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Radar Global

Bin Laden em vídeo na internet

Na semana passada, Osama bin Laden divulgou um novo pronunciamento na internet. Em linhas gerais, foi mais do mesmo: Israel deve acabar, americanos e “infiéis” morrerão, o jihadismo prevalecerá, banhos de sangue ocorrerão no Iraque e Afeganistão, bla-bla-bla. Mas tinha algo novo no discurso. Pela primeira vez, o líder da Al-Qaeda decidiu debater a questão ambiental. O aquecimento global é realmente dramático, concordou o mentor do 11 de Setembro. Culpa dos poderosos países industriais, concluiu em seguida. Claro, Bin Laden aproveitou para dar uma bordoada em Bush, que “se recusou a ratificar o Protocolo de Kyoto” (na verdade os EUA assinaram o documento, mas ele não passou no Congresso).

Depois de desferir o maior ataque contra os EUA desde Pearl Harbour, a Al-Qaeda virou um fenômeno midiático. Como aponta um estudo interessante do New America Foundation publicado na semana passada, o grupo que fez a maior potência da história declarar uma “guerra ao terror” global, foi incapaz de repetir ataques da dimensão dos de setembro de 2001 e teve de recorrer ao universo da comunicação como último recurso. E, mesmo lá, está tendo dificuldades.

Conhecida como As-Sahab, a “assessoria de comunicação” da Al-Qaeda parece ter se desintegrado do grupo terrorista, conclui a New America. A unidade não pode ser mais considerada parte da Al-Qaeda e faz pronunciamentos recorrentes sobre outros grupos, como o Taleban afegão e paquistanês. Na contra-mão, outros grupos terroristas têm se referido menos à Al-Qaeda, preferindo citar apenas a pessoa Bin Laden.

Outra má notícia para a parte de relações públicas jihadista é que os fóruns virtuais de debate, locais nos quais a ideologia do terror é amplamente difundida, estão mais escassos. Seriam menos de dez os participantes ativos desses fóruns no mundo todo, calcula o estudo.

As conclusões do New America deveriam tirar o sono de Bin Laden: “A mudança virtual da Al-Qaeda sugere uma redução gradual de suas pretensões globais.”

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Netanyahu e Obama na Casa Branca (Fonte: CBS)

Netanyahu e Obama na Casa Branca (Fonte: CBS)

Parece que não são apenas os bastidores da diplomacia americana e israelense que se incendiaram com a recente polêmica envolvendo a “aliança especial” de Washington e Tel-Aviv. Desatada depois que Israel anunciou uma nova leva de construções em Jerusalém Oriental justamente quando desembarcava no país o vice de Obama, Joe Biden, a controvérsia acabou engolfando também especialistas de think-tanks (centros de pesquisa) americanos, que iniciaram um tiroteio sobre como interpretar o mal-estar entre os aliados.

Curiosamente, o debate na torre de marfim parece ter descambado para a discussão do copo d’água: alguns o veem meio cheio; outros, meio vazio.

Quem fala em “crise” entre Israel e EUA defende, com razão, que os termos usados pela Casa Branca para criticar a expansão israelense (a secretária de Estado Hillary Clinton chegou a falar que a ação israelense era um “insulto”) foram extraordinariamente fortes e seriam impensáveis há dois anos, sob a presidência de George W. Bush. Os que negam se tratar de uma crise real argumentam que, nem com o tal “insulto” israelense, americanos foram capazes de enquadrar o governo de Binyamin “Bibi” Netanyahu. Ninguém na Casa Branca questionou, por exemplo, os US$ 2,6 bilhões anuais que os EUA dão a Israel – nem para pressionar israelenses a rever sua política de assentamentos.

Como na discussão do copo d’água, as duas versões correspondem aos fatos. Americanos não costumam falar tão grosso com israelenses, mas a “aliança especial” em nenhum momento foi colocada em questão.

