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Radar Global

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Não se trata de abdicar de princípios, mas os Estados Unidos precisam estar preparados para lidar com governos islâmicos democraticamente eleitos

HENRY KISSINGER
THE WASHINGTON POST

Um importante aspecto da Primavera Árabe é a redefinição dos princípios de política externa adotados até o momento. À medida que os Estados Unidos retiram suas forças militares do Iraque e do Afeganistão, mobilizadas em nome da (embora discutida) segurança nacional americana, o país vem se envolvendo em outros Estados da região (embora sem muita certeza) em nome da intervenção humanitária.

A reconstrução democrática substituirá o interesse nacional como a bússola da política no Oriente Médio? E a Primavera Árabe representa realmente a reconstrução democrática? Quais são seus critérios? O consenso que se vem criando gradualmente é que os EUA estão moralmente obrigados a se alinhar com os movimentos revolucionários no Oriente Médio como uma espécie de compensação pelas políticas adotadas na Guerra Fria (descritas invariavelmente como equivocadas), quando o país cooperou com governos não democráticos da região por razões de segurança. E o que se alega também é que o apoio fornecido a governos frágeis em nome da estabilidade internacional criou uma instabilidade permanente. Mesmo concordando que algumas das políticas da Guerra Fria continuaram mesmo depois que não tinham mais utilidade, sua estrutura durou 30 anos e provocou transformações estratégicas decisivas, como o abandono pelo Egito de sua aliança com a União Soviética e a assinatura dos Acordos de Camp David. Se não se estabelecer uma relação apropriada com as metas proclamadas, a estratégia adotada agora corre o risco de ser inerentemente instável desde sua aplicação, o que pode fazer naufragar os valores que ela proclama.

A Primavera Árabe de um modo geral é apresentada como uma revolução liderada pela juventude em nome de princípios liberais democráticos.

Mas a Líbia não é governada por essas forças; dificilmente podemos dizer que a Líbia hoje é um Estado. Tampouco o Egito, cuja maioria de eleitores é esmagadoramente islâmica; e os democratas também não parecem predominar na oposição síria. Dentro da Liga Árabe, os países que chegaram a um consenso no caso da Síria não se destacam pela prática ou defesa da democracia. Esse consenso, pelo contrário, reflete em grande parte o conflito milenar entre xiitas e sunitas.

A confluência de muitas reivindicações díspares, declaradas em slogans gerais, não constitui ainda um resultado democrático. Com a vitória, surge a necessidade de aprimorar a evolução democrática e estabelecer um novo centro de autoridade. Quanto mais avassaladora a destruição da ordem existente, mais difícil será o estabelecimento da ordem interna e o mais provável será o recurso à força ou a imposição de uma ideologia universal. E quanto mais fragmentada a sociedade, maior a tentação de fomentar a unidade recorrendo a uma mistura de nacionalismo e islamismo tendo como alvo valores ocidentais ou objetivos sociais.

A derrocada da estrutura existente é um bilhete de entrada para um processo lacerante. Precisamos tomar cuidado numa era em que os momentos de atenção são cada vez mais curtos, com a possibilidade de as revoluções se tornarem uma experiência de internet transitória para o mundo exterior – observada atentamente por alguns instantes cruciais e depois esquecida tão logo o evento principal seja dado como encerrado. A revolução terá de ser julgada por seu destino, não sua origem; seus resultados, não suas proclamações.

As preocupações humanitárias não extinguem a necessidade de relacionar o interesse nacional a um conceito de ordem mundial. Para os EUA, uma doutrina de intervenção humanitária no caso das revoluções no Oriente Médio será insustentável, a menos que ligada a um conceito de segurança nacional. A intervenção implica considerar o significado estratégico e a coesão social de um país (incluindo a possibilidade de fraturar sua complexa estrutura sectária) e avaliar o que pode ser construído no lugar do antigo regime.

A opinião pública americana já rejeitou os esforços exigidos para transformar o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão. Acreditamos que um envolvimento americano menos explicitamente estratégico, renunciando a um interesse nacional americano, poderá tornar o projeto de construir uma nação menos complexo? Devemos ter uma preferência quanto a que grupos assumirão o poder? Ou seremos agnósticos enquanto os mecanismos forem eleitorais? Nesse caso, como evitar o risco de estar fomentando um novo absolutismo legitimado por plebiscitos manipulados? Que resultados são compatíveis com os interesses estratégicos básicos dos EUA na região? Será possível combinar a saída estratégica de países-chave e uma redução dos gastos militares com doutrinas de intervenção humanitária universais? Essas questões estão completamente ausentes dos debates sobre a política externa americana no tocante à Primavera Árabe.

Liberdades. Se a Primavera Árabe realmente aumentar a esfera de alcance das liberdades individuais ou, pelo contrário, substituir o autoritarismo feudal por uma nova era de governos absolutistas com base em plebiscitos manipulados e maiorias permanentes com base em seitas, não vamos saber pelas proclamações iniciais dos revolucionários. As forças políticas fundamentalistas tradicionais, fortalecidas por alianças com revolucionários radicais, ameaçam dominar o processo, ao passo que os elementos das redes sociais que determinaram o início dos movimentos estão sendo marginalizados.

Os EUA devem incentivar as aspirações regionais a uma mudança política. Mas não é sensato buscar um resultado equivalente em cada país, e na mesma velocidade. Os EUA também atenderão a seus valores, talvez de modo mais eficaz, oferecendo conselhos de modo mais reservado em vez das declarações públicas que provavelmente produzirão a sensação de assédio. Não se trata de abdicar dos princípios para adequar a posição americana de acordo com cada país e colocá-la em sintonia com outros fatores relevantes; na verdade, essa é a essência de uma política externa criativa.

Por mais de 50 anos, a política americana no Oriente Médio tem sido orientada por diversos objetivos básicos de segurança; impedir que qualquer potência na região tenha hegemonia; garantir o livre fluxo de recursos energéticos, ainda vitais para a economia mundial operar; e obter, pela intermediação, uma paz durável entre Israel e seus vizinhos, incluindo um acordo com os palestinos. Na década passada, o Irã tornou-se o principal desafio a esses objetivos. Esses interesses não ficaram abolidos pela Primavera Árabe e sua adoção tornou-se mais urgente. Um processo que acaba com governos regionais frágeis demais ou muito antiocidentais deve suscitar as preocupações estratégicas americanas, independentemente dos mecanismos eleitorais pelos quais aqueles governos chegam ao poder. Dentro desses limites gerais, a política americana tem um espaço significativo para a criatividade na promoção dos valores democráticos e humanitários.

