Expurgo de importante governador pode ser o início de mudanças pelas quais a China deve passar com urgência
JONATHAN FENBY
THE NEW YORK TIMES
A poeira ainda não assentou sobre o dramático caso de Bo Xilai na China. Na realidade, talvez isso nunca aconteça, apesar de um informe de Pequim no qual o Partido Comunista anuncia a decisão de suspender Bo e a prisão de sua esposa. Faz 41 anos desde que a fulgurante figura da política chinesa, Lin Piao, considerado o sucessor de Mao, caiu em desgraça e morreu num acidente aéreo depois de uma aparente tentativa de golpe e ainda não sabemos exatamente o que aconteceu na época.
Mas entre os boatos de uma tentativa de golpe e as divisões do Politburo, além da morte em circunstâncias obscuras de um empresário britânico na antiga fortaleza de Bo, começam a aparecer importantes elementos que provavelmente terão um peso considerável para entender a evolução do último grande país governado pelo Partido Comunista.
Este ano assinalará o começo de uma significativa transição na liderança política da China, no congresso quinquenal do Partido Comunista (provavelmente em outubro) que se reunirá para escolher um novo Politburo. Pelo menos seis dos nove membros atuais do organismo supremo do partido, o Comitê Permanente, serão substituídos por terem atingido a idade limite para exercer o cargo. A demissão de Bo Xilai foi considerada uma bomba que subverteu o processo.
E isso não deixa de ser verdadeiro. Ambicionando tornar-se membro do Comitê Permanente, Bo, um expert em comunicações, tornara-se uma personalidade da política chinesa com propostas populistas de apelo para o grande público, de uma evolução do Estado de cima para baixo, de programas sociais, uma cruzada contra a criminalidade e a evocação dos antigos valores, obrigando as pessoas a cantar “hinos vermelhos”. Bo mandou também erguer uma estátua de Mao de oito andares de altura na cidade universitária. Por isso, o drama de sua queda ganhou naturalmente as manchetes. Mas ao mesmo tempo produziu uma maior estabilidade no topo porque as principais facções cerraram fileiras.
Bo não se coadunava com a estratégia do consenso utilizada pelo líder do partido, que hoje está prestes a sair, Hu Jintao. Sua base de poder em Chongqing, com 32 milhões de habitantes, fazia com que ele parecesse uma versão política dos caudilhos regionais que governaram a China na década de 20. Era um político de enormes ambições que mais cedo ou mais tarde seria derrubado, e quando permitiu que a saga ainda misteriosa envolvendo um ex-chefe de polícia de Chongqing com a morte do empresário britânico escapasse do controle, seu destino foi selado.
A China está às voltas com uma grave crise ambiental e uma aguda escassez de água está se ampliando no norte do país. Pequim carece de uma política externa coerente. A corrupção grassa. As regulamentações e as normas de segurança são fracas. Há uma enorme falta de confiança nas instituições. A queda da taxa de natalidade e o aumento da longevidade indicam que a demografia passará por uma mudança ao longo desta década, de modo que os membros da República Popular poderão se tornar cada vez mais longevos antes de se tornar ricos. O materialismo derrubou ao mesmo tempo o comunismo e o confucionismo. Os monges e as freiras tibetanas estão se imolando para protestar contra o governo chinês e há constantes confrontos étnicos.
Todos reconhecem a necessidade de reequilibrar a excessiva dependência da economia dos investimentos em infraestrutura e no setor imobiliário, além das exportações, e de fazer com que ela se volte para o consumo interno. Os reformadores enfrentam uma formidável oposição. Wen e Li talvez falem de mudança, mas o Partido Comunista é mais poderoso do que o governo e o movimento outrora revolucionário tornou-se um agente da situação. As empresas estatais exercem monopólios ou oligopólios estreitamente ligados ao sistema político. O governo de consenso impede a adoção de medidas rigorosas.
A evolução desse processo determinará se a China encontrará um futuro por si mesma ou se tornará enredada nas consequências do seu sucesso. O resultado terá importantes implicações para o globo. Se a queda de Bo ajudou a abrir as portas da mudança, terá sido de certo modo benéfica. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
EX-DIRETOR DOS JORNAIS THE OBSERVER E THE SOUTH CHINA MORNING POST

Ao afastar do poder Bo Xilai e seu modelo regional de capitalismo de Estado, o Partido Comunista busca conter o risco de instabilidades econômica e política de uma só vez
STEPHEN S. ROACH
PROJECT SYNDICATE
O conceito fundamental que aprendi quando comecei a me concentrar no estudo da China, no final dos anos 90, é que nada é mais importante para os chineses do que a estabilidade – a estabilidade econômica, social ou política.
