
Os problemas que o Egito terá de superar são tremendos, por isso será necessária a união de toda a sociedade e o recolhimento do país para buscar se conhecer de novo
POR THOMAS L.FRIEDMAN, DO THE NEW YORK TIMES*
Estou sentado na sede de campanha de Abdel Moneim Aboul Fotouh, médico que se separou da Irmandade Muçulmana para candidatar-se à presidência do Egito e tem uma agenda reformadora. Enquanto sua equipe – três jovens profissionais que trabalham voluntariamente – falava-me sobre sua estratégia, um pensamento veio à minha mente: na última semana eu me reuni com egípcios jovens, interessantes e de todas as convicções políticas mais do que nos últimos 30 anos. Não é coincidência. O Egito sob o regime de Hosni Mubarak era um país onde havia apenas uma única pessoa com quem falar, uma pessoa que tinha o poder de decidir. Todo o resto estava apenas esperando por Godot. E as conversas eram todas de cima para baixo.
Não é mais o caso. Os egípcios estão reencontrando as próprias vozes e redescobrindo quem são seus vizinhos. Em alguns aspectos, estão assombrados. Um líder da Irmandade Muçulmana disse-me ter ficado bastante surpreso quando as eleições mostraram quantos muçulmanos salafistas vivem no Egito. Quando os fundamentalistas afirmam que não tinham a mínima ideia de que existiam tantos deles muito mais ortodoxos, imagine o quão surpresos ficaram os liberais. Os generais egípcios espantaram-se com a quantidade de jovens não ligados a nenhuma religião dispostos a enfrentar os tanques nas ruas para obrigar o Exército a ceder o poder. Hoje, na vida egípcia, reina uma certa atmosfera, do gênero “ah, você vive aqui também?”.
Quanto mais tempo você permanece neste país, mais claro fica que o Egito ainda não teve a sua revolução. O que houve foi uma revolta. O regime militar que tem governado o país desde 1952 continua no poder – somente um conselho militar substituiu os Mubaraks. Mas a revolta levantou a pesada tampa que abafava esta sociedade e permitiu a entrada de oxigênio. Isto, mais do que as recentes eleições parlamentares, permitiu a todas essas pessoas, partidos e vozes – de todas as esferas da vida egípcia – emergirem. É importante que o próximo presidente do Egito esteja disposto a dialogar com essas forças emergentes.
Mas para o Egito ter uma revolução democrática – uma verdadeira mudança na estrutura do poder e das instituições – todos estes partidos recém-eleitos terão de encontrar um modo de trabalhar para ter uma nova Constituição e um novo presidente. O que não será fácil. Os problemas sociais e econômicos que o país terá de superar são tremendos. Será necessária a união de toda a sociedade, mas as divisões e a falta de confiança entre os novos e antigos centros de poder – o Exército, a polícia de segurança, os jovens da Praça Tahrir, os islâmicos, cristãos, a maioria silenciosa, os liberais – são enormes. Este país necessita de um recolhimento para procurar se conhecer de novo.
Medo. Não é surpresa. Todos os autocratas árabes, como Mubarak, governaram seus países da mesma maneira : “cobrando para dar proteção”, diz Daniel Brumberg, codiretor da área de Estudos de Democracia Estudos de Governança na Universidade Georgetown. Grupos diferentes – minorias religiosas ou étnicas, o setor empresarial, islâmicos e ativistas seculares – foram colocados um contra o outro e “protegidos” pelo líder no topo da pirâmide. Todos viviam com medo de todos.
A notícia auspiciosa é que a política real manifestou-se aqui e alguns egípcios estão trabalhando para criar um elo de confiança entre os novos centros de poder. É o caso de Amr Hamzawy, liberal que acabou de ser eleito para o Parlamento que será inaugurado na segunda-feira. Ele e outras pessoas já iniciaram um debate com os partidos islâmicos sobre como vão cooperar para aprovar leis que levem o Egito a crescer novamente e mostrar que os novos detentores do poder conseguirão construir um país melhor.
Referindo-se aos novos membros do Parlamento, Hamzawy disse que “estamos nos apresentando uns aos outros. Mas temos a sociedade que nos aguarda. Temos que fazer o que esperam de nós. O grande desafio é transcender a polarização das eleições. Não conseguiremos fazer nada se houver uma polarização no Parlamento. É preciso superar as diferenças ideológicas.
Os liberais têm em torno de 20% das cadeiras. O Islã político tem dois terços. De modo que nossa tarefa é trabalhar para levar os moderados do lado do Islã político para o centro. Nosso desafio é definir esse novo centro estratégico para o Egito”. De alguma maneira, as novas e velhas forças devem agora encontrar um modo de partilhar o poder para reconstruir este país. O Egito desperdiçou grande parte dos últimos 30 anos. Não tem mais um minuto a perder.
*É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
FOUAD AJAMI, THE WASHINGTON POST
Quando, há um ano, começou a Primavera Árabe, o mundo ocidental ficou chocado. Até então, superficialmente, a impressão geral era que a liberdade tinha deixado os árabes para trás e eles pareciam resignados com a tirania. Mas assim que os levantes começaram foi impossível contê-los, instalou-se a desordem e brotaram as promessas nas ruas do mundo árabe. Desde então, as rebeliões provocaram rios de comentários e lugares comuns sobre a Primavera Árabe – em parte bastante equivocados. Vejamos o que havia realmente por trás das revoltas.
