Texto de Talita Erédia
A Nigéria, que em 1999 encerrou 40 anos de uma ditadura militar, vive uma espécie de vácuo de poder há três semanas, quando o presidente Umaru Yar’Adua foi hospitalizado na Arábia Saudita. Os recentes ataques contra instalações petrolíferas realizados pelo Movimento para Emancipação do Delta do Níger (Mend) – milícia formada por jovens que lutam, segundo eles,”para impedir o saque aos recursos naturais do país por estrangeiros” - quebrou um cessar-fogo de cinco meses, aprofundando os temores de que, sem comando, o país fique à beira de uma crise institucional.
O grupo afirma que promoveu um “ataque de alerta” contra um oleoduto porque o governo estaria usando a ausência do presidente para interromper as negociações de paz, parte do acordo pelo desarmamento após uma oferta de anistia feita pela presidência. Não há confirmações independentes de que o ataque foi promovido.
A região densamente povoada do Delta do Níger é cenário de conflitos por mais de 20 anos. Atentados do Mend realizados nos últimos três anos têm causado prejuízos para a maior indústria energética da África, impedindo a Nigéria de bombear mais de dois terços de sua capacidade petrolífera e impondo ao país prejuízos de cerca de US$ 1 bilhão por mês. O grupo afirma que atua em nome da população da região por uma melhor distribuição dos recursos obtidos com a venda do petróleo.
Yar’Adua, 58 anos, deixou o país para receber tratamento por uma inflamação no coração e não encarregou formalmente o vice-presidente Goodluck Jonathan de comandar o país. A Constituição determina que o presidente deve deixar uma carta formalizando que o vice está no poder. Não há sinais sobre quando o chefe de Estado poderá voltar, e até lá os nigerianos não sabem quem está no comando do país. Já existem até especulações de brigas internas no partido governista.

Equipes de socorro em Áquila, em abril Foto: NYT
Oito meses depois de um forte terremoto atingir a região central da Itália, muitas de suas cidades e vilarejos ainda estão em ruínas. O tremor de 6,3 graus da escala Richter ocorreu em 6 de abril, com epicentro na cidade de Áquila, e deixou 290 mortos.
Logo após a tragédia, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi correu para a região, consolou vítimas e cometeu uma série de gafes. Primeiro, rejeitou ajuda internacional. Depois, disse que as tendas alinhadas para abrigar as vítimas que perderam suas casas pareciam “um acampamento de férias” – causando exasperação dentro e fora do país. Por fim, prometeu abrir uma de suas mansões para receber desabrigados.
O custo total para a reconstrução de Áquila é estimado em 10 bilhões de euros. Até agora, o Fundo de Solidariedade da UE liberou apenas 493,7 milhões de euros. Boa parte da ajuda anunciada pelos parceiros da Itália no G-8 (o grupo dos países ricos) ficou na promessa.

Ilustração: Der Spiegel
Enquanto lidam com o trauma, muitos moradores lutam para permanecer na região empobrecida e autoridades locais tentam combater a corrupção e o crescente envolvimento da máfia nos esforços de reconstrução. (Der Spiegel)
Com o clima na pauta dos últimos dias, especialistas da ONU alertaram que cerca de 100 milhões de pessoas podem passar fome até o meio do século por conta das mudanças climáticas. Um relatório do World Food Programme o número de famintos no mundo pode crescer entre 10% e 20%, dois terços somente na África.
Os campos de arroz, trigo e milho devem diminuir por conta da elevação das temperaturas e da redução de água disponível em países em desenvolvimento. Estimativas apontam que a produção pode cair entre 9% e 11%.
A África deve concentrar o maior número de vítimas da fome. Além de o continente registrar baixos índices de desenvolvimento e sofrer com a falta de alimentos, o aquecimento global deve tornar a área ainda mais árida, dificultando a produção.
Até 2050, o número de crianças que sofrem de desnutrição deve crescer 25%, colocando outras 10 milhões em risco na África Subsaariana. No mundo todo, esse número pode chegar a 24 milhões.

