Um tribunal de São Petersburgo, na Rússia, voltou hoje a convocar a cantora Madonna para depor em um processo sobre “danos morais”. A cantora foi processada por ter feito “propaganda da homossexualidade” em seu show na cidade, no dia 9 de agosto. De acordo com as informações publicadas pelas agências oficiais russas, o processo foi apresentado por “um grupo de cidadãos”.

São Petersburgo tem uma lei que proíbe quaisquer manifestações a favor dos direitos da comunidade LGBT. Desafiando a norma, Madonna fez um discurso defendendo tais direitos durante a apresentação. Uma primeira audiência do processo já aconteceu no dia 11, mas nem Madonna nem seus advogados apareceram.
A ação judicial exige uma multa de quase US$ 11 milhões à cantora. A próxima audiência, para a qual vale a convocação de hoje, acontecerá no dia 25.
MOSCOU – Três integrantes da banda punk rock russa Pussy Riot foram condenadas nesta sexta-feira, 17, a dois anos de prisão. A sentença lida no tribunal em Moscou descreveu a perfomance do grupo no altar da Catedral do Cristo Salvador, a mais importante da capital russa, como “vandalismo e distúrbio da ordem pública”. Na ocasião, em fevereiro, elas entoaram uma “oração punk” que protestava contra o presidente Vladimir Putin.
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Durante a leitura do veredicto pela juíza, em um discurso que falou em respeito, religiosidade e manifestações, Algemadas, Nadezhda Tolokonnikova, de 22 anos, Yekaterina Samutsevich, de 29, e Maria Alekhina, de 24, expressavam tranquilidade, esboçando sorrisos de ironia. Assista abaixo ao vídeo do protesto que deu início ao processo contra elas.
MOSCOU – O julgamento das integrantes da banda russa de punk rock Pussy Riot chega ao final nesta sexta-feira, 17. A sentença será anunciada em Moscou. Analistas dizem que as três roqueiras devem ser condenadas. A promotoria pede três anos de prisão mas acredita-se, no Kremlin, que a pena seja de pelo menos um ano e meio de cadeia.
No mundo todo, apoiadores anônimos e famosos (como Madonna, Sting, Beastie Boys, Björk e Faith No More ) de NadezhdaTolokonnikova, Yekaterina Samutsevich e Maria Alyokhina fizeram manifestações nos últimos dias. Veja na galeria a seguir algumas desses protestos.
Promotoria pede 3 anos de prisão para cantoras em caso símbolo da repressão a dissidentes
MOSCOU – Seja qual for o veredicto anunciado nesta sexta-feira, 17, pela Justiça russa para as integrantes da banda punk Pussy Riot, o presidente Vladimir Putin já deu sinais de que não aceitará as críticas da dissidência. Analistas dizem que NadezhdaTolokonnikova, de 22 anos, Yekaterina Samutsevich, de 29, e Maria Alekhina, de 24, devem ser condenadas. A promotoria pede três anos de prisão para as roqueiras. No Kremlin, no entanto, acredita-se que a pena seja de pelo menos um ano e meio de cadeia.
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Apoiadores da banda Pussy Riot protestam diante de igreja em Moscou
Em fevereiro, a banda fez uma performance no altar da Catedral do Cristo Salvador, a principal de Moscou, entoando uma “oração punk” que protestava contra Putin. Elas foram presas dias depois. “Não estão julgando três cantoras, mas sim o sistema estatal da Federação Russa”, disse Tolokonnikova, uma das três acusadas de vandalismo motivado por ódio religioso depois da apresentação na principal catedral ortodoxa da capital da Rússia

As roqueiras Nadezhda Tolokonnikova, Maria Alekhina and Yekaterina Samutsevich
Putin está ciente do risco de parecer intolerante. Disse aos jornalistas que elas não devem ser julgadas tão severamente e, por mais que tenha insistido que cabe ao tribunal determinar o veredicto, poucas pessoas acreditam nisso. “A decisão, certamente, não será tomada no tribunal, como em qualquer caso político proeminente na Rússia”, disse Masha Lipman, analista do Centro Carnegie de Moscou.
