
O Council on Foreign Relations publicou o estudo “Europe: Integrating Islam”
A questão da integração na Europa não é nova. Já em 1894, as contradições do republicanismo francês ficaram evidentes após o alto comando do Exército, dominado por um pensamento nacionalista e antissemita, tramar um complô para culpar o oficial Alfred Dreyfuss, um judeu, por um escândalo de espionagem envolvendo a rival Alemanha.
A Justiça francesa fora manipulada “do alto”, imbuída de racismo. Em reação, parte da intelectualidade da época encampou uma longa batalha nos jornais de Paris em defesa de Dreyfuss. Entre os principais “dreyfusards” estava o imortal escritor Émile Zola – tido como o primeiro intelectual público por sua militância pró-Dreyfuss. Ao final, provou-se que o oficial era inocente e havia sido acusado porque era judeu.
Além de ser um dos primeiros exemplos do chamado “antissemitismo moderno”, o caso Dreyfuss virou um divisor de águas no debate da laicidade na França – e, por consequência, na Europa. Filosoficamente, como questões de ordem privada (religião, cultura, costumes, origens, escolhas sexuais, etnias…) interferem na cidadania? Podem elas interferir? Tem o Estado direito de legislar sobre esse tipo de questão?
Mais de um século depois de Dreyfuss, o espectro do “assimilacionismo” e os dilemas da laicidade ainda assombram europeus. No mês passado os suíços decidiram, via referendo, vetar a construção de minaretes, sob o argumento de que eles transformariam a paisagem do país. 57% da população votou sim à lei. E isso porque há quatro minaretes na Suíça. No início da semana, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, defendeu no jornal Le Monde a escolha da Suíça e prometeu relançar o debate sobre a “identidade nacional francesa”. Sarkozy foi um entusiasta da lei que proibiu há quatro anos o uso em escolas públicas da França de “símbolos religiosos ostensivos” – na imensa maioria, o véu com que muçulmanas cobrem a cabeça.
Com a discussão esquentando, o centro de pesquisa Council on Foreign Relations (CFR), que publica a prestigiosa revista Foreign Affairs, decidiu esmiuçar a relação, hoje, entre a Europa e seus muçulmanos. O grande marco não é Dreyfuss, mas o Onze de Setembro. E o resultado é ótimo: uma visão ampla sobre o tema sem incorrer no risco da simplificação exagerada. Vale a leitura.
2012
2011
2010
2009
2005