
Mísseis colocados na ilha de Fidel davam a Moscou vantagem em um eventual confronto mundial
Roberto Godoy
Os mísseis soviéticos SS-4 instalados em Cuba, em 1962, eram de fato uma ameaça. Embora haja o mito de que o velho bolchevique Nikita Khruchev teria despachado para a ilha armas ineficientes e superadas, a verdade é bem diferente: os 32 (ou 42, o número varia conforme a fonte) gigantes de 22 metros e 40 toneladas, armados com uma ogiva nuclear de 2 megatons, eram capazes de atingir alvos a 2.800 quilômetros de distância – com precisão que os equivalentes americanos estavam longe de conseguir.
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Teriam provocado uma tragédia. Um ataque lançado de determinados pontos poderia atingir Washington, Nova York, Chicago ou Atlanta, além de torrar Miami até os alicerces. Em 1963, uma análise da inteligência dos EUA confirmava que a versão do SS-4 transferida para Cuba era de segunda geração, com raio de ação mais longo e guiagem inercial autônoma, a melhor tecnologia da época, há meio século.
O R-12 Dvina, denominação soviética do míssil, foi mantido em operação durante 34 anos. O primeiro lote, entregue em 1959, estava ainda sob condições de uso, em meados de 1993, quando toda a série foi desativada. A fabrica de Yuzmash entregou 2.335 foguetes à Força Estratégica.
Simples e robusto, o balístico poderia ser disparado por carretas – era esse o arranjo cubano –, ou a partir de silos subterrâneos, na configuração R12U, alongada, capaz de cobrir 3,5 mil km.
A moeda de troca oferecida pelo presidente John Kennedy era, a rigor, falsa. Khruchev só poderia remover os seus SS-4 se os EUA oferecessem, em sacrifício, uma presa do mesmo porte. Foram colocados na mesa 30 mísseis Júpiter – 15 deles alinhados em Esmirna, na Turquia, e outros 15 em Giogia del Cole, na Itália.
Um escambo injusto. A arma, obsoleta, nunca funcionou bem. Tinha tamanho (18,5 metros) e peso (48,5 toneladas) equivalentes ao equipamento soviético. A ogiva termonuclear de combate também oferecia alto poder, coisa de 1,8 megatons. O limite efetivo era de 2,400 km. As semelhanças, entretanto, terminavam aí.
A navegação inercial era definida como “exigindo um desenvolvimento profundo”, no relatório de recebimento, da Força Aérea para o fabricante, uma divisão especializada da Chrysler Corporation. O lote de 100 unidades acabou reduzido a 45. A fabricação durou pouco, de 1956 até 1961. A frota completa foi retirada de linha em 1963, pouco depois da primeira crise atômica da história.
O Estado-Maior americano sugeriu uma resposta militar alternativa e de alto risco: lançar uma operação de bombardeio contra as baterias de mísseis previamente mapeadas pelos jatos U-2, de coleta de dados de inteligência e, simultaneamente, infiltrar um time de forças especiais com a missão de matar Fidel Castro, facilitando a invasão da ilha.
O presidente Kennedy autorizou a mobilização inicial. Ficou nisso. No dia 28 de outubro Khruchev cedeu. A comemoração no gabinete de John Kennedy só existe no filme “Os 13 Dias”, dirigido por Roger Donaldson – tomado por violentas dores na coluna, o presidente não fez festa: quando a notícia chegou, estava no ambulatório da Casa Branca, tomando analgésicos, segundo depoimento da então primeira dama, Jackie Kennedy.
A libertação dos presos palestinos obtida pelo Hamas foi elogiada pelos que acreditam que a violência é a única maneira de lidar com Israel, prejudicando a estratégia de paz negociada do presidente Mahmoud Abbas. Para reforçar sua posição doméstica, Abbas agora será pressionado a intensificar a ofensiva pelo reconhecer do Estado palestino na ONU, causando novas tensões com EUA e Israel.
A troca permitirá que o Hamas se gabe de seus feitos, o que será bom para o grupo islâmico, cujo foco atual está na reconstrução de Gaza, e não na luta contra os israelenses. O acordo representa a maior concessão feita por Israel a um inimigo desde 2008, quando cinco libaneses foram trocados pelos corpos de dois soldados mantidos pelo Hezbollah.
