O atentado frustrado do dia 25 contra um avião que pousou em Detroit pode ter passado despercebido para muita gente que comemorava o Natal. Mas os brasileiros que costumam viajar para o exterior serão muito afetados pelo incidente.
Por causa dele, os EUA já começaram a apertar suas regras de segurança nos aviões e aeroportos – e como é costume, outros países devem seguir o mesmo caminho. Para quem não se lembra, hoje é proibido entrar com embalagens com líquidos na zona de embarque dos aeroportos internacionais do Brasil porque em agosto de 2006 a polícia britânica abortou um plano para detonar dez aviões usando explosivos disfarçados em garrafas de água ou de refrigerante.
No atentado de Detroit, um nigeriano tentou explodir um avião da Northwestern Airlines injetando, com a ajuda de uma seringa, um líquido químico na pólvora que havia escondido na cueca. Por isso, a partir de agora, as revistas devem ser mais rigorosas – leia-se, “constrangedoras”.
Passageiros nativos ou que tenham visitado uma lista de 14 países serão obrigatoriamente revistados antes de entrar ou sair dos aviões nos EUA. O Brasil não está incluído nessa lista, mas também devem aumentar o número de revistas aleatórias – e é aí que está o problema.
Segundo instruções de autoridades americanas, os passageiros de voos que chegam ou partem dos EUA também não poderão ir ao banheiro ou se levantar de seus assentos uma hora antes do pouso.
Os aeroportos britânicos já estão usando scanners de corpo inteiro para não deixar passar nada pela revista. Os EUA também devem ampliar o uso de tais aparelhos. As imagens geradas por eles são tão gráficas que, segundo grupos de defesa da privacidade, equivalem a um “strip-tease virtual”.

Ahmadinejad e Lula: aproximação (Foto:Dida Sampaio/AE)
As relações com o Irã foram ao longo deste ano um dos pontos mais controversos da política externa brasileira. Os EUA não conseguem entender por que Lula declarou que as eleições de junho foram “limpas” quando até os aiatolás estavam divididos sobre o tema. Para diversos países, também é difícil compreender por que o governo brasileiro recebeu Ahmadinejad em novembro, dando seu respaldo ao programa nuclear de Teerã num momento em que o Irã se recusava a atender às exigências da comunidade internacional sobre o tema.
Segundo os críticos, as relações com o Irã mostram a falta de consistência da política externa brasileira – que condena o golpe em Honduras, mas apoia um regime acusado de fraudar as eleições e reprimir a oposição interna. Só nos protestos que se seguiram à votação de junho, 26 pessoas morreram e centenas foram presas.
O Itamaraty parece ver nessa aproximação uma forma de ressaltar sua autonomia em relação aos “centros de poder globais”, uma tradição antiga da diplomacia brasileira. Há também o projeto político de Lula de ampliar o perfil do Brasil no cenário internacional, sendo visto como um líder que pode dialogar com todos – independentemente de matizes ideológicas.
Mas, mesmo no Brasil, as “vantagens” concretas da parceria são alvo de grande ceticismo. Afinal, ela abriria possibilidades de comércio?
Segundo analistas, é difícil imaginar que o US$ 1 bilhão do comércio com o Irã seja significativo para o Brasil – quando até este mês o fluxo total de comércio do país totalizou US$ 253 bilhões.
E as possibilidades de ampliar negócios?
Pouco antes da visita de Ahmadinejad, a Petrobrás estudava a possibilidade de encerrar suas atividades no Irã por questões técnicas – os poços encontrados no país não têm viabilidade comercial. Em dezembro, o discurso mudou e o chanceler Celso Amorim disse em Genebra que a estatal estaria “animada” para investir no país. Uma decisão como essa tornaria a empresa alvo de pressões, principalmente dos EUA.
Em 2007, por exemplo, o governador da Flórida, Charlie Crist, cancelou reunião com a estatal, durante visita ao Brasil, alegando que “não faz negócios com companhias que patrocinam o terror”.
A dúvida é, portanto, se essas “novas oportunidades de negócio” de fato são significativas a ponto de valer o risco de o país prejudicar sua imagem internacional ou se são politicamente impostas.
As relações dos EUA com o Brasil estão sendo diretamente afetadas pela briga entre parlamentares conservadores e o governo americano em torno da política para Cuba e Honduras. A nomeação de Thomas Shannon para a embaixada dos EUA em Brasília foi barrada até a quinta-feira pelo senador George LeMieux, que só retirou seu veto após receber garantias de que os EUA continuarão a apoiar grupos dissidentes cubanos e normalizarão a emissão de vistos para hondurenhos.
Segundo analistas, o que está por trás dessas concessões é um cálculo simples: o governo Obama já está travando uma série de disputas com setores conservadores no Congresso por causa da reforma do sistema de saúde e da guerra do Afeganistão. Se tem de ceder em algo, que seja nessas questões latino-americanas – às quais o público interno é menos sensível.
O lobby anticastrista percebeu a oportunidade – e resolveu barrar o embaixador brasileiro como forma de pressão. Quase um ano depois da posse de Obama, a sua equipe nem sequer assumiu para começar a avançar na agenda bilateral. Até agora ainda não há garantias de que Shannon será aceito no Senado.
Seja quem vença as eleições no Chile, não deve alterar muito as relações com o Brasil. O candidato da Concertação, Edurado Frei, provavelmente manterá a linha de aproximação da presidente Michelle Bachelet. E o direitista Sebastián Piñera já foi até Brasília para fazer um aceno ao presidente Lula.
Hoje, o Brasil é o segundo principal destino dos investimentos chilenos no exterior, atrás apenas da Argentina. Desde 1990, os chilenos investiram no País um volume superior a US$ 8 bilhões. Além disso, o fluxo de comércio está crescendo.
Segundo Carlos Furche, diretor de Relações Econômicas Internacionais do governo chileno, um dos projetos que devem ser levados adiante nos próximos anos é o de fazer do Chile uma grande plataforma de exportação e importação para os produtos comercializados entre o Brasil e a Ásia.
“Estamos transformando nossa realidade geográfica, que no passado já foi vista como desvantajosa, em uma vantagem do ponto de vista comercial”, disse Furche, num seminário promovido pelo governo chileno na semana passada.
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