Considerando os séculos de turbulências desse país, os líderes de hoje farão tudo o que estiver em seu poder para preservar a estabilidade. Sempre que tenho alguma dúvida a respeito de uma possível mudança política chinesa, examino as opções pela lente da estabilidade. Sempre funcionou como um talismã.
A estabilidade era a preocupação de todos os participantes no Fórum sobre o Desenvolvimento da China (CDF, na sigla em inglês), o evento anual que ocorreu na semana passada em Pequim.
Organizado pelo primeiro-ministro Wen Jiabao, com a participação de muitos ministros do Conselho de Estado, o CDF é a conferência internacional mais importante do país. Dois dias antes da abertura, o controvertido Bo Xilai foi demitido do cargo de secretário do partido de Chongqing. A demissão de Bo, forte candidato a ingressar no Comitê Permanente do Politburo, o órgão mais poderoso da liderança chinesa, foi algo espantoso. Havia um zumbido palpável no ar quando nos reunimos no Hotel Diaoyutai State.
As sessões formais terminaram de forma previsível, com uma grande ênfase na futura transformação estrutural do modelo de crescimento da China – uma guinada colossal do poderoso crescimento com base nas exportações e nos investimentos dos últimos 32 anos, para um modelo mais dinâmico voltado para o consumo interno. Como disse um participante: “O debate mudou. O que importa não é mais o que fazer, e sim quando fazer”.
Muitos dos outros temas foram uma decorrência dessa conclusão geral. Destacou-se a nova estratégia voltada para o crescimento impulsionado pelos serviços e o desenvolvimento com base na inovação. Ao mesmo tempo, houve considerável preocupação com o recente renascimento das empresas estatais, o que fez com que a distribuição da renda nacional pendesse do trabalho para o capital – um dos principais impedimentos do reequilíbrio da China em favor do consumo. O Banco Mundial e o Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento da China (que patrocinaram o CDF) acabavam de divulgar um relatório abrangente que tratava de muitos aspectos dessa questão crítica.
As atividades formais da CDF nem sequer acenaram para o elefante nos salões do Diaoyutai. Não houve uma referência a Bo Xilai e ao significado de sua saída do cenário da política interna da China neste ano crucial de transição. Embora seja fácil deixar-se envolver nas histórias e intrigas palacianas que se seguiram, desconfio que a saída de Bo tem um significado muito mais profundo.
Instabilidade. As autoridades chinesas enfrentavam o risco de uma perigosa interação da instabilidade política e da política econômica. Afetada por um segundo choque da demanda externa em três anos – o primeiro, com a crise subprime dos EUA, e agora com a crise da dívida soberana da Europa – qualquer surto de instabilidade política interna representaria uma ameaça muito maior do que se poderia supor.
Bo personificava esse risco. Ele incorporava o chamado “modelo Chongqing” de capitalismo de Estado que foi se impondo na China nos últimos anos – a urbanização controlada pelo governo e o desenvolvimento econômico que concentra o poder nas mãos dos líderes regionais e nas empresas estatais.
Passei algum tempo em Chongqing – uma imensa área metropolitana de mais de 34 milhões de pessoas – no verão passado. Fiquei pasmo com a dimensão dos projetos para a cidade. Orquestrado pelo prefeito Huang Qifan, o principal arquiteto do espetacular projeto de desenvolvimento do aeroporto de Pudong em Xangai, o objetivo é transformar a área de Liangjiang de Chongqing na primeira zona de desenvolvimento urbano no interior do país. Com isso, Liangjiang se colocaria no mesmo nível dos dois projetos anteriores localizados no litoral da China, que servem de modelo – Pudong e a área de Binhai de Tianjin.
Entretanto, esse é o mesmo modelo de desenvolvimento dominado pelo Estado que foi energicamente criticado no CDF deste ano – e contrasta consideravelmente com a alternativa mais voltada para o mercado que ganhou amplo consenso entre os líderes chineses do mais alto escalão.
Em outras palavras, Bo foi visto não apenas como uma ameaça à estabilidade política, mas também como o principal representante de um modelo de instabilidade econômica. Com a repentina demissão de Bo, o governo, de fato, evidenciou seu compromisso inabalável com a estabilidade.
