Por Fernanda Simas
Após 22 meses de conflito na Síria, mulheres começam a ser treinadas e armadas e formam o grupo paramilitar “Leoas da Defesa Nacional” para lutarem pelo presidente, Bashar Assad. Vídeos da rede de notícias RT, publicados no Youtube, mostram sírias sendo treinadas e gritando slogans como “Esteja preparada Síria. Vamos levantar Assad” e “com nosso sangue e nossa alma vamos lhe proteger Assad.”
O grupo surge após especulações de que o governo sírio estaria perdendo força no conflito que já deixou 60 mil mortos, segundo a ONU. Durante o levante contra o presidente Assad, milhares de militares desertaram e se uniram aos rebeldes, que lutam pelo fim do regime. Entre os desertores, estão oficiais de alta patente e próximos ao presidente.
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As integrantes do grupo, chamado “Leoas da Defesa Nacional”, são treinadas, em Homs, para usar armamento pesado e proteger pontos estratégicos do país. “Eu sou uma empregada, mas penso que é bom aprender como usar uma arma e proteger meu país”, diz uma recruta para a reportagem da RT.
Mais de 500 mulheres já integram o grupo. Em outro vídeo, publicado por ativistas sírios no Yotube, mostra algumas mulheres já em atividade, armadas e protegendo uma região da cidade de Homs.
Em 17 de dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um jovem tunisiano de 26 anos, ateou fogo ao próprio corpo. A auto-imolação, motivada pelo descontentamento com a situação geral das condições de vida no país, tornou-se símbolo de uma revolução que, posteriormente, se espalhou por outros países do Oriente Médio, numa série de eventos que ficaram conhecidos como “Primavera Árabe” – e que prossegue até hoje. Habitantes descontentes em várias nações seguiram o exemplo da Tunísia e articularam suas próprias mobilizações.
Em meio às transformações no mundo árabe, dois nomes se destacam: Alaa Abd El-Fattah, blogueiro e ativista egípcio, e Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein. Assange conversou com os dois ativistas para saber se eles acreditam que as manifestações foram bem sucedidas e também para entender o que os motiva a continuar lutando na linha de frente, mesmo sob forte repressão.
Antes da entrevista, Alaa havia sido repetidamente detido sob acusações que dão inveja ao Super Homem: sabotagem e roubo de tanques, assassinatos, violência contra pelotões inteiros: “eu tinha uma boa reputação e moral na prisão. Algumas pessoas são presas por roubarem carros, mas eu fui acusado de roubar tanques”, ironizou na conversa. Hoje ele continua impedido de viajar.
Rajab havia sido sequestrado, torturado e preso pela sua oposição ao governo do Bahrein, país no qual atua como diretor do Centro de Direitos Humanos, causa que defende desde a década de 90. Sobre a experiência de viver num país com uma revolução em curso, ele acredita que o custo que se paga pela liberdade é alto, “mas queremos pagar por mudanças pelas quais lutamos”, diz. Um dia antes da entrevista, Rajab tuitou sobre a liberdade em sua conta no Twitter. Pouco depois, sua casa foi cercada por policiais armados e ele foi intimado a comparecer à Promotoria de Justiça para prestar esclarecimentos.
O Radar Global publica semanalmente os episódios da série “O mundo amanhã”, sempre às quartas-feiras. A Agência Pública é responsável pela adaptação para o Brasil da série, realizada pelo WikiLeaks em parceria com o canal russo RT. Os episódios serão exibidos semanalmente com legendas em português. Assista a seguir ao episódio desta semana.
Na próxima semana, o blog publica o quinto episódio da série. Assange entrevista Moazzam Begg, que esteve preso em Guantánamo e atualmente é diretor do Cageprisoners.
Assista aos programas anteriores:
Assange entrevista Moncef Marzouki, ex-exilado e atual presidente da Tunísia
Assange entrevista Slavoj Zizek e David Horowitz
Hezbollah propôs à oposição síria negociar com Assad, diz líder.
ALEPO – Durante esta semana, a cidade de Alepo, na Síria, foi palco de constantes confrontos entre tropas aliadas ao regime do presidente Bashar Assad e rebeldes. Cerca de 15 mil homens estão reunidos na província em que está Alepo para defender os 60% da cidade que os rebeldes dizem ter conquistado nos últimos seis dias, quando a rebelião começou. De outra parte, continua a mobilização de tropas aparentemente vindas de Damasco.
Veja fotos do enviado especial Andrei Netto a Alepo
Tensões sobre terra, água e alimentos provam que levantes democráticos não têm só raiz política, mas também ambiental
THOMAS L. FRIEDMAN
THE NEW YORK TIMES
Não é curioso que o despertar árabe tenha começado na Tunísia com um vendedor de frutas que era intimidado pela polícia por não ter licença para vender comida no justo momento em que os preços mundiais dos alimentos atingiam altas recordes? E que tenha começado na Síria na aldeia meridional de Deraa, com agricultores que estavam exigindo o direito de comprar e vender terras perto da fronteira sem precisar obter permissão de policiais corruptos? E que tenha sido instigado no Iêmen – o primeiro país do mundo com a expectativa de ficar sem água – por uma lista de queixas contra um governo incompetente, entre as quais estava a de que autoridades de alto escalão estavam escavando poços de água em seus próprios quintais numa época em que o governo supostamente deveria estar impedindo a extração ilegal de água.
Como disse Abdelsalam Razzaz, ministro do abastecimento de água do novo governo do Iêmen, à agência Reuters: “As próprias autoridades têm sido tradicionalmente os perfuradores mais agressivos de poços. Quase todo ministro tem um poço perfurado em sua casa.”
Todas essas tensões sobre terra, água e alimentos estão nos dizendo uma coisa: o despertar árabe não foi impulsionado somente por tensões políticas e econômicas, mas, com menor visibilidade, por tensões ambientais, populacionais e climáticas também.