1. O discurso de Barack Obama no Cairo, em 2009, foi um dos elementos que inspiraram a Primavera Árabe. Nada poderia estar mais longe da verdade do que isso. Na época em que as rebeliões eclodiram, o romance entre árabes e muçulmanos e Obama havia se dissipado há muito tempo. O presidente americano esteve no Cairo em junho de 2009 prometendo um novo enfoque americano para o mundo árabe-muçulmano. Mas os aguerridos liberais do mundo árabe (e do Irã) não se deixaram enganar.
Embora Obama prometesse “um novo começo para as relações entre os EUA e os muçulmanos em todo o mundo, com base nos interesses e no respeito mútuos”, os árabes perceberam que o novo líder estava muito à vontade com a situação. Obama procurou melhorar as relações dos Estados Unidos com a Síria e o Irã, e tratou de enterrar rapidamente a “diplomacia da liberdade” de George W. Bush.
Os árabes rapidamente perceberam que o cosmopolitismo de Obama – o pai queniano, os anos passados na Indonésia – servia de disfarce para um político preocupado com os problemas internos do seu país.
2. Estas são as revoluções do Facebook e do Twitter. O Facebook e o Twitter ofereceram aos jovens dissidentes a possibilidade de comunicar entre si para atropelar as autocracias. Quando Wolf Blitzer da CNN perguntou a Wael Ghonim, o jovem executivo do Google que simbolizava a revolta da Praça Tahrir no Cairo, o que aconteceria após a queda de Hosni Mubarak, Ghonim respondeu: “Pergunte ao Facebook”. Foram homens e mulheres comuns que depuseram o faraó. Estas rebeliões foram inflamadas pelos elementos tradicionais: as multidões que saíam das mesquitas após as orações da sexta-feira nas cidades sitiadas da Síria; o teste das vontades entre regimes brutais e os indivíduos dotados de coragem suficiente para desafiar o poder; e os jovens de Deraa, Homs e Hama que venceram a cultura do medo e contestaram o despotismo.
Mohammed Bouazizi, o jovem verdureiro tunisiano que se imolou em dezembro de 2010, não tinha uma página no Facebook. Ele tinha motivos de sobra para estar indignado e desesperado. Deveríamos deixar de valorizar tanto a tecnologia, afinal, a penetração da internet no mundo árabe ainda é modesta.
3. O governo Obama sacrificou Mubarak. O presidente egípcio foi o responsável por sua própria queda. Washington supôs que Mubarak domaria a tempestade. O Egito, um país paciente, deu a Mubarak 30 anos. Em troca, o governante brincou com o seu povo e o menosprezou. Ele se instalou no topo de um regime sem lei e nunca designou um sucessor legítimo. (Até a pessoa mais obtusa sabia que ele pretendia transmitir o poder ao filho favorito.) Neste drama egípcio, os políticos de Washington limitaram-se ao papel de meros espectadores.
4. A queda de Saddam Hussein no Iraque inspirou a Primavera Árabe. Por ter apoiado a guerra do Iraque, gostaria de poder fazer esta ligação. Mas o Iraque, contrariamente às esperanças e às afirmações dos conservadores que defendiam a guerra, não é relevante para a Primavera Árabe.
Quando os protestos começaram no final de 2010, o Iraque já não despertava a atenção do mundo árabe. O sangue era derramado nas ruas do país, havia sectarismo, e poucos os árabes consideravam o primeiro-ministro Nuri al-Maliki um importante líder de uma nova cultura política.
A Praça Tahrir inspirou outros levantes, pois o Egito sempre foi um pioneiro na vida política e cultural árabe. Ocorre que o Iraque é um lugar peculiar. São pouquíssimos os árabes de outras partes do mundo, se é que há algum, que poderiam se identificar com o levante naquele país.
5. As rebeliões comprometerão ainda mais as perspectivas do processo de paz árabe-israelense. É verdade que baderneiros invadiram a Embaixada de Israel no Cairo depois da queda de Mubarak. Mas o entendimento árabe-israelense nunca chegou a florescer no tempo das ditaduras.
Os líderes das rebeliões árabes talvez não sejam defensores fervorosos da paz com Israel, mas hoje já reconhecem que as ditaduras usaram o conflito com Israel como um álibi conveniente para seus fracassos políticos e econômicos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
É MEMBRO SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE DE STANFORD

Os partidos islâmicos recém-eleitos não terão as mesmas condições de grupos do Irã e da Arábia Saudita para resolver os problemas do povo e impor regras religiosas
THOMAS L.FRIEDMAN, DO THE NEW YORK TIMES*
Depois que a Irmandade Muçulmana e o ainda mais radical partido islâmico Al- Nur, salafista, causaram espanto a si próprios e aos egípcios com a conquista de mais de 60% dos assentos nas eleições parlamentares egípcias, estamos perto de ver um teste de laboratório único para o Oriente Médio: o que ocorre quando o Islã político precisa fazer frente à modernidade e à globalização sem petróleo?
Movimentos islâmicos dominam desde há muito o Irã e a Arábia Saudita. Contudo, tanto os aiatolás no Irã quanto os salafistas wahabitas na Arábia Saudita conseguiram assegurar sua ideologia e também os frutos da modernidade, pois possuíam uma enorme riqueza de petróleo para safar-se de quaisquer contradições. A Arábia Saudita pôde subutilizar suas mulheres e impor costumes religiosos rígidos à sua sociedade, seus bancos e escolas. Os clérigos do Irã puderam fazer pouco do mundo, perseguir a nuclearização e impor pesadas restrições políticas e religiosas no país. E ambos ainda puderam oferecer a seus povos padrões de vida melhores, pois tinham petróleo.