Isso se encaixa com outra curiosa peça do quebra-cabeça chinês. Há cinco anos, Wen advertiu que a economia chinesa corre o risco de se tornar “instável, desequilibrada, descoordenada e insustentável”. Tenho ressaltado reiteradamente a importância desse conceito na formulação da estratégia voltada para o consumo da China do futuro. A crítica de Wen preparou o caminho para o país enfrentar os imperativos do seu reequilíbrio daqui para a frente.
Em suas observações formais no CDF deste ano, os líderes chineses – incluindo o primeiro-ministro designado Li Keqiang – abandonaram todas as referências explícitas aos riscos de uma economia chinesa “instável”.
Na China, tais mudanças de linguagem não são acidentais. A interpretação mais provável é que os membros do mais alto escalão não querem mais fazer qualquer concessão em matéria de estabilidade.
Solucionando o problema da instabilidade econômica por meio do reequilíbrio em favor do consumo, e da instabilidade política com o afastamento de Bo, a estabilidade deixou de ser um fator de risco para se tornar um compromisso inquebrantável.
A mensagem fundamental da China neste momento é inconfundível. Seus líderes são os primeiros a reconhecer que sua estratégia de crescimento e de desenvolvimento se encontra num ponto crítico. E temem que as “reformas e a abertura” de Deng Xiaoping corram o perigo de perder impulso. Solucionando o problema da interação entre os riscos econômicos e os riscos políticos para a estabilidade, o governo prepara o caminho para o próximo estágio do extraordinário desenvolvimento chinês. Não aconselho ninguém a menosprezar o seu compromisso de atingir esse objetivo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
É EX-CHAIRMAN DO MORGAN STANLEY ASIA E O PRINCIPAL ECONOMISTA DA COMPANHIA, E ATUALMENTE É PESQUISADOR SÊNIOR DO INSTITUTO JACKSON DE NEGÓCIOS GLOBAIS DA JACKSON UNIVERSITY E CONFERENCISTA SÊNIOR DA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE YALE. SEU LIVRO MAIS RECENTE INTITULA-SE ‘THE NEXT ASIA’
A mais importante relação bilateral do mundo começou a ser construída há 40 anos, quando o republicano e então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon foi recebido em Pequim pelo líder comunista Mao Tsé-tung, em um encontro que surpreendeu o mundo e abriu caminho para a futura integração da China à economia capitalista.
Veja também:
DE PEQUIM: De volta ao mundo, China se modernizou
BLOG DO ARQUIVO: O aperto de mão que redefiniu o mundo
GALERIA: As imagens do encontro histórico
ESPECIAL: Pingue-pongue de Mao e Nixon faz 40 anos
Veja abaixo algumas capas do ‘Estado’ com notícias sobre o encontro:
A mais importante relação bilateral do mundo começou a ser construída há 40 anos, quando o republicano e então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon foi recebido em Pequim pelo líder comunista Mao Tsé-tung, em um encontro que surpreendeu o mundo e abriu caminho para a futura integração da China à economia capitalista.
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MEMÓRIA: As capas do ‘Estado’ contam a história
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Veja fotos do encontro entre Mao e Nixon:

Disfarçado em regulamentação de prisão domiciliar, artigo legalizará detenções secretas e ‘desaparecimentos’ de inimigos do governo
NICHOLAS BEQUELIN, THE NEW YORK TIMES, É PESQUISADOR SÊNIOR SOBRE A ÁSIA NA HUMAN RIGHTS WATCH
Será que a polícia da China está esbarrando em dificuldades por não dispor de poder suficiente para prender os suspeitos de atentar contra a segurança nacional? O que parece uma pergunta estranha para quem está de fora, considerando a notória amplitude da conotação do termo segurança nacional no sistema de partido único da China, na realidade é o ponto central de uma das mais intensas batalhas políticas que se trava nos bastidores do país antes da transição da liderança, em outubro, do presidente Hu Jintao para o seu provável sucessor Xi Jinping.
O ponto nevrálgico dessa batalha está num conjunto de revisões que vêm sendo introduzidas há tempos no Código de Processo Penal, que deverá ser adotado no próximo mês, na última sessão anual do plenário do Congresso Nacional do Povo no governo de Hu.