Tome-se o caso da Síria. “A agitação social atual na Síria é, no sentido mais direto, uma reação a um regime brutal e arcaico”, escrevem Francesco Femia e Caitlin Werrell, num relatório para o seu Centro para o Clima e Segurança, em Washington.
“Entretanto, essa não é a história toda. Os últimos anos assistiram a algumas mudanças sociais, econômicas, ambientais e climáticas significativas na Síria que erodiram o contrato social entre cidadão e governo… Se a comunidade internacional e os futuros dirigentes políticos da Síria quiserem enfrentar e resolver os fatores que promovem a agitação no país, essas mudanças terão de ser mais bem exploradas.” De 2006 a 2011, eles observam, até 60% da terra da Síria experimentou uma das piores secas e o mais severo conjunto de quebras de safra de sua história. “Segundo o Relatório de Avaliação Global sobre Redução de Risco de Desastres do ano passado, dos sírios mais vulneráveis dependentes da agricultura, em particular na província nordeste de Hassakeh (mas também no sul), ‘quase 75% sofreram uma perda total de safra’. Pastores no nordeste perderam cerca de 85% de seus animais, afetando 1,3 milhão de pessoas.” A ONU reportou que mais de 800 mil sírios tiveram seus animais dizimados por essas secas e muitos foram obrigados a se mudar para as cidades – aumentando os encargos de um governo já incompetente.
“Se as projeções climáticas permanecerem no seu curso atual, a estiagem no norte da África e no Oriente Médio vai se agravar progressivamente, e se presenciará, por fim, ciclo após ciclo de instabilidade, o que poderá originar futuras respostas autoritárias”, argumenta Femia. “Há algumas maneiras de os EUA poderem ficar do lado certo da história no mundo árabe. Uma é apoiar entusiástica e firmemente os movimentos democráticos.” A outra é investir em infraestruturas adaptáveis ao clima e melhorias na gestão da água – para tornar esses países mais flexíveis numa época de mudanças climáticas desastrosas.
Estiagem. Uma análise da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica (NOOA) dos EUA, publicado em outubro do ano passado no Journal of Climate e citado no blog de Joe Romm, climateprogress.org, revelou que as secas no inverno no Oriente Médio – quando a região tradicionalmente recebe a maior parte de sua precipitação para reabastecer os aquíferos – estão aumentando e a mudança climática causada pelo homem é parcialmente responsável. “A magnitude e frequência da seca que ocorreu é grande demais para ser explicada pela variabilidade natural apenas”, observou Martin Hoerling, do Laboratório de Pesquisa dos Sistemas da Terra da NOAA, autor principal do estudo.
Nafeez Mosaddeq Ahmed, direto- executivo do Instituto para Pesquisa e Desenvolvimento de Políticas em Londres, escrevendo no The Beirut Daily Star em fevereiro, assinalou que 12 dos 15 países mais carentes de água do mundo – Argélia, Líbia, Tunísia, Jordânia, Catar, Arábia Saudita, Iêmen, Oman, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein e Israel (incluindo territórios palestinos) – estão no Oriente Médio e, após três décadas de crescimento explosivo da população, estão “fadados a agravar drasticamente seu sofrimento. Embora as taxas de natalidade estejam caindo, um terço da população total tem menos de 15 anos de idade. Mais mulheres jovens estão chegando à idade reprodutiva, ou em breve estarão.” Um estudo do Ministério da Defesa britânico, ele acrescenta, “projetou que até 2030 a população do Oriente Médio crescerá 132% – gerando um ‘inchaço jovem’ sem precedente”.
E haverá muito mais bocas para alimentar com menos água. Como observa Lester Brown, o presidente do Instituto de Políticas da Terra e autor de World on the Edge (O mundo em risco, em tradução livre), há 20 anos, usando a tecnologia de poços de petróleo, os sauditas perfuraram até um aquífero muito abaixo do deserto para produzir trigo irrigado, tornando-se autossuficientes. Agora, porém, quase toda a água acabou e a produção saudita de trigo também. De modo que os sauditas estão investindo em terras agrícolas na Etiópia e no Sudão, mas isso significa que eles tirarão mais água do Nilo, já vulnerável a qualquer elevação do nível do mar e intrusão de água salgada.
“Se alguém perguntar quais são as reais ameaças a nossa segurança hoje”, disse Brown, “no topo da lista estariam mudança climática, crescimento populacional, escassez de água, alta dos preços dos alimentos e o número de Estados falidos no mundo”. “À medida que essa lista crescer, quantos Estados falidos serão precisos para termos uma civilização global falida e tudo começar a se desmanchar?” Felizmente, não chegaremos a isso. Mas devemos nos lembrar daquela citação atribuída a Leon Tolstoi: “Você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você”. Pois bem, você pode não estar interessado em mudança climática, mas a mudança climática está interessada em você.
Meus amigos, isso não é um embuste. Nós e os árabes precisamos imaginar – e depressa – novas maneiras de nos associarmos para mitigar as ameaças ambientais. Daqui a 20 anos, esse poderá ser o assunto exclusivo das conversas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
É COLUNISTA

Não se trata de abdicar de princípios, mas os Estados Unidos precisam estar preparados para lidar com governos islâmicos democraticamente eleitos
HENRY KISSINGER
THE WASHINGTON POST
Um importante aspecto da Primavera Árabe é a redefinição dos princípios de política externa adotados até o momento. À medida que os Estados Unidos retiram suas forças militares do Iraque e do Afeganistão, mobilizadas em nome da (embora discutida) segurança nacional americana, o país vem se envolvendo em outros Estados da região (embora sem muita certeza) em nome da intervenção humanitária.