Os EUA precisam estar preparados para lidar com governos islâmicos democraticamente eleitos. Mas também estão livres para insistir nos princípios básicos da política externa tradicional de modo a condicionar sua posição sobre o alinhamento de seus interesses às ações do governo em questão.

A conduta dos EUA durante as revoluções árabes até agora foi bem-sucedida, evitando se tornar um obstáculo às transformações revolucionárias. Mas esse é apenas um componente de uma estratégia bem sucedida. No final, a política adotada pelos EUA também será julgada segundo o que resultar da Primavera Árabe, ou seja, se os novos Estados terão mais responsabilidade em relação à ordem internacional e as instituições humanitárias. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DOS EUA

 

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(Texto atualizado às 20h51) O presidente de Israel, Shimon Peres, é mais uma importante figura do cenário internacional a cair nas redes sociais. No último domingo, um vídeo foi publicado na conta oficial de Peres no YouTube. Intitulado “Be My Friend for Peace” (“Seja meu amigo pela paz”, em tradução livre), o vídeo promove a página oficial do presidente no Facebook.

Veja também:
CHACRA: Peres quer amigos no Facebook, mas nunca irá encontrá-los no Líbano

O filme, bem humorado, já foi visto por quase 100 mil pessoas em apenas cinco dias. A página no Facebook tem mais de 40 mil seguidores na versão internacional, em inglês. A israelense, em hebraico, tem mais de 16 mil.

Com trilha sonora eletrônica do músico e jornalista israelense Noy Alooshe, o vídeo tem imagens do presidente se reunindo com outros nomes de peso da política internacional,  como a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, o presidente americano, Barack Obama, o ex-líder palestino Yasser Arafat, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o ex-presidente Lula, entre outros.

Ele ainda aparece no vídeo de 2 minutos e meio ao lado de celebridades do entretenimento e dos esportes – como Ronaldo, jogadores do Real Madrid e atores de Hollywood. Nas imagens, muitas delas feitas na residência oficial da presidência, em Jerusalém, Peres convida o público a juntar-se à causa – basta “curtir” a página, soltar a voz e “mudar o mundo”.

Músico. Alooshe, que assina a trilha do vídeo, ficou famoso há cerca de um ano, quando fez uma mixagem em que mostrava o ex-ditador líbio, Muamar Kadafi, durante um discurso feito na época. O vídeo, chamado “Zenga Zenga”, acabou virando uma espécie de hino da oposição líbia. O vídeo usa trechos do discurso de Kadafi, em que ele prometia lutar “polegada por polegada, casa por casa, rua por rua”.

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As coisas vão piorar na Síria antes de melhorar, mas a mulher de Assad já começou a comprar imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los

POR ROGER COHEN, DO NEW YORK TIMES*

Eis aqui algumas verdades a respeito da Síria. As coisas vão piorar antes de começar a melhorar. Ninguém pode obrigar esse gênio a voltar para dentro da lâmpada. Estamos diante da mãe de todos os conflitos indiretos. O inescrupuloso regime Assad está acabado, resta apenas saber quando será seu último suspiro.

Os países tomaram rumos diferentes na sua trajetória da tirania à liberdade. Quando o comunismo caiu, alguns planaram do império soviético para o Ocidente enquanto outros agonizaram. A Iugoslávia – uma ideia maravilhosa que nunca funcionou – é um dos muitos países citados como possível exemplo do destino sangrento que aguarda a Síria; outros exemplos incluem Líbano e Iraque.

Os ingredientes são conhecidos: a Síria é um Estado multiétnico governado com mão de ferro por uma minoria – os alauitas (quase xiitas) – e inclui minorias cristãs e drusas, entre outras, que juntas correspondem a aproximadamente um quarto da população. A maioria é sunita. Quando a mão de ferro é afastada desses países, a liberdade é mais imediatamente vista como um libertar-se uns dos outros, não como a oportunidade de unir-se no processo de concessões mútuas para a formação de uma nova ordem liberal.

Assim tem sido há um ano na Síria de Bashar Assad, que, aprendendo as lições do pai, buscou suprimir por meio de massacres maciços um amplo levante daqueles que almejam libertar-se do controle da família. Assad se formou médico! Nenhum doutor tripudiou tanto o juramento de Hipócrates.

Os Assad são uma máfia, uma minoria (a família) dentro de outra minoria (os alauitas) dentro de outra minoria (a polícia secreta Mukhabarat). Eles cooptaram os demais – principalmente a classe dos comerciantes sunitas – por meio de uma estabilidade imposta. Essencialmente, como todos os tiranos derrubados durante a Primavera Árabe, governaram o país como se ele fosse o seu feudo particular, um brinquedo a ser legado de pai para filho, beneficiando primos e capangas.

Bem, tudo isso acabou. Alepo não é a nova Marrakesh, afinal. Aqueles atraentes cartazes turísticos nos ônibus londrinos foram guardados. Os árabes se cansaram de seus poderosos chefões.

Eu disse que as coisas vão piorar antes de começar a melhorar. O pacto social sírio foi quebrado. Um novo pacto sob o mando dos Assad é inconcebível. Há interesses maiores envolvidos. A teocracia xiita iraniana, cada vez mais isolada, está defendendo o regime contra um Exército Livre da Síria fundado em parte por uma teocracia sunita saudita: essa é a guerra indireta.

Vladimir Putin, temendo eventuais primaveras russas no seu próprio quintal, optou com o cinismo habitual por defender um antigo aliado contra as demandas americanas, que exigem a saída de Assad, objetivo até agora não perseguido com coerência pelo governo Obama. Israel conhece Assad, que ajuda a armar o Hezbollah, mas é também um inimigo previsível e, em geral, passivo. Mas Israel não imagina o que pode haver além de um Estado policial de hábitos previsíveis.

Em resumo, a Síria é perigosa. Mas isso não é razão para passividade ou incoerência. Como mostrou a guerra da Bósnia, a base de qualquer acordo deve ser uma igualdade aproximada de forças. Assim, proponho que sejam intensificados os esforços – que já ocorrem discretamente – no sentido de entregar armas ao Exército Livre da Síria. Essas forças devem ser treinadas, assim como foram treinados os rebeldes na Líbia.