A Autoridade Palestina (AP), chefiada por Abbas, diz que a troca representa muito mais do que aquilo que ele obteve de Israel em anos de negociações. Em privado, até os aliados de Abbas se mostram preocupados com a possibilidade de a troca incentivar a luta armada às custas da negociação. “O acordo melhora a posição do Hamas e reforça a ideia da resistência”, disse um membro da AP.
Abbas se opõe à violência e suas forças de segurança na Cisjordânia cooperam com as de Israel. Mas ele mesmo reconhece que as negociações chegaram a um impasse, porque os assentamentos continuam a se expandir e a consumir o território que os palestinos consideram vital para ter um Estado viável.
A busca pelo reconhecimento na ONU obteve amplo apoio interno, mas o impacto inicial foi apenas penúria: os EUA congelaram o envio de ajuda econômica. “Abbas fez o gesto mais pacífico que se pode imaginar: procurou a ONU. Ainda assim, recebeu em troca uma resposta brutal por parte dos EUA e de Israel”, disse o funcionário palestino.
Em comparação com esse fracasso, o Hamas comemora um sucesso. O Hezbollah aplaudiu a troca e disse que o acordo “derrubou para sempre as ilusões dos que acreditam nas negociações de paz”.
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
*Tom Perry é analista de Reuters
* Steve Gutterman, da Reuters
O veto da Rússia à resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenava a repressão dos protestos pelo governo da Síria é uma mensagem de Moscou alertando que não pretende ser pressionada quando considera seus interesses ameaçados por EUA e UE.
Ele mostra que o primeiro-ministro Vladimir Putin, que pretende retornar à presidência em 2012, não tolerará a interferência do Ocidente. A medida foi motivada pelo desejo da Rússia de manter um ponto de apoio no Oriente Médio e pelos estreitos vínculos com a Síria, para quem vende armas.
Mas o que o veto mostra em essência é a oposição russa aos esforços do Ocidente para promover mudanças políticas no exterior.
“A Rússia não quer que uma mudança de regime na Síria torne-se um exemplo para outros Estados”, disse Lilia Shevtsova, escritora e especialista em Putin e membro sênior do Carnegie Moscow Center. Segundo ela, a mensagem ao Ocidente foi clara: “Não se metam”.
TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
*Andrew Cawthorne, Reuters
Um estranho que desembarque na Venezuela hoje seria perdoado se pensasse que as eleições presidenciais ocorrerão em poucos dias e não em um ano. Em luta contra um câncer, o presidente Hugo Chávez e seus aliados falam diariamente sobre a “Missão 7 de Outubro” – a candidatura do líder socialista para um novo mandato de seis anos.
A coalizão de oposição também está mobilizada, divulgando a mensagem de união e mudança, além da crença genuína de que pode, finalmente, destronar Chávez e dar fim aos seus 13 anos à frente do único membro sul-americano da Opep. A antecipação reflete a convicção de que tudo está em jogo e qualquer vantagem alcançada agora pode ser decisiva quando as urnas forem abertas.
“Ninguém pode realmente prever o resultado dessa eleição”, afirmou um diplomata estrangeiro em Caracas. “Em circunstâncias normais, poderíamos pensar que Chávez tem a vantagem. Mas há um fator-chave que é seu câncer e a oposição parece buscar uma atuação conjunta, unindo-se contra ele.”
Pesquisas indicam que Chávez ganharia de forma apertada se a eleição ocorresse amanhã. Mas a oposição espera impulsionar sua candidatura quando oficializar seu candidato único, nas prévias de fevereiro. Em favor da oposição, nessa que provavelmente será a mais fascinante eleição desde que Chávez assumiu o poder, em 1999, está a crescente insatisfação dos venezuelanos em relação aos serviços públicos. Cortes de energia são comuns e há um crescente déficit habitacional.
A grande incógnita é o impacto do tratamento de câncer de Chávez. Ninguém do restrito círculo de confidentes sabe sua real condição, muito menos como isso pode interferir na campanha. Até agora, a doença deu a Chávez a simpatia do eleitor e poderia ajudar mais se ele for visto, no período da votação, como exemplo de superação heroica da adversidade. Qualquer que seja o cenário, muitos na Venezuela já fazem planos para um período de turbulência no final de 2012.
*Gilles Lapouge é correspondente em Paris
Vladimir Putin foi eleito presidente da Rússia em 1999 e reeleito em 2004. Em 2008 não tinha direito a disputar um terceiro mandato. Como ele é um democrata escrupuloso, não tentou se reeleger. Não, Putin se submeteu gentilmente à norma constitucional. E deixou o Kremlin.