A reconstrução democrática substituirá o interesse nacional como a bússola da política no Oriente Médio? E a Primavera Árabe representa realmente a reconstrução democrática? Quais são seus critérios? O consenso que se vem criando gradualmente é que os EUA estão moralmente obrigados a se alinhar com os movimentos revolucionários no Oriente Médio como uma espécie de compensação pelas políticas adotadas na Guerra Fria (descritas invariavelmente como equivocadas), quando o país cooperou com governos não democráticos da região por razões de segurança. E o que se alega também é que o apoio fornecido a governos frágeis em nome da estabilidade internacional criou uma instabilidade permanente. Mesmo concordando que algumas das políticas da Guerra Fria continuaram mesmo depois que não tinham mais utilidade, sua estrutura durou 30 anos e provocou transformações estratégicas decisivas, como o abandono pelo Egito de sua aliança com a União Soviética e a assinatura dos Acordos de Camp David. Se não se estabelecer uma relação apropriada com as metas proclamadas, a estratégia adotada agora corre o risco de ser inerentemente instável desde sua aplicação, o que pode fazer naufragar os valores que ela proclama.
A Primavera Árabe de um modo geral é apresentada como uma revolução liderada pela juventude em nome de princípios liberais democráticos.
Mas a Líbia não é governada por essas forças; dificilmente podemos dizer que a Líbia hoje é um Estado. Tampouco o Egito, cuja maioria de eleitores é esmagadoramente islâmica; e os democratas também não parecem predominar na oposição síria. Dentro da Liga Árabe, os países que chegaram a um consenso no caso da Síria não se destacam pela prática ou defesa da democracia. Esse consenso, pelo contrário, reflete em grande parte o conflito milenar entre xiitas e sunitas.
A confluência de muitas reivindicações díspares, declaradas em slogans gerais, não constitui ainda um resultado democrático. Com a vitória, surge a necessidade de aprimorar a evolução democrática e estabelecer um novo centro de autoridade. Quanto mais avassaladora a destruição da ordem existente, mais difícil será o estabelecimento da ordem interna e o mais provável será o recurso à força ou a imposição de uma ideologia universal. E quanto mais fragmentada a sociedade, maior a tentação de fomentar a unidade recorrendo a uma mistura de nacionalismo e islamismo tendo como alvo valores ocidentais ou objetivos sociais.
A derrocada da estrutura existente é um bilhete de entrada para um processo lacerante. Precisamos tomar cuidado numa era em que os momentos de atenção são cada vez mais curtos, com a possibilidade de as revoluções se tornarem uma experiência de internet transitória para o mundo exterior – observada atentamente por alguns instantes cruciais e depois esquecida tão logo o evento principal seja dado como encerrado. A revolução terá de ser julgada por seu destino, não sua origem; seus resultados, não suas proclamações.
As preocupações humanitárias não extinguem a necessidade de relacionar o interesse nacional a um conceito de ordem mundial. Para os EUA, uma doutrina de intervenção humanitária no caso das revoluções no Oriente Médio será insustentável, a menos que ligada a um conceito de segurança nacional. A intervenção implica considerar o significado estratégico e a coesão social de um país (incluindo a possibilidade de fraturar sua complexa estrutura sectária) e avaliar o que pode ser construído no lugar do antigo regime.
A opinião pública americana já rejeitou os esforços exigidos para transformar o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão. Acreditamos que um envolvimento americano menos explicitamente estratégico, renunciando a um interesse nacional americano, poderá tornar o projeto de construir uma nação menos complexo? Devemos ter uma preferência quanto a que grupos assumirão o poder? Ou seremos agnósticos enquanto os mecanismos forem eleitorais? Nesse caso, como evitar o risco de estar fomentando um novo absolutismo legitimado por plebiscitos manipulados? Que resultados são compatíveis com os interesses estratégicos básicos dos EUA na região? Será possível combinar a saída estratégica de países-chave e uma redução dos gastos militares com doutrinas de intervenção humanitária universais? Essas questões estão completamente ausentes dos debates sobre a política externa americana no tocante à Primavera Árabe.
Liberdades. Se a Primavera Árabe realmente aumentar a esfera de alcance das liberdades individuais ou, pelo contrário, substituir o autoritarismo feudal por uma nova era de governos absolutistas com base em plebiscitos manipulados e maiorias permanentes com base em seitas, não vamos saber pelas proclamações iniciais dos revolucionários. As forças políticas fundamentalistas tradicionais, fortalecidas por alianças com revolucionários radicais, ameaçam dominar o processo, ao passo que os elementos das redes sociais que determinaram o início dos movimentos estão sendo marginalizados.
Os EUA devem incentivar as aspirações regionais a uma mudança política. Mas não é sensato buscar um resultado equivalente em cada país, e na mesma velocidade. Os EUA também atenderão a seus valores, talvez de modo mais eficaz, oferecendo conselhos de modo mais reservado em vez das declarações públicas que provavelmente produzirão a sensação de assédio. Não se trata de abdicar dos princípios para adequar a posição americana de acordo com cada país e colocá-la em sintonia com outros fatores relevantes; na verdade, essa é a essência de uma política externa criativa.
Por mais de 50 anos, a política americana no Oriente Médio tem sido orientada por diversos objetivos básicos de segurança; impedir que qualquer potência na região tenha hegemonia; garantir o livre fluxo de recursos energéticos, ainda vitais para a economia mundial operar; e obter, pela intermediação, uma paz durável entre Israel e seus vizinhos, incluindo um acordo com os palestinos. Na década passada, o Irã tornou-se o principal desafio a esses objetivos. Esses interesses não ficaram abolidos pela Primavera Árabe e sua adoção tornou-se mais urgente. Um processo que acaba com governos regionais frágeis demais ou muito antiocidentais deve suscitar as preocupações estratégicas americanas, independentemente dos mecanismos eleitorais pelos quais aqueles governos chegam ao poder. Dentro desses limites gerais, a política americana tem um espaço significativo para a criatividade na promoção dos valores democráticos e humanitários.