As facções mais progressistas do Partido Comunista e do governo consideram as reformas legais parte integrante da modernização da China. Elas acreditam no princípio de que é do interesse de todos ampliar o estado de direito e julgam a reforma do código penal visando proporcionar o direito ao processo devido, como preveem as normas internacionais, uma parte fundamental dessa iniciativa.
O outro campo é constituído pelo poderoso aparato da segurança montado pelos elementos conservadores e radicais do partido e do governo. Essa facção tornou-se cada vez mais poderosa desde que foi encarregada das funções básicas da segurança nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.
Para esse grupo, a lei é meramente instrumental – um instrumento do poder do Estado – e não deve ser alterada para delegar poderes aos cidadãos, reduzindo a autoridade do partido. Seus integrantes radicais acreditam que é crucial permitir que as forças de segurança cuidem sem perder tempo das ameaças à interpretação mais ampla possível da segurança nacional e da ordem pública.
Ambas as partes deixaram sua marca na redação do novo código penal.
Os reformistas incluíram dispositivos que preveem o imediato acesso a um advogado e à proteção contra as confissões extraídas mediante coerção. Os procedimentos serão mais rigorosos nas ações que envolvem pena de morte e interrogatório de testemunhas – e excluirão provas obtidas sob tortura. Jovens infratores e réus mentalmente doentes receberão maior proteção. SE implementada – evidentemente um SE maiúsculo – esta reforma constituiria um progresso considerável.
Mas o aparato de segurança também obteve o que queria. Disfarçado em regulamentação da chamada “prisão domiciliar”, o Artigo 73 da lei agora revista, na verdade, legalizará detenções secretas e “desaparecimentos” de pessoas que o governo vê como riscos políticos.
Graças a isso será consagrada uma prática que recentemente foi usada contra o artista Ai Weiwei, o advogado Gao Zhisheng e o Nobel da Paz Liu Xiaobo. Até o momento, esses sequestros eram tecnicamente ilegais.
O artigo 73 permitirá à polícia prender secretamente por até seis meses cidadãos suspeitos de “pôr em risco a segurança do Estado” ou “terrorismo” – duas acusações vagas que há muito são manipuladas pelo governo para reprimir dissidentes, defensores dos direitos humanos, militantes da sociedade civil e separatistas tibetanos e uigures.
Ainda mais estarrecedor é que essas prisões secretas se realizarão em locais controlados pela polícia fora das casas de detenção normais, aumentando consideravelmente a probabilidade de maus-tratos. Gao Zhisheng, por exemplo, foi torturado enquanto estava nessas prisões.
Quando o projeto de lei foi divulgado pela primeira vez para consulta pública, em meados do ano passado, houve uma onda inusitada de protestos violentos na imprensa chinesa, na internet e nos círculos legais. O movimento de defesa dos direitos humanos da China, em particular, expressou unanimemente o alarme com o que Hu Jia – um dos militantes chineses mais conhecidos e veterano da “prisão domiciliar” – definiu como “a cláusula da KGB”.
Por que a liderança da China considerou a possibilidade de conceder maiores poderes aos serviços de segurança, quando isto implicará em lançar no descrédito o que poderia ter sido uma importante reforma? Um dos motivos é que, diariamente, ocorrem na China de 200 a 300 manifestações de protesto. O comparecimento a estes protestos varia de menos de uma dezena de pessoas a dezenas de milhares. Os manifestantes são motivados por uma lista enorme de questões trabalhistas, ambientais e de mera subsistência, às quais se somam corrupção e abusos de poder, principalmente por parte das autoridades locais. Incapazes de levar suas queixas aos tribunais, as pessoas começaram a levá-las às ruas.
Frequentemente, só a polícia se coloca entre “as massas” e o partido.
Em segundo lugar, a liderança está cada vez mais preocupada com a possibilidade de perder a batalha contra a disseminação dos “valores globais” entre os cidadãos – na China, o código dos direitos humanos, o estado de direito e a liberdade de expressão. A linha-dura acredita que precisa do poder de tirar os dissidentes e os críticos de circulação. A legalização dos “desaparecimentos” será apenas o instrumento.
Resta ver se Xi Jinping e a nova liderança se mostrarão mais inclinados do que Hu a dirimir os temores do público e a empreender as reformas. Mas se os serviços de segurança consolidarem ainda mais o seu poder, poderão constituir um obstáculo ainda maior para as reformas.
A ascensão da facção que tem como base de seu poder a defesa da segurança nacional é uma das tendências mais nefastas na China.