Ajuda. Os partidos islâmicos do Egito não terão esse luxo. Eles terão de se abrir para o mundo, e parecem estar percebendo isso. O Egito é um importador líquido de petróleo. Ele também importa 40% de seus alimentos. E o turismo contribui com um décimo de seu Produto Interno Bruto. Com o desemprego desenfreado e a libra egípcia desvalorizando-se, o Egito provavelmente precisará de ajuda do Fundo Monetário Internacional, uma forte injeção de investimento estrangeiro e um grande uso de educação moderna para proporcionar empregos a todos aqueles jovens que organizaram a rebelião do ano passado. O Egito precisa ser integrado ao mundo.
A Irmandade Muçulmana, cujo partido se chama Liberdade e Justiça, tem sua grande fonte de apoio nas classes médias e nas pequenas empresas. O Partido Al-Nur, salafista, é dominado por xeques religiosos e se apoia nas camadas pobres rurais e urbanas.
Essan el-Erian, o vice-presidente do partido da Irmandade Muçulmana, me disse: “Esperamos poder motivar os salafistas – e não que eles nos motivem – e que ambos sejamos motivados pelas necessidades do povo.”
Diferença. Ele deixou claro que, embora o Liberdade e Justiça e o Al-Nur sejam partidos islâmicos, eles são muito diferentes, e podem não dar as mãos no poder: “Como grupo político, eles são recém-chegados, e eu espero que todos possam descobrir a diferença entre o Al-Nur e a Liberdade e Justiça.”
Sobre o tratado de paz com Israel, Erian disse: “Esse é um compromisso do Estado – não de algum grupo ou partido – e nós já dissemos que estamos respeitando os compromissos do Estado egípcio do passado.” Basicamente, acrescentou, as relações com Israel serão determinadas pela maneira como o país tratar os palestinos. Mas, falando de modo geral, ele disse: “os problemas econômicos do Egito estão nos empurrando para cuidar de nossos próprios assuntos”.
Muhammad Khairat el-Shater, o vice-presidente da Irmandade Muçulmana e seu guru econômico, deixou claro para mim que sua organização pretende se abrir para o mundo. “Já não é uma questão de escolha ser a favor ou contra a globalização”, ele disse. “Ela é uma realidade. De nossa perspectiva, defendemos um engajamento o mais amplo possível na globalização por meio de situações em que todos saem ganhando.”
Nader Bakkar, um porta-voz do Al-Nur, insistiu que seu partido agirá com cautela. “Nós somos os guardiães da sharia”, ele me disse, referindo-se à lei islâmica. “E queremos que o povo esteja conosco sobre os mesmos princípios, mas deixamos a porta aberta para todos os intelectuais em todos os campos.”
Ele disse que o modelo econômico de seu partido é o Brasil. “Não gostamos do modelo teocrático”, acrescentou. “Posso lhe prometer que não seremos outra ditadura, e o povo egípcio não nos dará uma chance de ser outra ditadura.” Em novembro, Hazem Salah Abu Ismail, um clérigo salafista independente e candidato presidencial, foi questionado por um entrevistador sobre como ele reagiria, se presidente, a uma mulher usando biquíni na praia? “Ela seria presa” , ele disse.
O Partido Al-Nur rapidamente declarou que ele não estava falando pelo partido. A agência France Presse citou outro porta-voz do Al-Nur, Muhammad Nour, também procurando afastar temores levantados na mídia noticiosa de que os salafistas poderiam proibir bebidas alcoólicas, artigo de grande consumo em hotéis de turistas no Egito. “Talvez 20 mil dos 80 milhões de egípcios consumam bebidas alcoólicas”, ele disse. “Quarenta milhões não têm água tratada. Você acha que, no Parlamento, eu me ocuparei das pessoas que não têm água ou das pessoas que se embebedam?”
O que tirar de tudo isso? Os islâmicos egípcios terão algumas grandes decisões a tomar. Tem sido fácil manter um alto grau de pureza ideológica todos esses anos em que eles estiveram fora do poder. Mas sua súbita ascensão ao topo da política egípcia coincide com uma queda livre da economia do Egito.
Responsabilidade. E assim que o Parlamento for aberto, em 23 de janeiro, os islâmicos do Egito terão a maior responsabilidade pelo ajuste dessa economia – sem o petróleo. Um drama semelhante está ocorrendo na Tunísia.
Eles não querem estragar essa chance de liderar, mas querem ser leais a suas raízes islâmicas, contudo sabem que seus apoiadores os elegeram para oferecer um governo limpo, educação e empregos, e não mesquitas. Será fascinante observar como eles lidam com esses dilemas. Seu desempenho terá um enorme impacto no futuro do Islã político nessa região.
É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Grupo religioso crê que os egípcios associarão ‘projeto islâmico’ ao êxito econômico caso o país se aproxime do modelo turco, em uma espécie de sonho calvinista árabe
Por Shadi Hamid, da Foreign Affairs*
Saber o que os islâmicos desejam agora se tornou urgente, graças às recentes eleições no Egito, que devem dar ao braço político da Irmandade Muçulmana, o Partido Justiça e Liberdade (PJL), mais de 40% dos assentos no Parlamento. Apesar da percepção de que a Irmandade é uma organização rígida e radical, o fato é que nem os islâmicos estão inteiramente seguros do que querem.
