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Radar Global

Após o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciar a morte do presidente, Hugo Chávez, nesta terça-feira, 5, os venezuelanos fizeram manifestações de solidariedade e lamentaram a perda do líder bolivariano.

Chávez estava internado em um hospital militar de Caracas desde o dia 18 de fevereiro, quando voltou de surpresa de Cuba, onde passou pela quarta cirurgia para tratar o câncer na região pélvica.

O presidente venezuelano não era visto em público desde dezembro, quando viajou para Havana. Desde então, apenas no dia 15 de fevereiro, o governo divulgou imagens do bolivariano, ao lado das filhas.

O último post publicado no twitter do presidente data justamente de 18 de fevereiro. “Sigo agarrado a Cristo e confiando em meus médicos e enfermeiras. Até a vitória sempre! Viveremos e venceremos!”

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Ao fazer o anúncio da morte de Chávez, Maduro se emocionou, pediu que os opositores respeitassem o momento de dor dos chavistas e agradeceu os atos do presidente. “Comandante Chávez, obrigado por tudo que fez por este povo. Pedimos que canalize nossa dor em paz, com tranquilidade.”

Assista anúncio em vídeo da TV ESTADÃO:

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Se até escritores chineses trocam sua dignidade por um prato de comida e um
pouco de dinheiro, como posso criticar os menos cultos, como a minha família?