Uma sentença dura aumentaria as críticas a Putin no exterior e pode incentivar os jovens russos a abraçar os protestos opositores. Entretanto, uma pena mais branda pode arriscar o apoio das autoridades religiosas ortodoxas e dessa parcela do eleitorado. “Putin não pode demonstrar fraqueza. Diante do risco de perder ainda mais força, ele manterá a repressão”, disse Masha.
Repressão. Nos primeiros 100 dias no cargo, Putin aprovou leis para reforçar o controle sobre a internet, criando uma lista de sites proibidos, permitiu a aplicação de altas multas para manifestantes opositores e definiu que as ONGs que receberem financiamento do exterior serão consideradas “agentes estrangeiros”.
THE NEW YORK TIMES
China retira barbatanas dos cardápios oficiais
O governo chinês baniu a sopa de barbatana de tubarão dos cardápios de banquetes oficiais. As autoridades não poderão mais servir a iguaria que é apontada como responsável por uma matança indiscriminada de animais. A nova medida, no entanto, só deve alcançar seu efeito prático completo em um prazo de cerca de três anos.
THE TELEGRAPH
Professora bêbada aplica prova de 23 horas
Landysh Zaripova, uma professora da Universidade Federal de Kazan, na Rússia, aplicou uma prova oral com duração de 23 horas aos alunos. Indignados, os estudantes relataram que Landysh deixava o local com frequência para beber em uma sala ao lado.
AP
Homem rouba dentes de Johannes Brahms
A polícia de Viena investiga um homem que teria violado o túmulo do compositor Johannes Brahms e roubado dentes dos restos mortais. O ladrão também é suspeito de cometer um roubo semelhante no túmulo do filho de Johan Strauss Jr.
TNT
Indiano é processado por explicar ‘milagre’
O indiano Sanal Edamaruku, líder de um grupo de céticos no país, responde a processo e pode ser preso desvendar um “milagre” em uma igreja de Vile Parle. Edamaruku descobriu que uma imagem “chorava” por causa de um vazamento na parede.
Por Talita Eredia, enviada especial do ‘Estado’ a Moscou
MOSCOU – As câmeras de vídeo instaladas nos mais de 90 mil centros de votação na Rússia flagraram diversas irregularidades durante a eleição presidencial realizada no país neste domingo. Alguns internautas conseguiram registrar as imagens e publicá-las no YouTube.
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Nos vídeos – muitos deles capturados com celulares a partir das imagens transmitidas – eleitores aparecem depositando dezenas de votos. Segundo a ONG de monitoramento eleitoral Golos, mais de 3 mil denúncias foram feitas. Líderes da oposição e observadores russos afirmaram que identificaram amplas violações.
Veja a seguir alguns dos vídeos:
Alguns internautas reclamaram ainda que muitas câmeras pararam de transmitir as imagens logo depois das 20h, quando as urnas foram fechadas. Segundo eles, foi impossível acompanhar o processo de retirada dos votos.
Um dos vídeos tem imagens inusitadas: uma festa realizada em uma casa na noite de sábado, véspera da votação. Veja:
Talita Eredia, enviada especial do Estado a Moscou

O projeto do Kremlin de US$ 478 milhões para transmitir em tempo real a eleição nos centros de votação já está no ar. As mais de 200 mil câmeras podem ser acompanhadas no site http://webvybory2012.ru. A medida foi anunciada em dezembro, depois dos protestos pelas acusações de fraude. É preciso fazer o login com o Facebook, o Google ou o Twitter. As imagens serão gravadas e poderão ser consultadas no futuro – segundo o governo, por qualquer cidadão. As organizações de monitoramento eleitoral duvidam que o acesso será tão simples.

