradoxal que possa parecer, eu preferiria que o regime de Putin não caísse muito depressa. Ele que resista ao menos mais um ano. Se ele saísse logo mais, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática – quando a crise afetasse o padrão de vida e as pessoas começassem a falar com saudade dos “anos das vacas gordas”. Uma “segunda volta” seria uma catástrofe para o país.

Além disso, os brotos ainda novos da sociedade civil precisam de tempo para crescer e se fortalecer. A melhor maneira de amadurecerem seria por meio de um ataque constante a um autoritarismo rígido, inflexível. Nesta luta, a sociedade civil se fortaleceria e aprenderia a se organizar. Isso permitiria o nascimento de uma gama de partidos políticos de verdade, e não de títeres, como no Parlamento de Putin: um poderoso centro democrático, com uma nova esquerda de socialistas e comunistas de um lado, e a nova direita dos nacionalistas do outro.

Se a mudança de poder ocorresse após a conclusão desse processo, a Rússia pós-Putin ingressaria relativamente sem dor no estágio seguinte de evolução do Estado. Politicamente, esse seria um país tumultuado, com crises parlamentares, abruptas mudanças de governo, pedidos de impeachment e todos os outros atributos de uma democracia em evolução.

Mas num país no qual uma classe média despertasse e se desse conta do seu poder, nem os ministros nem os oligarcas poderiam monopolizar mais o poder. E muito menos uma única pessoa.

*BORIS AKUNIN É O PSEUDÔNIMO DE GRIGORY CHKHARTISHVILI, ESCRITOR RUSSO E PESQUISADOR DE HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Na Grã-Bretanha, onde quase 1 milhão de soldados morreram, as imagens dos ataques com gás mostarda e das trincheiras são retratadas em poesias lidas até hoje nas escolas

POR WILLIAM BOY, DO THE NEW YORK TIMES*

Na França, moro perto de um vilarejo chamado Sadillac. Ele não passa de um punhado de casas, um velho castelo, uma igreja e um cemitério cercado por alguns sítios e vinhedos. O vilarejo provavelmente não mudou muito desde a Revolução Francesa; sua população está em torno de 100 pessoas. Ao lado do cemitério há um obelisco com o nome de cerca de 30 jovens de Sadillac que morreram na 1.ª Guerra, 1914-18. É quase impossível imaginar o efeito dessas baixas em quatro anos nessa minúscula comunidade. Todo ano, às 11 horas de 11 de novembro – a hora e o dia do armistício de 1918 -, os moradores reúnem-se para participar de uma curta cerimônia em torno do obelisco.

Em 2014, serão cem anos desde o início da 1.ª Guerra. No entanto, sua presença em romances, filmes e televisão nunca foi tão grande – em Downton Abbey na televisão, no filme Cavalo de Guerra de Steven Spielberg, na minissérie de Birdsongs de Sebastian Faulks e na adaptação de Parade’s End de Ford Madox Ford por Tom Stoppard. O último velho soldado ou marinheiro morreu e quase todas as testemunhas já se foram, mas a guerra ainda exerce uma influência tenaz na imaginação.

Para nós, britânicos, as memórias, imagens e histórias de 1914-18 parecem ter uma persistência e um poder que ofusca as da 2.ª Guerra. Sou um exemplo dessa necessidade de revisitar o conflito: meu novo romance será meu terceiro tendo a 1.ª Guerra como eixo. Quando escrevi e dirigi o filme A Trincheira, sobre um grupo de jovens soldados em 1916 aguardando o início da Batalha do Somme, fiquei obcecado com os detalhes corretos: cada divisa gasta de boné e cigarro fumado, cada refeição consumida. Era como seu eu quisesse a verossimilhança absoluta para oferecer uma experiência autêntica e o espectador ficasse em posição de dizer “então foi assim, foi por tudo isso que eles passaram, como eles viveram – e morreram”.

Creio que essa é a chave por trás da persistente obsessão com essa guerra. Para nossa sensibilidade moderna, desafia a credulidade o fato de que, durante mais de quatro anos, exércitos europeus enfrentaram-se numa linha de trincheiras de 800 quilômetros estendendo-se do litoral belga à fronteira da Suíça. A guerra foi travada também em outras arenas – Galícia, Itália, Bósforo, Mesopotâmia, África Oriental e Ocidental, em batalhas navais em muitos oceanos -, mas é a frente ocidental e a guerra de trincheiras que define a guerra na memória.