YAN LIANKE
THE NEW YORK TIMES

Os velhos hábitos dificilmente desaparecem. Embora tenha saído da minha casa no interior há mais de 30 anos, nunca considerei o dia 1.º de janeiro o início de um novo ano. Na minha cidade natal, o novo ano começava de fato no primeiro dia do ano-novo lunar chinês. Para mim, 2011 foi um ano interminável e escuro, como um túnel sem luz.
Começou com meu filho à procura de um emprego. Ele tinha concluído os estudos na Grã-Bretanha e regressara à China com um mestrado em Direito, achando que para fazer algo importante em seu país precisaria começar sua carreira como funcionário público no sistema jurídico. Entretanto, como não está filiado ao Partido Comunista Chinês, é quase impossível para ele fazer o exame nacional de ingresso no serviço público para conseguir o emprego que pretende.
Quando ainda estava na faculdade, mais de uma vez pensou em se inscrever no Partido Comunista. Procurei dissuadi-lo todas as vezes. Disse-lhe: “Será que uma pessoa precisa ser membro do partido para vencer na vida?”. Como pai, a experiência do meu filho fazia com que eu me sentisse quase na obrigação de ajoelhar diante dos líderes do regime e implorar para que deem aos jovens que não são membros do partido as mesmas oportunidades de uma carreira que eles concedem aos que são.
Recusa. A escuridão continuou ao longo do ano. Meu trabalho mais recente, Four Books, um romance que trata das experiências traumáticas do povo chinês durante o Grande Salto para Frente, do final dos anos 50, e da carestia que se seguiu, foi recusado por quase 20 editoras. Os motivos eram sempre os mesmos. Quem ousar publicar meu livro na China estará fadado a fechar as portas.
Levei 20 anos para planejar o romance e 2 anos para escrevê-lo. É um trabalho importante para mim como escritor e sei que será uma importante contribuição para a literatura chinesa. Mas estou plenamente consciente da realidade do mundo editorial na China, portanto não tenho outra escolha senão aceitar o destino do meu livro. Só me resta suspirar.
Mas, ao pesadelo da recusa do meu livro, acrescentou-se outro: minha casa foi demolida para dar lugar ao projeto de ampliação de uma estrada em Pequim. Aquilo foi como um furacão. Ninguém se deu o trabalho de mostrar aos moradores do meu bairro expulsos de seus lares um documento oficial a respeito do projeto. A indenização foi fixada, sem a menor possibilidade de negociação, em meros 500 mil iuanes (cerca de US$ 79 mil) para cada casa, independentemente do tamanho do terreno ou do custo da construção.
“Quem cooperar com o governo receberá mais 700 mil iuanes”, disseram aos desalojados, o que correspondia aproximadamente a um total de US$ 190 mil. A quantia aparentemente grande, na realidade, hoje, só é suficiente para comprar um banheiro em um bom bairro de Pequim. O conflito entre os habitantes e os trabalhadores da demolidora foi intenso. As pessoas estavam decididas a defender seus imóveis e sua dignidade com a própria vida.
Resistência. A batalha durou meses. Um dia, o muro que circundava o conjunto habitacional foi demolido durante a madrugada. Alguns habitantes mais velhos, arrasados de tanto lutar, tiveram de ser levados às pressas ao hospital. Então, fomos informados de que estava havendo uma série de “assaltos” no conjunto, mas todos sabiam que isso não passava de uma tática para intimidar as pessoas. Denunciar os assaltos à polícia foi tão inútil quanto um aluno da escola primária denunciar a perda de um lápis.
No dia 30 de novembro, um dia antes do prazo para o início das demolições forçadas, escrevi uma petição ao secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Hu Jintao, e ao primeiro-ministro Wen Jiabao e a postei na Sina Weibo, o equivalente chinês do Twitter, pedindo o fim imediato do jogo de gato e rato contra os moradores cujas casas estavam prestes a ser derrubadas. Eu sabia que a carta jamais seria entregue às pessoas às quais estava dirigida, mas esperava que chamasse a atenção e pressionasse a prefeitura a evitar derramamento de sangue durante a demolição.
Minha carta foi amplamente postada e divulgada em todo o país quase instantaneamente. No entanto, não obteve maior repercussão do que um sussurro no vento.
Por volta das 5 horas do dia 2 de dezembro, um grupo de homens e mulheres de capacete na cabeça irrompeu na casa do meu vizinho através de uma janela. Depois de dizer aos invasores que se opunha à demolição, o vizinho foi levado e trancado na cadeia. Alguns móveis maiores foram carregados para fora da casa e ela foi demolida.
Posteriormente, ele lembrou que, enquanto estava sendo levado naquela manhã, viu mais de 200 pessoas, todas uniformizadas e de capacete na cabeça, cercando a casa.
Em dezembro, mais de 30 famílias foram por fim obrigadas a concordar com a demolição. Isso assinalou o fim do meu escuro 2011. A experiência convenceu-me de que, na realidade, a dignidade de um cidadão e de um escritor não tem mais relevância do que um cão faminto que pede comida ao dono. Na realidade, os direitos dos quais um cidadão pode desfrutar não são mais do que o ar que ele pode segurar na mão.
Desalento. Queria gritar. Às vezes imagino que seria um grande privilégio poder gritar em voz alta na Praça Tiananmen, no centro de Pequim.
As pessoas vivem como cães nessa sociedade. Sonho poder latir alto nos meus livros e transformar meus latidos numa bela música. Essa vida estranha, esse sonho estranho me mantém vivo e às vezes me dão até esperança. Ao mesmo tempo, eu me sinto constantemente desalentado.
Emocionalmente exaurido, sonhava em deixar a escura Pequim de 2011 e voltar para casa. Sonhava com um novo começo em 2012 – um novo começo na minha cidade natal, ao lado da minha mãe, dos meus parentes, deixando que o seu calor afastasse o frio, a ansiedade e o medo que me envolveram no escuro túnel de 2011.
Fui para casa. Durante dez dias passei o tempo todo com minha mãe de 80 anos, meu irmão mais velho, sua mulher e minhas sobrinhas em sua casa na cidade de Songxian, na Província de Henan. Falamos do passado, contamos piadas e jogamos mahjong (jogo de estratégia chinês).
Ninguém falou uma única palavra a respeito do meu trabalho ou da minha infelicidade. Era como se vivêssemos uma existência perfeita.
Eu só via a luz brilhante do sol. Só sentia o amor dos meus entes queridos. Durante dez dias, sentamos em frente à televisão. Assistimos a novelas tolas e ao show de gala do Festival de Primavera da CCTV. A programação de TV era medíocre, mas o amor da minha família conseguiu afastar a escuridão de 2011. Eu me sentia seguro.
Na véspera do ano-novo lunar, comemos juntos os tradicionais bolinhos. Mamãe me deu uma parte dos seus para demonstrar seu amor por mim. Alguns fios de cabelos brancos caíam sobre seu rosto que brilhava de felicidade.
“Nosso país é rico agora. Não é maravilhoso?”, ela disse. “Agora podemos comer bolinhos com recheio de carne. Quantas vezes comíamos grama quando éramos pobres…”
Meu irmão mais velho era carteiro e a vida toda entregou cartas de bicicleta. Agora está aposentado e dirige um carro que eu comprei com os royalties dos meus livros.
“Por que as pessoas odeiam o governo?”, ele me perguntou enquanto dirigia indo visitar um parente numa aldeia remota nas montanhas. “Nossa vida é boa. Não basta?” Minhas duas irmãs mais velhas cultivam a terra. Elas adoravam a novela do sábio imperador da dinastia Qing que tratava bem seus súditos.
Minhas irmãs querem que eu escreva uma estória como aquela para conseguir fama e dinheiro. Uma única novela de sucesso faria com que a família toda se cobrisse de esplendor, disseram.
Não sei se meus parentes acreditam nessas coisas, ou se estavam apenas tentando me confortar. Não sei se a riqueza recém-adquirida faz com que o povo chinês acredite realmente que roupas quentes e um estômago cheio são mais importantes do que direitos e dignidade.
Ou será que ele sempre acreditou que um prato de bolinhos e um pouco de dinheiro no bolso são mais importantes do que direitos e dignidade? Não perguntei e na realidade nem quis especular sobre a questão, pois sei que não existe uma resposta clara.
Quanto a mim, prefiro defender minha dignidade ainda que isso signifique morrer de fome. É uma convicção que está no meu sangue. Imagino que seja o princípio norteador de todos os homens de letras, mas, para muitos chineses, hoje essas palavras não têm o menor sentido. Por que estou me queixando? Se até os homens de letras escolhem um pedaço de comida e um pouco de dinheiro abrindo mão da dignidade, como posso criticar meus parentes menos cultos? O sexto dia do ano-novo lunar é um dia auspicioso para as viagens.
Adeus. Estava na hora de voltar. Todos meus parentes saíram para se despedir de mim. Minha mãe estava em lágrimas como sempre nessas ocasiões. Ficou calada até o último momento.
“Faça amigos entre os que têm poder”, ela me sussurrou no ouvido. “Não faça nada que os possa irritar.”
Depois que parti, meu irmão me enviou uma mensagem de texto. “Eu não disse nada para você porque aqueles eram dias festivos. Lembre-se: Nunca faça nada que possa irritar o governo, não importa o que seja.”
Meu sobrinho me acompanhou até a rampa de acesso à rodovia. Hesitando, o menino falou: “Minha mãe me pediu para dizer para você cuidar de sua saúde.
Não escreva demais e, se você realmente precisa escrever, escreva algo elogiando o governo, a nação. Não se torne um velhote maluco”.
Fiz sinal que sim com a cabeça.
“Diga à sua avó, ao tio e à sua mãe que não se preocupem comigo. Estou bem. Meu trabalho de escritor vai bem. Estou indo bem. À parte algumas rugas e cabelos brancos, nada de ruim vai acontecer comigo.” E fui embora.
Enquanto dirigia, as lágrimas caíam no meu rosto sem uma razão aparente. Só queria chorar. Seria pela minha mãe, meu irmão, meus parentes e pelos estrangeiros que esquecem de sua dignidade desde que tenham o suficiente para comer? Ou pelas pessoas como eu, que têm o mais alto apreço pelos direitos e pela dignidade, mas levam uma existência de cães vadios? Não sei. Eu só queria gritar em voz alta.
Parei no acostamento e deixei as lágrimas cair – pelo meu rosto e no meu coração. Depois de muito tempo, quando minhas lágrimas secaram, dei novamente a partida. Estava a caminho de Pequim, arfando e ansioso, como um cão vadio ofegante num túnel escuro. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É AUTOR DE VÁRIAS OBRAS, COMO  ‘THE DREAM OF DING VILLAGE’, SOBRE O ESCÂNDALO DE VENDA DE SANGUE EM HENAN, SUA PROVÍNCIA NATAL

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Líderes eleitos serão confrontados com a perda de autonomia econômica e um crescimento mais lento