Se Putin cair logo, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática, quando a crise afetasse o padrão de vida das pessoas
POR BORIS AKUNIN, DO NEW YORK TIMES*
Em 24 de setembro, quando no congresso do partido governista na Rússia foi anunciado que nosso novo presidente mais uma vez seria Vladimir Putin, minha mulher disse: “Então é isso. Precisamos ir embora. Não quero passar o resto da minha vida no país de Dobby (o elfo escravo da série Harry Potter)”. “Esse não é o país dele”, retruquei. “Vamos esperar mais um pouco. Haverá uma comoção social. As pessoas não são idiotas, elas não vão gostar desta manobra.”
Mas se passaram os dias, as semanas, e não houve nenhuma comoção social. Na realidade, alguns dos costumeiros resmungões – como eu, por exemplo – resmungaram. Quanto ao restante da Rússia, aparentemente não se importou nem um pouco: se for Putin, que seja então. Mais 12 anos? Que fique pelo restante da vida, não tem problema.
Portanto, também comecei a pensar seriamente em ir embora. Se nós – aqueles a quem o governo Putin provoca enjoo – somos tão poucos, por que deveríamos impedir que nossos tranquilos compatriotas tenham uma vida feliz? Não seria exagero afirmar que o restante do outono foi o período mais deprimente da minha vida. É péssimo sentir-se um estrangeiro no próprio país – principalmente para um escritor.
Então veio dezembro, e literalmente em poucos dias a Rússia acordou e se tornou uma nação completamente diferente. De repente, estava claro que pessoas como eu não constituíam uma minoria marginal, que nós éramos muitos. Em Moscou, nós somos uma clara maioria.
A ideia de ir embora foi esquecida, como se nunca tivesse sido mencionada. A descoberta que nos deixou eufóricos pode ser resumida em quatro palavras: “Esse é o nosso país”. A última vez em que sentimos isso foi há 20 anos, quando o regime comunista desmoronou.
Para quem está fora, o que está acontecendo na Rússia pode parecer a mesma tempestade revolucionária que varreu os países árabes e os libertou de regimes autoritários. Mas a analogia é enganosa. A única semelhança é o importante papel das redes sociais na organização de protestos espontâneos. O que está acontecendo na Rússia é muito diferente e bastante inusitado: uma revolução da classe média, uma classe inerentemente não revolucionária.
Para muitas pessoas, até mesmo para os próprios russos, o repentino despertar da sociedade parece um milagre. Mas não é um milagre. É a consequência de um processo social natural. Mais precisamente, de dois processos diametralmente opostos.
O primeiro são as profundas mudanças que estão ocorrendo na sociedade russa nas duas últimas décadas. Milhões de pessoas aprenderam a viver num capitalismo “selvagem” – tratando de ganhar a vida sem a intervenção do governo, sobrevivendo num contexto brutalmente competitivo, proporcionando um padrão de vida razoável à própria família. Estas sementes germinaram, de maneira quase invisível, e de repente a grama estava brotando em toda parte. A terra nua, escura, de repente ficou verde.
Esta primavera repentina foi acelerada por um segundo processo social, que também começou há alguns anos: a degradação cada vez maior do regime de Putin. Na ausência do controle que deveria ser exercido por deputados eleitos, de tribunais ou da imprensa, o sistema caiu na ilusão de que tudo é permitido, e começou a cometer um erro após o outro, sem nem sequer perceber que estava destruindo a si mesmo.
A Primavera Russa em pleno inverno foi uma consequência direta da troca de Dmitri Medvedev por Putin anunciada em 24 de setembro e das fraudes igualmente vergonhosas nas eleições parlamentares. De repente ficou claro que os russos não tolerariam mais esse tipo de coisas. Eles cresceram e as fraldas do autoritarismo ficaram apertadas.
Entre os dois gigantescos comícios de 10 e 24 de dezembro, Putin ainda teve uma chance de argumentar com os manifestantes. Mas o “líder nacional” (como seus partidários chamam o primeiro-ministro) cometeu um erro fatal: insultou publicamente os participantes do movimento, afirmando que tinham sofrido uma lavagem cerebral e vendido a alma. Depois disso, o principal alvo da indignação pública foi o próprio Putin, e não o partido governista.