Chegou a hora do acerto de contas: os EUA alertaram Assad para o perigo de permitir que combatentes da Al-Qaeda entrassem no Iraque vindos da Síria. Agora, material bélico e forças especiais com a capacidade de treinar um Exército improvisado podem vir do Iraque – e de outros países vizinhos – para a Síria. Isso deveria ser um esforço conjunto dos países árabes e do Ocidente.

Ao mesmo tempo, devemos organizar uma grande operação humanitária coordenada pelas Nações Unidas centrada em enclaves de refugiados na Turquia, na Jordânia e em outros países, estabelecendo onde for possível corredores seguros conduzindo a esses refúgios. Temos de pressionar Rússia e China para que mudem seus votos: esses países não defenderão Assad se essa atitude passar a representar um risco para outros de seus grandes interesses nos EUA, no Golfo Pérsico e na Europa.

Já podemos ouvir as manifestações de indignação: se armarmos os oponentes de Assad, conseguiremos apenas exacerbar os temores das minorias sírias e uni-las, garantindo um maior derramamento de sangue e prejudicando os esforços diplomáticos atualmente liderados por Kofi Annan, um astuto e qualificado negociador da paz. Corremos o risco de transformar uma guerra indireta numa conflagração indireta. A esta altura, não há para a Síria nenhuma política que não envolva riscos importantes. O único cessar-fogo que consigo imaginar tem como base um equilíbrio aproximado das forças, caso contrário um acordo desse tipo não passará de um pedaço efêmero de papel. Para tanto, o Exército Livre da Síria precisa ser armado.

No fim, esse rumo vai reforçar – e não prejudicar – a diplomacia de Annan, possivelmente abrindo caminho para o tipo de transição sugerida pela Liga Árabe. Em troca, a dividida oposição síria precisa apresentar um firme compromisso com o respeito aos direitos das minorias. O tratamento dispensado a elas é um dos principais testes enfrentados pela Primavera Árabe, assim como a questão das mulheres.

Se Assad cair, o Irã se verá muito enfraquecido. O elo estabelecido por Teerã com o Hezbollah desaparecerá. Não há muito o que escolher entre engendrar a queda de Assad e bombardear as instalações nucleares iranianas: a primeira opção é inteligente e factível; a segunda não passa de tolice.

A mulher de Assad tem comprado imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los e libertar o povo sírio.

*É COLUNISTA

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Se a responsabilidade de proteger civis é um elemento legítimo do direito internacional, por que esta lei valeria para a Líbia, mas não para o da Síria?

STEVEN ERLANGER – THE NEW YORK TIMES

Passado mais de um ano desde o seu início, o despertar árabe teve diferentes estações. Após uma primavera que abalou o mundo, seguida por verão, outono e inverno, os diferentes países – Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen – derrubaram um a um seus autocratas, derramando diferentes quantidades de sangue. Alguns governos sufocaram as revoltas, como ocorreu no Bahrein. Outros experimentaram reformas modestas, como o Marrocos, ou permaneceram inertes fora do palco principal – caso da Argélia e Arábia Saudita.

A primavera está agora voltando, e temos a situação na Síria. Enquanto os mortos se acumulam e a diplomacia fracassa em conter a violência, torna-se claro que esse conflito é único, difícil de prever e extremamente significativo para o mundo.

Diferentemente da Líbia, a Síria é um país de importância estratégica, localizado no centro de rivalidades étnicas, religiosas e regionais que trazem o potencial de transformar o local num redemoinho capaz de arrastar para o seu centro potências maiores e menores da região e de outras partes do mundo.

“A Síria é talvez o único país onde a Primavera Árabe tem o potencial de alterar a composição geoestratégica da região”, diz Olivier Roy, historiador francês que estuda o Oriente Médio. Como contraexemplo, ele indica Egito e Tunísia, onde os novos líderes parecem estar conservando as alianças e posições geopolíticas anteriores. “Na Síria, se o regime for derrubado, teremos uma paisagem absolutamente nova”, afirma.

Muitos consideram o conflito outra revolução inevitável que acabará depondo o presidente Bashar Assad. Mas, nos meses transcorridos desde que os sírios decidiram lutar contra Assad – que respondeu mobilizando o Exército contra eles -, o país já se converteu no cenário de uma guerra indireta entre potências da região e de outras partes do mundo.

Durante décadas, a Síria foi o ponto central da velha ordem da segurança no Oriente Médio. O país possibilitou que russos e iranianos expandissem sua influência enquanto sucessivos governos da família Assad proporcionavam estabilidade aos olhos dos EUA e uma fronteira segura para Israel, apesar do apoio concedido ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas nos territórios palestinos.

A incipiente guerra civil na Síria derrubou esse paradigma, colocando russos e americanos – e seus respectivos aliados – em lados opostos. Trata-se de um conflito que intensificou muito as tensões entre xiitas e sunitas, e entre o Irã e a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico. Uma situação explosiva que deixa Israel com a esperança de que um inimigo cairá, mas também com uma aguda preocupação em relação a quem irá assumir o controle do arsenal dele.

Para a Rússia, a queda de Assad – seu aliado e comprador de suas armas – reduziria a influência do país na região. Se Assad cair, o novo governo não poderá ignorar o apoio concedido pelos russos a ele, que incluiu um constante fornecimento de armas.

Árabes de toda a região, que estão exigindo seus direitos e liberdades, também podem se mostrar ressentidos desse apoio. “A essa altura, não adianta nem mesmo mudar de lado”, diz Dmitri Gorenburg, estudioso da Rússia a serviço do Centro de Análises Navais, grupo de pesquisas financiado pelo governo americano com sede na Virgínia.

Para os EUA, o conflito representa um conjunto de riscos e contradições que obrigou Washington a assumir uma posição muito mais cautelosa.

A repressão desencadeada por Assad apresentou ao mundo um difícil dilema moral envolvendo a intervenção. Se a responsabilidade de proteger civis é um novo elemento legítimo do direito internacional, por que essa lei valeria para o caso da Líbia, mas não para o da Síria? Será que a democracia e a igualdade de direitos defendidas pelo Ocidente vão sofrer as consequências, ajudando os radicais islâmicos a chegar ao poder?