RICHARD N. HASS
PROJECT SYNDICATE

Um número surpreendente de eleições e de transições políticas deverá ocorrer nos próximos meses. Uma lista incompleta mostra Rússia, China, França, EUA, Egito, México e Coreia do Sul envolvidas nesses eventos.
À primeira vista, esses países têm pouco em comum. Alguns deles são democracias firmemente estabelecidas. Outros são sistemas autoritários e outros ainda estão a meio caminho entre as duas modalidades.
Apesar das discrepâncias, essas nações – e os indivíduos que as governarão – enfrentam em grande parte os mesmos desafios. Três deles se destacam. O primeiro é que nenhum país é totalmente dono de si mesmo. No mundo de hoje, nenhum país desfruta de total autonomia ou independência. Num grau ou em outro, todos dependem do acesso aos mercados externos para vender seus bens manufaturados, produtos agrícolas, recursos ou serviços – ou para comprá-los. Nenhum deles pode eliminar a concorrência econômica no acesso aos mercados de terceiros países.
Muitos precisam do ingresso de capitais para financiar os investimentos ou da emissão de títulos da dívida pública. A oferta e a demanda globais determinam em geral os preços do petróleo e do gás. A interdependência econômica e a vulnerabilidade que isso acarreta constituem um fato inelutável da vida contemporânea. Mas a dependência econômica de outros países não é a única realidade internacional com a qual os governos precisam competir. É igualmente difícil – senão impossível – para os países isolar-se do terrorismo, das armas, de doenças pandêmicas ou das mudanças climáticas.
Afinal, as fronteiras não são impermeáveis. Ao contrário, a globalização – o imenso fluxo de pessoas, ideias, gases do efeito estufa, bens, serviços, moedas, mercadorias, sinais de televisão e rádio, drogas, armas, e-mails, vírus (de computador e biológicos), que se dá através das fronteiras, e muito mais – é a realidade que define o nosso tempo. São poucos os desafios que ela causa que podem ser enfrentados unilateralmente. Na maioria das vezes, a cooperação, o compromisso e um grau de multilateralismo são essenciais.
Um segundo desafio universal é o da tecnologia. A visão de George Orwell em seu livro 1984 não poderia ser mais equivocada, pois o que distingue a moderna tecnologia não é o Big Brother, mas a descentralização. Agora, podemos ter uma capacidade de armazenação de dados muito maior em um desktop ou na nossa mão do que a geração passada, que precisava do espaço de toda uma sala.
Consequentemente, em todos os países as pessoas têm mais acesso a um número maior de fontes de informação em relação ao que ocorreia antes, tornando cada vez mais difícil para os governos controlar, e muito menos monopolizar, o fluxo do conhecimento. Os cidadãos também desfrutam de uma facilidade cada vez maior graças ao celular e às redes sociais de se comunicarem diretamente. Uma das consequências dessa tendência é que os governos autoritários não podem mais controlar seus cidadãos tão facilmente.
Sem dúvida, a tecnologia fornece uma das explicações para os levantes que vemos em grande parte do mundo árabe. É muito mais difícil produzir um consenso social e governar em um mundo em que os cidadãos podem escolher o que leem, veem e ouvem e com quem conversam.
Um terceiro desafio com o qual os líderes dos países emergentes se defrontarão é o fato inevitável de que as reivindicações dos cidadãos cada vez mais superam a capacidade de satisfazê-las. Isso é sempre válido no chamado mundo em desenvolvimento (em geral relativamente pobre). Mas agora também se aplica às democracias maduras que vivem uma situação relativamente boa, assim como alguns dos países de maior crescimento.
Em muitos casos, a expansão econômica é mais lenta do que afirma a norma histórica. Isso é bastante evidente em grande parte da Europa, no Japão e nos EUA. Mas o crescimento também está desacelerando na China e na Índia, que representam, juntas, mais de um terço da população mundial.
As taxas de desemprego são elevadas, principalmente nos EUA e na Europa Ocidental, particularmente entre os jovens e os trabalhadores que se aproximam do fim de sua carreira (mas que ainda poderão viver dezenas de anos). No entanto, o que mais preocupa é que isso se traduzirá em desemprego no longo prazo.
Em razão dessas mudanças econômicas e demográficas, uma porcentagem crescente da renda nacional está sendo gasta com saúde, aposentadorias e outras formas de suporte básico, enquanto uma porcentagem sempre menor de cidadãos em quase todas as sociedades trabalha nesse momento para financiar um número crescente de concidadãos. Essa dependência crescente agrava-se por causa da desigualdade econômica cada vez mais ampla. E como a riqueza está cada vez mais concentrada num número menor de indivíduos, a promessa de um padrão de vida melhor para a maioria das pessoas talvez não possa ser cumprida.
Juntas, as três tendências – a perda de autonomia econômica e física, a difusão da tecnologia da informação e um crescimento mais lento numa conjuntura em que as populações crescem continuamente assim como a expectativa de vida – criarão enormes desafios políticos praticamente em todos os países. As reivindicações crescem e a capacidade dos governos para satisfazê-las se reduz. Os líderes que assumirão o poder depois das transições deste ano terão de encarar essa realidade básica.
E também terão de encarar os subprodutos de um nacionalismo, de um populismo e, em alguns casos, de um extremismo muito mais intensos. As projeções mostram que a hostilidade em relação à imigração e ao protecionismo econômico, já visível, deverá crescer.
Esses desdobramentos tornarão mais difícil um consenso global a respeito do tratamento a ser dado às ameaças além das fronteiras: não só a governança interna se torna mais difícil, como isso ocorrerá também lá fora. Tempos duros aguardam as nações e seus líderes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO POLÍTICO DO DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA, É PRESIDENTE DO CONSELHO DE RELAÇÕES

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Consolidação dos notáveis avanços na região depende de mais integração nas áreas de energia, comércio e segurança
MARCO RUBIO
LOS ANGELES TIMES

 