Observadores ocidentais concentram excessiva atenção na ideologia da Irmandade. No caso da maioria dos partidos políticos egípcios, incluindo o PJL, a crença raramente é prognóstico preciso de seu comportamento. Como afirmei num artigo na edição de maio/junho de 2011 da Foreign Affairs (A ascensão dos islâmicos), a Irmandade Muçulmana, longe de ser uma entidade ideologicamente inflexível, é essencialmente política e comprometida com os ideais de atender aos interesses da organização. Isso a torna muito mais preparada para mudanças do que muita gente hoje imagina.
Na verdade, o islamismo da Irmandade é difícil de ser detectado pelas políticas proclamadas por ela, muitas sem relação com a lei islâmica. Os dias da década de 80, quando o grupo pregava a implementação da sharia por meio da luta armada, há muito tempo se tornaram passado. O Islã é mais bem compreendido como motivador das ações da Irmandade, mais do que o seu produto. Como se trata de um movimento religioso com um amplo currículo educacional e uma estrutura de membros complexa de vários níveis, cada “irmão”, por definição, é religiosamente conservador. Os membros da entidade não sentem necessidade de provar sua identidade religiosa.
Claro que há uma facção mais intransigente ganhando espaço no Cairo. Com as eleições, fica evidente que a Irmandade não tem mais o monopólio dos votos dos egípcios conservadores – os salafistas, ainda mais radicais e defensores de uma interpretação literal da lei islâmica, constituirão o segundo maior bloco no Parlamento, com cerca de 20% das cadeiras. Tendo rejeitado há muito tempo a política por razões teológicas e práticas, eles são principiantes nessa área. Nisso reside o seu apelo; no momento, eles parecem inconscientes dos compromissos inerentes à vida política.
Enquanto os salafistas mostram-se excessivamente impacientes, a Irmandade aposta no longo prazo. Seus membros procuram dar a impressão de que não têm pressa, o que, durante os anos de repressão do governo do presidente Hosni Mubarak, era visto erroneamente como concordância e resignação. Quando você acredita que a história está do seu lado, tudo o que tem a fazer é esperar o momento certo. E este momento parece ter chegado para a Irmandade. A questão é o que fazer com ele.
Economia e fé. No passado, a Irmandade distanciou-se dos islâmicos turcos liderados por Recep Tayyip Erdogan, considerando-os desleais aos preceitos islâmicos, transformados em pouco mais do que democratas conservadores ao estilo europeu. Mas, tendo sobrevivido à repressão imposta por Mubarak com uma real chance de governar, a Irmandade tem voltado cada vez mais os olhos para o modelo turco.
O que aprendeu do Partido Desenvolvimento e Justiça, de Erdogan, é que um crescimento econômico vigoroso torna tudo mais fácil. Se você melhora o padrão de vida das pessoas, elas estarão mais predispostas a ouvi-lo em assuntos não econômicos. E talvez mais importante, a Irmandade acredita que os egípcios associarão o sucesso econômico ao “projeto islâmico” – uma espécie de sonho calvinista árabe.
Para isso, ela precisa primeiro ser capaz de conduzir os assuntos econômicos do Egito. Portanto, não é por acaso que o grupo considera altamente prioritário reformular as decadentes estruturas políticas do país.
Com base nas estruturas legais e constitucionais vigentes, o Egito continua com um sistema presidencial exacerbado e com um Legislativo muito fraco. Como o maior bloco representado no Parlamento, a Irmandade pretende fazer pressão no sentido de um sistema parlamentar puro, com o presidente tendo uma função amplamente cerimonial. Em parte, trata-se de um evidente interesse pessoal. A democracia parlamentar – sistema que recompensa a disciplina partidária, as negociações sub-reptícias e as coalizões flexíveis – ajusta-se sob medida a grupos como a Irmandade, que parecem ter prazer nas manobras políticas sem muitas reservas.
Um Parlamento mais sólido daria à Irmandade uma plataforma poderosa para desafiar o conselho militar no governo, que parece cada vez menos disposto a se desvencilhar do poder. Parte disso, contudo, vai além dos objetivos no curto prazo. Em razão de décadas de repressão durante três presidentes sucessivos, a Irmandade Muçulmana teme que um ditador possa surgir novamente.
Com efeito, como organização hierárquica e bastante institucionalizada, ela sempre deu prioridade às estruturas, mais do que aos indivíduos. É revelador o fato de que, nas últimas décadas, a Irmandade não tenha conseguido produzir líderes carismáticos no plano nacional. Assim, no campo da política egípcia, os “irmãos” também respeitam as instituições.
A presença dos salafistas, entretanto, ameaça complicar as coisas. Se a Irmandade perceber que precisa se mover para o centro – de modo a tranquilizar os liberais mais céticos e a comunidade internacional – ela o fará. E se sentir que deve se inclinar para a direita – para competir com os salafistas – então também mudará. Mas poderá agir de ambas maneiras, concedendo algumas coisas para os liberais e, ao mesmo tempo, reafirmando suas credenciais religiosas para aglutinar sua base conservadora.
Por escolha ou necessidade, esse parece ser o caminho escolhido. Nos vilarejos da zona rural, mais conservadores, onde enfrenta os salafistas, os irmãos muçulmanos lembram os eleitores da sua história de perseguição e retornam à retórica religiosa feroz. No Cairo, na mídia, nas reuniões com delegações de políticos e investidores visitantes, a Irmandade mostra sua face mais sensível. Alguns críticos da entidade chamam isso de “dupla retórica”. Para outros, é política.