Foi uma guerra de desgaste mortífera em que milhões de soldados de ambos os lados chapinhavam na lama de uma terra de ninguém para encontrar a morte nas explosões fulminantes do fogo de metralhadora e artilharia. Ao fim de quatro anos e cerca de 9 milhões de soldados mortos, as duas forças adversárias estavam essencialmente no mesmo pé em que estavam quando começaram.

Poesia. Na França e na Alemanha, os traumas da 2.ª Guerra apagaram em certa medida as memórias da 1.ª. Na Grã-Bretanha, onde quase 1 milhão de soldados morreram, ainda são as imagens das trincheiras do frente ocidental que são mostradas e ressoam no Dia da Recordação. Uma das razões para isso é, paradoxalmente, a ressonância da poesia. Os poetas da 1.ª Guerra – Wilfred Owen, Siegfried Sassoon, Edmund Blunden, Isaac Rosenberg – são ensinados em quase todas as escolas britânicas.

Consigo me lembrar de um poema terrível de Wilfred Owen, Dulce et Decorum Est, sobre um ataque com gás mostarda, sendo lido em voz alta para nós em sala de aula quando eu tinha 10 ou 11 anos. Os poemas de guerra moldaram nossas primeiras percepções da 1.ª Guerra e eram prontamente reforçados pelas imagens familiares das trincheiras e as histórias de batalhas fúteis e custosas. Intensificando a arte poderosa estava a documentação visual, pois ela foi a primeira guerra amplamente filmada.

Por fim, havia as histórias familiares. Cem anos não é tanto tempo assim. Meu tio-avô Alexander Boyd foi ferido e condecorado na Batalha do Somme. Seu irmão, meu avô William Boyd, foi ferido um ano depois em Passchendaele, como a 3.ª Batalha de Ypres era conhecida. As lendas e peripécias familiares alimentaram meu interesse na guerra.

Há uma razão mais profunda, talvez, para a guerra continuar nos mobilizando. Ela foi um conflito entre exércitos do século 19 equipados com armamentos do século 20 – daí a carnificina sem precedente. Para colocá-lo num contexto americano: imaginem um oficial do Exército dos Estados Unidos – na faixa dos 50 anos, por exemplo – no front de Argonne em 1918. Como um jovem soldado ele poderia ter lutado, 30 anos antes, na última das guerras contra os índios na expansão para o oeste dos EUA no fim da década de 1880.

Agora, ele se depara com um mundo diferente. As táticas eram do século 19 – avançar sobre o inimigo. Mas o inimigo dispunha de armas de destruição em massa – o campo era dominado por tanques, metralhadoras, morteiro, aviões e gás venenoso. Cerca de 117 mil soldados americanos morreram nos 19 meses de participação dos EUA na 1.ª Guerra – mais de 2 vezes o número de baixas no Vietnã, 20 vezes mais que no Iraque e no Afeganistão. Nenhuma sociedade aceitaria hoje uma contagem de baixas tão horrenda.

No início da Batalha do Somme, em 1.º de julho de 1916, o Exército britânico sofreu 60 mil baixas entre mortos e feridos – em um dia. Foi possivelmente o pior massacre da história militar, de exército contra exército. Há um sentimento muito real de que o mundo moderno – o nosso mundo – nasceu entre 1914 e 1918. Alguma coisa mudou na sensibilidade humana. Os soldados não estariam dispostos a se engajar em tamanha carnificina. Perto do fim da 1.ª Guerra, a tolerância com as normas passadas já começara a acabar. Em 1917, boa parte do Exército francês se amotinou e se recusou a atacar. Eles defenderiam, mas não atacariam.

Os dias de bucha de canhão acabaram para sempre em consequência dessa guerra, o que é mais uma razão para artistas tentarem repensá-la constantemente. Para citar outro poema, MCMXIV, de Philip Larkin: “Essa mesma inocência, jamais”. Após a 1.ª Guerra, nada no mundo seria como antes.

*É ESCRITOR, ENTRE OUTRAS OBRAS, DO ROMANCE ‘WAITING FOR SUNRISE’, EM FASE DE PUBLICAÇÃO

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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