Os EUA não podem dar-se o luxo de continuar deixando a América Latina em banho-maria enquanto concentram o grosso de sua atenção na Ásia, Europa e Oriente Médio. Os esforços americanos deveriam se concentrar em quatro áreas fundamentais: construir um movimento democrático, melhorar os laços comerciais, cooperar em questões de energia e construir e fortalecer alianças de segurança.
Não foi por acaso que uma maior prosperidade se seguiu ao fortalecimento de instituições democráticas na América Latina. Não é surpresa que Cuba, que ainda não é uma democracia, enfrente dificuldades. Olhando para uma futura era pós-Castro, os cubanos estão empreendendo ações cada vez mais ousadas para ter liberdades políticas e econômicas. Os EUA deveriam apoiá-los encontrando maneiras de aumentar a conectividade entre cubanos e expandir o acesso a tecnologias na ilha.
Também precisamos ajudar democracias pouco desenvolvidas da América Latina. As eleições livres são fundamentais, mas não bastam. Como se viu na Venezuela, na Nicarágua, no Equador e na Bolívia, líderes eleitos podem usar o poder democraticamente obtido para abusar de seu povo, atacar liberdades fundamentais e enfraquecer a sociedade civil. Um novo desafio poderá se colocar em breve, já que a Venezuela fará sua eleição presidencial em outubro. Se Hugo Chávez perder a eleição ou ficar incapaz de governar, outros países do hemisfério deviam ser proativos e resolutos ao deixar claro que não farão nenhuma tentativa de suspender a ordem constitucional.
Os avanços recentes de prosperidade e mobilidade social na América Latina ajudaram a fortalecer democracias e a criar novos consumidores. Após décadas de ditaduras, guerras e corrupção, muitos países latino-americanos surgiram como exemplos das coisas boas que ocorrem quando a livre iniciativa cria raízes. Países como Colômbia e Chile foram um dia assolados por conflitos que requereram ajuda ou intervenção internacional, mas estão se engajando no mundo como nunca, tornando-se autossuficientes e oferecendo novas oportunidades econômicas aos EUA.
Infelizmente, há um senso crescente de protecionismo fincando raízes e essa maré precisa ser revertida. No ano passado, o Congresso finalmente aprovou acordos de livre comércio com a Colômbia e o Panamá, que em breve entrarão em vigor e ajudarão a reduzir as barreiras comerciais para americanos venderem seus produtos e serviços, como fizeram os acordos passados com Chile, Peru, América Central e México. No front da energia, o Hemisfério Ocidental precisa se estabelecer como uma alternativa democrática, pacífica e estável ao Oriente Médio na produção mundial. Uma aliança energética formada por EUA, Canadá, México, Colômbia, Brasil e uma Venezuela pós-Chávez ajudaria nessa meta.
De um ponto de vista da segurança, o crime organizado violento precisa ser enfrentado. A despeito das exortações de alguns, isso não pode ocorrer pela legalização ou a descriminação do tráfico de drogas.
A Colômbia tornou-se uma história de sucesso de segurança, não porque seus líderes tenham legalizado as drogas, mas porque tiveram a coragem de combater os cartéis e os narcoterroristas das Farc. Mas a luta não terminou e os EUA precisam continuar dando seu apoio, o que incluiria fornecer à Colômbia aviões armados não tripulados. Países como a Colômbia podem, então, usar sua experiência para exportar segurança a pontos problemáticos como Honduras e Guatemala.
Finalmente, o Irã tenta aumentar sua influência na região, buscando aliados para contornar sanções, colher informações secretas e ter capacidade para ataques terroristas. As democracias da região precisam se unir para impedi-lo.
Chegou a hora de provar, por palavras e atos, que estamos comprometidos a ajudar a moldar o século 21 como um século de prosperidade e segurança sem precedentes no Hemisfério Ocidental. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É SENADOR REPUBLICANO PELA FLÓRIDA

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Romney não seria mau presidente só por ser abstêmio, mas a história relaciona álcool na Casa Branca a bons governos

TIMOTHY EGAN
THE NEW YORK TIMES

Sabemos, a partir de uma rara admissão pessoal, que Mitt Romney experimentou um bafejo de álcool há muito, muito tempo.
“Experimentei uma cerveja e um cigarro quando era um adolescente teimoso”, ele disse em novembro. “E nunca provei isso de novo”, completou.
Com certeza Romney tem amigos que possuem as próprias cervejarias multinacionais. Mas ele não passaria num teste de cerveja presidencial – ou seja, aquele presidente com quem você gostaria muito de tomar uma cerveja – simplesmente porque sua religião mórmon proíbe a ingestão de álcool. Mas ele também não passaria no teste do chá presidencial, como ele mostrou em outra aparição desastrada com pessoas reais na semana passada.
Sempre achei bobagem dizer que não gostar de cerveja seria uma limitação. Mas vale a pena pensar como seria uma Casa Branca sem um ocupante que gostasse de bebericar. A sobriedade, louvável em muitos aspectos, implica rigidez de pensamento. Os melhores presidentes foram aqueles de mente aberta e, geralmente, apreciadores de um drinque.
Os abstêmios, pelos menos durante o século passado, foram presidentes horríveis. O último presidente a renunciar ao álcool foi George W. Bush, que parece estar fadado a ter seu nome eternamente acompanhado da frase “e sabemos no que deu”. Durante sua juventude desperdiçada, ele foi um beberrão convicto e considerado um tanto turbulento, mas também insuportável, amassando seu carro em latas de lixo e desafiando seu pai a partir para a briga.
Jimmy Carter era abstêmio e acabou se tornando um presidente de um único mandato. As duas coisas estavam relacionadas? Não posso dizer. Mas sua temperança era mais penosa para os visitantes da Casa Branca do que para o ocupante da Casa Brança.
“Você chegava às 18 horas ou 18h30, e a primeira coisa que era lembrado, caso precisasse ser lembrado, era que ele e Rosalynn tinham retirado toda a bebida alcoólica da Casa Branca”, lamentou Teddy Kennedy em seu livro de memórias, True Compass.
As recepções a seco dadas por Jimmy Carter dão a Romney alguma coisa para pensar. Os convidados ficariam mais dispostos a ouvi-lo discursar monotonamente sobre a crise europeia, sabendo que o armário presidencial de bebidas oferecia a esperança de um fim promissor para a noite?
Abstêmio. Um outro abstêmio do Salão Oval foi William Howard Taft, que fez tamanha confusão no seu único mandato que chegou em terceiro lugar ao tentar se reeleger em 1912. Comida era o vício de Taft. Ele engordou tanto que chegou a pesar quase 158 quilos.
Franklin D. Roosevelt apreciava um Martini, para o desprazer de Eleanor, e foi um presidente extraordinário. De novo, havia uma relação? Colocar um fim na Grande Depressão e esmagar a máquina de guerra nazista – ajudado pelo constantemente ébrio Winston Churchill – é um resumo bastante vigoroso. Nos seus anos de juventude, Roosevelt sabia como planejar o futuro. Quatro caixas de Old Reserve foram entregues em sua casa na cidade, na Rua 65 Leste, pouco antes de a Lei Seca entrar em vigor.
O que nos leva ao “grande experimento”, de 1920 a 1933, quando fanáticos proibiram um comportamento público aceito que existia desde antes de Jesus transformar água em vinho para animar uma festa de casamento em Canaã. A proibição, lembrou W.C. Fields, foi a época em que as pessoas “eram obrigadas a viver dias sem nada, apenas com comida e água”.
De acordo com Daniel Okrent, autor de Last Call, Herbert Hoover tinha uma adega enorme de vinhos. Sua mulher deu um fim a todas as garrafas antes de ele assumir seu único, e desastroso, mandato. Humm…
Okrent também observa que John Adams bebia uma jarra de cidra diariamente e uma cerveja ocasional no café da manhã. O pai fundador e segundo presidente dos EUA viveu até os 90. O Mount Rushmore também é instrutivo. George Washington gostava de vinho madeira e fabricava a própria aguardente. Em 1799, sua destilaria de uísque de centeio era a parte mais lucrativa da propriedade de Mount Vernon.
No caso de Thomas Jefferson, a verdade que sempre deixou evidente era o prazer de beber um bom vinho. Ele adorava vinhos chianti, borgonha e bordeaux, e passou metade da vida tentando produzir vinho, sem sucesso, em sua propriedade na Virgínia.
Teddy Roosevelt foi um apreciador de bebida mais brando. Ele processou o dono de um jornal de uma pequena cidade em 1913 por tê-lo chamado de bêbado e ganhou a ação. Sua única extravagância, era o que se dizia, era um xarope calmante de menta antes de ir para a cama.
Abraham Lincoln tinha uma licença para comercializar bebida alcoólica e também administrou uma taverna nos anos 1830, em Illinois. Raramente era visto com uma bebida na mão. O problema do álcool, afirmava, não era que fosse algo ruim, mas uma coisa boa da qual as pessoas de mau caráter abusavam. Um sucessor dele, Ulysses S. Grant, provou que ele estava certo.
Mitt Romney certamente é um retrógrado, mas não tenho certeza em relação a que. Talvez um Don Draper necessitando de um drinque. Ele não precisa compartilhar algumas cervejas conosco para provar que é humano. Mas diante de sua temperança, ele poderia mostrar um pouco mais da tolerância de presidentes que gostavam da sua uva, grãos e cevada fermentados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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A guerra contra as drogas no México está levando os traficantes a usar o país sul-americano como centro de refino e rota de envio, principalmente para a Europa