Os EUA precisam estar preparados para lidar com governos islâmicos democraticamente eleitos. Mas também estão livres para insistir nos princípios básicos da política externa tradicional de modo a condicionar sua posição sobre o alinhamento de seus interesses às ações do governo em questão.
A conduta dos EUA durante as revoluções árabes até agora foi bem-sucedida, evitando se tornar um obstáculo às transformações revolucionárias. Mas esse é apenas um componente de uma estratégia bem sucedida. No final, a política adotada pelos EUA também será julgada segundo o que resultar da Primavera Árabe, ou seja, se os novos Estados terão mais responsabilidade em relação à ordem internacional e as instituições humanitárias. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
É EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DOS EUA

As coisas vão piorar na Síria antes de melhorar, mas a mulher de Assad já começou a comprar imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los
POR ROGER COHEN, DO NEW YORK TIMES*
Eis aqui algumas verdades a respeito da Síria. As coisas vão piorar antes de começar a melhorar. Ninguém pode obrigar esse gênio a voltar para dentro da lâmpada. Estamos diante da mãe de todos os conflitos indiretos. O inescrupuloso regime Assad está acabado, resta apenas saber quando será seu último suspiro.
Os países tomaram rumos diferentes na sua trajetória da tirania à liberdade. Quando o comunismo caiu, alguns planaram do império soviético para o Ocidente enquanto outros agonizaram. A Iugoslávia – uma ideia maravilhosa que nunca funcionou – é um dos muitos países citados como possível exemplo do destino sangrento que aguarda a Síria; outros exemplos incluem Líbano e Iraque.
Os ingredientes são conhecidos: a Síria é um Estado multiétnico governado com mão de ferro por uma minoria – os alauitas (quase xiitas) – e inclui minorias cristãs e drusas, entre outras, que juntas correspondem a aproximadamente um quarto da população. A maioria é sunita. Quando a mão de ferro é afastada desses países, a liberdade é mais imediatamente vista como um libertar-se uns dos outros, não como a oportunidade de unir-se no processo de concessões mútuas para a formação de uma nova ordem liberal.
Assim tem sido há um ano na Síria de Bashar Assad, que, aprendendo as lições do pai, buscou suprimir por meio de massacres maciços um amplo levante daqueles que almejam libertar-se do controle da família. Assad se formou médico! Nenhum doutor tripudiou tanto o juramento de Hipócrates.
Os Assad são uma máfia, uma minoria (a família) dentro de outra minoria (os alauitas) dentro de outra minoria (a polícia secreta Mukhabarat). Eles cooptaram os demais – principalmente a classe dos comerciantes sunitas – por meio de uma estabilidade imposta. Essencialmente, como todos os tiranos derrubados durante a Primavera Árabe, governaram o país como se ele fosse o seu feudo particular, um brinquedo a ser legado de pai para filho, beneficiando primos e capangas.
Bem, tudo isso acabou. Alepo não é a nova Marrakesh, afinal. Aqueles atraentes cartazes turísticos nos ônibus londrinos foram guardados. Os árabes se cansaram de seus poderosos chefões.
Eu disse que as coisas vão piorar antes de começar a melhorar. O pacto social sírio foi quebrado. Um novo pacto sob o mando dos Assad é inconcebível. Há interesses maiores envolvidos. A teocracia xiita iraniana, cada vez mais isolada, está defendendo o regime contra um Exército Livre da Síria fundado em parte por uma teocracia sunita saudita: essa é a guerra indireta.
Vladimir Putin, temendo eventuais primaveras russas no seu próprio quintal, optou com o cinismo habitual por defender um antigo aliado contra as demandas americanas, que exigem a saída de Assad, objetivo até agora não perseguido com coerência pelo governo Obama. Israel conhece Assad, que ajuda a armar o Hezbollah, mas é também um inimigo previsível e, em geral, passivo. Mas Israel não imagina o que pode haver além de um Estado policial de hábitos previsíveis.
Em resumo, a Síria é perigosa. Mas isso não é razão para passividade ou incoerência. Como mostrou a guerra da Bósnia, a base de qualquer acordo deve ser uma igualdade aproximada de forças. Assim, proponho que sejam intensificados os esforços – que já ocorrem discretamente – no sentido de entregar armas ao Exército Livre da Síria. Essas forças devem ser treinadas, assim como foram treinados os rebeldes na Líbia.
Chegou a hora do acerto de contas: os EUA alertaram Assad para o perigo de permitir que combatentes da Al-Qaeda entrassem no Iraque vindos da Síria. Agora, material bélico e forças especiais com a capacidade de treinar um Exército improvisado podem vir do Iraque – e de outros países vizinhos – para a Síria. Isso deveria ser um esforço conjunto dos países árabes e do Ocidente.
Ao mesmo tempo, devemos organizar uma grande operação humanitária coordenada pelas Nações Unidas centrada em enclaves de refugiados na Turquia, na Jordânia e em outros países, estabelecendo onde for possível corredores seguros conduzindo a esses refúgios. Temos de pressionar Rússia e China para que mudem seus votos: esses países não defenderão Assad se essa atitude passar a representar um risco para outros de seus grandes interesses nos EUA, no Golfo Pérsico e na Europa.
Já podemos ouvir as manifestações de indignação: se armarmos os oponentes de Assad, conseguiremos apenas exacerbar os temores das minorias sírias e uni-las, garantindo um maior derramamento de sangue e prejudicando os esforços diplomáticos atualmente liderados por Kofi Annan, um astuto e qualificado negociador da paz. Corremos o risco de transformar uma guerra indireta numa conflagração indireta. A esta altura, não há para a Síria nenhuma política que não envolva riscos importantes. O único cessar-fogo que consigo imaginar tem como base um equilíbrio aproximado das forças, caso contrário um acordo desse tipo não passará de um pedaço efêmero de papel. Para tanto, o Exército Livre da Síria precisa ser armado.