Naquelas duas semanas, Putin perdeu o país. Evidentemente, ele ainda não se deu conta disso. Está convencido de que os distúrbios são provocados por alguns moscovitas barulhentos e continua contando com o apoio do restante do país. Além disso, realmente acredita que ganhará as eleições presidenciais.
Vitória de Pirro. Nas atuais circunstâncias, isso só ocorrerá se houver uma fraude colossal. Mas será uma vitória de Pirro. Putin perderá o que resta de seus índices de aprovação, e se tornará objeto de ódio e de ridículo de todos os russos. Será um presidente muito fraco, que provavelmente não conseguirá se manter por muito tempo no poder.
Por mais paradoxal que possa parecer, eu preferiria que o regime de Putin não caísse muito depressa. Ele que resista ao menos mais um ano. Se ele saísse logo mais, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática – quando a crise afetasse o padrão de vida e as pessoas começassem a falar com saudade dos “anos das vacas gordas”. Uma “segunda volta” seria uma catástrofe para o país.
Além disso, os brotos ainda novos da sociedade civil precisam de tempo para crescer e se fortalecer. A melhor maneira de amadurecerem seria por meio de um ataque constante a um autoritarismo rígido, inflexível. Nesta luta, a sociedade civil se fortaleceria e aprenderia a se organizar. Isso permitiria o nascimento de uma gama de partidos políticos de verdade, e não de títeres, como no Parlamento de Putin: um poderoso centro democrático, com uma nova esquerda de socialistas e comunistas de um lado, e a nova direita dos nacionalistas do outro.
Se a mudança de poder ocorresse após a conclusão desse processo, a Rússia pós-Putin ingressaria relativamente sem dor no estágio seguinte de evolução do Estado. Politicamente, esse seria um país tumultuado, com crises parlamentares, abruptas mudanças de governo, pedidos de impeachment e todos os outros atributos de uma democracia em evolução.
Mas num país no qual uma classe média despertasse e se desse conta do seu poder, nem os ministros nem os oligarcas poderiam monopolizar mais o poder. E muito menos uma única pessoa.
*BORIS AKUNIN É O PSEUDÔNIMO DE GRIGORY CHKHARTISHVILI, ESCRITOR RUSSO E PESQUISADOR DE HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

As manifestações de dezembro contra Putin podem indicar mudança de posição do Kremlin num país onde historicamente as autoridades temem o povo e vice-versa
Por Ellen Barry, do International Herald Tribune*
Há três semanas em Moscou, quando a cidade se preparava para o primeiro de uma série de protestos contra o governo, alguns comentaristas mergulharam no poço da história russa, quando czares e multidões entravam em choque, criando uma imagem confusa de sabres, cargas de cavalaria e plebeus carregando ícones sobre as cabeças.
Nas histórias antigas, as multidões eram uma força elementar, brutal. Não surpreende o fato de os governantes russos desejarem sufocá-las. Elas são parte da memória coletiva do Kremlin e pairam sobre os protestos nos dias de hoje.
Aos 10 anos, Pedro, o Grande, recém declarado czar, se encolhia de pavor, com sua mãe, enquanto guardas rebelados empalavam seus parentes em lanças. O czar Alexis apareceu para atender pessoas que vinham fazer seus pedidos e se viu tragado pela turba, preso pelos botões do seu traje real.
A história mais instrutiva é provavelmente a do czar Nicolau II, cujas tropas atiraram contra 8 mil trabalhadores que foram ao Palácio de Inverno em 1905 para reivindicar melhores condições de trabalho. O ataque escandalizou tanto os círculos à sua volta que ele implementou as reformas exigidas pelos manifestantes, como a criação de um Parlamento.
Quando novos protestos eclodiram 12 anos mais tarde, Nicolau adotou uma postura diferente, permitindo que mulheres e crianças se manifestassem pacificamente durante um período de escassez de pão preto. Mas tais protestos se propagaram como um incêndio florestal, abrangendo grevistas e soldados que se recusavam a atirar contra a multidão. Uma semana depois de ter autorizado pela primeira vez uma manifestação, Nicolau teve de abdicar.