Nesse contexto, o think-tank Council on Foreign Relations teve a iniciativa de promover um debate online entre quatro de seus especialistas em Oriente Médio. Há pessoas como Elliot Abrams, próximo do governo Bush filho e tido como neo-conservador, ou como Steven Simon, mais a cara das fileiras moderadas do Partido Democrata. (Destaque para as opiniões de Leslie Gelb, ex-correspondente do New York Times que atuou ao lado de Robert McNamara na administração Kennedy)

Como era de se esperar, os analistas discordam em basicamente de tudo. Tem um que diz que o mal-estar prova de uma vez por todas que americanos e israelenses têm objetivos distintos na região, outro que culpa o gabinete direitista no poder em Israel, outro ainda que reclama da pressão de Obama sobre o aliado. A enxurrada de argumentos, porém, é uma aula sobre relações Israel-EUA. Vale a pena ler.

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Osama discursa para as câmeras da Al Jazira (Reprodução)

Osama discursa para as câmeras da Al Jazira (Reprodução)

Robert Pape, professor da Universidade de Chicago, é um dos mais interessantes pesquisadores sobre terrorismo e violência política. Enquanto proliferavam os “experts” na área, embalados na onda pós-11 de Setembro, Pape foi ao elementar das ciências sociais para pesquisar o “perfil” dos terroristas de hoje. Catalogou milhares de pessoas que cometeram atentados e chegou a conclusões que desbancam totalmente o estereótipo do terrorista barbudo de turbante, saído das cavernas.

Ele, por exemplo, provou que a imensa maioria dos muçulmanos que usaram o terrorismo como arma política não vinham de famílias que podem ser qualificadas de “fundamentalistas” ou “muito religiosas”. Vários tinham passado absolutamente laico e, ao “retornarem ao Islã”, foram para o extremo. Praticamente todos tiveram contato com o mundo e os costumes ocidentais. Isso seria algo que cientistas sociais gostam de chamar de “padrão de comportamento”.

Pape também tem um argumento interessante que relaciona terrorismo com “percepção de ocupação estrangeira”. Resumindo (e vulgarizando), seria dizer que o terrorismo é uma arma amplamente usada por pessoas que lutam contra o que veem como uma ocupação ilegal de sua terra. Fora desse contexto, atentados são raros.

Pape “prova” sua teoria com um banco de dados que lançou na semana passada – o motivo deste post, aliás -, juntamente com uma equipe do Chicago Project on Security and Terrorism (CPOST). A universidade organizou todos os praticamente todos atentados que ocorreram entre 1981 e 2001 no mundo, classificando-os de acordo com o grupo responsável, região onde ocorreu, perfil dos militantes, etc. Veja o estudo aqui.

Uma versão ampliada dos dados coletados mostra que, de 1981 a 2009, terrorismo basicamente aconteceu no estreito Israel-Líbano-Síria, no Iraque, no Afeganistão-Paquistão-Caxemira, Sri Lanka e na região de fronteira entre a Rússia e a Ásia central (sobretudo Chechênia). Ou seja, em todos, há a tal “percepção de ocupação estrangeira”.

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Obama: historiador vê 'fraqueza e hesitação' se repetir (Foto: AP)

Obama: historiador vê 'fraqueza e hesitação' se repetir (Foto: AP)

Ao examinar os genes da diplomacia do presidente Barack Obama, o historiador Walter Russel Mead, do instituto Council on Foreign Relations, chegou a um diagnóstico surpreendente. A nova política externa dos EUA, diz Mead, sofre da “síndrome de Jimmy Carter”. E o prognóstico preocupa: “Os impulsos antagônicos que influenciam o modo como esse jovem presidente pensa ameaçam despedaçar sua presidência – e, no pior dos cenários, transformá-lo em um novo Jimmy Carter.”

Como o presidente dos EUA entre 1977 e 1981, Obama tem uma personalidade dupla, constata Mead em um incendiário artigo publicado na revista Foreign Policy. De um lado, o líder é pragmático, busca reduzir custos da presença americana no mundo. Diz que deixará o Iraque em 2010 e o Afeganistão em 2011, quer negociar com o Irã, acalmar a Rússia, rever o apoio a Israel e ignorar a Venezuela. O objetivo: centrar esforços na política interna e erigir uma democracia que, pelo mérito e exemplo, lidere o mundo.