No fim, esse rumo vai reforçar – e não prejudicar – a diplomacia de Annan, possivelmente abrindo caminho para o tipo de transição sugerida pela Liga Árabe. Em troca, a dividida oposição síria precisa apresentar um firme compromisso com o respeito aos direitos das minorias. O tratamento dispensado a elas é um dos principais testes enfrentados pela Primavera Árabe, assim como a questão das mulheres.
Se Assad cair, o Irã se verá muito enfraquecido. O elo estabelecido por Teerã com o Hezbollah desaparecerá. Não há muito o que escolher entre engendrar a queda de Assad e bombardear as instalações nucleares iranianas: a primeira opção é inteligente e factível; a segunda não passa de tolice.
A mulher de Assad tem comprado imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los e libertar o povo sírio.
*É COLUNISTA
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Se a responsabilidade de proteger civis é um elemento legítimo do direito internacional, por que esta lei valeria para a Líbia, mas não para o da Síria?
STEVEN ERLANGER – THE NEW YORK TIMES
Passado mais de um ano desde o seu início, o despertar árabe teve diferentes estações. Após uma primavera que abalou o mundo, seguida por verão, outono e inverno, os diferentes países – Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen – derrubaram um a um seus autocratas, derramando diferentes quantidades de sangue. Alguns governos sufocaram as revoltas, como ocorreu no Bahrein. Outros experimentaram reformas modestas, como o Marrocos, ou permaneceram inertes fora do palco principal – caso da Argélia e Arábia Saudita.
A primavera está agora voltando, e temos a situação na Síria. Enquanto os mortos se acumulam e a diplomacia fracassa em conter a violência, torna-se claro que esse conflito é único, difícil de prever e extremamente significativo para o mundo.
Diferentemente da Líbia, a Síria é um país de importância estratégica, localizado no centro de rivalidades étnicas, religiosas e regionais que trazem o potencial de transformar o local num redemoinho capaz de arrastar para o seu centro potências maiores e menores da região e de outras partes do mundo.
“A Síria é talvez o único país onde a Primavera Árabe tem o potencial de alterar a composição geoestratégica da região”, diz Olivier Roy, historiador francês que estuda o Oriente Médio. Como contraexemplo, ele indica Egito e Tunísia, onde os novos líderes parecem estar conservando as alianças e posições geopolíticas anteriores. “Na Síria, se o regime for derrubado, teremos uma paisagem absolutamente nova”, afirma.
Muitos consideram o conflito outra revolução inevitável que acabará depondo o presidente Bashar Assad. Mas, nos meses transcorridos desde que os sírios decidiram lutar contra Assad – que respondeu mobilizando o Exército contra eles -, o país já se converteu no cenário de uma guerra indireta entre potências da região e de outras partes do mundo.
Durante décadas, a Síria foi o ponto central da velha ordem da segurança no Oriente Médio. O país possibilitou que russos e iranianos expandissem sua influência enquanto sucessivos governos da família Assad proporcionavam estabilidade aos olhos dos EUA e uma fronteira segura para Israel, apesar do apoio concedido ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas nos territórios palestinos.
A incipiente guerra civil na Síria derrubou esse paradigma, colocando russos e americanos – e seus respectivos aliados – em lados opostos. Trata-se de um conflito que intensificou muito as tensões entre xiitas e sunitas, e entre o Irã e a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico. Uma situação explosiva que deixa Israel com a esperança de que um inimigo cairá, mas também com uma aguda preocupação em relação a quem irá assumir o controle do arsenal dele.
Para a Rússia, a queda de Assad – seu aliado e comprador de suas armas – reduziria a influência do país na região. Se Assad cair, o novo governo não poderá ignorar o apoio concedido pelos russos a ele, que incluiu um constante fornecimento de armas.
Árabes de toda a região, que estão exigindo seus direitos e liberdades, também podem se mostrar ressentidos desse apoio. “A essa altura, não adianta nem mesmo mudar de lado”, diz Dmitri Gorenburg, estudioso da Rússia a serviço do Centro de Análises Navais, grupo de pesquisas financiado pelo governo americano com sede na Virgínia.
Para os EUA, o conflito representa um conjunto de riscos e contradições que obrigou Washington a assumir uma posição muito mais cautelosa.
A repressão desencadeada por Assad apresentou ao mundo um difícil dilema moral envolvendo a intervenção. Se a responsabilidade de proteger civis é um novo elemento legítimo do direito internacional, por que essa lei valeria para o caso da Líbia, mas não para o da Síria? Será que a democracia e a igualdade de direitos defendidas pelo Ocidente vão sofrer as consequências, ajudando os radicais islâmicos a chegar ao poder?
Fator Irã. Para Washington, a Europa e os sunitas do Golfo Pérsico e da Arábia Saudita, o destino de Assad é tão importante quanto o seu impacto sobre o Irã. A Síria é um dos aliados mais próximos da república islâmica. Os sírios apoiaram quase sozinhos o Irã na sua guerra contra o Iraque nos anos 80. A Síria é o principal corredor de acesso por meio do qual Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica recebem ajuda e armas do Irã. A queda de Assad representaria uma grande derrota para os iranianos que, por esse motivo, fornecem dinheiro, armas e conselhos ao governo dele.
Os EUA e a Europa isolaram o Irã econômica e diplomaticamente – com o tênue apoio de russos e chineses – na tentativa de retardar as tentativas de Teerã no sentido de construir um artefato nuclear. Um novo governo sírio poderia representar para os iranianos um golpe mais duro do que quaisquer sanções já aprovadas pelo Ocidente. Outro possível resultado seria o retorno de protestos democráticos em Teerã.