Os premiês e secretários-gerais soviéticos que vieram depois de Nicolau levaram a sério a experiência do czar: a melhor maneira de lidar com manifestações em massa, concluíram, era impedi-las a todo custo. Vladimir Putin, que assumiu o poder nos anos posteriores às manifestações da época da perestroika, adotou um enfoque similar, de “cortar o mal pela raiz”. Na maior parte das vezes, evitou o uso da violência.
Richard E. Pipes, estudioso de história russa em Harvard, diz que Putin aprendeu muito bem a sua história. Quando as manifestações começarem na Rússia, disse ele, cedo ou tarde elas não terão mais controle. “Se eu estivesse no comando, minha primeira medida seria reformular o governo”, disse Piples. “Se não quisesse fazer isso, simplesmente proibiria as manifestações e prenderia todos os que descumprissem a ordem”.
Ecos dessa teoria podem ser sentidos desde as eleições parlamentares de 4 de dezembro, quando ficou patente que os jovens russos estavam prontos para protestar em número jamais visto desde que Putin subiu ao poder em 2000. Diante da manifestação na praça Bolotnaya em 10 de dezembro, as autoridades reeditaram a frase de Alexander Pushkin: “Deus, por favor, não nos deixai ver esta clássica rebelião russa – inútil e impiedosa”.
O romancista Sergei Minaev, partidário do Kremlin, preveniu os manifestantes de que, se eles morressem ali, mesmo seus amigos mais íntimos esqueceriam a causa pela qual sacrificaram suas vidas. “Se eu acreditasse em Deus”, escreveu o político liberal Leonid Gozman às vésperas da manifestação, “rezaria para ele infundir o bom senso nos generais e, mais importante, naqueles que lhes derem as ordens”.
O que ocorreu, naturalmente, foi algo fundamentalmente distinto. Para qualquer pessoa que viveu um tempo na Rússia de Putin, a visão do que ocorria na praça Bolotnaya no dia 10 de dezembro produziu um choque quase físico. Fazia tanto tempo desde que os russos foram em massa para as ruas exigindo mudanças políticas que a multidão agora – cerca de 50.000 pessoas, calmamente vigiadas pela polícia – parecia uma maravilha da natureza, como a aurora boreal.
As pessoas na multidão, em vez de ouvirem os oradores, se examinavam. Não estavam iradas nem se mostravam oprimidas. Não instilavam medo ou agressão. A massa crítica dos profissionais da classe média que durante anos existiu na internet repentinamente se tornou um fato físico, próximo o bastante para sentir o calor do corpo. Era como se um novo organismo estivesse nascendo. Nada assustador ocorreu nesse dia, tampouco na manifestação seguinte, em 24 de dezembro, quando a multidão era significativamente maior.
Yevgeny S. Gontmakher, economista que assessorou o governo em casos de distúrbios sociais, afirmou que os líderes russos não tinham uma fórmula para lidar com manifestantes cujas demandas não podiam ser atendidas com dinheiro. O que surgiu agora “é sinal de que a Rússia está se tornando um país ocidental, à sua própria maneira”. “Isso é a política”, disse ele. “Hoje o envolvimento na política de governo não é mais marginal. Acho que isso vem ocorrendo pela primeira vez na Rússia. E indica que o país tem que escolher o caminho europeu. As pessoas dizem que a Rússia não é Europa. Não – a Rússia é Europa”.
Talvez esses protestos mais recentes tenham indicado uma mudança na relação entre o Kremlin e a multidão. Depois de uma explosão inicial de hostilidade ácida, Putin e seus oficiais começaram a conversar com os manifestantes com um certo respeito, talvez porque tenha ficado flagrante que eles representam uma ampla faixa da elite empresarial e da mídia da capital. Na semana passada, Vladislav Y. Surkov, oficial do Kremlin cuja função durante 10 anos foi a de reprimir qualquer ação política da rua que pudesse ameaçar Putin, disse que os manifestantes da praça Bolotnaya representavam “a melhor parte da nossa sociedade, ou mais precisamente, a parte mais produtiva”. Surkov foi renomeado para um outro cargo não político dias depois de suas observações serem publicadas.