“Obama almeja, assim, uma vida mais calma, pois acredita que, sob George W. Bush, o poder americano estendeu-se para além de seus limites”, resume Mead ao Estado. Mas há uma outra “persona” de Obama, idealista, que volta a atribuir aos EUA a missão de promover os direitos humanos e espalhar a democracia mundo afora. Sob pena de embaraçar laços com a China, o ocupante da Casa Branca recebeu o dalai-lama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, advertiu Pequim sobre liberdade na internet. Obama diz que o desenvolvimento da África “é prioridade” e, ao ser eleito, prometeu fechar a prisão de Guantánamo dentro de um ano. O prazo expirou há um mês.

“Essa esquizofrenia cria problemas. Obama, por exemplo, ignorou violações sistemáticas no Irã, mas inicialmente tomou uma atitude firme em relação a Honduras. Isso leva pessoas a concluir que, quando um país é fraco, você pode desafiá-lo. Mas, quando é forte, você o deixa em paz”, afirma Mead. “É isso que acontecia com Carter.” As respostas ao artigo do historiador vieram na semana passada do próprio Carter e de seu conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski. O ex-presidente irritou-se por ter sido qualificado de “fraco e indeciso” e contra-atacou: “Embora seja verdade que não entrei em guerras, não considero isso motivo para pedir desculpa.” Brzezinski exaltou a “firmeza e decisão” do presidente a quem serviu, dizendo que, se Obama tiver êxitos semelhantes, aí sim terá a tal “síndrome de Carter”.

Independentemente do bate-boca, há semelhanças factuais curiosas entre os dois presidentes. Carter e Obama, por exemplo, autorizaram a viagem de cubano-americanos e o envio de remessas a Cuba. Foi o sucessor de Carter, Ronald Reagan, quem reverteu as medidas.

Eles também ocuparam a Casa Branca durante as duas maiores convulsões recentes no Irã. No governo Carter, o xá Reza Pahlevi foi derrubado. O episódio dos reféns americanos na embaixada de Teerã é tido como o grande motivo para Carter não ter sido reeleito. Com seis meses de governo, Obama viu os maiores protestos no Irã desde 1979 e agora se debruça sobre a questão nuclear.

Segundo Mead, as duas “personalidades” de Obama representam, na verdade, duas escolas da diplomacia americana em conflito. O presidente seria um discípulo tanto do pragmático Thomas Jefferson, terceiro presidente dos EUA (1801-1809), quanto do ideólogo Thomas Woodrow Wilson (1912-1921), que governou durante a 1ª Guerra.

“Obama é ao mesmo tempo um ‘jeffersoniano’ e um ‘wilsoniano’”, diz Mead. “‘Jeffersonianos’ acreditam que a diplomacia deveria se preocupar menos em espalhar a democracia pelo mundo e mais em protegê-la em casa. ‘Wilsonianos’ pensam que os EUA têm uma obrigação moral e um interesse nacional na promoção de seus valores.”

Além dessas duas tradições, o historiador diz que há ainda discípulos de Alexander Hamilton (1755-1804), primeiro secretário do Tesouro dos EUA, e do comandante militar Andrew Jackson, sétimo presidente (1829-1837). “‘Hamiltonianos’ acreditam que uma aliança entre governo e empresas é a chave para a diplomacia. ‘Jacksonianos’ pensam que o objetivo central é a segurança física. São como a Fox News de hoje.” Mead receita que o Obama “jeffersoniano” prevaleça sobre o “wilsoniano”. Só assim seria possível garantir que “objetivos dos EUA sejam proporcionais a seus meios”.

diplomacia

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Instituto de pesquisa Crisis Group analisa posição chinesa em relação ao programa nuclear iraniano

Ahmadinejad cumprimenta Hu Jintao em Paquim (Fonte: Nova China)

Ahmadinejad cumprimenta Hu Jintao em Pequim (Fonte: Nova China)

A China continuará a ser, no curto prazo, uma pedra no sapato dos esforços da diplomacia americana e europeia para emplacar uma quarta rodada de sanções do Conselho de Segurança da ONU ao Irã. Mas, ao fim, subirá no barco. Pragmática, a diplomacia chinesa coloca como objetivo final da barganha nuclear a preservação, pelo menos parcial, de seus grandes interesses estratégicos no Irã, terceiro fornecedor de petróleo a Pequim. Não quer arriscar a relação com os EUA, tampouco com a União Europeia, por causa do Irã. Contudo, tem bilhões investidos no setor de energia iraniano, além de um mercado preferencial para seus produtos manufaturados. O verdadeiro braço-de-ferro diplomático, portanto, é sobre os termos das novas sanções: contra quem serão as medidas, com quais objetivos e contrapartidas.