Quer o Artigo 73 seja adotado, quer não, ele será um sinal significativo do avanço da China rumo ao estado de direito ou à consolidação da supremacia do Estado policial.
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Supremacia mundial dependerá principalmente da capacidade de fazer os amigos mais valiosos
Por Yan Xuetong, do New York Times*
Como a China exerce influência cada vez maior na economia global e aumenta a crescente capacidade de projetar seu poderio militar, a concorrência entre o país asiático e os EUA é inevitável. Segundo o discurso otimista dos líderes de ambas nações, a concorrência pode ser administrada sem nenhum confronto que ameace a ordem mundial, mas a maioria dos acadêmicos não se mostra tão animada.
Enquanto as potências emergentes procuram conquistar uma autoridade maior no sistema global, as potências em declínio raramente optam pelo confronto. E considerando as divergências entre o sistema político chinês e o americano, os pessimistas talvez acreditem que é maior a probabilidade de uma guerra.
Sou um realista em termos políticos. Os analistas ocidentais rotularam minhas convicções políticas como “agressivas”. Mas realismo não significa que os políticos devam se preocupar somente com o poderio militar e econômico. Na realidade, o senso moral pode ser um elemento fundamental na concepção da concorrência internacional entre potências políticas – e na distinção entre vencedores e vencidos.
Cheguei a essa conclusão estudando os antigos teóricos políticos chineses como Guanzi, Confúcio, Xunzi e Mêncio. Eles escreveram no período pré-Qin, antes da unificação da China num império, há mais de 2 mil anos – um mundo no qual pequenos países competiam cruelmente por vantagens territoriais. Esse foi talvez o maior período do pensamento chinês, no qual as várias escolas concorriam pela supremacia ideológica e pela influência política. Elas coincidiam em apenas uma concepção crucial: o elemento fundamental da influência internacional era o poderio político, e o atributo central do poderio político era a liderança com base na moral.
A China foi unificada pelo cruel rei de Qin em 221 a.C., mas seu breve governo não foi tão bem-sucedido quanto o do imperador Wu da dinastia Han, que se inspirou numa mistura de realismo legalista e de “poder brando” confucionista para governar o país de 140 a.C. a 86 d. C.
O filósofo chinês Xunzi afirmava que existiam três tipos de liderança: a autoridade humana, a hegemonia e a tirania. A autoridade humana conquistava os corações e as mentes das pessoas interna e externamente. A tirania – com base na força militar – inevitavelmente criava inimigos. As potências hegemônicas se encontravam no meio do caminho: elas não enganavam as pessoas internamente, nem os aliados externamente.
A fragmentação da era pré-Qin assemelha-se às divisões globais dos nossos tempos, e, hoje em dia, as prescrições sugeridas pelos teóricos políticos daquela época são diretamente pertinentes – ou seja, os Estados com base no poderio militar ou econômico sem se preocupar com uma liderança ligada à moral estão destinados ao fracasso.
Infelizmente, tais conceitos não são tão influentes nessa época de determinismo econômico, mesmo que os governos frequentemente os proclamem solenemente. O governo chinês afirma que a liderança política do Partido Comunista é a base do milagre econômico da China, mas em geral ele age como se a concorrência com os EUA se desse exclusivamente no plano econômico. E nos EUA, os políticos atribuem regularmente o progresso, mas nunca o fracasso, à própria liderança. Ambos governos precisam compreender que é a liderança política que determinará quem ganhará a corrida à supremacia global, e não a quantidade de dinheiro gasto para a solução de problemas.
Muitas pessoas equivocadas acreditam que a China pode melhorar suas relações internacionais apenas aumentando consideravelmente a ajuda econômica. Mas é difícil comprar o afeto. Essa “amizade” não resiste ao teste dos tempos difíceis. Então, como poderá a China conquistar os corações das pessoas em todo o mundo? Segundo os antigos filósofos chineses, ela terá de começar com o seu próprio povo.
Isso significa que a China precisa transferir as suas prioridades do desenvolvimento econômico para o estabelecimento de uma sociedade harmoniosa em que não existam os enormes fossos entre ricos e pobres. Ela precisa substituir a adoração ao dinheiro pela moral tradicional e extirpar a corrupção política em favor da justiça social e da integridade.