*É ANALISTA DO BROOKINGS INSTITUTE
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Os militares, a Irmandade Muçulmana, liberais e esquerdistas parecem despreparados para a transição
Por Anthony Shadid, do New York Times*
Se as manifestações de fevereiro foram um levante contra o presidente Hosni Mubarak, a revolta agora é contra seu legado. “Esta é a verdadeira revolução”, disse Mohammed Aitman na eufórica Praça Tahrir.
Os vestígios da ordem de Mubarak – os militares, a Irmandade Muçulmana e outros grupos islâmicos, ou liberais e esquerdistas fragmentados – parecem despreparados para conduzir a transição de seu regime. Esse é um acerto de contas no geral mais difícil que o que se repetiu nas revoltas árabes na Síria, Líbia, Iêmen e Bahrein.
A estratégia, que por tanto tempo conseguiu reprimir com sucesso a ira pública e solapar a vontade de rebelião das pessoas, não está mais funcionando.
Consequentemente, não está absolutamente claro que caminho o Egito encontrará para seguir adiante. As autoridades esperavam que os manifestantes se cansariam e iriam para casa, mas não foram. Os militares tentaram a violência, mas ela não funcionou. Tentaram concessões limitadas, mas não funcionaram. E culparam estrangeiros por incitar a violência, e isso não funcionou.
Isso pode prenunciar um período prolongado e perigoso de agitação no Egito e o espetacular show de insatisfação na Praça Tahrir demonstra que não há nenhuma instituição para canalizar suas frustrações. Os militares parecem em grande parte inconscientes da escala dos protestos, e os partidos islâmicos estão obcecados com seus objetivos políticos , pois preveem uma votação favorável nas próximas eleições. Não surgiu nenhum líder, de nenhum viés ideológico, para canalizar a insatisfação que de novo ocupa as ruas.
“Hoje vemos a falência da classe política”, disse Ibrahim el-Houdaiby, analista político no centro de pesquisa Dar al-Hikma no Cairo. “O povo sente-se traído.” Um dos feitos duradouros de tantos autocratas árabes, alguns deles ainda no poder, foi sua capacidade de cooptar, eviscerar ou abolir as instituições que poderiam guiar a transição na sua ausência, ao mesmo tempo em que jogavam com as divisões sociais para prolongar seu regime.
Ferozmente oprimida durante muito tempo, a oposição da Síria teve dificuldade para articular uma visão que inspire confiança nas minorias do país. A implacável destruição das instituições líbias pelo coronel Muamar Kadafi deixou um país cujas regiões às vezes agem como cidades-Estado autônomas e onde tribos servem de estrutura social primária. A monarquia no Bahrein atiçou com tanta eficácia as divisões sectárias que uma sociedade antes cosmopolita pode estar polarizada demais para se reconciliar.
A versão do Egito de um legado autoritário ficou exposta na terça-feira, quando militares acostumados a décadas de privilégios recusaram-se a entregar o poder real, e uma classe política intimidada por anos de autoritarismo – a Irmandade Muçulmana é o exemplo mais destacado – pareceu oportunista, defensiva ou sem imaginação.
Para muitos na Praça Tahrir, os políticos ou estavam defendendo seus interesses ou se mostrando incapazes de apresentar uma visão capaz de conter a pior crise que o Egito enfrenta desde a deposição de Mubarak, em fevereiro. O ódio era tão grande que um político da Irmandade foi enxotado da praça por uma multidão que se sente determinada, mas sem liderança.
“Ainda estamos lidando com o sistema de Mubarak!”, disse Mustafá Tobgi, um funcionário público de 56 anos. “Eles todos são formados na escola de Mubarak.”
“O abismo entre os militares e os manifestantes é tão grande agora que é quase impossível ser transposto”, disse Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Brookings Doha Center, que está visitando o Cairo. “Esse é o problema. O máximo que os militares podem oferecer não bate com o mínimo que os manifestantes estão pedindo.”
*É JORNALISTA E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
Nesta sexta-feira, ocorre uma coincidência numérica curiosa: é o 11º dia do 11º mês de 2011, ou seja, 11/11/11. Para marcar a data, apresentamos a seguir uma lista de 11 eventos internacionais relevantes que ocorreram ao longo da história em algum dia 11. Confira.
Veja também:
HOTSITE: Veja outras listas de 11
11/11/1918 – Compiègne, França. A assinatura do armistício da 1ª Guerra Mundial (que, ocorreu, curiosamente, às 11h da manhã em uma carruagem na cidade francesa que emprestou seu nome ao tratado), colocou fim ao confronto que matou cerca de 19 milhões de pessoas na Europa ao longo de quatro anos (1914-1918).

11/01/1946 – Tirana, Albânia. Enver Hoxha, líder da Albânia desde o fim da Segunda Guerra Mundial até sua morte (também num dia 11, em abril de 1985), proclama a República Popular da Albânia após a queda do rei Zog. O rei tinha sido responsável por abolir a lei islâmica no país e adotar um código civil baseado no modelo suíço, da mesma forma que a Turquia de Atatürk havia feito.

11/01/1964 – Cidade do Panamá, Panamá. O Panamá corta relações com os Estados Unidos por conta de conflitos relacionados com o Canal do Panamá, que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico. Após diversas disputas pela soberania do canal, os dois países assinam um acordo, em 1977, que passa seu controle aos panamenhos, algo que só foi concretizado de fato em 2000.