O ímpeto da história, entretanto, é forte no Kremlin, cujas fortificações de tijolo vermelho datam da Idade Média. Alguns afirmam que a estrutura básica da sociedade russa mudou pouco desde então. Vladimir Sorokin, que escreveu um romance sobrepondo o Kremlin de Putin ao de Ivan o Terrível, assim se manifestou: “Em regra geral, na Rússia, as autoridades temem o povo e o povo teme as autoridades”.
Essa tese foi colocada em dúvida pelos fatos ocorridos no mês passado. A multidão agora está fazendo uma pausa, respirando profundamente. Moscou entrará num novo ano menos previsível do que em qualquer outro na sua história recente. Mas está muito claro que os russos se encaminham velozmente na direção de alguma coisa tão antiga quanto o confronto, ou tão nova quanto o diálogo.
É JORNALISTA GANHADORA DO PULITZER
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Manifestantes russos são em sua maioria jovens profissionais urbanos, o grupo que mais se beneficiou com as políticas adotadas pelo Kremlin na última década
Por Andrew E. Kramer e David Herszenhorn, do New York Times*
Eis o dilema enfrentado por Vladimir Putin: as pessoas que se reuniram do lado de fora do Kremlin no sábado, entoando frases contra ele, são as mesmas que prosperaram durante os 12 anos em que ele esteve no comando do país.
São pessoas viajadas e educadas. Trataram a questão com bom humor (alguns traziam cartazes mostrando desvios estatísticos que supostamente provariam a fraude eleitoral). Em resumo, eram jovens profissionais urbanos, um grupo que se beneficiou muito da prosperidade no mercado imobiliário de Moscou e dos efeitos da distribuição das riquezas nacionais obtidas com o petróleo.
Maria Mikhaylova foi ao protesto usando óculos de grife, com o cabelo amarrado atrás da cabeça com uma fita branca – símbolo do novo movimento de oposição. Maria, de 35 anos, trabalha num banco de Moscou, e disse que sua meta não era derrubar o governo de Putin. “Não viemos em busca de violência”, disse Maria, mas fazer com que o sistema político leve em consideração as preocupações de pessoas como ela.
Trata-se de um paradoxo que já foi documentado pelos cientistas sociais: os moradores de Moscou e de outras grandes cidades tendem a demonstrar uma frustração cada vez maior em relação ao governo Putin conforme o regime os torna cada vez mais ricos.
Uma possível explicação estaria no alto nível de corrupção observado no país, algo que ameaça a nova riqueza individual. Uma segunda explicação seria um fenômeno visto no Chile do general Augusto Pinochet, quando o crescimento econômico acabou prejudicando o regime autocrático ao criar uma classe de profissionais urbanos que anseia por novos direitos políticos.
“Não se trata de um protesto de cidadãos miseráveis”, disse o comentarista político Viktor Shenderovich à rádio Ekho Moskvy. “A questão é política, não econômica. As pessoas que têm se reunido nas ruas de Moscou estão muito bem de vida. São pessoas que estão se manifestando porque se sentiram humilhadas. Ninguém as consultou. Simplesmente disseram a elas, ‘Putin vai voltar’.” Da mesma forma, não se tratou de um protesto organizado pela intelligentsia, a classe que se revoltou contra o governo soviético duas décadas atrás.
Facebook. No domingo, o presidente Dmitri Medvedev foi ao Facebook, o mesmo veículo que ajudou a recrutar dezenas de milhares de pessoas para o protesto, e emitiu uma declaração dizendo que discordava dos slogans dos manifestantes, mas tinha solicitado a investigação dos relatos de fraudes durante as eleições parlamentares do dia 4. Os próprios manifestantes pareciam incertos quanto à direção que sua iniciativa estava tomando. Mesmo assim, mostraram-se eufóricos.