HALEY COHEN
FOREIGN POLICY

Em setembro, o juiz argentino Carlos Olivera Pastor saiu do tribunal na Província de Jujuy para buscar uma caixa perto de seu carro estacionado. Pastor removeu a tampa da caixa, numerada como se contivesse documentos de arquivo judiciários, e encontrou uma cabeça decapitada, os olhos abertos. Em outubro, dois homens atacaram selvagemente um secretário do tribunal criminal do mesmo distrito, avisando que da próxima vez ele seria assassinado. Segundo autoridades da Sedronar, agência do governo que combate o tráfico e consumo de drogas, grande parte da droga que entra na Argentina passa pelas áreas pouco habitadas no noroeste do país e os juízes, que com frequência julgam casos relacionados com drogas, admitiram que os narcotraficantes foram os responsáveis por aqueles incidentes.

Os grupos de traficantes recentemente expandiram suas atividades na Argentina, durante muito tempo um centro de distribuição da droga destinada à Europa, aumentando a exportação e transformando o país num ponto tanto de consumo quanto de produção da substância.

Embora o problema da droga na Argentina não seja tão terrível como na Colômbia ou no México “as coisas começaram a mudar e muito”, diz Mónica Cuñarro, promotora independente que prestou serviços como secretária-executiva da Comissão Nacional de Políticas Públicas em questões de Prevenção e Controle do narcotráfico.

Em 2010, até onde existem dados estatísticos, os traficantes aproveitavam-se do fraco controle na fronteira do país, a ausência de fiscalização aérea, mais de 1.500 pistas de aterrissagem e decolagem ilegais e uma longa faixa da costa atlântica para exportar mais de 70 toneladas de cocaína, a maior parte para a Europa, onde o consumo chega a 123 toneladas por ano.

Operações nos últimos dois anos sugerem que a Espanha é um ponto de entrada especialmente popular para drogas despachadas da Argentina. Em abril de 2010, autoridades espanholas apreenderam 800 quilos de cocaína em um caminhão camuflado como se fosse um veículo do Rali Dacar e informaram depois que a droga tinha sido carregada na Argentina. Em janeiro, um jato executivo pilotado por dois filhos de um brigadeiro da Força Aérea dos tempos da ditadura argentina chegou a Barcelona carregado com uma tonelada de cocaína num caso ligado aos militares, o que levantou preocupações quanto à corrupção institucional.

Essas apreensões mostram que há uma nítida rota de trânsito entre os dois países e levam a questionamentos sobre como tal quantidade da droga está saindo da Argentina sem que isso seja percebido.

Segundo um estudo realizado por Martin Verrier, assessor de segurança do congressista argentino Francisco Narvaez, 96% da cocaína que sai da Argentina chega em segurança a seu destino. “Na Argentina, a situação é tal que os narcotraficantes entram e saem sem nenhum problema”, lamenta Claudio Izaguirre, presidente da Associação Antidrogas Argentina, uma ONG com sede em Buenos Aires.

Consumo interno. À medida que a Argentina passou a ser cada vez mais usada como rota do tráfico, também cresceu o volume de drogas disponível dentro das fronteiras do país. E o resultado disso é que o consumo de drogas na Argentina explodiu.

Na Argentina, um grama de cocaína pura custa menos de US$ 25, ao passo que a mesma quantidade é vendida nos EUA por US$ 120. Em 2008, a Argentina superou seus vizinhos e os EUA; hoje é onde mais se consome cocaína no Hemisfério Sul: aproximadamente 2,6% da população do país com idade de 15 a 64 anos, um aumento de 117% em relação a 2000. Os argentinos consomem cinco vezes mais cocaína do que a média global e têm um dos mais altos índices de consumo do mundo.

Também preocupante é o papel do país como produtor dos precursores químicos, substâncias usadas para a extração e o refino de drogas como cocaína, morfina e heroína. Essas substâncias são particularmente difíceis de fiscalizar já que são necessárias também para a produção de plásticos, produtos farmacêuticos, perfumes, cosméticos e detergentes.

Os contrabandistas transportam a cocaína da Bolívia, do Peru e da Colômbia para laboratórios clandestinos na Argentina, onde ela é refinada, antes de ser enviada para a Europa. Aproximadamente 250 laboratórios estão ocultos pelo país. Como a legislação que rege a importação de substâncias químicas ficou mais rigorosa em outros países da região, os “narcotraficantes químicos” desses laboratórios também estão produzindo heroína, efedrina e metanfetaminas que são despachadas para o México por mar e depois enviadas para os EUA.

Embora não haja estimativas sobre o volume total dos precursores químicos presentes no país, em 2010 as autoridades apreenderam um volume de efedrina jamais visto em outro país, exceto a China.

Com o reforço das medidas de combate ao tráfico em seus países de origem, os cartéis mexicanos e colombianos transferiram parte das suas operações para o exterior. Em junho, o assessor da ONU Edgardo Buscaglia foi à Argentina e confirmou que o cartel mexicano de Sinaloa, dirigido por El Chapo Guzmán, estabeleceu uma rede de bases no norte do país.

