Por Talita Eredia, enviada especial do ‘Estado’ a Moscou
MOSCOU – As câmeras de vídeo instaladas nos mais de 90 mil centros de votação na Rússia flagraram diversas irregularidades durante a eleição presidencial realizada no país neste domingo. Alguns internautas conseguiram registrar as imagens e publicá-las no YouTube.
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ESPECIAL: Eleições presidenciais na Rússia
Nos vídeos – muitos deles capturados com celulares a partir das imagens transmitidas – eleitores aparecem depositando dezenas de votos. Segundo a ONG de monitoramento eleitoral Golos, mais de 3 mil denúncias foram feitas. Líderes da oposição e observadores russos afirmaram que identificaram amplas violações.
Veja a seguir alguns dos vídeos:
Alguns internautas reclamaram ainda que muitas câmeras pararam de transmitir as imagens logo depois das 20h, quando as urnas foram fechadas. Segundo eles, foi impossível acompanhar o processo de retirada dos votos.
Um dos vídeos tem imagens inusitadas: uma festa realizada em uma casa na noite de sábado, véspera da votação. Veja:
Talita Eredia, enviada especial do Estado a Moscou

O projeto do Kremlin de US$ 478 milhões para transmitir em tempo real a eleição nos centros de votação já está no ar. As mais de 200 mil câmeras podem ser acompanhadas no site http://webvybory2012.ru. A medida foi anunciada em dezembro, depois dos protestos pelas acusações de fraude. É preciso fazer o login com o Facebook, o Google ou o Twitter. As imagens serão gravadas e poderão ser consultadas no futuro – segundo o governo, por qualquer cidadão. As organizações de monitoramento eleitoral duvidam que o acesso será tão simples.

Se Putin cair logo, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática, quando a crise afetasse o padrão de vida das pessoas
POR BORIS AKUNIN, DO NEW YORK TIMES*
Em 24 de setembro, quando no congresso do partido governista na Rússia foi anunciado que nosso novo presidente mais uma vez seria Vladimir Putin, minha mulher disse: “Então é isso. Precisamos ir embora. Não quero passar o resto da minha vida no país de Dobby (o elfo escravo da série Harry Potter)”. “Esse não é o país dele”, retruquei. “Vamos esperar mais um pouco. Haverá uma comoção social. As pessoas não são idiotas, elas não vão gostar desta manobra.”
Mas se passaram os dias, as semanas, e não houve nenhuma comoção social. Na realidade, alguns dos costumeiros resmungões – como eu, por exemplo – resmungaram. Quanto ao restante da Rússia, aparentemente não se importou nem um pouco: se for Putin, que seja então. Mais 12 anos? Que fique pelo restante da vida, não tem problema.
Portanto, também comecei a pensar seriamente em ir embora. Se nós – aqueles a quem o governo Putin provoca enjoo – somos tão poucos, por que deveríamos impedir que nossos tranquilos compatriotas tenham uma vida feliz? Não seria exagero afirmar que o restante do outono foi o período mais deprimente da minha vida. É péssimo sentir-se um estrangeiro no próprio país – principalmente para um escritor.
Então veio dezembro, e literalmente em poucos dias a Rússia acordou e se tornou uma nação completamente diferente. De repente, estava claro que pessoas como eu não constituíam uma minoria marginal, que nós éramos muitos. Em Moscou, nós somos uma clara maioria.
A ideia de ir embora foi esquecida, como se nunca tivesse sido mencionada. A descoberta que nos deixou eufóricos pode ser resumida em quatro palavras: “Esse é o nosso país”. A última vez em que sentimos isso foi há 20 anos, quando o regime comunista desmoronou.
Para quem está fora, o que está acontecendo na Rússia pode parecer a mesma tempestade revolucionária que varreu os países árabes e os libertou de regimes autoritários. Mas a analogia é enganosa. A única semelhança é o importante papel das redes sociais na organização de protestos espontâneos. O que está acontecendo na Rússia é muito diferente e bastante inusitado: uma revolução da classe média, uma classe inerentemente não revolucionária.