Por enquanto, Washington não pretende armar grupos da oposição síria. Os EUA estão também excluindo a possibilidade de uma intervenção militar direta. Depois de uma década de guerra no Iraque e no Afeganistão, e de uma intervenção limitada na Líbia criticada pelos republicanos, o presidente Barack Obama não deseja novas aventuras militares num ano eleitoral. A opinião é partilhada pelo Pentágono, que pensa especialmente no competente sistema sírio de defesa antiaérea, fornecido pela Rússia.
Outro fator considerado importante é a natureza incoerente e pouco clara da oposição armada a Assad, e representantes americanos destacam que o Exército de Libertação Sírio, formado por oficiais exilados do exército sírio, por desertores e milicianos, não controla territórios importantes na Síria por meio dos quais o fornecimento de armas poderia ser estabelecido.
Há provas de que radicais sunitas estariam voltando suas atenções para a Síria, com armas e combatentes atravessando a fronteira com o Iraque e os líderes da Al-Qaeda falando numa jihad na Síria. Mas há também motivo para ceticismo, pois a Al-Qaeda se tornou uma espécie de fantasma citado por quase todos.
A questão central é como acelerar o colapso do governo Assad, visto por muitos como inevitável, sem com isso mergulhar a sociedade numa guerra civil, afirma Volker Perthes, administrador do Centro Alemão para Questões Internacionais e de Segurança. “Armar os rebeldes e provocar a eclosão de uma guerra civil é algo que vai conferir mais tempo ao regime”, diz Perthes. “O que Assad quer é uma guerra de verdade, pois isso permitiria a ele superar a relutância em combater da ampla maioria nas Forças Armadas.”
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Os problemas que o Egito terá de superar são tremendos, por isso será necessária a união de toda a sociedade e o recolhimento do país para buscar se conhecer de novo
POR THOMAS L.FRIEDMAN, DO THE NEW YORK TIMES*
Estou sentado na sede de campanha de Abdel Moneim Aboul Fotouh, médico que se separou da Irmandade Muçulmana para candidatar-se à presidência do Egito e tem uma agenda reformadora. Enquanto sua equipe – três jovens profissionais que trabalham voluntariamente – falava-me sobre sua estratégia, um pensamento veio à minha mente: na última semana eu me reuni com egípcios jovens, interessantes e de todas as convicções políticas mais do que nos últimos 30 anos. Não é coincidência. O Egito sob o regime de Hosni Mubarak era um país onde havia apenas uma única pessoa com quem falar, uma pessoa que tinha o poder de decidir. Todo o resto estava apenas esperando por Godot. E as conversas eram todas de cima para baixo.
Não é mais o caso. Os egípcios estão reencontrando as próprias vozes e redescobrindo quem são seus vizinhos. Em alguns aspectos, estão assombrados. Um líder da Irmandade Muçulmana disse-me ter ficado bastante surpreso quando as eleições mostraram quantos muçulmanos salafistas vivem no Egito. Quando os fundamentalistas afirmam que não tinham a mínima ideia de que existiam tantos deles muito mais ortodoxos, imagine o quão surpresos ficaram os liberais. Os generais egípcios espantaram-se com a quantidade de jovens não ligados a nenhuma religião dispostos a enfrentar os tanques nas ruas para obrigar o Exército a ceder o poder. Hoje, na vida egípcia, reina uma certa atmosfera, do gênero “ah, você vive aqui também?”.
Quanto mais tempo você permanece neste país, mais claro fica que o Egito ainda não teve a sua revolução. O que houve foi uma revolta. O regime militar que tem governado o país desde 1952 continua no poder – somente um conselho militar substituiu os Mubaraks. Mas a revolta levantou a pesada tampa que abafava esta sociedade e permitiu a entrada de oxigênio. Isto, mais do que as recentes eleições parlamentares, permitiu a todas essas pessoas, partidos e vozes – de todas as esferas da vida egípcia – emergirem. É importante que o próximo presidente do Egito esteja disposto a dialogar com essas forças emergentes.
Mas para o Egito ter uma revolução democrática – uma verdadeira mudança na estrutura do poder e das instituições – todos estes partidos recém-eleitos terão de encontrar um modo de trabalhar para ter uma nova Constituição e um novo presidente. O que não será fácil. Os problemas sociais e econômicos que o país terá de superar são tremendos. Será necessária a união de toda a sociedade, mas as divisões e a falta de confiança entre os novos e antigos centros de poder – o Exército, a polícia de segurança, os jovens da Praça Tahrir, os islâmicos, cristãos, a maioria silenciosa, os liberais – são enormes. Este país necessita de um recolhimento para procurar se conhecer de novo.
Medo. Não é surpresa. Todos os autocratas árabes, como Mubarak, governaram seus países da mesma maneira : “cobrando para dar proteção”, diz Daniel Brumberg, codiretor da área de Estudos de Democracia Estudos de Governança na Universidade Georgetown. Grupos diferentes – minorias religiosas ou étnicas, o setor empresarial, islâmicos e ativistas seculares – foram colocados um contra o outro e “protegidos” pelo líder no topo da pirâmide. Todos viviam com medo de todos.
A notícia auspiciosa é que a política real manifestou-se aqui e alguns egípcios estão trabalhando para criar um elo de confiança entre os novos centros de poder. É o caso de Amr Hamzawy, liberal que acabou de ser eleito para o Parlamento que será inaugurado na segunda-feira. Ele e outras pessoas já iniciaram um debate com os partidos islâmicos sobre como vão cooperar para aprovar leis que levem o Egito a crescer novamente e mostrar que os novos detentores do poder conseguirão construir um país melhor.