Mas ele não quis deixar o caos atrás de si. E tomou o cuidado de fazer eleger em seu lugar, no Kremlin, um desconhecido, Dmitri Medvedev. E Medvedev teve uma boa ideia: colocou Putin como seu premiê. Às vésperas de uma nova eleição, Medvedev teve uma nova e boa ideia: decidiu que Putin será eleito o próximo presidente da Rússia. E depois foi a vez de Putin ter uma ideia luminosa: nomeará Medvedev como premiê.
Quando pensamos nas complicações que a eleição de um novo dirigente provoca, fraudes, corrupção, complôs, valises de euros ou de dólares, só podemos admirar a flexibilidade dos russos. Eles fazem com que a “ciência política” dê um grande passo. Montesquieu, Tocqueville, Raymond Aron ou Jefferson jamais imaginaram um sistema tão simples e elegante. Uma vantagem suplementar: o povo, que sempre tem muitas ideias na cabeça, não tem nada a dizer. Pode, portanto, ficar em repouso, o que não é um luxo depois de 500 anos de czarismo e 70 anos de comunismo.
Contudo, há um russo que não ficou satisfeito. E esse russo não é qualquer um. Ele foi ministro das Finanças de Putin, continuou na função com Medvedev, no cargo há 11 anos. Trata-se de Alexei Kudrin, um tanto louco, pois declarou em Washington que não se via “trabalhando no futuro governo de Medvedev”. A resposta não demorou.
Medvedev, ainda presidente, aceitou a demissão do seu ministro. E Putin avalizou a demissão.
Não será fácil substituir Kudrin. Velho cúmplice de Putin, com quem trabalhou em 1990 na prefeitura de São Petersburgo, ele era um dos “intocáveis”. Um grande ministro das Finanças, foi ele que protegeu a Rússia do caos financeiro em 2008 e 2009.
Kudrin era respeitado pelo Kremlin, pelos russos, pelos ocidentais. Sozinho, foi capaz de administrar um orçamento reduzido e sobrecarregado de obrigações. Mas, como inúmeros países, a Rússia passa por um período doloroso.
O barril de petróleo Urals teve uma queda de 7% na semana passada. O índice de valores industriais caiu 12%, e o rublo sofreu uma desvalorização de 10% em setembro, frente ao dólar. Mudar o patrão da economia num cenário como esse é temerário.
Serguei Aleksachenko, ex-vice presidente do Banco Central russo, escreveu que “o capitão, que acredita no seu dever messiânico, mantém o país refém”. A Rússia é como um Titanic. A ferrugem penetrou profundamente. O navio está se desintegrando. E Aleksachenko concluiu: “Foi o que sucedeu há 20 anos com a União Soviética”.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
*Thomas Friedman é jornalista
Um de cada vez, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e o presidente americano, Barack Obama, discursaram na ONU na semana passada. É difícil dizer qual dos três foi o pior. A fala de Netanyahu foi como uma palestra motivacional para o Comitê Central do Likud. A fala de Abbas mais pareceu um pronunciamento em reunião da Liga Árabe. O discurso de Obama assemelhou-se a um apelo ao eleitorado judaico da Flórida. As intenções do presidente americano eram boas, mas a política doméstica exigiu que ele sussurrasse ao falar de temas a respeito dos quais ele já ousou dizer verdades desagradáveis a ambos os lados.
Toda esta novela foi apenas outro lembrete do quanto os lados ainda suspeitam que o outro esteja buscando, na verdade, dois Estados para um só povo, e não dois Estados para dois povos.
O jornal israelense Haaretz resumiu impecavelmente as apresentações de Abbas e Netanyahu: “Essas duas narrativas repletas de queixas e exigências dão impressão de que o conflito palestino-israelense tinha embarcado numa máquina do tempo e voltado ao fim do século passado, apagando décadas de diálogo – para a alegria dos extremistas de ambos os lados. A meta não parece mais ser a paz, mas o mero contato direto entre os dois lados, e mesmo esse contato está cada vez mais se perdendo na distância”.
Estamos mesmo num “Novo Oriente Médio”, mas ele não é como esperávamos. Ao se esvaziar de diplomacia o campo atual, com tantos personagens instáveis circulando por aí – como colonos israelenses extremistas dados a pichar “Maomé é um porco” nas paredes de prédios muçulmanos na Cisjordânia e extremistas palestinos, membros de grupos como a Jihad Islâmica, dados a disparar contra civis israelenses ou a lançar granadas de morteiros de Gaza contra cidades israelenses -, se está, na verdade, procurando encrenca.