Influência. O poderio militar é a base da hegemonia e contribui para explicar o motivo pelo qual os EUA têm tantos aliados. O presidente Obama cometeu erros estratégicos no Afeganistão, Iraque e Líbia, mas suas ações também demonstram que Washington pode sustentar ao mesmo tempo três guerras. Em contraposição, o Exército da China não se envolveu em nenhuma guerra depois da de 1984, com o Vietnã. Poucos dos seus oficiais, e muito menos suas tropas, têm experiência de batalha.
Os EUA desfrutam de relações muito mais profícuas com o resto do mundo do que a China em quantidade e qualidade. Os EUA têm mais de 50 aliados militares formais, enquanto a China não tem nenhum. A Coreia do Norte e o Paquistão são os únicos países que podem ser considerados de certo modo aliados da China. Nenhuma potência preeminente pode manter relações amistosas com todos os países do mundo, portanto o cerne da competição entre China e EUA se dará em termos dos amigos mais valiosos.
A China precisa também reconhecer que é uma potência em ascensão e assumir as responsabilidades. Por exemplo, proteger potências mais fracas, como os EUA fizeram com a Europa e o Golfo Pérsico. Em termos políticos, a China deveria inspirar-se em sua tradição de meritocracia. Também deveria abrir-se e escolher funcionários de todas as nacionalidades que atendessem aos seus padrões, de forma a aperfeiçoar a sua governança. A dinastia Tang – que se estendeu do século 7 ao 10, talvez o período mais glorioso da China – empregava um grande número de estrangeiros em cargos elevados. A China deveria fazer o mesmo hoje e competir com os EUA para atrair imigrantes talentosos.
Na próxima década, os novos líderes da China sairão de uma geração que experimentou as agruras da Revolução Cultural. Trata-se de figuras resolutas e muito provavelmente valorizam os princípios políticos mais do que os benefícios materiais. Esses líderes deverão desempenhar um papel maior no cenário mundial e oferecer maior proteção em termos de segurança e apoio econômico a países menos poderosos.
É isso que significará competir com os EUA em termos políticos, econômicos e tecnológicos. Essa competição poderá causar tensões diplomáticas, mas não haverá perigo de confrontos militares. Ocorre que a competição entre China e EUA será diferente da que se dava entre os EUA e a União Soviética durante a Guerra Fria. Nem a China nem os EUA precisam de conflitos indiretos para proteger os seus interesses estratégicos ou para obter o acesso a recursos naturais e tecnologia.
A tentativa da China de ampliar seu status de líder mundial e o esforço dos EUA para manter sua atual posição é um jogo de soma zero. É uma batalha pela conquista dos corações e das mentes que determinarão quem deverá prevalecer. Como previram os antigos filósofos da China, ganhará o país que mostrar maior autoridade humana.
*É AUTOR DE ‘ANCIENT CHINESE THOUGHT, MODERN CHINESE POWER’ E PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS E REITOR DO INSTITUTO DE MODERNAS RELAÇÕES
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
Partido Comunista luta para moldar 5 mil anos de existência nacional à identidade que pretende transmitir às novas gerações para sua sobrevivência no poder
* Isabel Hilton é jornalista
A história sempre foi importante para a China, país cujos governantes lutaram para unir os muitos grupos étnicos diferentes, mas cujas fronteiras modernas datam de apenas algumas centenas de anos. Desde 1949, o Partido Comunista tem se valido de sua visão da história para excluir a democracia e consolidar sua construção de um país moderno. Em 1989, depois da sangrenta repressão às manifestações pela democracia na Praça Tiananmen, estrategistas do partido declararam que a história era uma questão de segurança nacional.
Mas talvez o mais notável seja que este ano, que marca o centenário do fim de mais de 2 mil anos de sistema imperial na China, ocorrido em 1911, tenha passado sem nenhuma comemoração mais expressiva. O partido preferiu celebrar seu próprio 90.º aniversário em julho, talvez por não querer lembrar aos chineses que a causa defendida pelos revolucionários de 1911 não era inspirada pelas ideias de Karl Marx, mas a democracia. Aqueles que defendem os mesmos valores enfrentaram dificuldades este ano, sejam eles artistas como Ai Weiwei, detido em abril e mantido sob custódia por 81 dias enquanto era alvo de uma investigação da Receita, ou apenas amigos e parentes do ganhador do Nobel da Paz, Liu Xiaobo, um prisioneiro político. Nos altos escalões, ninguém parece interessado em lembrar a população dos ferozes debates políticos de cem anos atrás.