11/09/1973 – Santiago, Chile. Um golpe de Estado no Chile, que resultou na morte, ainda hoje cercada de mistérios, do então presidente Salvador Allende, inaugurou a ditadura militar que duraria quase 17 anos. Aliás, o fim do regime também ocorreu num dia 11, em março de 1990.

11/11/1975 – Luanda, Angola. Embora a independência angolana de Portugal tenha sido declarada no dia 10 de novembro, o “povo angolano” passou a ter soberania sobre o país no dia seguinte. O resultado, contudo, foi uma guerra civil que durou três décadas e acabou apenas em 2002.

11/01/1994 – Dublin, Irlanda. O governo da Irlanda acaba com a censura ao movimento IRA, grupo paramilitar católico que defende a separação da Irlanda do Norte do Reino Unido e sua reanexação à República da Irlanda.

11/09/2001 – Nova York e Washington, EUA. O maior ataque terrorista ocorrido em solo americano, usando aviões comerciais contra as torres gêmeas e o Pentágono, foi assumido mais tarde pela Al-Qaeda. No evento, que recentemente completou dez anos, morreram quase 3 mil cidadãos americanos e de outros países.
11/03/2004 – Madri, Espanha. Uma série de explosões coordenadas no sistema de trens da capital espanhola deixou 191 mortos e 1,8 mil feridos – e ocorreu três dias antes das eleições no país, mudando seu resultado. A Al-Qaeda se responsabilizou pelos ataques, que teriam sido feitos em resposta à presença da Espanha no Iraque.
11/02/2011 – Cairo, Egito. Após 18 dias de intensas manifestações pacíficas nas ruas do Cairo e de outras cidades egípcias, o presidente Hosni Mubarak, que estava no poder havia 30 anos, cedeu e renunciou. Ele foi o segundo presidente da chamada “primavera árabe” a deixar o cargo, depois do colega da Tunísia. Mais tarde, Mubarak seria julgado.
11/03/2011 – Japão. O terremoto de 8.9 graus seguido de tsunami no Japão foi imenso nos números: segundo a polícia nacional japonesa, foram quase 16 mil mortos, cerca de 6 mil feridos e mais de 3,5 mil pessoas desaparecidas, além de um prejuízo trilionário para o país.

11/10/2011 – Jerusalém, Israel. Após mais de 5 anos desde a captura do soldado israelense Gilad Shalit na fronteira com a Faixa de Gaza, o governo israelense anunciou um acordo com o Hamas para troca de prisioneiros. A troca de Shalit por 1.027 palestinos começaria uma semana depois.

Fotos: Reprodução
Democracias que substituem regimes árabes depostos talvez não sejam ideais, mas são melhores do que a tirania
JOHN HUGHES, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR*
Este tem sido um ano ruim para os déspotas. A primavera árabe os derrubou na Tunísia, no Egito e na Líbia. Quem será o próximo? E qual será o tipo de democracia que o mundo árabe vai adotar?
Os mais comentados dentre os possíveis futuros déspotas depostos são os líderes da Síria e do Iêmen. O sírio Bashar al-Assad, educado no Ocidente, já foi um dia anunciado como um convertido à reforma democrática. Mas se revelou um assassino tão agressivo quanto foi o pai, a quem sucedeu. A rebelião no país tem se arrastado e os manifestantes parecem determinados. Agora, a Liga Árabe está trabalhando num plano para a realização de eleições livres na Síria e a retirada dos tanques e blindados leves das ruas.
Enquanto isso, o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, que se mantém no poder há mais de três décadas, encontra-se sitiado, mas insiste em recusar os acordos que o afastariam do cargo. Há no país a ameaça de uma guerra civil aberta.
Atentos à tempestade política que varre o deserto, outros governantes árabes, como o rei Abdullah, da Jordânia, e o rei Mohammed, do Marrocos, falaram em ceder ao povo parte do poder monárquico. Resta saber se isso poderá salvá-los no longo prazo.
Na Arábia Saudita, a monarquia tentou afastar a insatisfação por meio da distribuição dos lucros do petróleo entre seus súditos. Foi feita a promessa de mais autonomia para as mulheres, conferindo-lhes o direito de votar nas eleições locais. Desde a recente morte do príncipe Sultan, o novo herdeiro do trono é o príncipe Nayef, ministro do Interior. Ele mantém um relacionamento próximo com o influente e conservador clero do país. E opõe-se a algumas das reformas anunciadas.
Graças ao sacrifício americano, o Iraque viu-se livre do ditador, Saddam Hussein. O fraturado governo do país, formado por múltiplas vozes e partidos, está longe do ideal. Mas é o tipo de democracia imperfeita com que os ocidentais precisam demonstrar paciência enquanto milhões de muçulmanos descobrem o caminho da liberdade. Para os iraquianos, a verdadeira pergunta é se eles querem que seu país se torne uma província do ameaçador vizinho iraniano.
A Tunísia, que liderou a primavera árabe, parece ter dado seus primeiros passos na democracia com as eleições de outubro. Os egípcios, livres de Hosni Mubarak, estão se debatendo com a relutância do Exército em entregar o controle das alavancas do poder e do comércio.
O povo da Líbia poderá agora beneficiar-se do substancial lucro da exploração do petróleo, açambarcado por tantas décadas por Muamar Kadafi e sua família. Mas um país com mais de 100 tribos diferentes terá de realizar eleições livres, criar um sistema coerente de governo e construir a infraestrutura nacional para um povo que passou mais de 40 anos submetido aos caprichos de um tirano.