Fator Irã. Para Washington, a Europa e os sunitas do Golfo Pérsico e da Arábia Saudita, o destino de Assad é tão importante quanto o seu impacto sobre o Irã. A Síria é um dos aliados mais próximos da república islâmica. Os sírios apoiaram quase sozinhos o Irã na sua guerra contra o Iraque nos anos 80. A Síria é o principal corredor de acesso por meio do qual Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica recebem ajuda e armas do Irã. A queda de Assad representaria uma grande derrota para os iranianos que, por esse motivo, fornecem dinheiro, armas e conselhos ao governo dele.

Os EUA e a Europa isolaram o Irã econômica e diplomaticamente – com o tênue apoio de russos e chineses – na tentativa de retardar as tentativas de Teerã no sentido de construir um artefato nuclear. Um novo governo sírio poderia representar para os iranianos um golpe mais duro do que quaisquer sanções já aprovadas pelo Ocidente. Outro possível resultado seria o retorno de protestos democráticos em Teerã.

Por enquanto, Washington não pretende armar grupos da oposição síria. Os EUA estão também excluindo a possibilidade de uma intervenção militar direta. Depois de uma década de guerra no Iraque e no Afeganistão, e de uma intervenção limitada na Líbia criticada pelos republicanos, o presidente Barack Obama não deseja novas aventuras militares num ano eleitoral. A opinião é partilhada pelo Pentágono, que pensa especialmente no competente sistema sírio de defesa antiaérea, fornecido pela Rússia.

Outro fator considerado importante é a natureza incoerente e pouco clara da oposição armada a Assad, e representantes americanos destacam que o Exército de Libertação Sírio, formado por oficiais exilados do exército sírio, por desertores e milicianos, não controla territórios importantes na Síria por meio dos quais o fornecimento de armas poderia ser estabelecido.

Há provas de que radicais sunitas estariam voltando suas atenções para a Síria, com armas e combatentes atravessando a fronteira com o Iraque e os líderes da Al-Qaeda falando numa jihad na Síria. Mas há também motivo para ceticismo, pois a Al-Qaeda se tornou uma espécie de fantasma citado por quase todos.

A questão central é como acelerar o colapso do governo Assad, visto por muitos como inevitável, sem com isso mergulhar a sociedade numa guerra civil, afirma Volker Perthes, administrador do Centro Alemão para Questões Internacionais e de Segurança. “Armar os rebeldes e provocar a eclosão de uma guerra civil é algo que vai conferir mais tempo ao regime”, diz Perthes. “O que Assad quer é uma guerra de verdade, pois isso permitiria a ele superar a relutância em combater da ampla maioria nas Forças Armadas.”

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Ahmadinejad planeja uma versão nacional da web para enfrentar em até três anos a rede mundial de computadores

POR THOMAS ERDBRINK, DO WASHINGTON POST

Quando Maysam, conhecido blogueiro iraniano, entra na internet em seu escritório, ele o faz por meio de uma conexão especial que há anos tem conseguido evitar a barreira cada vez mais eficaz criada pela república islâmica.

Recentemente, o software – que permitia a ele e outros milhões de iranianos usarem a internet por meio de portais em outras partes do mundo – parou de funcionar. Quando ele retorna ao ar esporadicamente, a velocidade é tão lenta que sites como o Facebook e o balatarin.com, que cataloga as notícias não oficiais em farsi, tornam-se impossíveis de utilizar. “Houve uma mudança”, disse Maysam, que não forneceu seu sobrenome temendo ser convocado pela policia iraniana. “Parece que, cada vez mais, as autoridades estão ganhando a dianteira no universo online.”

Depois de verem como a mídia social ajudou a fortalecer as revoltas em todo o Oriente Médio, os líderes iranianos tentam controlar o que é distribuído, postado e discutido na internet. Depois de um início mais lento, as autoridades estão obtendo um sucesso crescente, afirmam os usuários da web.

Muitos temem que o desligamento do software usado para contornar a blindagem criada pelo Estado seja o prenúncio do que as autoridades rotularam como “internet nacional”. Os funcionários do governo responsáveis pela indústria da tecnologia anunciaram a construção de uma rede doméstica semelhante à internet e comparável à rede de um escritório, possibilitando o bloqueio de muitos sites populares. Eles deram a entender que a internet nacional pode ser lançada a qualquer momento e ela passará a funcionar gradualmente no decorrer dos próximos três anos.

As autoridades dizem que a decisão nasceu da necessidade de evitar que os inimigos ocidentais do Irã espionem os cidadãos do país. A repressão à liberdade na internet ocorre em meio a tensões no Irã envolvendo uma série de misteriosos assassinatos e explosões cuja responsabilidade foi atribuída a espiões americanos ou israelenses.

O Ocidente tem intensificado a pressão sobre o Irã nos últimos meses com o objetivo de fazer o país abandonar seu programa de enriquecimento de urânio, que o Irã descreve como pacífico, mas que, de acordo com os EUA e outros, teria como fim o desenvolvimento de uma arma nuclear.

Representantes iranianos acusaram empresas de tecnologia com sede nos EUA, como Google, Twitter e Microsoft, de estar trabalhando ao lado das autoridades americanas na espionagem dos perfis iranianos online, do uso que a população faz dos serviços de busca, das redes sociais e da correspondência eletrônica. As empresas negaram as acusações.

Durante os protestos ocorridos em 2009 e promovidos por grupos iranianos de oposição, o Departamento de Estado chegou a pedir ao Twitter que adiasse um serviço de manutenção do seu site, pois os diplomatas americanos acreditavam que o serviço de microblogs era usado pelos manifestantes iranianos para programar as manifestações em Teerã. “Estão roubando as informações das pessoas e buscando seus próprios… objetivos”, disse Reza Taghipour, ministro iraniano das comunicações e da tecnologia da informação, ao falar de governos estrangeiros e empresas da internet no mês passado. “Precisamos (da internet nacional) para proteger a privacidade das nossas famílias.”

Os funcionários do governo sublinham que o acesso à web não será extinto, sendo que a restrição será aplicada apenas a sites “perigosos”. Mas os usuários iranianos da internet e os ativistas temem que a ativação do modelo nacional possa isolá-los do restante do mundo, colocando-os sob uma vigilância ainda mais intensa das autoridades.

“Basicamente, eles já estão impedindo o acesso a todos os sites interessantes”, disse Maysam. “Se isso ocorrer, seremos como uma ilha isolada num mundo em constante mudança.”