Para muitas pessoas, até mesmo para os próprios russos, o repentino despertar da sociedade parece um milagre. Mas não é um milagre. É a consequência de um processo social natural. Mais precisamente, de dois processos diametralmente opostos.
O primeiro são as profundas mudanças que estão ocorrendo na sociedade russa nas duas últimas décadas. Milhões de pessoas aprenderam a viver num capitalismo “selvagem” – tratando de ganhar a vida sem a intervenção do governo, sobrevivendo num contexto brutalmente competitivo, proporcionando um padrão de vida razoável à própria família. Estas sementes germinaram, de maneira quase invisível, e de repente a grama estava brotando em toda parte. A terra nua, escura, de repente ficou verde.
Esta primavera repentina foi acelerada por um segundo processo social, que também começou há alguns anos: a degradação cada vez maior do regime de Putin. Na ausência do controle que deveria ser exercido por deputados eleitos, de tribunais ou da imprensa, o sistema caiu na ilusão de que tudo é permitido, e começou a cometer um erro após o outro, sem nem sequer perceber que estava destruindo a si mesmo.
A Primavera Russa em pleno inverno foi uma consequência direta da troca de Dmitri Medvedev por Putin anunciada em 24 de setembro e das fraudes igualmente vergonhosas nas eleições parlamentares. De repente ficou claro que os russos não tolerariam mais esse tipo de coisas. Eles cresceram e as fraldas do autoritarismo ficaram apertadas.
Entre os dois gigantescos comícios de 10 e 24 de dezembro, Putin ainda teve uma chance de argumentar com os manifestantes. Mas o “líder nacional” (como seus partidários chamam o primeiro-ministro) cometeu um erro fatal: insultou publicamente os participantes do movimento, afirmando que tinham sofrido uma lavagem cerebral e vendido a alma. Depois disso, o principal alvo da indignação pública foi o próprio Putin, e não o partido governista.
Naquelas duas semanas, Putin perdeu o país. Evidentemente, ele ainda não se deu conta disso. Está convencido de que os distúrbios são provocados por alguns moscovitas barulhentos e continua contando com o apoio do restante do país. Além disso, realmente acredita que ganhará as eleições presidenciais.
Vitória de Pirro. Nas atuais circunstâncias, isso só ocorrerá se houver uma fraude colossal. Mas será uma vitória de Pirro. Putin perderá o que resta de seus índices de aprovação, e se tornará objeto de ódio e de ridículo de todos os russos. Será um presidente muito fraco, que provavelmente não conseguirá se manter por muito tempo no poder.
Por mais paradoxal que possa parecer, eu preferiria que o regime de Putin não caísse muito depressa. Ele que resista ao menos mais um ano. Se ele saísse logo mais, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática – quando a crise afetasse o padrão de vida e as pessoas começassem a falar com saudade dos “anos das vacas gordas”. Uma “segunda volta” seria uma catástrofe para o país.
Além disso, os brotos ainda novos da sociedade civil precisam de tempo para crescer e se fortalecer. A melhor maneira de amadurecerem seria por meio de um ataque constante a um autoritarismo rígido, inflexível. Nesta luta, a sociedade civil se fortaleceria e aprenderia a se organizar. Isso permitiria o nascimento de uma gama de partidos políticos de verdade, e não de títeres, como no Parlamento de Putin: um poderoso centro democrático, com uma nova esquerda de socialistas e comunistas de um lado, e a nova direita dos nacionalistas do outro.
Se a mudança de poder ocorresse após a conclusão desse processo, a Rússia pós-Putin ingressaria relativamente sem dor no estágio seguinte de evolução do Estado. Politicamente, esse seria um país tumultuado, com crises parlamentares, abruptas mudanças de governo, pedidos de impeachment e todos os outros atributos de uma democracia em evolução.
Mas num país no qual uma classe média despertasse e se desse conta do seu poder, nem os ministros nem os oligarcas poderiam monopolizar mais o poder. E muito menos uma única pessoa.