A grande esperança no Oriente Médio está na maneira com a qual as mulheres participam da mudança, mostrando sua coragem nas barricadas, exigindo voz na formulação dos novos governos e reivindicando o respeito há tanto tempo negado. Será que há outros ditadores prestando atenção ao destino desses tiranos árabes? O Irã fica no Oriente Médio, mas não é árabe. Seus líderes parecem nada ter aprendido com a primavera árabe.
Na Coreia do Norte, Kim Jong-il pretende dar continuidade à tradição da ditadura dinástica ao nomear seu filho como sucessor. Na África, Robert Mugabe, do Zimbábue, preside uma brutal ditadura que mata e aprisiona os opositores que protestam contra o governo. Apesar dos tiranos que ainda restam, estamos testemunhando um extraordinário levante em favor da liberdade numa parte importantíssima do mundo. Pode não ser o tipo de democracia que os ocidentais preferem. Mas, como disse certa vez o sábio Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo – exceto todas as outras”.
*É EX-EDITOR DO ‘CHRISTIAN SCIENCE MONITOR’
Várias mulheres do Ennahda, partido islâmico que venceu as eleições na Tunísia, foram eleitas para a Constituinte
*MONICA MARKS, THE NEW YORK TIMES

Na Tunísia, onde a imolação de um vendedor desencadeou a primavera árabe, mais de 90% dos eleitores compareceram às primeiras eleições livres. Filas de cidadãos radiantes com os dedos lambuzados de azul saíam dos locais de votação, postando orgulhosamente fotos de seus dedos manchados no Facebook.
Apesar do sucesso da eleição, muitos temem que a democracia desencadeie um tsunami religioso. O partido islâmico Ennahda, banido como grupo terrorista pelo ex-ditador Zine Abidine Ben Ali, recebeu 40% dos votos – uma expressiva maioria. Uma pequena, embora influente, minoria de tunisianos seculares prevê que uma Assembleia Nacional dominada pelos fundamentalistas islâmicos revisará partes importantes da legislação de direitos civis, incluindo as que reconhecem o direito ao aborto e a proibição da poligamia.
As feministas seculares da Tunísia, muitas admiradoras do secularismo francês, veem as mulheres do Ennahda como agentes involuntárias da própria submissão. Embora o partido apoie o Código de 1956 – a lei sobre direitos das mulheres mais progressista do mundo árabe -, seus críticos o acusam de “duplo discurso”. Ele adotaria uma linha tolerante ao falar com secularistas francófonos, mas pregaria uma mensagem conservadora ao dirigir-se à sua base rural.
Em vez de desenvolver plataformas sólidas próprias, os partidos de oposição seculares, como o Ettajdid, concentraram-se no alarmismo, levantando o espectro de uma tomada do poder ao estilo iraniano e a imposição da sharia, a lei do Islã. Daniel Pipes e outros analistas entraram na disputa, conclamando Washington a opor-se ao “flagelo” do Ennahda e rotulando o islamismo de “maior inimigo do mundo civilizado”.
Ainda é cedo, porém, para soar o alarme. Por causa de sua participação ativa na política partidária, as mulheres do Ennahda podem ser mais beneficiadas pela eleição do dia 23 do que qualquer outro grupo. Em maio, a Tunísia aprovou uma lei de paridade extremamente progressista, parecida com a da França, exigindo que sejam mulheres a metade dos candidatos do país.
Partido há muito tempo reprimido, o Ennahda tem mais credibilidade do que outros grupos. Ele também tem um número de candidatas maior do que qualquer outro partido e, por isso, apoia a lei de paridade. Muitas tunisianas desenvolveram uma consciência política em reação à perseguição ao Ennahda movida por Ben Ali nos anos 90. Enquanto seus maridos, irmãos e filhos estavam na prisão, elas descobriram que tinham uma participação pessoal na política e a força de se sustentarem sozinhas como chefes de famílias. Quando o partido foi legalizado, em março, encontrou nelas uma ampla base de apoio.
Como foi vencedor nas eleições, o Ennahda enviará o maior bloco de mulheres parlamentares à Assembleia Constituinte de 217 membros. A questão agora é como elas governarão. Serão títeres do patriarcado islâmico ou apenas feministas que usam lenços na cabeça?
Após entrevistar 46 mulheres ativistas e candidatas do Ennahda, descobri que muitas se voltaram para a política após experimentar discriminação no emprego, detenções ou anos de prisão. Para algumas, essa eleição tem a ver tanto com a liberdade religiosa quanto com qualquer outra coisa. “Tenho mestrado em Física, mas não fui autorizada a lecionar durante anos por causa disso”, disse uma mulher de 43 anos chamada Nesrine, puxando a ponta de seu hijab com estampa floral, véu banido no tempo de Ben Ali, mas legalizado desde a queda dele.
Segundo Mounia Brahim e Farida Labidi, membros do Conselho Executivo do Ennahda, o partido saúda a presença de mulheres fortes e críticas em suas fileiras. “Olhe para nós”, disse Mounia. “Somos médicas, professoras, donas de casa, mães – às vezes, nossos maridos concordam com nossa política; às vezes, não. Mas estamos aqui e somos ativas.” Elas, provavelmente, não se oporão à lei sobre direitos das mulheres.