Em setembro, a empresa holandesa de segurança na rede DigiNotar teve seus sistemas invadidos e os certificados de segurança – senhas digitais – de sites como Google e Yahoo foram roubados. O roubo tornou-se conhecido quando milhares de usuários do Gmail no Irã começaram a reparar num estranho desvio pelo qual sua correspondência começou a passar.

No seus e-mails, um hacker iraniano que se identifica como Sunich – nome de uma popular bebida que costuma ser distribuída nos comícios organizados pelo Estado – alegou ter roubado os certificados e os entregado às autoridades. “Aqueles que cooperam com os serviços ocidentais de informações devem ser castigados”, escreveu ele numa mensagem, dizendo que as autoridades iranianas tinham o direito de descobrir quais dos seus cidadãos estariam trabalhando para agências estrangeiras de espionagem.

Os blogueiros e ativistas já podem ser detidos em decorrência daquilo que publicam na rede. Saeed Malekpour, de 36 anos, programador iraniano de origem canadense, aguarda execução depois de ter sido sentenciado à morte em decorrência daquilo que o juiz descreveu como “disseminação de material pornográfico”. Malekpour insiste que simplesmente criou um site de armazenamento online que logo foi usado abusivamente por outras pessoas.

A divisão cibernética da polícia iraniana deteve na semana passada pessoas associadas a uma página no Facebook que organizava concursos de beleza online. Os responsáveis foram acusados de favorecimento à prostituição.

Mustafá, de 27 anos, trabalha como assistente numa gráfica e disse que se despediu da internet. “Nenhum dos sites divertidos, como o Facebook, funciona mais. Posso ler apenas os sites oficiais de notícias do Irã”, disse Mustafá, que pediu para não ter o nome divulgado. “Agora dedico meu tempo somente ao trabalho. Nada de internet.”

É JORNALISTA

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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 Universitários em Teerã, quando mulheres não eram obrigadas a usar véus islâmicos.

A versão online da revista Foreign Policy publicou imagens feitas no Irã antes de 1979, quando a Revolução Islâmica levou os aiatolás ao poder no país persa. As fotos mostram mulheres usando saias e frequentando a universidade, anúncios de produtos americanos e obras dos mais conhecidos pontos de Teerã - um cenário em completo desacordo com o encontrado agora na capital iraniana.

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Os problemas que o Egito terá de superar são tremendos, por isso será necessária a união de toda a sociedade e o recolhimento do país para buscar se conhecer de novo

POR THOMAS L.FRIEDMAN, DO THE NEW YORK TIMES*

Estou sentado na sede de campanha de Abdel Moneim Aboul Fotouh, médico que se separou da Irmandade Muçulmana para candidatar-se à presidência do Egito e tem uma agenda reformadora. Enquanto sua equipe – três jovens profissionais que trabalham voluntariamente – falava-me sobre sua estratégia, um pensamento veio à minha mente: na última semana eu me reuni com egípcios jovens, interessantes e de todas as convicções políticas mais do que nos últimos 30 anos. Não é coincidência. O Egito sob o regime de Hosni Mubarak era um país onde havia apenas uma única pessoa com quem falar, uma pessoa que tinha o poder de decidir. Todo o resto estava apenas esperando por Godot. E as conversas eram todas de cima para baixo.

Não é mais o caso. Os egípcios estão reencontrando as próprias vozes e redescobrindo quem são seus vizinhos. Em alguns aspectos, estão assombrados. Um líder da Irmandade Muçulmana disse-me ter ficado bastante surpreso quando as eleições mostraram quantos muçulmanos salafistas vivem no Egito. Quando os fundamentalistas afirmam que não tinham a mínima ideia de que existiam tantos deles muito mais ortodoxos, imagine o quão surpresos ficaram os liberais. Os generais egípcios espantaram-se com a quantidade de jovens não ligados a nenhuma religião dispostos a enfrentar os tanques nas ruas para obrigar o Exército a ceder o poder. Hoje, na vida egípcia, reina uma certa atmosfera, do gênero “ah, você vive aqui também?”.

Quanto mais tempo você permanece neste país, mais claro fica que o Egito ainda não teve a sua revolução. O que houve foi uma revolta. O regime militar que tem governado o país desde 1952 continua no poder – somente um conselho militar substituiu os Mubaraks. Mas a revolta levantou a pesada tampa que abafava esta sociedade e permitiu a entrada de oxigênio. Isto, mais do que as recentes eleições parlamentares, permitiu a todas essas pessoas, partidos e vozes – de todas as esferas da vida egípcia – emergirem. É importante que o próximo presidente do Egito esteja disposto a dialogar com essas forças emergentes.

Mas para o Egito ter uma revolução democrática – uma verdadeira mudança na estrutura do poder e das instituições – todos estes partidos recém-eleitos terão de encontrar um modo de trabalhar para ter uma nova Constituição e um novo presidente. O que não será fácil. Os problemas sociais e econômicos que o país terá de superar são tremendos. Será necessária a união de toda a sociedade, mas as divisões e a falta de confiança entre os novos e antigos centros de poder – o Exército, a polícia de segurança, os jovens da Praça Tahrir, os islâmicos, cristãos, a maioria silenciosa, os liberais – são enormes. Este país necessita de um recolhimento para procurar se conhecer de novo.

Medo. Não é surpresa. Todos os autocratas árabes, como Mubarak, governaram seus países da mesma maneira : “cobrando para dar proteção”, diz Daniel Brumberg, codiretor da área de Estudos de Democracia Estudos de Governança na Universidade Georgetown. Grupos diferentes – minorias religiosas ou étnicas, o setor empresarial, islâmicos e ativistas seculares – foram colocados um contra o outro e “protegidos” pelo líder no topo da pirâmide. Todos viviam com medo de todos.

A notícia auspiciosa é que a política real manifestou-se aqui e alguns egípcios estão trabalhando para criar um elo de confiança entre os novos centros de poder. É o caso de Amr Hamzawy, liberal que acabou de ser eleito para o Parlamento que será inaugurado na segunda-feira. Ele e outras pessoas já iniciaram um debate com os partidos islâmicos sobre como vão cooperar para aprovar leis que levem o Egito a crescer novamente e mostrar que os novos detentores do poder conseguirão construir um país melhor.

Referindo-se aos novos membros do Parlamento, Hamzawy disse que “estamos nos apresentando uns aos outros. Mas temos a sociedade que nos aguarda. Temos que fazer o que esperam de nós. O grande desafio é transcender a polarização das eleições. Não conseguiremos fazer nada se houver uma polarização no Parlamento. É preciso superar as diferenças ideológicas.