*BORIS AKUNIN É O PSEUDÔNIMO DE GRIGORY CHKHARTISHVILI, ESCRITOR RUSSO E PESQUISADOR DE HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

As manifestações de dezembro contra Putin podem indicar mudança de posição do Kremlin num país onde historicamente as autoridades temem o povo e vice-versa
Por Ellen Barry, do International Herald Tribune*
Há três semanas em Moscou, quando a cidade se preparava para o primeiro de uma série de protestos contra o governo, alguns comentaristas mergulharam no poço da história russa, quando czares e multidões entravam em choque, criando uma imagem confusa de sabres, cargas de cavalaria e plebeus carregando ícones sobre as cabeças.
Nas histórias antigas, as multidões eram uma força elementar, brutal. Não surpreende o fato de os governantes russos desejarem sufocá-las. Elas são parte da memória coletiva do Kremlin e pairam sobre os protestos nos dias de hoje.
Aos 10 anos, Pedro, o Grande, recém declarado czar, se encolhia de pavor, com sua mãe, enquanto guardas rebelados empalavam seus parentes em lanças. O czar Alexis apareceu para atender pessoas que vinham fazer seus pedidos e se viu tragado pela turba, preso pelos botões do seu traje real.
A história mais instrutiva é provavelmente a do czar Nicolau II, cujas tropas atiraram contra 8 mil trabalhadores que foram ao Palácio de Inverno em 1905 para reivindicar melhores condições de trabalho. O ataque escandalizou tanto os círculos à sua volta que ele implementou as reformas exigidas pelos manifestantes, como a criação de um Parlamento.
Quando novos protestos eclodiram 12 anos mais tarde, Nicolau adotou uma postura diferente, permitindo que mulheres e crianças se manifestassem pacificamente durante um período de escassez de pão preto. Mas tais protestos se propagaram como um incêndio florestal, abrangendo grevistas e soldados que se recusavam a atirar contra a multidão. Uma semana depois de ter autorizado pela primeira vez uma manifestação, Nicolau teve de abdicar.
Os premiês e secretários-gerais soviéticos que vieram depois de Nicolau levaram a sério a experiência do czar: a melhor maneira de lidar com manifestações em massa, concluíram, era impedi-las a todo custo. Vladimir Putin, que assumiu o poder nos anos posteriores às manifestações da época da perestroika, adotou um enfoque similar, de “cortar o mal pela raiz”. Na maior parte das vezes, evitou o uso da violência.
Richard E. Pipes, estudioso de história russa em Harvard, diz que Putin aprendeu muito bem a sua história. Quando as manifestações começarem na Rússia, disse ele, cedo ou tarde elas não terão mais controle. “Se eu estivesse no comando, minha primeira medida seria reformular o governo”, disse Piples. “Se não quisesse fazer isso, simplesmente proibiria as manifestações e prenderia todos os que descumprissem a ordem”.
Ecos dessa teoria podem ser sentidos desde as eleições parlamentares de 4 de dezembro, quando ficou patente que os jovens russos estavam prontos para protestar em número jamais visto desde que Putin subiu ao poder em 2000. Diante da manifestação na praça Bolotnaya em 10 de dezembro, as autoridades reeditaram a frase de Alexander Pushkin: “Deus, por favor, não nos deixai ver esta clássica rebelião russa – inútil e impiedosa”.
O romancista Sergei Minaev, partidário do Kremlin, preveniu os manifestantes de que, se eles morressem ali, mesmo seus amigos mais íntimos esqueceriam a causa pela qual sacrificaram suas vidas. “Se eu acreditasse em Deus”, escreveu o político liberal Leonid Gozman às vésperas da manifestação, “rezaria para ele infundir o bom senso nos generais e, mais importante, naqueles que lhes derem as ordens”.