Se hoje ocorrerem embates entre israelenses e palestinos, não existe mais um Hosni Mubarak, ex-presidente do Egito, para abafar as chamas. O que temos agora é um primeiro-ministro turco – Recep Tayyip Erdogan – pronto para avivá-las e soprá-las da direção de Israel. Não é exagero dizer que, caso ocorram embates sérios entre israelenses e palestinos, tanto o tratado de paz entre Egito e Israel quanto o tratado entre Jordânia e Israel podem se ver prejudicados. E, se a violência palestina se espalhar pela Cisjordânia, Abbas pode simplesmente dizer aos israelenses que vai extinguir a Autoridade Palestina, recusando o papel de policial de Israel na Cisjordânia. Seria o último prego no caixão dos Acordos de Oslo.
Eis aquilo que um governo israelense visionário diria a si mesmo: “Se tudo isso desabar, temos muito mais a perder do que os palestinos têm. Assim, vamos oferecer-lhes um voto de confiança. Abbas diz que não retornará às negociações de paz na ausência de um congelamento total na construção de assentamentos. Nós achamos que isso é bobagem. Demos a ele dez meses de congelamento parcial nas construções, e ele nada fez com esse tempo. Mas, sabe de uma coisa? Há tanto em jogo aqui que vale a pena dar outra chance. Vamos oferecer seis meses de congelamento total na construção de assentamentos. O que são seis meses para um povo com 5 mil anos de história?”
Quando o atual governo israelense deixa de fazê-lo, reforça o temor dos palestinos de que Israel esteja, de fato, comprometido com a ideia de dois Estados – ambos para si. Esses seriam Israel pré-1967 e Israel pós-1967, ou seja, Israel, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental.
Os dirigentes palestinos poderiam fazer muito mais para encorajar uma abertura desse tipo, pois a única força capaz de obrigar Netanyahu a mudar de posição é o centro israelense. Isso já ocorreu antes. Afinal, quando a silenciosa minoria israelense vê seu Exército se retirar unilateralmente de Gaza, arrancar de lá os colonos e receber em troca nada além de foguetes; quando ouve palestinos insistindo no “direito de retorno” para parte do seu povo – retorno não apenas à Cisjordânia, mas também a Israel -, isso aumenta entre os israelenses o temor de que os palestinos ainda sonhem com dois Estados, ambos para si: a Cisjordânia e Israel pré-1967.
Estamos realmente de volta ao início desse conflito. Até que cada lado garanta ao outro que ambos desejam de fato dois Estados para dois povos – e não apenas para um deles -, nada de positivo vai ocorrer lá. Em vez disso, pode ocorrer algo terrível.
Publicado originalmente no New York Times
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
Muitos países não adotaram uma posição, mas a adesão plena dos palestinos à ONU ou o status de observador seria grande derrota a EUA e Israel
*Jorge C. Castañeda do Project Syndicate, é Ex-Chanceler do México
Quando, há 64 anos, a ONU votou uma divisão de território, criando o Estado de Israel e garantindo depois a ele o status de membro pleno da organização, vários países latino-americanos – Brasil, El Salvador, Argentina, Colômbia, Chile e Honduras – abstiveram-se de votar ou, como Cuba, votaram contra as resoluções. O México absteve-se de votar quanto à divisão, mas se manifestou a favor da admissão de Israel na ONU alguns meses depois, admitindo que seu interesse nacional seria mais bem atendido se não tomasse partido no imbróglio do Oriente Médio.
Nas próximas semanas, muitos países latino-americanos votarão a favor de algum tipo de adesão da Palestina à ONU, ou do reconhecimento de um Estado. Mas outros não. Essa questão não é simples para dois membros não permanentes do Conselho de Segurança, Brasil e Colômbia, ou para Cuba. Nicarágua, Venezuela, Costa Rica, Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Peru, Uruguai e Honduras já reconheceram o Estado palestino, mas ainda não votaram a favor de se conceder a ele o status de “observador”.
Para ele se tornar membro pleno da ONU, o CS precisa fazer uma recomendação à Assembleia-Geral. Mas equiparar o status da Autoridade Palestina ao do Vaticano exige somente dois terços dos votos na Assembleia-Geral. De qualquer modo, as consequências políticas ofuscarão questões legais ou burocráticas. Forçar os EUA a usar o poder de veto no CS, ou conseguir o apoio na assembleia da ONU, seria uma grande derrota para Israel e os EUA, e é por isso que os votos latino-americanos são importantes.