Os liberais têm em torno de 20% das cadeiras. O Islã político tem dois terços. De modo que nossa tarefa é trabalhar para levar os moderados do lado do Islã político para o centro. Nosso desafio é definir esse novo centro estratégico para o Egito”. De alguma maneira, as novas e velhas forças devem agora encontrar um modo de partilhar o poder para reconstruir este país. O Egito desperdiçou grande parte dos últimos 30 anos. Não tem mais um minuto a perder.

*É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Escolher entre os EUA e Teerã é uma idiotice; o primeiro é uma grande potência e amigo fundamental, o outro é uma sociedade inflamável, que trabalha num programa nuclear

POR ROGER COHEN, DO THE NEW YORK TIMES*

Um embaixador israelense perguntou recentemente a um embaixador americano acreditado na Europa o que seria possível fazer para melhorar as péssimas relações entre o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o presidente Barack Obama. Ele respondeu: “Digam obrigado de vez em quando”.

O embaixador americano sugeriu ainda: “De vez em quando, perguntem ao presidente se há algo que vocês possam fazer por ele. E, acima de tudo, não se intrometam em nossa estratégia eleitoral”.

A resposta seca reflete a fúria de Obama provocada por uma série de coisas: o fato de Netanyahu passar por cima dele ao dirigir-se ao Congresso controlado pelos republicanos, onde é extremamente mimado; a ingratidão do premiê israelense pelo extraordinário apoio americano, até mesmo o veto de uma resolução contrária aos assentamentos na ONU, no ano passado, e à aspiração palestina a um Estado próprio; as táticas de Netanyahu que refletem sua convicção de que Obama terá um único mandato; e a recusa em suspender pela segunda vez a construção de assentamentos para o bom andamento das negociações de paz.

Gostaria de acrescentar mais um conselho a Netanyahu, se é que ele está preocupado com seu relacionamento conflituoso com Obama – e deveria estar, pois os israelenses têm consciência da importância dos Estados Unidos e talvez não estejam inclinados a reeleger um homem que envenenou as relações com Washington. O meu conselho é: Não ataque o Irã este ano.

Netanyahu sente-se tentado a bombardear o Irã nos próximos meses para frustrar o impenetrável programa nuclear deste país e – apesar do apelo de Obama, na quinta-feira passada, e das mensagens do secretário da Defesa americano, Leon Panetta – não garantiu aos Estados Unidos que não o fará. Vários fatores, iranianos e americanos, impelem Netanyahu a agir rapidamente.

Em primeiro lugar, a convicção de Israel de que o Irã está perto de um ponto irreversível em sua busca de vários elementos – do enriquecimentos de urânio aos mecanismos necessários para a construção de uma ogiva nuclear. O que intensificou estas preocupações foi o início do enriquecimento nas instalações subterrâneas de Fordo, nas proximidades da cidade de Qom, assim como o tom belicoso do Irã em resposta à ameaça de sanções contra seu setor petrolífero.

Em segundo lugar, o cálculo político dos EUA. Um ataque israelense poucos meses antes das eleições americanas, em novembro, seria desastroso para Obama. Ele não teria condições de expressar sua revolta, considerando a influência do lobby pró-Israel, o importante voto dos judeus na Flórida e o apoio extraordinário que um bombardeio israelense receberia do adversário republicano – provavelmente Mitt Romney.

Por outro lado, se Obama conseguisse um segundo mandato, teria a possibilidade de assinalar seu desagrado se Israel resolvesse agir por conta própria. Como aumenta a convicção de que Obama deverá ganhar, estas considerações têm muito peso em Jerusalém.

Drama. Netanyahu já se definiu como o homem que está entre o Irã e a bomba. Politicamente um falcão, ele tem um pendor pelo dramático. Nestas questões, Israel já agiu por conta própria uma vez, quando bombardeou uma instalação nuclear na Síria, em 2007.

A esta altura, os detonadores americano e israelense parecem distintos – Panetta afirma que “a posição definitiva dos EUA em relação ao Irã é: não desenvolva a arma nuclear”, enquanto os israelenses consideram inaceitável a irreversibilidade da capacidade nuclear, mesmo que a arma não esteja sendo construída. O perigo se oculta nesta discrepância.

Não vá para lá, Netanyahu. Seria um erro terrível. Escolher entre os Estados Unidos e o Irã é uma idiotice. O primeiro é uma grande potência e um amigo fundamental. O outro é uma sociedade violenta, inflamável, que trabalha num programa nuclear há dezenas de anos e cujo aliado regional mais próximo, a Síria, está na beira do abismo.

O sonho de Israel é que os EUA se encarreguem do ataque, mesmo que seja um ataque conjunto – uma das razões pelas quais Israel rejeita esclarecer suas intenções.

Mas, não havendo uma provocação exorbitante do Irã, como o bloqueio do Estreito de Ormuz, isso não ocorrerá antes de novembro.

Em um ano eleitoral, e o fato de o serviço de inteligência americano estar convencido de que o Irã ainda não está construindo a bomba, Obama não permitirá que os preços do petróleo cheguem às alturas e o mundo muçulmano dê início a um novo surto de revolta contra os EUA. Em grande parte, sua presidência tem se dedicado precisamente em sair da guerra e abrandar a hostilidade israelense.

Netanyahu afirmou no fim de semana que, “pela primeira vez”, via certa hesitação no Irã em consequência das sanções. Mas também pediu “uma clara afirmação” de que os EUA “recorrerão às armas”, caso as sanções fracassem. Enquanto isso, seu vice-primeiro-ministro resmungava que as sanções americanas foram decepcionantes.

Os fatos são os seguintes: um ataque de Israel uniria o Irã e, desencadeando sua fúria, isolaria a República Islâmica por uma geração, consolidaria o regime sírio, radicalizaria o mundo árabe em um momento de delicada transição, atiçaria o Hezbollah na fronteira do Líbano, encorajaria o Hamas, colocaria em perigo as forças americanas na região, espalharia o terrorismo, levaria os preços do petróleo às alturas, provavelmente desencadearia uma guerra regional, ofereceria uma tábua de salvação para o Irã no momento em que a Europa estaria decidida a parar de comprar o seu petróleo, acrescentaria um persa à vendetta árabe contra Israel, e, na melhor das hipóteses, só conseguiria atrasar as ambições nucleares iraniana em apenas um par de anos. Parecem perspectivas promissoras? Dentro em breve, o general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior Conjunto dos EUA, visitará Israel. Será bom que Netanyahu ouça, tire o dedo do gatilho iraniano, e entenda que o destino de Israel depende mais de Ramallah do que de Teerã.