O que ocorreu, naturalmente, foi algo fundamentalmente distinto. Para qualquer pessoa que viveu um tempo na Rússia de Putin, a visão do que ocorria na praça Bolotnaya no dia 10 de dezembro produziu um choque quase físico. Fazia tanto tempo desde que os russos foram em massa para as ruas exigindo mudanças políticas que a multidão agora – cerca de 50.000 pessoas, calmamente vigiadas pela polícia – parecia uma maravilha da natureza, como a aurora boreal.
As pessoas na multidão, em vez de ouvirem os oradores, se examinavam. Não estavam iradas nem se mostravam oprimidas. Não instilavam medo ou agressão. A massa crítica dos profissionais da classe média que durante anos existiu na internet repentinamente se tornou um fato físico, próximo o bastante para sentir o calor do corpo. Era como se um novo organismo estivesse nascendo. Nada assustador ocorreu nesse dia, tampouco na manifestação seguinte, em 24 de dezembro, quando a multidão era significativamente maior.
Yevgeny S. Gontmakher, economista que assessorou o governo em casos de distúrbios sociais, afirmou que os líderes russos não tinham uma fórmula para lidar com manifestantes cujas demandas não podiam ser atendidas com dinheiro. O que surgiu agora “é sinal de que a Rússia está se tornando um país ocidental, à sua própria maneira”. “Isso é a política”, disse ele. “Hoje o envolvimento na política de governo não é mais marginal. Acho que isso vem ocorrendo pela primeira vez na Rússia. E indica que o país tem que escolher o caminho europeu. As pessoas dizem que a Rússia não é Europa. Não – a Rússia é Europa”.
Talvez esses protestos mais recentes tenham indicado uma mudança na relação entre o Kremlin e a multidão. Depois de uma explosão inicial de hostilidade ácida, Putin e seus oficiais começaram a conversar com os manifestantes com um certo respeito, talvez porque tenha ficado flagrante que eles representam uma ampla faixa da elite empresarial e da mídia da capital. Na semana passada, Vladislav Y. Surkov, oficial do Kremlin cuja função durante 10 anos foi a de reprimir qualquer ação política da rua que pudesse ameaçar Putin, disse que os manifestantes da praça Bolotnaya representavam “a melhor parte da nossa sociedade, ou mais precisamente, a parte mais produtiva”. Surkov foi renomeado para um outro cargo não político dias depois de suas observações serem publicadas.
O ímpeto da história, entretanto, é forte no Kremlin, cujas fortificações de tijolo vermelho datam da Idade Média. Alguns afirmam que a estrutura básica da sociedade russa mudou pouco desde então. Vladimir Sorokin, que escreveu um romance sobrepondo o Kremlin de Putin ao de Ivan o Terrível, assim se manifestou: “Em regra geral, na Rússia, as autoridades temem o povo e o povo teme as autoridades”.
Essa tese foi colocada em dúvida pelos fatos ocorridos no mês passado. A multidão agora está fazendo uma pausa, respirando profundamente. Moscou entrará num novo ano menos previsível do que em qualquer outro na sua história recente. Mas está muito claro que os russos se encaminham velozmente na direção de alguma coisa tão antiga quanto o confronto, ou tão nova quanto o diálogo.
É JORNALISTA GANHADORA DO PULITZER
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Manifestantes russos são em sua maioria jovens profissionais urbanos, o grupo que mais se beneficiou com as políticas adotadas pelo Kremlin na última década
Por Andrew E. Kramer e David Herszenhorn, do New York Times*
Eis o dilema enfrentado por Vladimir Putin: as pessoas que se reuniram do lado de fora do Kremlin no sábado, entoando frases contra ele, são as mesmas que prosperaram durante os 12 anos em que ele esteve no comando do país.
São pessoas viajadas e educadas. Trataram a questão com bom humor (alguns traziam cartazes mostrando desvios estatísticos que supostamente provariam a fraude eleitoral). Em resumo, eram jovens profissionais urbanos, um grupo que se beneficiou muito da prosperidade no mercado imobiliário de Moscou e dos efeitos da distribuição das riquezas nacionais obtidas com o petróleo.