Maddona e o filho adotado no Malaui, David Banda. Foto: Reuters
Em um país empobrecido como o Malaui, onde a cantora Madonna adotou dois filhos, as crianças que vivem em orfanatos tem mais sorte no país – recebem três refeições por dia, uniformes escolares, calçados e são alfabetizadas. Essas instituições recebem doações de organizações religiosas e de caridade do Ocidente. Porém, as famílias africanas que adotam as crianças não recebem nenhum tipo de auxílio.
Os doadores pensam que podem mobilizar moradores a adotar sem oferecer nenhum tipo de apoio financeiro. Pesquisadores e especialistas acreditam que um meio de ajudar melhor essas crianças seria um simples remanejamento de verba – entre US$ 4 e US$ 20 por mês em um programa experimental que atua diretamente com as famílias que recebem os menores. Segundo estimativas, oito famílias poderiam adotar 24 crianças e receber US$ 1.500 por ano – o equivalente ao custo de uma criança em um orfanato.
Os abrigos são mais caros e muitas vezes prejudicam o desenvolvimento das crianças ao separá-las de seus familiares. Muitos que vivem em orfanatos no mundo possuem pais ou parentes vivos, e estão em instituições por conta da pobreza, segundo apontam dados do Unicef e da ONG Save the Children.
Famílias que fazem parte do programa afirmam que a ajuda financeira fez diferença. Segundo o The New York Times, Velenasi Jackson, de 80 anos, gasta os US$ 20 que recebe por mês com alimento e roupas para os dez netos adotados e que vivem em sua cabana de dois cômodos. Segundo ela, não existiram mais dias em que ficaram sem ter o que comer.

Agricultor trabalha em fazenda em Kwale, Quênia. Foto: Joseph Okanga/Reuters
O botânico Americano Robert Zeigler foi até a Arábia Saudita em março deste ano para uma realizar uma série de discussões sobre o futuro da produção de alimentos do reino. Autoridades sauditas estavam preocupadas com a demanda crescente das importações, já que o preço dos produtos, como o arroz e o trigo, oscilaram violentamente nos mercados nos últimos três anos. O país, rico em petróleo e pobre em terras cultiváveis, procura por uma estratégia para garantir alimento para a população. Existem basicamente duas soluções possíveis: inventar meios de multiplicar os já existentes ou encontrar novos locais para agricultura – como a África.
Segundo o jornal americano The New York Times, Zeigler é responsável pelo Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, que trabalha para aprimorar as sementes. Durante a Revolução Verde, que multiplicou a produção de arroz na década de 1960, a organização desenvolveu o “arroz milagroso”. Ao chegar no reino, o botânico descobriu que o país não queria encontrar meios de aumentar a sua produção, mas investir bilhões em plantações em países africanos como Mali, Senegal, Sudão e Etiópia. A África, o continente mais faminto do planeta, não é capaz nem de produzir alimento para sua população, mas sim para investidores estrangeiros.
Uma série de fatores – alguns transitórios como a variação no aumento dos preços de produtos alimentícios, e outros como o crescimento da população mundial e a escassez de água – criaram um grande mercado de terras para cultivo, recurso valioso para nações no Oriente Médio, Ásia e outras regiões do mundo em que a agricultura é barata e abundante. Como quase 90% das terras cultiváveis do mundo já está em uso, se não considerarmos florestas e ecossistemas frágeis, a única área disponível para desenvolver a produção de alimentos seria a África.
Investidores estrangeiros – alguns representando governos, outros da iniciativa privada – prometem levar infraestrutura para esses países, além de novas tecnologias, criar empregos e produzir não apenas para outros países, mas também para o consumo dos próprios africanos. Eles descobriram que governos mais pobres são obviamente os mais receptivos, oferecendo terras praticamente de graça. Um exemplo é o acordo entre o Quênia e o Catar, que permitiu o uso de 100 mil acres de terras africanas em troca do financiamento de um novo porto. Porém, muitos outros acordos foram fechados sem fazer tanto barulho.
A população do continente africano ultrapassou a marca de 1 bilhão e deve dobrar em 50 anos, anunciou ontem o Fundo de Populações das Nações Unidas. O dado faz crescer a preocupação com as crises humanas no continente mais pobre do mundo, afetado por secas prolongadas, guerras civis, disputas por petróleo e diamantes, agravadas pelos efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas.

Mulher lava panelas em Johannesburgo, ao lado do estádio que sediará a abertura da Copa do Mundo de Futebol
Prevendo o aumento das tragédias, a Cruz Vermelha decidiu, pela primeira vez em 150 anos, reunir representantes de todos os seus braços – tanto os que cuidam de desastres naturais quanto os que atendem as vítimas dos conflitos armados – na Nigéria, para preparar as ações futuras. Mais de 40% do orçamento da maior organização humanitária do mundo já é gasto na África.
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