O cenário acima foi traçado pelo Crisis Group, prestigiado centro de pesquisa na área de segurança internacional. Trata-se, claro, de uma previsão. Mas está amparada nos principais estudos feitos recentemente sobre a relação China-Irã, o novo nó na negociação internacional para impor mais sanções ao programa nuclear iraniano.

O presidente Mahmoud Ahmadinejad enfureceu os EUA e Europa ao enterrar de vez, há três semanas, uma proposta de acordo. Segundo a oferta, Teerã trocaria urânio por material nuclear produzido fora do país persa. Até o Brasil foi citado como potencial depositário, mesmo sem ter atualmente capacidade técnica para fazê-lo. Desde lá, o Irã começou a enriquecer urânio a 20% sem o acompanhamento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e Ahmadinejad ameaçou elevar o patamar a 80%. Para uma bomba, é preciso de 90% de enriquecimento.

O endurecimento de Teerã teve resposta. E a mais significativa não veio dos EUA, mas da Rússia. Moscou, que ajudou a construir a usina nuclear iraniana de Bushehr, está dando sinais de que apoiará medidas suplementares contra o Irã. O governo Barack Obama já adotou novas restrições unilaterais contra a Guarda Revolucionária do Irã, sustentáculo armado do regime, e presume-se que levará ao Conselho de Segurança propostas semelhantes contra a instituição iraniana. Será que a China vetará?

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Relatório do Repórteres Sem Fronteiras denuncia aumento da censura e violência contra jornalistas

Fonte: The Global Beat

Fonte: The Global Beat

Jornalistas do mundo inteiro tiveram um motivo a mais para entoar o tradicional “adeus ano velho” neste réveillon. Um relatório publicado pela ONG Repórteres Sem Fronteira mostra que 2009 entrou para história como um dos anos mais sangrentos e difíceis aos profissionais da área de comunicação – repórteres, radialistas, fotojornalistas, cinegrafistas, blogueiros e afins.

Ao todo, 76 jornalistas foram assassinados (16 a mais que em 2008); 33 acabaram sequestrados; 573, detidos; 1456, ameaçados. Não menos preocupante, 570 empresas de comunicação ao redor do mundo foram censuradas em 2009 – incluindo o Grupo Estado, proibido pela Justiça de publicar matérias sobre a operação Boi Barrica da Polícia Federal, que investiga as ações de Fernando Sarney – e o número de países que impõem limites ao acesso à internet (ou seja, censura) foi de 37 para 60.

O documento relembra ações contra a imprensa que ganharam destaque ao longo de 2009. Logo no começo do ano, enquanto conduzia uma violenta onda de bombardeios que culminou em uma invasão por terra da Faixa de Gaza, Israel proibiu repórteres de entrar no território palestino para relatar a tragédia humana. As poucas informações vinham de jornalistas palestinos, trancafiados em Gaza, que enviavam matérias e fotos para jornais de todo mundo.

Em julho o Irã iniciou uma nova modalidade de mordaça, cujo alvo foi a web – sobretudo o Twitter e o Facebook. Embora o regime de Teerã tenha derrubado o acesso a esses serviços, centenas de milhares de manifestantes foram às ruas após dissidentes orquestrarem protestos por meio da rede. Mensagens de celular também foram bloqueadas, mas a censura – feita com aparelhos ultramodernos europeus, diga-se – mostrou-se incapaz de frear a multidão. Sobre o jornalismo virtual, 151 ciberdissidentes e blogueiros foram presos em 2009 (151% a mais que em 2008), segundo o estudo.

A ONG também cita casos menos conhecidos, porém não menos escabrosos, de repressão a jornalistas. Nas Filipinas, por exemplo, uma milícia matou 30 repórteres de uma vez só. Militantes islâmicos da Somália se especializaram na perseguição a radialistas, um dos poucos formadores de opinião que restaram no país.