Maria Mikhaylova foi ao protesto usando óculos de grife, com o cabelo amarrado atrás da cabeça com uma fita branca – símbolo do novo movimento de oposição. Maria, de 35 anos, trabalha num banco de Moscou, e disse que sua meta não era derrubar o governo de Putin. “Não viemos em busca de violência”, disse Maria, mas fazer com que o sistema político leve em consideração as preocupações de pessoas como ela.
Trata-se de um paradoxo que já foi documentado pelos cientistas sociais: os moradores de Moscou e de outras grandes cidades tendem a demonstrar uma frustração cada vez maior em relação ao governo Putin conforme o regime os torna cada vez mais ricos.
Uma possível explicação estaria no alto nível de corrupção observado no país, algo que ameaça a nova riqueza individual. Uma segunda explicação seria um fenômeno visto no Chile do general Augusto Pinochet, quando o crescimento econômico acabou prejudicando o regime autocrático ao criar uma classe de profissionais urbanos que anseia por novos direitos políticos.
“Não se trata de um protesto de cidadãos miseráveis”, disse o comentarista político Viktor Shenderovich à rádio Ekho Moskvy. “A questão é política, não econômica. As pessoas que têm se reunido nas ruas de Moscou estão muito bem de vida. São pessoas que estão se manifestando porque se sentiram humilhadas. Ninguém as consultou. Simplesmente disseram a elas, ‘Putin vai voltar’.” Da mesma forma, não se tratou de um protesto organizado pela intelligentsia, a classe que se revoltou contra o governo soviético duas décadas atrás.
Facebook. No domingo, o presidente Dmitri Medvedev foi ao Facebook, o mesmo veículo que ajudou a recrutar dezenas de milhares de pessoas para o protesto, e emitiu uma declaração dizendo que discordava dos slogans dos manifestantes, mas tinha solicitado a investigação dos relatos de fraudes durante as eleições parlamentares do dia 4. Os próprios manifestantes pareciam incertos quanto à direção que sua iniciativa estava tomando. Mesmo assim, mostraram-se eufóricos.
Para Putin, deve ser frustrante saber que aqueles que agora protestam desfrutaram da ampliação de suas riquezas no período em que ele foi a figura dominante na política russa, primeiro como presidente e agora como premiê. De 2000 – ano em que ele assumiu a presidência – a 2008, os salários (ajustados pela inflação) aumentaram a uma média de quase 15% ao ano. Mas, embora os salários continuem aumentando, seu ganho é muito mais lento hoje – crescem a um ritmo de 1,3% ao ano desde o início da crise econômica global, em 2008, segundo dados reunidos pelo Citibank. E conforme se tornam mais ricos os moradores das cidades mostram-se também cada vez mais propensos a manifestar sua frustração com o sistema político.
Num estudo das opiniões políticas dos moscovitas realizado em 2010, Mikhail Dmitriyev, presidente do Centro para o Desenvolvimento Estratégico, organização de pesquisas com sede em Moscou, apontou para a questão imobiliária. O valor das propriedades triplicou em Moscou de 2002 até 2010 – aumentando muito o patrimônio dos moradores, mas não o seu grau de satisfação com o governo, pois isso também tornou mais importantes os julgamentos dos processos imobiliários que costumam ser realizados em tribunais sabidamente corruptos.
“Em Moscou, o aumento na renda está correlacionando com a opinião dos participantes, segundo os quais o descontentamento está aumentando”, escreveu Dmitriyev. Segundo ele, Moscou e outras cidades estão incubando uma população hostil, composta principalmente por jovens rapazes. “Estamos falando de 5 milhões de indivíduos perigosamente concentrados numa área que não fica a mais de 16 quilômetros do Kremlin”, escreveu ele.
Em se tratando de manifestações da classe média, Daniel Treisman, professor de ciência política da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, documentou uma tendência ampla. Os líderes autoritários que adotam políticas econômicas eficazes tornam-se vítimas do próprio sucesso, e um ótimo exemplo disso é o caso do general Pinochet, no Chile. Na Rússia, após uma década de prosperidade impulsionada pelo petróleo, cerca de um terço da população é agora considerado de classe média.