Para Putin, deve ser frustrante saber que aqueles que agora protestam desfrutaram da ampliação de suas riquezas no período em que ele foi a figura dominante na política russa, primeiro como presidente e agora como premiê. De 2000 – ano em que ele assumiu a presidência – a 2008, os salários (ajustados pela inflação) aumentaram a uma média de quase 15% ao ano. Mas, embora os salários continuem aumentando, seu ganho é muito mais lento hoje – crescem a um ritmo de 1,3% ao ano desde o início da crise econômica global, em 2008, segundo dados reunidos pelo Citibank. E conforme se tornam mais ricos os moradores das cidades mostram-se também cada vez mais propensos a manifestar sua frustração com o sistema político.
Num estudo das opiniões políticas dos moscovitas realizado em 2010, Mikhail Dmitriyev, presidente do Centro para o Desenvolvimento Estratégico, organização de pesquisas com sede em Moscou, apontou para a questão imobiliária. O valor das propriedades triplicou em Moscou de 2002 até 2010 – aumentando muito o patrimônio dos moradores, mas não o seu grau de satisfação com o governo, pois isso também tornou mais importantes os julgamentos dos processos imobiliários que costumam ser realizados em tribunais sabidamente corruptos.
“Em Moscou, o aumento na renda está correlacionando com a opinião dos participantes, segundo os quais o descontentamento está aumentando”, escreveu Dmitriyev. Segundo ele, Moscou e outras cidades estão incubando uma população hostil, composta principalmente por jovens rapazes. “Estamos falando de 5 milhões de indivíduos perigosamente concentrados numa área que não fica a mais de 16 quilômetros do Kremlin”, escreveu ele.
Em se tratando de manifestações da classe média, Daniel Treisman, professor de ciência política da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, documentou uma tendência ampla. Os líderes autoritários que adotam políticas econômicas eficazes tornam-se vítimas do próprio sucesso, e um ótimo exemplo disso é o caso do general Pinochet, no Chile. Na Rússia, após uma década de prosperidade impulsionada pelo petróleo, cerca de um terço da população é agora considerado de classe média.
E os direitos políticos foram de fato a principal exigência no protesto de sábado, frequentado por estudantes acompanhados dos pais, aposentados e jovens profissionais. “Antes dessa manifestação foi anunciado que nossa cor é o branco, a cor da paz”, disse o segurança particular Alexei Kolotilov, de 47 anos, que soprava um apito vermelho enquanto marchava até o local do protesto.
Ele disse que sua filha tinha ido à manifestação acompanhada pelos colegas estudantes. “Não queremos uma revolução”, disse Kolotilov. “Queremos eleições justas.” Se fosse possível apontar um catalisador para a recente sequencia de eventos, este seria provavelmente o anúncio feito por Putin em setembro, de que se candidatará novamente à presidência – na prática, trocando de lugar com Medvedev.
Os líderes desta nova oposição representam um conjunto variado de grupos, incluindo os partidos políticos minoritários, que costumam se opor uns aos outros tanto quanto se opõem ao Rússia Unida, partido de Putin e Medvedev.
Mais protestos. Os organizadores da manifestação reuniram-se no domingo, tentando nomear algum tipo de conselho de liderança. Eles esperam manter o moral do grupo elevado e preparar protestos ainda maiores, aumentando a pressão sobre o governo e possivelmente provocando uma recontagem dos votos que poderia tirar do Rússia Unida um número ainda maior de cadeiras no Parlamento.
A jogada deles não está relacionada ao desespero econômico que ajudou a fomentar levantes anteriores na Rússia e, mais recentemente, contribuíram para o alastramento da Primavera Árabe no Norte da África e no Oriente Médio.
Oksana, de 18 anos, jovem estudante de Kirov que planeja se tornar advogada, disse não saber ao certo qual era a sua expectativa em relação ao resultado da manifestação. “Infelizmente, as manifestações civilizadas têm sido uma raridade no nosso país, Mas, agora, vejo que são possíveis.”
*SÃO JORNALISTAS
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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