O Brasil já declarou que pretende votar no CS a favor da admissão da Palestina; a Colômbia vai se abster. Muitos outros países latino-americanos provavelmente votarão a favor da concessão de algum tipo de status mais elevado.
A comunidade judaica nos EUA, e num grau menor o governo do presidente Barack Obama, tentaram convencer Chile e México, que ainda não se posicionaram. Pouco mudaria na prática, mesmo com um Estado palestino, se Israel e EUA não o aceitarem – e México e Chile podem perder muito se distanciando de um aliado numa questão que é de grande importância para ele. Em resumo, como foi o caso há mais de meio século, a América Latina não se manifestou com uma única voz sobre questões cruciais.
Agora, como antes, muitos países latino-americanos não adotaram uma posição de princípio – a favor ou contra Israel, ou a favor ou contra os palestinos. Preferiram o caminho da conveniência, e suas posições passaram a depender da relativa influência das comunidades árabe ou judaica dentro das suas sociedades, e a insistência de Washington.
A falta de convicção dos latino-americanos no caso de assuntos tão graves marginalizou a região em outros problemas internacionais importantes, como a recente crise da Líbia e a revolta na Síria. Quando da votação de uma resolução da ONU criando uma zona de exclusão aérea na Líbia, Brasil, Rússia, Índia e China abstiveram-se. A África do Sul votou a favor, a contragosto.
E agora, no caso da iniciativa americana e europeia para adoção de sanções contra o presidente da Síria, Bashar Assad, Brasil, Índia e África do Sul divulgaram comunicados afirmando que não permitiriam outra intervenção ocidental para derrubar o regime de outro país árabe. Nas palavras do líder de uma ONG, “eles estão punindo a população síria, pois ficaram descontentes com o fato de a Otan assumir um mandato para proteger os civis na Líbia e o transformar num mandato para mudar o regime”.
Diante do seu papel crescente na economia global, é compreensível que os maiores países latino-americanos, com os outros Brics, busquem um papel de mais influência. Mas essa não é a maneira de chegar a isso.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
Karin Laub, Associated Press
Com discursos aguerridos na ONU, os líderes palestino e israelense entrincheiraram-se em posições que aparentemente impedirão a retomada das conversações de paz e abrem uma temporada de confrontos sobre a questão do Estado palestino. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, agora procurará conseguir todo o apoio internacional possível, afirmam assessores, na esperança de pressionar e isolar Israel e aumentar o custo político da preservação dos territórios que este ocupou na guerra de 1967.
Abbas insiste que não voltará às conversações se Israel não decretar um congelamento dos assentamentos ou não aceitar as fronteiras anteriores a 1967 como ponto de partida. Apesar de o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, pedir novas negociações, não se mostrou disposto a considerar tais reivindicações.
Os mediadores internacionais pediram a conclusão de um acordo em um ano, mas não apresentaram propostas para tentar resolver as enormes divergências.
Os palestinos agora tentarão fortalecer sua posição, principalmente na ONU. Embora o pedido de reconhecimento do Estado palestino com certeza não deva ser atendido os palestinos têm boas chances de melhorar seu status na Assembleia-Geral e garantir o acesso às agências da ONU e aos tribunais internacionais.
As autoridades palestinas admitiram que não têm um plano para seguir em frente, além de pedir à Assembleia-Geral que admita a Palestina como Estado não membro se sua adesão plena for rejeitada pelo CS. Abbas não disse como lidará com seus rivais do Hamas, que criticaram seu pedido de reconhecimento na ONU. Um acordo de divisão do poder com o Hamas não foi adiante. Retomar uma aliança com os militantes, que querem a destruição de Israel, poderia custar ao líder palestino a perda do apoio internacional em um momento crucial.
Por enquanto, a opções de Netanyahu para responder à pressão parecem limitadas. Os membros de sua coalizão exigem medidas punitivas. Mas a retaliação poderá ser contraproducente e provocar maior simpatia internacional pelos palestinos.
A região agora caminha para um perigoso ano de paralisia, segundo o analista israelense Yossi Alpher. “Barack Obama deixou claro que no próximo ano não deverá promover ativamente as conversações de paz. Netanyahu não tem nada de novo para oferecer e Abbas obterá algum tipo de reconhecimento de um Estado, mas isso não é um Estado”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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