E os direitos políticos foram de fato a principal exigência no protesto de sábado, frequentado por estudantes acompanhados dos pais, aposentados e jovens profissionais. “Antes dessa manifestação foi anunciado que nossa cor é o branco, a cor da paz”, disse o segurança particular Alexei Kolotilov, de 47 anos, que soprava um apito vermelho enquanto marchava até o local do protesto.
Ele disse que sua filha tinha ido à manifestação acompanhada pelos colegas estudantes. “Não queremos uma revolução”, disse Kolotilov. “Queremos eleições justas.” Se fosse possível apontar um catalisador para a recente sequencia de eventos, este seria provavelmente o anúncio feito por Putin em setembro, de que se candidatará novamente à presidência – na prática, trocando de lugar com Medvedev.
Os líderes desta nova oposição representam um conjunto variado de grupos, incluindo os partidos políticos minoritários, que costumam se opor uns aos outros tanto quanto se opõem ao Rússia Unida, partido de Putin e Medvedev.
Mais protestos. Os organizadores da manifestação reuniram-se no domingo, tentando nomear algum tipo de conselho de liderança. Eles esperam manter o moral do grupo elevado e preparar protestos ainda maiores, aumentando a pressão sobre o governo e possivelmente provocando uma recontagem dos votos que poderia tirar do Rússia Unida um número ainda maior de cadeiras no Parlamento.
A jogada deles não está relacionada ao desespero econômico que ajudou a fomentar levantes anteriores na Rússia e, mais recentemente, contribuíram para o alastramento da Primavera Árabe no Norte da África e no Oriente Médio.
Oksana, de 18 anos, jovem estudante de Kirov que planeja se tornar advogada, disse não saber ao certo qual era a sua expectativa em relação ao resultado da manifestação. “Infelizmente, as manifestações civilizadas têm sido uma raridade no nosso país, Mas, agora, vejo que são possíveis.”
*SÃO JORNALISTAS
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
Os humoristas da internet não perdem tempo. Na semana em que a Rússia voltou a atrair a atenção do mundo devido às denúncias de fraudes nas eleições parlamentares, a web foi inundada com piadas satirizando as supostas irregularidades no pleito.
O site 9gag.com, no qual os usuários postam suas próprias montagens e piadas, reúne uma série de brincadeiras com o exagerado comparecimento de 140% dos eleitores às urnas, como foi reportado em certas regiões em que o partido Rússia Unida, do primeiro-ministro Vladimir Putin, saiu vitorioso.
O próprio premiê e o presidente Dmitri Medvedev, seu aliado, são motivos para que os internautas façam graça. As piadas envolvem até o nome de Putin, que em inglês pode ser lido como putting, ou seja, colocando, introduzindo, adicionando, em alusão aos “votos extras” contabilizados pelo Rússia Unida.
Veja abaixo algumas das postagens sobre as eleições na Rússia.
Garotas russas são 140% sexy!
‘Estou 140% certo’
Sexo 140% seguro
Práticas de Putin no YouTube
70% vazio ou 70% cheio?
Carregando…
Um russo indignado
Pink e Cérebro
Por que há uma revolução?
Estatísticas do comparecimento às urnas
O presidente vota por você
Eles me veem votando, eles me odeiam

Putin: Acha que vamos sair dessa?
Medvedev: Tenho 140% de certeza
O governo da Rússia é comumente acusado por opositores por práticas que coíbem a liberdade de expressão do país. Mas um fato inusitado provocou uma inversão de papéis nesse caso.
Um vídeo publicado no Youtube no dia 30 de novembro mostra uma militante do partido Rússia Unida, do premiê Vladimir Putin, sendo atirada no rio por supostos opositores em São Petersburgo. A ação foi registrada por um cinegrafista amador.
O Rússia Unida classificou o incidente como um “ato de provocação” destinado a denegrir a legenda ao insinuar que o povo a odeia.