O resultado é um país ostensivamente moderno no qual um quinto da humanidade deve fingir que acredita numa história nacional inventada para manter perpetuamente o Partido Comunista no controle. Para um partido que não pratica mais o socialismo, o problema é definir como esta história nacional deveria ser, e como, numa era de comunicação em massa, o partido poderá defender sua versão como a única verdade.
As coisas costumavam ser mais simples. Quando o país era comandado pela ideologia, a história oficial da China consistia numa longa noite de escuridão feudal e semi-feudal que chegou ao fim em 1949 quando o partido liderou os trabalhadores, camponeses e soldados e os conduziu à libertação. Depois disso, de acordo com a lenda, a situação melhorou continuamente, exceção feita ao período da Revolução Cultural.
Na China de hoje, poucos discordam do fato de que a Revolução Cultural iniciada por Mao Tsé-tung em 1966 foi, nas palavras da avaliação oficial, uma desastrosa década de caos . O tratamento oficial de inconveniências narrativas como esta tem sido o de ignorá- las ou redefini-las. A fome que se seguiu ao Grande Salto para Frente, em 1958, tornou-se o período chamado de três anos de desastres naturais . As dificuldades narrativas só começaram de fato após a morte de Mao, em 1976, quando Deng Xiaoping começou a abandonar a ideologia, que tinha praticamente quebrado o país, e a avançar discretamente rumo a algo mais parecido com o capitalismo.
Demandas. As demandas populares pela democracia aumentaram constantemente. Quando o movimento da Praça Tiananmen foi esmagado em 1989, o partido decidiu que seu direito de governar nunca mais deveria ser questionado daquela maneira. A missão da história pública passou a ser a de demonstrar que os estrangeiros tinham sido os responsáveis pelos principais fracassos do país desde o início do século 19. Nesta narrativa de exceções, a China escapa da ameaça da democracia por causa da longevidade de sua história contínua, da superioridade geral e da força de sua cultura.
Mas há vários problemas nesta história. Para começar, há 5 mil anos a China não existia sob nenhuma forma que reconheceríamos hoje. O verdadeiro pai político do Estado chinês é Qin Shihuangdi, primeiro imperador da dinastia Qin, que conquistou Estados vizinhos 2 mil anos atrás e fundou uma dinastia que deveria durar 10 mil anos.
Esta ruiu poucos anos depois da morte desse imperador, mas um dos feitos dele a imposição de uma única forma de escrita a todo seu diversificado reino foi um elemento-chave para a construção de uma identidade central entre povos que falavam idiomas diferentes.
Mas o território governado pelos Qin ainda era apenas uma fração do tamanho da República Popular de hoje. As fronteiras atuais da China existem desde o século 17, quando os mandchus invadiram e conquistaram a China em 1644. Eles fundaram a dinastia Qing, a última e também a maior das casas imperiais, e governaram até 1911. Quando a dinastia ruiu, a China tinha dobrado de tamanho e reivindicava domínio sobre uma série de povos que tinham habitado a periferia extrema da China da dinastia Ming, como os tibetanos e mongóis.
Não surpreende que o partido tenha se recusado a celebrar o centenário deste ano: o motivo não foi apenas a luta pela democracia, mas também a fragmentação do império que se seguiu. Assim que a notícia da queda da dinastia Qing chegou ao Tibete e à Mongólia, estes países declararam independência.
Esta história é apresentada de forma nebulosa às novas gerações. Em 1974, os crimes de guerra cometidos pelos japoneses que invadiram a Mandchúria em 1931, e depois a China em 1937, estavam tão esquecidos que quando uma delegação japonesa visitou a Universidade Fudan em Xangai, onde eu estudava na época, o câmpus foi enfeitado com bandeiras que proclamavam amizade entre os povos japonês e chinês, de geração em geração . Parecia que a ocupação japonesa da China (1937-1945) nunca ocorrera. Nem a Guerra do Ópio com a Grã-Bretanha tinha grande importância na memória coletiva.
Narrativa patriótica. Mas, depois de 1989, tanto a invasão japonesa quanto a Guerra do Ópio foram elevadas ao status de desastre nacional, servindo à nova narrativa patriótica.