*É JORNALISTA E ESCRITOR

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Grupo religioso crê que os egípcios associarão ‘projeto islâmico’ ao êxito econômico caso o país se aproxime do modelo turco, em uma espécie de sonho calvinista árabe

Por Shadi Hamid, da Foreign Affairs*

Saber o que os islâmicos desejam agora se tornou urgente, graças às recentes eleições no Egito, que devem dar ao braço político da Irmandade Muçulmana, o Partido Justiça e Liberdade (PJL), mais de 40% dos assentos no Parlamento. Apesar da percepção de que a Irmandade é uma organização rígida e radical, o fato é que nem os islâmicos estão inteiramente seguros do que querem.

Observadores ocidentais concentram excessiva atenção na ideologia da Irmandade. No caso da maioria dos partidos políticos egípcios, incluindo o PJL, a crença raramente é prognóstico preciso de seu comportamento. Como afirmei num artigo na edição de maio/junho de 2011 da Foreign Affairs (A ascensão dos islâmicos), a Irmandade Muçulmana, longe de ser uma entidade ideologicamente inflexível, é essencialmente política e comprometida com os ideais de atender aos interesses da organização. Isso a torna muito mais preparada para mudanças do que muita gente hoje imagina.

Na verdade, o islamismo da Irmandade é difícil de ser detectado pelas políticas proclamadas por ela, muitas sem relação com a lei islâmica. Os dias da década de 80, quando o grupo pregava a implementação da sharia por meio da luta armada, há muito tempo se tornaram passado. O Islã é mais bem compreendido como motivador das ações da Irmandade, mais do que o seu produto. Como se trata de um movimento religioso com um amplo currículo educacional e uma estrutura de membros complexa de vários níveis, cada “irmão”, por definição, é religiosamente conservador. Os membros da entidade não sentem necessidade de provar sua identidade religiosa.

Claro que há uma facção mais intransigente ganhando espaço no Cairo. Com as eleições, fica evidente que a Irmandade não tem mais o monopólio dos votos dos egípcios conservadores – os salafistas, ainda mais radicais e defensores de uma interpretação literal da lei islâmica, constituirão o segundo maior bloco no Parlamento, com cerca de 20% das cadeiras. Tendo rejeitado há muito tempo a política por razões teológicas e práticas, eles são principiantes nessa área. Nisso reside o seu apelo; no momento, eles parecem inconscientes dos compromissos inerentes à vida política.

Enquanto os salafistas mostram-se excessivamente impacientes, a Irmandade aposta no longo prazo. Seus membros procuram dar a impressão de que não têm pressa, o que, durante os anos de repressão do governo do presidente Hosni Mubarak, era visto erroneamente como concordância e resignação. Quando você acredita que a história está do seu lado, tudo o que tem a fazer é esperar o momento certo. E este momento parece ter chegado para a Irmandade. A questão é o que fazer com ele.

Economia e fé. No passado, a Irmandade distanciou-se dos islâmicos turcos liderados por Recep Tayyip Erdogan, considerando-os desleais aos preceitos islâmicos, transformados em pouco mais do que democratas conservadores ao estilo europeu. Mas, tendo sobrevivido à repressão imposta por Mubarak com uma real chance de governar, a Irmandade tem voltado cada vez mais os olhos para o modelo turco.

O que aprendeu do Partido Desenvolvimento e Justiça, de Erdogan, é que um crescimento econômico vigoroso torna tudo mais fácil. Se você melhora o padrão de vida das pessoas, elas estarão mais predispostas a ouvi-lo em assuntos não econômicos. E talvez mais importante, a Irmandade acredita que os egípcios associarão o sucesso econômico ao “projeto islâmico” – uma espécie de sonho calvinista árabe.

Para isso, ela precisa primeiro ser capaz de conduzir os assuntos econômicos do Egito. Portanto, não é por acaso que o grupo considera altamente prioritário reformular as decadentes estruturas políticas do país.

Com base nas estruturas legais e constitucionais vigentes, o Egito continua com um sistema presidencial exacerbado e com um Legislativo muito fraco. Como o maior bloco representado no Parlamento, a Irmandade pretende fazer pressão no sentido de um sistema parlamentar puro, com o presidente tendo uma função amplamente cerimonial. Em parte, trata-se de um evidente interesse pessoal. A democracia parlamentar – sistema que recompensa a disciplina partidária, as negociações sub-reptícias e as coalizões flexíveis – ajusta-se sob medida a grupos como a Irmandade, que parecem ter prazer nas manobras políticas sem muitas reservas.

Um Parlamento mais sólido daria à Irmandade uma plataforma poderosa para desafiar o conselho militar no governo, que parece cada vez menos disposto a se desvencilhar do poder. Parte disso, contudo, vai além dos objetivos no curto prazo. Em razão de décadas de repressão durante três presidentes sucessivos, a Irmandade Muçulmana teme que um ditador possa surgir novamente.

Com efeito, como organização hierárquica e bastante institucionalizada, ela sempre deu prioridade às estruturas, mais do que aos indivíduos. É revelador o fato de que, nas últimas décadas, a Irmandade não tenha conseguido produzir líderes carismáticos no plano nacional. Assim, no campo da política egípcia, os “irmãos” também respeitam as instituições.

A presença dos salafistas, entretanto, ameaça complicar as coisas. Se a Irmandade perceber que precisa se mover para o centro – de modo a tranquilizar os liberais mais céticos e a comunidade internacional – ela o fará. E se sentir que deve se inclinar para a direita – para competir com os salafistas – então também mudará. Mas poderá agir de ambas maneiras, concedendo algumas coisas para os liberais e, ao mesmo tempo, reafirmando suas credenciais religiosas para aglutinar sua base conservadora.

Por escolha ou necessidade, esse parece ser o caminho escolhido. Nos vilarejos da zona rural, mais conservadores, onde enfrenta os salafistas, os irmãos muçulmanos lembram os eleitores da sua história de perseguição e retornam à retórica religiosa feroz. No Cairo, na mídia, nas reuniões com delegações de políticos e investidores visitantes, a Irmandade mostra sua face mais sensível. Alguns críticos da entidade chamam isso de “dupla retórica”. Para outros, é política.