Por Talita Eredia
O Rússia Unida, partido do primeiro-ministro Vladimir Putin, foi criticado por uma propaganda eleitoral bem ousada. A publicidade mostra um casal jovem flertando enquanto se prepara para votar, até que a moça puxa o rapaz para dentro da cabine de votação. O casal deixa o local se recompondo e deposita as cédulas nas urnas. Em seguida, aparece a mensagem do Rússia Unida “Vamos fazer isso juntos”.
Deputados não criticaram o anúncio pelo seu conteúdo sexual, mas porque o voto no país é secreto e o eleitor precisa entrar na cabine de votação sozinho. A população vai às urnas no próximo domingo, 4 de dezembro, para eles os novos 450 representantes da Duma – a Câmara Baixa do Parlamento, responsável pela aprovação do primeiro-ministro do país. O organismo será o responsável por efetivar a troca de cargos entre o primeiro-ministro Vladimir Putin e o presidente Dmitri Medvedev após a eleição presidencial de março. Putin, provável futuro presidente, já afirmou que indicará Medvedev como seu premiê.
A complexa política russa não pode ser reduzida aos caprichos de um homem, por mais poderoso que ele seja
*Katrina Vanden Heuvel, Stephen F. Cohen
Não consideramos o premiê russo, Vladimir Putin, um democrata. Mas, depois de ele anunciar que retornará ao Kremlin como presidente em 2012, grande parte dos comentários feitos nos EUA é moralismo simplista fazendo-se passar por análise política.
Um editorial no New York Times do dia 28 de setembro, por exemplo, insistiu que Putin “deixou claro seu desdém pelos direitos democráticos”, afastando o presidente Dmitri Medvedev, “mais liberal e direcionado para o Ocidente”. E um editorial do Washington Post afirmou que “Putin decidiu que gostaria de ser presidente de novo e assim será”.
A complexa política russa não pode ser submetida aos caprichos de um homem, por mais poderoso que ele possa ser. Como deixou clara a polêmica nos jornais russos, antes do anúncio feito no dia 24, o retorno de Putin ao Kremlin foi motivado em parte pelas preferências da classe dirigente da Rússia – membros do alto escalão do governo e da elite financeira, a conhecida oligarquia. E o influente defensor de Medvedev, Igor Yurgens, reconheceu que “grupos de influência” que promovem Putin “ficaram muito mais fortes”. Aos seus olhos, e provavelmente aos olhos de Putin, Medvedev nunca conseguiu mudar sua imagem de figura política incapaz. Na verdade, não passou no seu teste de quatro anos para conseguir um segundo mandato.
A elite russa, incluindo os campos de Medvedev e Putin, parece compreender que a economia do país necessita urgentemente se diversificar e pôr fim à sua forte dependência das exportações de gás e petróleo. O Estado precisa encontrar outras fontes de receita para aumentar seu orçamento. Como Putin advertiu recentemente, as reformas exigirão “medidas amargas”, incluindo aumento de impostos para as empresas que se beneficiaram e prosperaram enormemente com o imposto único de 13%, enquanto muitos russos empobreceram. A classe dirigente, de olho nos próprios interesses, quer o popular e mais duro Putin para comandar essas mudanças.
Pode ocorrer, como alguns analistas americanos têm afirmado, que esse retorno de Putin seja “uma má notícia para a população russa”. Mas pesquisas mostram que, depois de mais de uma década em que ele se manteve na liderança, a maioria dos russos ainda não o associa às “más notícias” do país. A razão é clara para qualquer pessoa que acompanha os fatos na Rússia desde o fim da União Soviética: foi Putin quem restaurou as aposentarias, aumentou os salários e melhorou o padrão de vida dos cidadãos após a traumática década de 90, quando as políticas implementadas pelo presidente Boris Yeltsin empobreceram o país.
Visão estratégica. E o que dizer sobre o tão falado “reinício” de relações proposto pelo presidente Barack Obama? Um especialista em assuntos russos diz que “o retorno de Putin no próximo ano reverterá todas aquelas tendências positivas” e “isso não é bom para os EUA”.