2010 começa com várias guerras inacabadas e crises violentíssimas (Iraque, Afeganistão-Paquistão, Sri Lanka, Congo, Sudão, Colômbia, México…). Será hora de cantar “feliz ano novo”?

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Fonte: BBC

Fonte: BBC

Qual relação pode ser estabelecida entre episódios como a assombrosa degola do governador de Caquetá, Luis Francisco Cuéllar, na semana passada, ou a união anunciada há duas semanas entre insurgentes das Farc e do ELN contra o governo da Colômbia, e o terceiro mandato de presidente Álvaro Uribe? Mais ainda: como uma nova reeleição do presidente (ele já foi reconduzido ao cargo em 2006 com uma emenda constitucional) determinará a luta contra a narco-guerrilha? São essas questões que o Crisis Group, a principal ONG de monitoramento de conflitos, tenta elucidar em um estudo publicado este mês. O grupo defende que a iminente alteração constituicional que abrirá caminho a um terceiro mandato de Uribe tem, sim, impactos profundos – e potencialmente negativos – sobre a redução da violência colombiana. O argumento que o estudo traz é implícito, mas inequívoco: a fragilização das instituições do país andino, com as fichas colocadas sobre a figura de um presidente-salvador, amplia as sombras legais, políticas e humanitárias do combate à guerrilha.

A receita que o Crisis Group advoga é a redução da “incerteza” político-institucional, a clara “separação de poderes”, autonomia do Tribunal Eleitoral e outros preceitos básicos de um estado de direito e de uma democracia em ação. Sem eles, a própria alcunha do projeto de “Segurança Democrática”, bandeira que Uribe empunha na luta contra a narco-guerrilha, perde sentido.

O Congresso colombiano aprovou em setembro a lei que permitirá a realização de um referendo sobre a reeleição do presidente. Agora, a batata quente está com a Corte Constitucional. Ela deverá se pronunciar sobre a legalidade do terceiro mandato entre o fim de fevereiro e início de março (mês das eleições legislativas). Se houver sinal verde, Uribe terá de conquistar maioria absoluta dos votos, com um quórum de pelo menos ¼ do eleitorado colombiano.

Em suma, o labirinto legal é extenso e complexo. Mas Uribe – lembre-se, reeleito em 2006 após outra reforma constitucional – pode contar com uma cartada decisiva: a aprovação de 64% dos colombianos.

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20.dezembro.2009 19:35:42

O ópio da guerra

 

Escritório de combate às drogas e crime da ONU publica estudo anual sobre a produção do ópio no Afeganistão

imagem do jornal britânico Telegraph

imagem do jornal britânico Telegraph

 As notícias da campanha dos EUA e de seus aliados contra o Taleban não têm sido boas. O número de baixas nunca foi tão alto, os insurgentes ampliaram seu controle sobre o país com apoio do lado paquistanês da fronteira, o governo Hamid Karzai - reeleito na base da fraude – não tem legitimidade entre a população. Mas eis que surge um estudo interessante que dá margem a um (relativo) otimismo.

Segundo o escritório da ONU que monitora o crime e o narcotráfico, o UNDOC, o cultivo da papoula caiu 22% em 2009. A produção do ópio também sofreu queda, de 10% (em números absolutos, 7 mil toneladas…). O número de pessoas envolvidas no mercado da droga teria recuado, assim como as províncias “livres” da papoula.

O documento defende que a “mão invisível do mercado” teria jogado um papel importante na melhora dos indicadores. Os lucros que produtores têm com o ópio supostamente caiu e um excesso de produção fez com que o produto deflacionasse. Isso, combinado ao combate da Otan aos campos de produção, teria surtido algum efeito. Mas, repita-se, o otimismo deve ser relativo. Com toda campanha, um quarto do atual PIB do Afeganistão ainda vem do ópio.

A produção da droga no país ganhou força com o fim da ocupação da URSS, em 1989. Nos dez anos que passaram no Afeganistão, os soviéticos foram capazes de manter um relativo controle sobre as cidades, enquanto o campo era dominado pela insurgência – ironicamente, uma situação similar à de hoje com a Otan. “Por isso, a URSS promoveu uma destruição indiscriminada da área rural, acabando com os meios de subsistência”, explica Vanda Felbab-Brown, uma das maiores especialistas no assunto, professora da Universidade Georgetown. Com o campo aos cacos, agricultores que antes limitavam a produção da papoula encontraram na planta a única saída para sobreviver. E a droga proliferou.