Outras notícias indicam que Guzmán viveu na Argentina com sua mulher e enteada até 2011. “As grandes organizações do narcotráfico estão aproveitando ao máximo as características da globalização: a rapidez das transações, os ativos intangíveis, transporte e assim por diante”, diz Verrier. “Países com instituições frágeis, como a Argentina, estão mais expostos à penetração dessas organizações.”

Os vínculos entre o narcotráfico e o terrorismo na Argentina parecem estar se fortalecendo.

Desde 2001, os EUA têm obtido informações de inteligência sobre “células terroristas na região da Tríplice Fronteira (onde Argentina, Paraguai e Brasil se cruzam), algumas infiltradas no tráfico de drogas”, disse o ex-diretor do FBI Louis Freeh.

Em fevereiro de 2010, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, expressou sua preocupação com essa região fronteiriça a um congressista americano. Alguns meses depois, a Interpol prendeu um suspeito de financiar o grupo libanês Hezbollah na fronteira com a Argentina, na cidade paraguaia de Ciudad del Este.

Reagindo a uma situação que vem se deteriorando, a presidente argentina anunciou, em julho, um novo plano chamado Escudo Norte, envolvendo a instalação de 20 radares aéreos e um reforço de 6 mil homens para a Guarda Costeira e a Gendarmería Nacional, e mais 800 soldados para a Força Especial do Exército no norte do país.

Anúncios recentes feitos pelo diretor da agência Sedronar indicam que a Argentina pode descriminar a posse e consumo de maconha, o que permitiria ao governo redirecionar seus recursos na luta contra as organizações do narcotráfico.

Mas a Argentina perdeu recentemente um parceiro-chave na luta contra o tráfico.

Em julho, o Ministério da Segurança da Argentina ordenou à DEA – agência americana de combate ao narcotráfico – que suspendesse suas atividades no país até nova ordem, citando a necessidade de um reexame dos programas internacionais de combate ao narcotráfico realizados em cooperação.

O Departamento de Estado americano, em seu Relatório de Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos, de 2012, sugeriu que a suspensão poderia estar relacionada a um escândalo que veio à tona em fevereiro, quando o governo argentino acusou os EUA de contrabandear armas e equipamentos de vigilância para a Argentina sob a alegação de serem destinados a cursos de treinamento da polícia.

A DEA e a embaixada americana em Buenos Aires não se manifestaram sobre o caso.

Martin Verrier, assessor para assuntos de segurança no Congresso dos EUA, acredita que a ruptura foi recíproca. “Achamos que a suspensão da colaboração com a DEA tem a ver com a estratégia do governo para introduzir uma lei determinando não ser crime o consumo pessoal de droga – uma estratégia à qual a DEA é totalmente contrária”, afirmou. Independentemente da razão do desacordo, sem a assistência da DEA os recursos para combate à droga na Argentina diminuíram nitidamente: as apreensões de cocaína caíram de 12,7 toneladas em 2010 para 5,8 toneladas em 2011.

Embora especialistas reconheçam que a Argentina não vai se tornar um Estado de narcotraficantes como Colômbia ou México, eles admitem que o país está numa encruzilhada em suas medidas antidroga. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PESQUISADORA NA UNIVERSIDADE YALE


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Juntos, os extremos de direita e esquerda da eleição francesa derrotariam tanto Sarkozy quanto Hollande

JOHN VINCOUR
THE NEW YORK TIMES

As eleições de domingo na França não decidirão quem será o próximo presidente, mas muito provavelmente apresentarão um infeliz precedente: o sucesso da “Frente da Rejeição” que conjuga a tenebrosa compatibilidade das extremas esquerda e direita.
Pelo menos teoricamente, somando-se os votos da Frente de Esquerda e da Frente Nacional, no primeiro turno, o total dos candidatos que estão mais à margem poderia superar tanto os do presidente Nicolas Sarkozy quanto de seu rival socialista, François Hollande. Isso não muda a quase certeza de que Marine Le Pen, na extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, serão eliminados no domingo. Hollande e Sarkozy avançarão para o último turno, marcado para duas semanas depois.
Mas, se a Frente da Rejeição, como decidi chamá-la, tiver um resultado tão bom quanto sugerem as sondagens, a França terá legitimado duas correntes políticas que menosprezam as soluções sérias para o drama econômico nacional, rejeitam a civilidade e o bom senso. Ambos propõem o retrocesso com um sistema econômico tresloucado e autoritário – entre a luta de classes e preconceitos de classe, raciais ou antiocidentais. É a política da raiva.
Sarkozy e Hollande preveem obter no primeiro turno de 26% a 29% dos votos. Se as estimativas para Le Pen (16% a 18%) e Mélenchon (15%) estiverem certas, o total de votos dos extremistas derrotará cada um dos dois candidatos das correntes tradicionais.
Mélenchon infantiliza os franceses com promessas de uma “insurreição”. Diz que criaria 500 mil empregos em creches do governo, 200 mil apartamentos com aluguel barato, o reembolso total dos gastos pessoais com assistência médica e a estabilidade plena para 800 mil funcionários públicos. Não está claro de que maneira a Frente de Esquerda cobriria os custos, mas Mélenchon deu uma pista: o confisco da renda pessoal anual acima de 360 mil. Para ele, ainda, os EUA são “o problema fundamental do mundo”, Hugo Chávez da Venezuela é um herói, a invasão chinesa do Tibete é plenamente justificada e Cuba não é uma ditadura.
Como disse Daniel Cohn-Bendit, o político ecologista de esquerda: “Ele conseguiu reavivar a nostalgia nacional pelo antigo conflito de classes e a tradição estatista”.
Enquanto o papel de Mélenchon na Frente da Rejeição recusa a realidade, a Frente Nacional de Marine Le Pen incita os instintos franceses ao sectarismo e ao rancor. E parece que está funcionando.
Sem rosnar como seu pai, Jean-Marie Le Pen, ela explora os sentimentos contra a imigração dosando cuidadosamente o excesso. O objetivo é arrancar votos da maioria da população, que, segundo as pesquisas, considera a integração um fracasso porque os imigrantes não se esforçam. Sondagens mostram que ela tem algum plano em mente. O Le Monde do dia 10 mostrou que, no domingo, ela receberá mais votos dos jovens entre os 18 e os 24 anos (26%) do que qualquer outro candidato à presidência.
Portanto, de quem ou do que é a culpa se uma parte significativa da França aceita sem uma atitude crítica a economia bizarra e o preconceito disfarçado? Uma fácil explicação lógica seria que, afinal, essa é uma antiga sociedade resistente às adversidades. Em vez disso, veja-se a banalidade de Sarkozy e de Hollande.
Eles nunca apresentaram aos eleitores a perspectiva o futuro mais difícil da redução do déficit, ou consideraram a possibilidade de adotar programas de impacto para os imigrantes muçulmanos. Com suas manobras simpáticas, Sarkozy e Hollande reduziram a estatura da política da França e deram aos líderes da Frente de Rejeição impulso suficiente para entrar, lado a lado, na Assembleia Nacional com as eleições legislativas de junho. / ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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Quebra de acordo com EUA é sinal de que norte-coreanos querem mais do que comida para frear programa nuclear