Talvez isso seja verdade, uma vez que o que o governo Obama imprudentemente construiu esse reinício de relações com base nas políticas de Medvedev – enquanto dirigiu, gratuitamente, insultos a Putin. Foi o que ocorreu quando o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, disse a grupos de russos durante sua visita a Moscou este ano que Putin não deveria retornar à presidência. Mas a suposição de que a volta de Putin significará uma redução das perspectivas democráticas na Rússia tem base na falsa premissa de que Yeltsin, assim como Medvedev hoje, era um democrata liberal.
Contudo, foi Yeltsin, apoiado pelos EUA, que usou tanques em 1993 para destruir um Parlamento eleito e dessa maneira reverter a democratização do país, iniciada com o presidente Mikhail Gorbachev – um recuo que foi acelerado sob Putin. Embora Medvedev se manifeste como um liberal no estilo ocidental, foi ele que ordenou o uso da força contra a Geórgia em 2008 e aumentou gastos militares de modo tão drástico que seu ministro das Finanças, Alexei Kudrin, renunciou no mês passado.
Além disso, se Putin está determinado a prosseguir adotando políticas retrógradas, por que prometeria indicar como primeiro-ministro o “mais liberal” Medvedev – cargo que ele, Putin, ocupou nos últimos quatro anos. Na verdade, diante das reais alternativas, que não são aquelas que os americanos podem preferir, por que supor que o retorno de Putin ao Kremlin será ruim para os interesses ocidentais?
Por exemplo, no dia 28, o New York Times anunciou que banqueiros e empresas ocidentais acolheram com satisfação o anúncio de Putin como “claramente positivo para os investidores estrangeiros”. É importante notar que de 2000 a 2008, quando estava na presidência, Putin fez mais importantes concessões para Washington do que Medvedev nos últimos quatro anos. Ele forneceu um apoio crucial para o governo de George W. Bush no Afeganistão, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Cedeu a um novo turno de expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Tolerou a saída dos EUA do Tratado Antimísseis Balísticos. Concordou com uma expansão das rotas de suprimento para as tropas americanas no Afeganistão.
Essa transigência, entretanto, pode ser coisa do passado. Em 2002, ele afirmou que “a era das concessões geopolíticas está chegando ao fim”. O que parece certo é que a futura cooperação de Putin com Washington dependerá do que ele entende ser o interesse nacional da Rússia. E, igualmente, da cooperação de Washington com Moscou que, apesar do proclamado “reinício” de Obama, ainda não se concretizou em concessões americanas tangíveis.
KATRINA VANDEN HEUVEL É EDITORA DA REVISTA ‘THE NATION’ E ESCREVE UMA COLUNA SEMANAL PARA O ‘WASHINGTON POST’. STEPHEN F. COHEN É PROFESSOR DE ESTUDOS RUSSOS NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK E AUTOR DO LIVRO ‘SOVIET FATES AND LOST ALTERNATIVES’
* Steve Gutterman, da Reuters
O veto da Rússia à resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenava a repressão dos protestos pelo governo da Síria é uma mensagem de Moscou alertando que não pretende ser pressionada quando considera seus interesses ameaçados por EUA e UE.
Ele mostra que o primeiro-ministro Vladimir Putin, que pretende retornar à presidência em 2012, não tolerará a interferência do Ocidente. A medida foi motivada pelo desejo da Rússia de manter um ponto de apoio no Oriente Médio e pelos estreitos vínculos com a Síria, para quem vende armas.
Mas o que o veto mostra em essência é a oposição russa aos esforços do Ocidente para promover mudanças políticas no exterior.
“A Rússia não quer que uma mudança de regime na Síria torne-se um exemplo para outros Estados”, disse Lilia Shevtsova, escritora e especialista em Putin e membro sênior do Carnegie Moscow Center. Segundo ela, a mensagem ao Ocidente foi clara: “Não se metam”.
TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
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