Referindo-se aos novos membros do Parlamento, Hamzawy disse que “estamos nos apresentando uns aos outros. Mas temos a sociedade que nos aguarda. Temos que fazer o que esperam de nós. O grande desafio é transcender a polarização das eleições. Não conseguiremos fazer nada se houver uma polarização no Parlamento. É preciso superar as diferenças ideológicas.
Os liberais têm em torno de 20% das cadeiras. O Islã político tem dois terços. De modo que nossa tarefa é trabalhar para levar os moderados do lado do Islã político para o centro. Nosso desafio é definir esse novo centro estratégico para o Egito”. De alguma maneira, as novas e velhas forças devem agora encontrar um modo de partilhar o poder para reconstruir este país. O Egito desperdiçou grande parte dos últimos 30 anos. Não tem mais um minuto a perder.
*É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
FOUAD AJAMI, THE WASHINGTON POST
Quando, há um ano, começou a Primavera Árabe, o mundo ocidental ficou chocado. Até então, superficialmente, a impressão geral era que a liberdade tinha deixado os árabes para trás e eles pareciam resignados com a tirania. Mas assim que os levantes começaram foi impossível contê-los, instalou-se a desordem e brotaram as promessas nas ruas do mundo árabe. Desde então, as rebeliões provocaram rios de comentários e lugares comuns sobre a Primavera Árabe – em parte bastante equivocados. Vejamos o que havia realmente por trás das revoltas.
1. O discurso de Barack Obama no Cairo, em 2009, foi um dos elementos que inspiraram a Primavera Árabe. Nada poderia estar mais longe da verdade do que isso. Na época em que as rebeliões eclodiram, o romance entre árabes e muçulmanos e Obama havia se dissipado há muito tempo. O presidente americano esteve no Cairo em junho de 2009 prometendo um novo enfoque americano para o mundo árabe-muçulmano. Mas os aguerridos liberais do mundo árabe (e do Irã) não se deixaram enganar.
Embora Obama prometesse “um novo começo para as relações entre os EUA e os muçulmanos em todo o mundo, com base nos interesses e no respeito mútuos”, os árabes perceberam que o novo líder estava muito à vontade com a situação. Obama procurou melhorar as relações dos Estados Unidos com a Síria e o Irã, e tratou de enterrar rapidamente a “diplomacia da liberdade” de George W. Bush.
Os árabes rapidamente perceberam que o cosmopolitismo de Obama – o pai queniano, os anos passados na Indonésia – servia de disfarce para um político preocupado com os problemas internos do seu país.
2. Estas são as revoluções do Facebook e do Twitter. O Facebook e o Twitter ofereceram aos jovens dissidentes a possibilidade de comunicar entre si para atropelar as autocracias. Quando Wolf Blitzer da CNN perguntou a Wael Ghonim, o jovem executivo do Google que simbolizava a revolta da Praça Tahrir no Cairo, o que aconteceria após a queda de Hosni Mubarak, Ghonim respondeu: “Pergunte ao Facebook”. Foram homens e mulheres comuns que depuseram o faraó. Estas rebeliões foram inflamadas pelos elementos tradicionais: as multidões que saíam das mesquitas após as orações da sexta-feira nas cidades sitiadas da Síria; o teste das vontades entre regimes brutais e os indivíduos dotados de coragem suficiente para desafiar o poder; e os jovens de Deraa, Homs e Hama que venceram a cultura do medo e contestaram o despotismo.
Mohammed Bouazizi, o jovem verdureiro tunisiano que se imolou em dezembro de 2010, não tinha uma página no Facebook. Ele tinha motivos de sobra para estar indignado e desesperado. Deveríamos deixar de valorizar tanto a tecnologia, afinal, a penetração da internet no mundo árabe ainda é modesta.
3. O governo Obama sacrificou Mubarak. O presidente egípcio foi o responsável por sua própria queda. Washington supôs que Mubarak domaria a tempestade. O Egito, um país paciente, deu a Mubarak 30 anos. Em troca, o governante brincou com o seu povo e o menosprezou. Ele se instalou no topo de um regime sem lei e nunca designou um sucessor legítimo. (Até a pessoa mais obtusa sabia que ele pretendia transmitir o poder ao filho favorito.) Neste drama egípcio, os políticos de Washington limitaram-se ao papel de meros espectadores.
4. A queda de Saddam Hussein no Iraque inspirou a Primavera Árabe. Por ter apoiado a guerra do Iraque, gostaria de poder fazer esta ligação. Mas o Iraque, contrariamente às esperanças e às afirmações dos conservadores que defendiam a guerra, não é relevante para a Primavera Árabe.
Quando os protestos começaram no final de 2010, o Iraque já não despertava a atenção do mundo árabe. O sangue era derramado nas ruas do país, havia sectarismo, e poucos os árabes consideravam o primeiro-ministro Nuri al-Maliki um importante líder de uma nova cultura política.
A Praça Tahrir inspirou outros levantes, pois o Egito sempre foi um pioneiro na vida política e cultural árabe. Ocorre que o Iraque é um lugar peculiar. São pouquíssimos os árabes de outras partes do mundo, se é que há algum, que poderiam se identificar com o levante naquele país.
5. As rebeliões comprometerão ainda mais as perspectivas do processo de paz árabe-israelense. É verdade que baderneiros invadiram a Embaixada de Israel no Cairo depois da queda de Mubarak. Mas o entendimento árabe-israelense nunca chegou a florescer no tempo das ditaduras.
Os líderes das rebeliões árabes talvez não sejam defensores fervorosos da paz com Israel, mas hoje já reconhecem que as ditaduras usaram o conflito com Israel como um álibi conveniente para seus fracassos políticos e econômicos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
É MEMBRO SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE DE STANFORD

Os partidos islâmicos recém-eleitos não terão as mesmas condições de grupos do Irã e da Arábia Saudita para resolver os problemas do povo e impor regras religiosas
THOMAS L.FRIEDMAN, DO THE NEW YORK TIMES*
Depois que a Irmandade Muçulmana e o ainda mais radical partido islâmico Al- Nur, salafista, causaram espanto a si próprios e aos egípcios com a conquista de mais de 60% dos assentos nas eleições parlamentares egípcias, estamos perto de ver um teste de laboratório único para o Oriente Médio: o que ocorre quando o Islã político precisa fazer frente à modernidade e à globalização sem petróleo?