As mulheres do Ennahda são, antes de tudo, tunisianas. Elas são bem educadas e seu islamismo é relaxado e progressista. Desde os anos 50, elas têm mais proteção legal do que suas congêneres de outros países árabes. Hoje, tentam conciliar o legado de políticas de direitos civis inspiradas nos franceses com as aspirações de um público devoto. O desafio do Ennahda é chegar a um equilíbrio.
Para tanto, o partido declarou que imitará o exemplo do AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento), da Turquia, que reprimiu a corrupção, transformou mulheres em parceiras políticas e alcançou taxas admiráveis de crescimento econômico. Reproduzir esse modelo de moderação e prosperidade será difícil na Tunísia, um país com níveis estarrecedores de desemprego e 25% de analfabetismo. A democracia ao estilo turco pode parecer menos progressista em Túnis do que em Istambul, onde bares de clubes de dança pontilham as ruas da cidade. Existe uma chance, é claro, de que os avanços para as mulheres sejam revertidos. Como a história mostrou nos EUA, na França, na Argélia e no Irã, movimentos revolucionários nem sempre levam à igualdade de gêneros ou a políticas mais inclusivas. Em geral, as mulheres lutam pela libertação e são deixadas de lado quando se formam os novos governos.
As tunisianas, porém, estão bem situadas para evitar esse destino. Até agora, o país fez um bom trabalho ao incluir mulheres em suas instituições tradicionais, especialmente na comparação com o Egito, onde o Conselho Supremo das Forças Armadas proibiu mulheres de liderarem qualquer lista partidária. O Ennahda até agora usou seu peso político para estimular – e não para obstruir – a participação de mulheres na política. Suas ativistas estão apresentando um modelo mais acessível de “feminismo islâmico” a muitas mulheres tunisianas rurais e socialmente conservadoras.
Francas, ativas e com frequência veladas, elas se sentem confortáveis com a linguagem de piedade e política. Apesar do alarmismo dos céticos seculares e comentaristas ocidentais, suas ações e aspirações lembram muito mais o AKP da Turquia do que a Irmandade Muçulmana do Egito.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
*É DOUTORANDA EM ESTUDOS DO ORIENTE MÉDIO NA UNIVERSIDADE DE OXFORD
Com a morte de Muamar Kadafi, ditador da Líbia que estava havia 42 anos no poder, o mapa da primavera árabe apaga mais um líder. Confira como vai o “ditadômetro” dos países nos quais as revoltas começaram no final de 2010.
*ETHAN BRONNER
A troca de prisioneiros entre o Hamas e Israel poderá mudar as relações regionais, fortalecendo o Egito, o Hamas e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel, e representar um sério desafio para a Autoridade Palestina na Cisjordânia. Uma das consequências no longo prazo poderá ser um movimento palestino fortemente influenciado pelo Hamas, inspirado na primavera árabe e mais disposto ao confronto, o que aumentaria as dificuldades de Israel e estreitaria as relações entre o Hamas, o Egito e a Turquia.
Os detalhes do acordo não foram revelados e é difícil determinar o motivo que levou os dois lados a um entendimento depois de anos de impasse. No entanto, os crescentes tumultos na região foram um elemento preponderante, assim como a evolução da política interna.
O Hamas, preocupado com sua base na capital síria, Damasco, onde está havendo um levante contra o presidente Bashar Assad, está sondando Turquia e Egito como possíveis refúgios futuros. O acordo ajudará o grupo em ambos os seus objetivos. Israel, por seu lado, temendo que, depois das eleições no Egito, o governo daquele país não lhe seja favorável, achou mais conveniente agir agora.
Além disso, é possível que a concretização do acordo entre Hamas e Israel seja uma consequência dos esforços da Autoridade Palestina, dominada pelo Fatah, para obter sua aceitação como membro da ONU. O Hamas, que governa Gaza e quer a destruição de Israel, criticou a decisão. No momento, Abbas está tendo problemas em obter suficiente apoio no Conselho de Segurança e entre as principais potências europeias.
Para Netanyahu, trazer de volta Gilad Shalit, cuja imagem está em toda parte em Israel, será um significativo feito político. O anseio popular pelo retorno do soldado, em muitos aspectos, é comparável ao movimento de protesto social aqui, iniciado nos últimos meses com a revolta contra o custo de vida elevado. Essa vitória pode promover a união numa sociedade fragmentada e estender seu mandato.
Para o Hamas, o momento da troca é quase ideal. Nas suas negociações com Israel, o Hamas insistiu para que todas as facções palestinas, bem como os árabes-israelenses e os residentes em Jerusalém, estivessem representados entre os prisioneiros que serão libertados, dando-lhe a possibilidade de afirmar que o grupo está zelando por todos os palestinos.
Ambas as partes cederam em alguns pontos que defendiam obstinadamente havia muito tempo. O Hamas concordou em retirar de sua lista alguns dos prisioneiros mais perigosos do ponto de vista de Israel e aceitou que alguns prisioneiros fossem enviados para o exílio por certo número de anos, condição que anteriormente rejeitara.
Israel concordou em permitir o retorno de outros prisioneiros para a Cisjordânia, convicto de que as forças de segurança palestinas na região estão mais preparadas e pelo fato de os militares israelenses manterem um controle rigoroso no território.
A troca, no entanto, poderá também enfraquecer Abbas e a Autoridade Palestina na Cisjordânia. Se as conversações a respeito de um futuro Estado palestino não forem retomadas, essas forças de segurança poderão mudar o seu objetivo. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
*É escritor e jornalista do New York Times
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