CHOE SANG-HUN
THE NEW YORK TIMES

As coisas tendem a se repetir de tal forma nas persistentes crises nuclear e de mísseis norte-coreanas que analistas e jornalistas com frequência brincam que, se pegassem suas matérias antigas e mudassem as datas, poderiam perfeitamente descrever o episódio mais recente.
Essa sensação de déjà vu baixou sobre a Península Coreana nas últimas semanas. Neste mês, como ocorreu em abril de 2009, a Coreia do Norte lançou um foguete. Como em 2009, o Conselho de Segurança da ONU condenou o lançamento e pediu sanções mais duras. Como há quatro anos, a Coreia do Norte rejeitou “resoluta e veementemente” a censura do Conselho. Agora há um amplo temor de que a Coreia do Norte faça um teste nuclear, como fez em 2009.
“A principal diferença entre 2009 e agora é que, naquela época, a Coreia do Norte agia como se soubesse exatamente o que estava fazendo sob a batuta de Kim Jong-il”, disse Choi Jin-wook, do Instituto para a Unificação Nacional da Coreia, referindo-se ao líder norte-coreano que morreu em dezembro, deixando o governo para seu filho Kim Jong-un.
A recente sequência de decisões de Pyongyang pode ter parecido confusa para muitos analistas, mesmo para padrões norte-coreanos. Primeiro o governo firmou um acordo com Washington em fevereiro para suspender testes de mísseis de longo alcance e depois deu prosseguimento a um lançamento de foguete na semana passada. O governo norte-coreano convidou jornalistas estrangeiros para o lançamento, mas ao fim acabou não o mostrando a eles.
Diferentemente do caso de seus dois lançamentos de satélite fracassados que o governo insistiu que foram bem-sucedidos, desta vez Pyongyang admitiu a seu povo que o lançamento do foguete havia gorado. “Vejo confusão no regime”, disse Choi. “Isso torna mais difícil entender a Coreia do Norte e torna a situação mais imprevisível. Ficamos tentando imaginar a quem Kim Jong-un ouvirá depois do lançamento do foguete. Se ouvir os militares, a Coreia do Norte com certeza adotará uma linha mais dura, realizando não somente um teste nuclear, mas também uma provocação militar contra a Coreia do Sul.”
Baek Seung-joo, do Instituto de Análises de Defesa da Coreia em Seul, observou que a declaração do Ministério das Relações Exteriores norte-coreano, condenando o Conselho de Segurança, não ameaçou explicitamente realizar um teste nuclear, nem renegou as conversações de desarmamento nuclear de seis nações. O fracasso do foguete deve ter desferido um grande golpe nos militares e eles podem ter perdido parte de sua influência no regime”, disse Baek.
A atenção está centrada agora em se a Coreia do Norte realizará um novo teste nuclear, possivelmente usando combustível do programa de enriquecimento de urânio que revelou recentemente.
“Vamos ver a repetição do mesmo padrão: um lançamento de míssil seguido de um teste nuclear”, disse Andrei Lankov, da Universidade Kookmin, em Seul. “O que poderia fazer a diferença é o provável uso de urânio altamente enriquecido no teste. Se for urânio e não plutônio, isso pode tornar o assunto todo bem mais perigoso do ponto de vista da não proliferação.” Com efeito, uma bomba de urânio deixaria “claro por que eles deram um tapa no rosto de Tio Sam, rompendo um acordo recém-assinado”, disse Lankov. “Eles querem mostrar que as paradas serão bem mais altas, por isso pedirão muito mais que meras 240 mil toneladas de ajuda alimentar”, disse ele, referindo-se à assistência que Washington prometeu e depois suspendeu em função do lançamento do foguete.
Lee Yun-keol, um biólogo norte-coreano que desertou para o Sul em 2006, escreveu num livro a ser publicado neste mês que físicos nucleares norte-coreanos devem fazer um novo teste nuclear porque o desenvolvimento da tecnologia da bomba atômica foi oficialmente reconhecido como “o último desejo” de Kim Jong-il, assim como foi o programa do foguete.
Lee, que hoje chefia o Centro de Serviço de Informações Estratégicas da Coreia do Norte, uma organização privada de pesquisa, disse que o “desejo” do Kim que morreu circulou entre a elite norte-coreana como o poste de orientação de política de seu filho. Até agora, Kim Jong-un apoiou-se pesadamente na autoridade de seu pai para governar. “O desejo diz que se a Coreia do Norte não desenvolver armas nucleares e mísseis de longo alcance, ela viverá como escrava das grandes potências”, disse Lee, citando fontes bem situadas não identificadas de dentro da Coreia do Norte.
Vários analistas há muito vêm questionando a eficácia de sanções contra a Coreia do Norte. Alguns deles disseram que a China pode ter violado a resolução do Conselho de Segurança da ONU ao fornecer os veículos de lançamento de mísseis com 16 rodas que foram vistos numa parada militar em Pyongyang no domingo carregando um novo tipo de míssil.
Ted Parsons, do IHS Jane’s Defense Weekly, assinalou semelhanças com um conhecido veículo chinês: “O mesmo desenho de para-brisa, a mesma configuração de quatro limpadores de para-brisa, o mesmo desenho de porta e trinco, uma área de grade muito parecida, quase a mesma configuração de luzes no para-choque dianteiro e o mesmo desenho dos degraus da cabine.” Ele acrescentou que o envolvimento de um construtor de veículos chinês “no programa de mísseis da Coreia do Norte requereria a aprovação dos escalões mais altos do governo chinês e do Exército de Libertação Popular”.
James Hardy, também do Jane’s Defense Weekly, disse que, se for confirmado, o envolvimento da China romperia uma resolução do Conselho de Segurança de 2009 que proíbe suprir a Coreia do Norte de “quaisquer armas ou materiais afins ou fornecer transações financeiras, treinamento técnico, serviços ou assistência relacionados a essas armas.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA

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Crise de 2008 será a marca do fim do imperialismo dos EUA, algo similar ao que 2ª Guerra fez à Grã-Bretanha