Movimentos islâmicos dominam desde há muito o Irã e a Arábia Saudita. Contudo, tanto os aiatolás no Irã quanto os salafistas wahabitas na Arábia Saudita conseguiram assegurar sua ideologia e também os frutos da modernidade, pois possuíam uma enorme riqueza de petróleo para safar-se de quaisquer contradições. A Arábia Saudita pôde subutilizar suas mulheres e impor costumes religiosos rígidos à sua sociedade, seus bancos e escolas. Os clérigos do Irã puderam fazer pouco do mundo, perseguir a nuclearização e impor pesadas restrições políticas e religiosas no país. E ambos ainda puderam oferecer a seus povos padrões de vida melhores, pois tinham petróleo.
Ajuda. Os partidos islâmicos do Egito não terão esse luxo. Eles terão de se abrir para o mundo, e parecem estar percebendo isso. O Egito é um importador líquido de petróleo. Ele também importa 40% de seus alimentos. E o turismo contribui com um décimo de seu Produto Interno Bruto. Com o desemprego desenfreado e a libra egípcia desvalorizando-se, o Egito provavelmente precisará de ajuda do Fundo Monetário Internacional, uma forte injeção de investimento estrangeiro e um grande uso de educação moderna para proporcionar empregos a todos aqueles jovens que organizaram a rebelião do ano passado. O Egito precisa ser integrado ao mundo.
A Irmandade Muçulmana, cujo partido se chama Liberdade e Justiça, tem sua grande fonte de apoio nas classes médias e nas pequenas empresas. O Partido Al-Nur, salafista, é dominado por xeques religiosos e se apoia nas camadas pobres rurais e urbanas.
Essan el-Erian, o vice-presidente do partido da Irmandade Muçulmana, me disse: “Esperamos poder motivar os salafistas – e não que eles nos motivem – e que ambos sejamos motivados pelas necessidades do povo.”
Diferença. Ele deixou claro que, embora o Liberdade e Justiça e o Al-Nur sejam partidos islâmicos, eles são muito diferentes, e podem não dar as mãos no poder: “Como grupo político, eles são recém-chegados, e eu espero que todos possam descobrir a diferença entre o Al-Nur e a Liberdade e Justiça.”
Sobre o tratado de paz com Israel, Erian disse: “Esse é um compromisso do Estado – não de algum grupo ou partido – e nós já dissemos que estamos respeitando os compromissos do Estado egípcio do passado.” Basicamente, acrescentou, as relações com Israel serão determinadas pela maneira como o país tratar os palestinos. Mas, falando de modo geral, ele disse: “os problemas econômicos do Egito estão nos empurrando para cuidar de nossos próprios assuntos”.
Muhammad Khairat el-Shater, o vice-presidente da Irmandade Muçulmana e seu guru econômico, deixou claro para mim que sua organização pretende se abrir para o mundo. “Já não é uma questão de escolha ser a favor ou contra a globalização”, ele disse. “Ela é uma realidade. De nossa perspectiva, defendemos um engajamento o mais amplo possível na globalização por meio de situações em que todos saem ganhando.”
Nader Bakkar, um porta-voz do Al-Nur, insistiu que seu partido agirá com cautela. “Nós somos os guardiães da sharia”, ele me disse, referindo-se à lei islâmica. “E queremos que o povo esteja conosco sobre os mesmos princípios, mas deixamos a porta aberta para todos os intelectuais em todos os campos.”
Ele disse que o modelo econômico de seu partido é o Brasil. “Não gostamos do modelo teocrático”, acrescentou. “Posso lhe prometer que não seremos outra ditadura, e o povo egípcio não nos dará uma chance de ser outra ditadura.” Em novembro, Hazem Salah Abu Ismail, um clérigo salafista independente e candidato presidencial, foi questionado por um entrevistador sobre como ele reagiria, se presidente, a uma mulher usando biquíni na praia? “Ela seria presa” , ele disse.
O Partido Al-Nur rapidamente declarou que ele não estava falando pelo partido. A agência France Presse citou outro porta-voz do Al-Nur, Muhammad Nour, também procurando afastar temores levantados na mídia noticiosa de que os salafistas poderiam proibir bebidas alcoólicas, artigo de grande consumo em hotéis de turistas no Egito. “Talvez 20 mil dos 80 milhões de egípcios consumam bebidas alcoólicas”, ele disse. “Quarenta milhões não têm água tratada. Você acha que, no Parlamento, eu me ocuparei das pessoas que não têm água ou das pessoas que se embebedam?”
O que tirar de tudo isso? Os islâmicos egípcios terão algumas grandes decisões a tomar. Tem sido fácil manter um alto grau de pureza ideológica todos esses anos em que eles estiveram fora do poder. Mas sua súbita ascensão ao topo da política egípcia coincide com uma queda livre da economia do Egito.
Responsabilidade. E assim que o Parlamento for aberto, em 23 de janeiro, os islâmicos do Egito terão a maior responsabilidade pelo ajuste dessa economia – sem o petróleo. Um drama semelhante está ocorrendo na Tunísia.
Eles não querem estragar essa chance de liderar, mas querem ser leais a suas raízes islâmicas, contudo sabem que seus apoiadores os elegeram para oferecer um governo limpo, educação e empregos, e não mesquitas. Será fascinante observar como eles lidam com esses dilemas. Seu desempenho terá um enorme impacto no futuro do Islã político nessa região.
É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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