Desde a invasão de 2001, o hiper-ultra-fundamentalista Taleban - que proibiu o cultivo da papoula quando governou o Afeganistão - primeiro adotou uma posição pragmática. Para não perder apoio local, fazia vista grossa à droga. Depois, entendeu que do narcotráfico pode jorrar dinheiro. Hoje, os militantes islâmicos estão envolvidos em praticamente todas as etapas da produção do ópio, afirma Vanda.

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13.dezembro.2009 03:54:47

Que democracia?

A corporação Latinobarómetro, com sede em Santiago, no Chile, lançou na sexta-feira a sua tradicional pesquisa sobre o estado da democracia na América Latina. O que dá para entender do resultado é que, afinal, os latino-americanos tem uma concepção sui generis sobre quais são os fundamentos de um sistema democrático.

 Na Costa Rica, por exemplo, 91% da população diz que “em nenhuma circunstância apoiaria um governo militar”. No entanto, 27% “apoia que os militares removam um presidente que viole a Constituição” – caso de Honduras. A conclusão obvia é que quase um terço da população desse país acredita que ninguém, nem o presidente, pode agir contra a Constituição. Mas 29% também acha que “se há uma situação difícil, não há problema em passar por cima das leis.”

Outro dado interessante, que mostra essa confusão, é que o país que mais apoia a democracia é a Venezuela. Lá, 85% da população vê a tal forma de governo como preferível a qualquer outra. No Brasil, por exemplo, a porcentagem é de 55%. É claro que os aliados de Chávez e a oposição tem concepções diferentes sobre o que é democracia.

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O Council on Foreign Relations publicou o estudo “Europe: Integrating Islam”

A questão da integração na Europa não é nova. Já em 1894, as contradições do republicanismo francês ficaram evidentes após o alto comando do Exército, dominado por um pensamento nacionalista e antissemita, tramar um complô para culpar o oficial Alfred Dreyfuss, um judeu, por um escândalo de espionagem envolvendo a rival Alemanha.

A Justiça francesa fora manipulada “do alto”, imbuída de racismo. Em reação, parte da intelectualidade da época encampou uma longa batalha nos jornais de Paris em defesa de Dreyfuss. Entre os principais “dreyfusards” estava o imortal escritor Émile Zola – tido como o primeiro intelectual público por sua militância pró-Dreyfuss. Ao final, provou-se que o oficial era inocente e havia sido acusado porque era judeu.

Além de ser um dos primeiros exemplos do chamado “antissemitismo moderno”, o caso Dreyfuss virou um divisor de águas no debate da laicidade na França – e, por consequência, na Europa. Filosoficamente, como questões de ordem privada (religião, cultura, costumes, origens, escolhas sexuais, etnias…) interferem na cidadania? Podem elas interferir? Tem o Estado direito de legislar sobre esse tipo de questão?

Mais de um século depois de Dreyfuss, o espectro do “assimilacionismo” e os dilemas da laicidade ainda assombram europeus. No mês passado os suíços decidiram, via referendo, vetar a construção de minaretes, sob o argumento de que eles transformariam a paisagem do país. 57% da população votou sim à lei. E isso porque há quatro minaretes na Suíça. No início da semana, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, defendeu no jornal Le Monde a escolha da Suíça e prometeu relançar o debate sobre a “identidade nacional francesa”. Sarkozy foi um entusiasta da lei que proibiu  há quatro anos o uso em escolas públicas da França de “símbolos religiosos ostensivos” – na imensa maioria, o véu com que muçulmanas cobrem a cabeça.

Com a discussão esquentando, o centro de pesquisa Council on Foreign Relations (CFR), que publica a prestigiosa revista Foreign Affairs, decidiu esmiuçar a relação, hoje, entre a Europa e seus muçulmanos. O grande marco não é Dreyfuss, mas o Onze de Setembro. E o resultado é ótimo: uma visão ampla sobre o tema sem incorrer no risco da simplificação exagerada. Vale a leitura.

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