KWASI KWARTENG
THE NEW YORK TIMES

A Primavera Árabe, a ameaça do Irã enquanto potência nuclear emergente, a violência sem fim na Síria e a relutância dos EUA em decidir se envolver lá indicam a debilidade, senão o fim, do papel dos EUA como polícia do mundo. O próprio presidente Obama disse em um discurso, no ano passado: “Os EUA não podem usar o seu poderio militar em qualquer país em que haja repressão”.
A situação dos EUA neste momento lembra a da Grã-Bretanha em 1945. Extremamente endividada e empenhada, entre outras coisas, em construir o seu sistema nacional de saúde, o país não tinha mais condições de governar um império. Além disso, o país, que tão orgulhosamente segurava as rédeas do poder apenas uma geração antes, estava esgotado.
O papel imperialista dos EUA é até mais frágil, porque eles nunca tiveram a fé e a confiança em seu próprio destino imperial. Hoje, o declínio americano não é motivado pelo isolacionismo tradicional, mas por uma necessidade prática. Como a Grã-Bretanha depois da 2.ª Guerra, os EUA contemporâneos já não dispõem de recursos financeiros para manter um império – que no caso americano, foi sempre um objetivo perseguido sem grande entusiasmo.
Assim como a 2.ª Guerra foi identificada com o fim do Império Britânico, os futuros historiadores poderão identificar a crise financeira de 2008 com o fim do império americano. Entretanto, com o declínio do poderio americano, particularmente no Oriente Médio, o mundo se tornou consideravelmente mais instável e incerto.
Os EUA retiveram uma imagem muito menor do que o colosso que parecia o dono do mundo em 1989, quando um artigo intitulado O fim da história? podia ser levado a sério, ainda que paradoxalmente. Os EUA nunca procuraram administrar territórios estrangeiros direta e indefinidamente, embora a presença de bases americanas no Japão, Alemanha, Grã-Bretanha e, mais recentemente, na Arábia Saudita, lembrem um imperialismo brando.
Durante a Guerra Fria, os EUA se consideravam os líderes do “mundo livre”, reivindicando uma liderança tão ousada quanto a de qualquer outro império da história. Sua dominação tinha base na força das alianças, na assistência direta e no exemplo social e econômico, não na ocupação. Somente nos últimos dez anos os EUA intervieram militarmente para decidir quem governaria no Iraque, no Afeganistão e na Líbia.
A hesitação em se envolver nos complexos detalhes da política internacional é uma característica do organismo político americano desde a independência. A famosa admoestação de George Washington que aconselhava a “evitar as controvérsias externas” é uma das citações mais falsas da história – que comprime em três palavras um conselho mais sutil a evitar os imbróglios da Europa. Entretanto, os líderes que vieram depois dele seguiram a versão aceita dos comentários de Washington. Posteriormente, Woodrow Wilson pregou a autodeterminação lá fora e a Guerra do Vietnã ensinou aos americanos que seu poderio era limitado.
A história do Império Britânico sugere que toda forma de império é equivocada. Em primeiro lugar, é um empreendimento demasiado dispendioso. A ascensão da China e dos países emergentes significa que, mesmo que os EUA se recuperem, as dimensões relativas de sua economia serão menores. Em segundo lugar, como os britânicos acabaram descobrindo, manter um império exige um número excessivo de cálculos e um conhecimento imenso para que qualquer potência no mundo de hoje queira tentar essa façanha. O Iraque e o Afeganistão deveriam ter ensinado essas lições aos EUA. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É MEMBRO CONSERVADOR DO PARLAMENTO BRITÂNICO E ESCREVEU ‘GHOST OF EMPIRE: BRITAIN’S LEGACIES IN THE MODERN WORLD’

 

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Tecnologia norte-coreana serviu de modelo para lançamentos iranianos, mas parece ter problemas para obter qualidade

WILLIAM BROAD
THE NEW YORK TIMES

Os desastres são um elemento comum na ciência dos foguetes, como demonstrado pela experiência dos americanos com seu programa Vanguard. Aquele fino foguete deveria lançar o primeiro satélite americano até a órbita do planeta. Mas, desde 1957, sete testes estáticos dos seus motores apresentaram problemas. A pressão aumentou quando Moscou conseguiu levar um satélite à órbita em outubro daquele ano.

Os repórteres foram ao Cabo Canaveral, Flórida. No dia 6 de dezembro, a contagem regressiva chegou ao zero e o Vanguard começou a subir da área de lançamento. O foguete alcançou pouco mais de um metro antes de voltar ao chão como uma bola de fogo e fumaça.

O satélite transportado pelo Vanguard foi arremessado para fora e “caiu no chão perto de nós, fazendo seus inocentes ruídos eletrônicos”, de acordo com The Heavens and the Earth (algo como Os céus e a Terra), uma história dos primórdios do programa espacial americano. No início do ano seguinte, os EUA conseguiram lançar um satélite usando um foguete diferente e, menos de três meses mais tarde, conseguiram também lançar um Vanguard com sucesso.

Se os EUA foram capazes de aprender com os erros e fracassos, talvez a Coreia do Norte também possa. O país precisa avançar depois de 14 anos de fracassos no desenvolvimento de foguetes poderosos o bastante para transportar um satélite – especialmente quando a liderança norte-coreana, sempre envolta em grande dose de mistério, induz a empobrecida população do país a expectativas grandiosas.

Em entrevistas, especialistas aeroespaciais disseram que grandes fracassos são uma parte comum dos programas de foguetes, podendo produzir informações cruciais para os engenheiros que tentam identificar os problemas e aperfeiçoar os modelos.

“Estamos falando de algo bem complicado de se fazer”, disse David C. Wright, importante cientista do Union of Concerned Scientists, grupo particular de Cambridge, Massachusetts. O dr. Wright destacou que a Coreia do Sul teve dois fracassos recentes no lançamento de um satélite, primeiro no dia 25 de agosto de 2009 e depois em 10 de junho de 2010. “Basicamente, trata-se de uma tarefa complicadíssima”, observou ele.

Entretanto, o fracasso da Coreia do Norte deixou alguns especialistas perplexos. De acordo com eles, o Irã – que se aproveitou da experiência norte-coreana para desenvolver suas próprias famílias de foguetes grandes e pequenos – tem obtido resultados melhores do que seu mentor. Teerã pôs seu primeiro satélite em órbita em 2009, juntando-se ao seleto grupo de países que usaram sua própria tecnologia para levar objetos à órbita.

O dr. Wright sugere que talvez a Coreia do Norte esteja enfrentando problemas de controle de qualidade. “A planta técnica do projeto deles parece sólida”, disse ele. “Mas aspectos mais mundanos podem interferir no desempenho, como a soldagem. Pode ser difícil montar todas as partes de um foguete.” / TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA

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