*É ANALISTA DO BROOKINGS INSTITUTE

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Com ajuda da TV Al-Jazira, pequeno país do Golfo Pérsico tem papel decisivo no Oriente Médio

Por Anthony Shadid, do New York Times*

O Catar é menor do que Connecticut e sua população, 225 mil, não encheria um bairro do Cairo. Mas, para um país que causa irritação e admiração, seu currículo é o seguinte: ele foi decisivo para isolar a Síria, ajudou a derrubar a ditadura da Líbia, ofereceu-se para mediar a crise no Iêmen e é amigo da figura mais poderosa da Tunísia.

Esse punhado de areia em forma de dedo no Golfo Pérsico destacou-se como o mais dinâmico país árabe no tumultuado realinhamento da região. Suas intenções permanecem nebulosas paras seus vizinhos e aliados – alguns dizem que o Catar tem um complexo de Napoleão, outros que tem uma agenda islâmica.

Sua influência é uma lição do que se pode ganhar com uma das maiores reservas de gás do mundo, a mais influente TV da região, a Al-Jazira, uma boa rede de contatos e com uma monarquia absoluta nas mãos de um único homem, o xeque Hamad bin Khalifa al-Thani.

O Catar tornou-se um contraponto vital no mundo árabe, onde potências tradicionais estão conturbadas pela revolução, ossificada por líderes envelhecidos, se recuperando de guerras civis, e onde os EUA são vistos como uma potência em declínio.

“Se eles preenchem um vazio? Sim”, disse Bassma Koudmani, líder da oposição síria que creditou aos catarianos um papel-chave na espantosa decisão de sábado da Liga Árabe de suspender a Síria e isolar o governo de Bashar Assad.”Eles estão assumindo um papel que era de outros países.” Flanqueado pelos rivais maiores, Arábia Saudita e Irã, o Catar sempre jogou um papel desmedido no Golfo, mas nunca a esse grau.

O país abriga uma vasta base aérea dos EUA, mas algumas autoridades americanas suspeitam de seu recente apoio a líderes islâmicos, particularmente na Líbia. Irritadas com seu papel na condução da votação da Liga Árabe, autoridades sírias o chamaram de “lacaio de interesses americanos e israelenses”.

Na segunda-feira, a Síria declarou que boicotaria os Jogos Árabes, em Doha, no próximo mês. Mas, apesar das contradições, o Catar está promovendo uma mudança na política árabe: um Oriente Médio dominado por partidos islâmicos trazidos ao poder em uma região mais democrática, conservadora e tumultuada. “O Catar é um país sem ideologia”, disse Talai Atrissi, analista político libanês. “Eles sabem que os islâmicos são o novo poder no mundo árabe. Essa aliança assentará os alicerces para uma base de influência por toda a região.”

Mas nem todos estão satisfeitos. “Quem é o Catar?”, questionou o embaixador da Líbia na ONU, Abdel Rahman Shalgham, em um canal árabe alemão. Autoridades sírias têm feito essa pergunta à medida que a crise se aprofunda entre dois países que já foram amigos. Os sentimentos pessoais parecem pesar muito na política do Catar, como com a Líbia, onde a mulher do emir, Mozah, passou algum tempo quando criança.

Durante um bom tempo o país serviu de intermediário com a Síria, e investiu em uma economia que Assad tentava modernizar. Mas diplomatas dizem que o xeque Hamad se sentiu rejeitado por Assad em abril, pouco depois do início do levante sírio.

Alguns veem a política do Catar para a Síria por uma lente sectária, apoiando como apoia uma revolta muçulmana sunita (ele também apoiou a intervenção da Arábia Saudita no vizinho Bahrein para ajudar a conter protestos muçulmanos xiitas). Outros a veem de uma maneira mais oportunista, proporcionando ao Catar uma forma de realinhar um Oriente Médio. “A Síria é um pivô crucial no Oriente Médio”, disse Salman Shaikh, diretor do Brookings Doha Center, no Catar. “A Síria seria um alvo tentador demais para o Catar não se imiscuir de fora e estou certo de que ele o fará.”

A ambição domina Doha, cuja silhueta frenética sugere um misto de Bagdá medieval e Blade Runner. A economia do Catar oferece indicadores superlativos: a mais alta taxa de crescimento e a mais alta renda per capita do mundo. Seu emir tem procurado conciliar o que parecia irreconciliável.

 

Yusuf Qaradawi, influente personagem islâmico egípcio, considera o Catar um lar. O mesmo fez Ali Sallabi, destacado islâmico líbio. Khaled Meshal, líder do Hamas, tem casa no país e especula-se que o Taleban do Afeganistão poderá abrir um escritório em Doha. Ao mesmo tempo, há escolas e companhias americanas instaladas nos mais modernos complexos do país. “Traga-os para cá, dê-lhes dinheiro e a coisa funcionará”, disse Hamid al-Ansari, editor de um jornal, sobre o estilo do Catar.

O dinheiro é um instrumento para o papel do Catar na Líbia. Diplomatas dizem que milhões de dólares foram canalizados para a oposição, muitas vezes por canais que o Catar cultivou com expatriados. Um canal da oposição líbia foi criado em Doha. O Catar enviou ainda conselheiros treinados no Ocidente que ajudaram a financiar, treinar e armar rebeldes líbios.

O aparente favorecimento de islâmicos pelo Catar irritou figuras seculares. As autoridades catarianas não dão importância às acusações, mas muitos sugerem que o xeque tem uma afinidade maior com figuras islâmicas do que com seculares, como Assad.

Manter canais com um leque de forças é a pedra angular da política do Catar. Além de duas bases americanas com mais de 13 mil pessoas, o emir é popular no Líbano por ter ajudado a reconstruir cidades destruídas por Israel, em 2006. O país mantém ainda laços estreitos com a Irmandade Muçulmana, em suas encarnações na Líbia, Síria e Egito, e com figuras como Rachid al-Ghannouchi, islâmico tunisiano – pessoas que jogarão um papel crucial na próxima geração da política árabe.

O Catar também tem o que pode ser descrito como uma versão local do “poder brando”: a influência da Al-Jazira, que o emir fundou e financia. Recentemente, o diretor geral da TV, Wadah Khanfar, foi afastado – muitos dizem que por pressão de Arábia Saudita e Jordânia, ambos irritados com reportagens da Al-Jazira.

*É CORRESPONDENTE

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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