Ainda assim, a história continua a ser um problema para o Partido Comunista na transição para o capitalismo. O Museu Nacional da China, em Pequim, passou quase tanto tempo fechado quanto aberto desde a sua inauguração, em 1959. Recentemente, foi fechado para reforma, mas as obras foram paralisadas por causa dos violentos debates a respeito do que deveria ou não ser exposto, e o museu não pôde ser inaugurado a tempo da Olimpíada de 2008. Quando finalmente reabriu, nem a Revolução Cultural nem o Grande Salto para Frente mereceram menção.
A China ainda está construindo sua identidade moderna. Muitos cidadãos ainda nutrem a esperança de uma sociedade na qual a liberdade de expressão e o direito de participar da vida política serão finalmente alcançados.
Para eles a questão não é se a reforma ocorrerá, mas quando . Para o partido, entretanto, a resposta é nunca .
Convencer o povo chinês que a história do país é o que o partido lhe oferece, levando inexoravelmente à perpetuação dos comunistas no poder, é fundamental para sua estratégia.
Na China de hoje, a história continua a ser uma questão de segurança não para a nação, mas para o próprio Partido Comunista.
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E ANNA CAPOVILLA
*Publicado originalmente na Prospect Magazine

Crianças nos 90 anos. O Partido Comunista chinês comemora 90 anos nesta sexta-feira, 1, com celebrações controladas, como relata a correspondente do estadão.com.br Cláudia Trevisan, de Pequim. Comunista, a China tem o segundo maior número de bilionários no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Os 90 anos do partido chegam em meio à maior onda repressiva desde o massacre da praça Tiananmen, em 1989.
Veja também:
TV Estadão: Até celebrações são controladas, diz correspondente
Cláudia Trevisan: China comunista tem maior número de bilionários depois dos EUA
GALERIA DE FOTOS: Os 90 anos do Partido Comunista chinês
Na foto acima, um garotinho veste o uniforme do Exército Vermelho enquanto brinca com uma arma de plástico em uma antiga base em Yan’an, no noroeste da China. Yan’an, na província chinesa de Shaanxi, é considerado o berço da revolução comunista no país.
“Muitos se importam com o Partido, seja porque não há outra alternativa, seja porque ele serviu bem à China, mas poucos amam o Partido”, disse ao Estado a escritora Lijia Zhang, autora de “A Garota da Fábrica de Mísseis”, no qual relata sua experiência de dez anos como operária em um estatal chinesa nos anos 80.
Abaixo, crianças brincam na frente do local do primeiro Congresso Nacional do Partido Comunista, em Xangai.

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Jornalismo cidadão cresce na China, apesar da censura
Seleção de imagens: Natália Russo, da editoria de Fotografia do estadão.com.br e Bia Rodrigues, da editoria de especiais. Visite também o blog Olhar sobre o mundo e a página de fotos do portal.
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Um gigante aos 90. Funcionários instalam o símbolo do Partido Comunista chinês na praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), palco do massacre de 1989, em Pequim, às vésperas do aniversário de 90 anos da legenda. O PC chinês domina há 60 anos o país, o mais populoso e terceiro em extensão territorial.
Veja também:
O Tao da China, blog de Claudia Trevisan
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Como relata, de Pequim, a correspondente Claudia Trevisan, o partido chega aos 90 no dia 1º em meio à maior onda repressiva desde 1989 e no comando de uma ofensiva de resgate de símbolos maoístas que mergulhou o país em um “mar vermelho”.
Em se tratando de repressão, o país libertou o segundo dissidente em menos de uma semana – e, como no caso de Ai Weiwei na semana passada, o ativista Hu Jia também foi silenciado: está proibido de dar entrevistas ou escrever na web durante um ano.
Embora tenha feito reformas que transformaram a China na segunda maior economia do mundo e retiraram 400 milhões de pessoas da miséria, o PC chinês não dá sinais de abertura para outras legendas. “Ao contrário”, escreve Claudia.
Seleção de imagens: Natália Russo, da editoria de Fotografia do estadão.com.br. Visite também o blog Olhar sobre o mundo e a página de fotos do portal.
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“Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana”. A frase foi dita por um policial na semana passada no momento em que ele comandava a prisão de Liu Ping, desempregada e candidata independente ao Conselho de Representantes de sua cidade, na província de Jiangxi. Seu crime foi fazer campanha durante a eleição, algo absolutamente banal em vários lugares do mundo, mas inconcebível na “democracia com características chinesas”. Liu foi carregada pelos policiais e teve sua casa vasculhada.
Leia a íntegra no blog O Tao da China, da correspondente Claudia Trevisan no país
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