
As coisas vão piorar na Síria antes de melhorar, mas a mulher de Assad já começou a comprar imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los
POR ROGER COHEN, DO NEW YORK TIMES*
Eis aqui algumas verdades a respeito da Síria. As coisas vão piorar antes de começar a melhorar. Ninguém pode obrigar esse gênio a voltar para dentro da lâmpada. Estamos diante da mãe de todos os conflitos indiretos. O inescrupuloso regime Assad está acabado, resta apenas saber quando será seu último suspiro.
Os países tomaram rumos diferentes na sua trajetória da tirania à liberdade. Quando o comunismo caiu, alguns planaram do império soviético para o Ocidente enquanto outros agonizaram. A Iugoslávia – uma ideia maravilhosa que nunca funcionou – é um dos muitos países citados como possível exemplo do destino sangrento que aguarda a Síria; outros exemplos incluem Líbano e Iraque.
Os ingredientes são conhecidos: a Síria é um Estado multiétnico governado com mão de ferro por uma minoria – os alauitas (quase xiitas) – e inclui minorias cristãs e drusas, entre outras, que juntas correspondem a aproximadamente um quarto da população. A maioria é sunita. Quando a mão de ferro é afastada desses países, a liberdade é mais imediatamente vista como um libertar-se uns dos outros, não como a oportunidade de unir-se no processo de concessões mútuas para a formação de uma nova ordem liberal.
Assim tem sido há um ano na Síria de Bashar Assad, que, aprendendo as lições do pai, buscou suprimir por meio de massacres maciços um amplo levante daqueles que almejam libertar-se do controle da família. Assad se formou médico! Nenhum doutor tripudiou tanto o juramento de Hipócrates.
Os Assad são uma máfia, uma minoria (a família) dentro de outra minoria (os alauitas) dentro de outra minoria (a polícia secreta Mukhabarat). Eles cooptaram os demais – principalmente a classe dos comerciantes sunitas – por meio de uma estabilidade imposta. Essencialmente, como todos os tiranos derrubados durante a Primavera Árabe, governaram o país como se ele fosse o seu feudo particular, um brinquedo a ser legado de pai para filho, beneficiando primos e capangas.
Bem, tudo isso acabou. Alepo não é a nova Marrakesh, afinal. Aqueles atraentes cartazes turísticos nos ônibus londrinos foram guardados. Os árabes se cansaram de seus poderosos chefões.
Eu disse que as coisas vão piorar antes de começar a melhorar. O pacto social sírio foi quebrado. Um novo pacto sob o mando dos Assad é inconcebível. Há interesses maiores envolvidos. A teocracia xiita iraniana, cada vez mais isolada, está defendendo o regime contra um Exército Livre da Síria fundado em parte por uma teocracia sunita saudita: essa é a guerra indireta.
Vladimir Putin, temendo eventuais primaveras russas no seu próprio quintal, optou com o cinismo habitual por defender um antigo aliado contra as demandas americanas, que exigem a saída de Assad, objetivo até agora não perseguido com coerência pelo governo Obama. Israel conhece Assad, que ajuda a armar o Hezbollah, mas é também um inimigo previsível e, em geral, passivo. Mas Israel não imagina o que pode haver além de um Estado policial de hábitos previsíveis.
Em resumo, a Síria é perigosa. Mas isso não é razão para passividade ou incoerência. Como mostrou a guerra da Bósnia, a base de qualquer acordo deve ser uma igualdade aproximada de forças. Assim, proponho que sejam intensificados os esforços – que já ocorrem discretamente – no sentido de entregar armas ao Exército Livre da Síria. Essas forças devem ser treinadas, assim como foram treinados os rebeldes na Líbia.
Chegou a hora do acerto de contas: os EUA alertaram Assad para o perigo de permitir que combatentes da Al-Qaeda entrassem no Iraque vindos da Síria. Agora, material bélico e forças especiais com a capacidade de treinar um Exército improvisado podem vir do Iraque – e de outros países vizinhos – para a Síria. Isso deveria ser um esforço conjunto dos países árabes e do Ocidente.
Ao mesmo tempo, devemos organizar uma grande operação humanitária coordenada pelas Nações Unidas centrada em enclaves de refugiados na Turquia, na Jordânia e em outros países, estabelecendo onde for possível corredores seguros conduzindo a esses refúgios. Temos de pressionar Rússia e China para que mudem seus votos: esses países não defenderão Assad se essa atitude passar a representar um risco para outros de seus grandes interesses nos EUA, no Golfo Pérsico e na Europa.
Já podemos ouvir as manifestações de indignação: se armarmos os oponentes de Assad, conseguiremos apenas exacerbar os temores das minorias sírias e uni-las, garantindo um maior derramamento de sangue e prejudicando os esforços diplomáticos atualmente liderados por Kofi Annan, um astuto e qualificado negociador da paz. Corremos o risco de transformar uma guerra indireta numa conflagração indireta. A esta altura, não há para a Síria nenhuma política que não envolva riscos importantes. O único cessar-fogo que consigo imaginar tem como base um equilíbrio aproximado das forças, caso contrário um acordo desse tipo não passará de um pedaço efêmero de papel. Para tanto, o Exército Livre da Síria precisa ser armado.
No fim, esse rumo vai reforçar – e não prejudicar – a diplomacia de Annan, possivelmente abrindo caminho para o tipo de transição sugerida pela Liga Árabe. Em troca, a dividida oposição síria precisa apresentar um firme compromisso com o respeito aos direitos das minorias. O tratamento dispensado a elas é um dos principais testes enfrentados pela Primavera Árabe, assim como a questão das mulheres.
Se Assad cair, o Irã se verá muito enfraquecido. O elo estabelecido por Teerã com o Hezbollah desaparecerá. Não há muito o que escolher entre engendrar a queda de Assad e bombardear as instalações nucleares iranianas: a primeira opção é inteligente e factível; a segunda não passa de tolice.
A mulher de Assad tem comprado imóveis em Londres: vamos obrigá-la a habitá-los e libertar o povo sírio.
*É COLUNISTA
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
Imagem divulgada pelo Cimeq, onde o presidente venezuelano está sendo tratado em Cuba
HAVANA – O hospital no qual o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi operado nesta terça-feira, 28, é considerado a “joia” do sistema de saúde cubano. Nele, já foram tratados o ex-presidente cubano Fidel Castro e importantes políticos latino-americanos e africanos. O Centro de Investigaciones Médico Quirúrgicas (Centro de Pesquisas Médico-Cirúrgicas) fica no oeste da capital cubana, Havana.
Segundo seu site oficial, o Cimeq iniciou suas atividades em 1982. Em seus 30 anos de serviços, ganhou reconhecimento nacional e internacional. O centro médico ainda compartilha as instalações com o Centro Internacional de Restaurações Neurológicas (Ciren).
O local conta com 17 departamentos, dentre os quais se destacam o de transplantes de órgãos e tecidos, procedimentos com laser e tratamento de doenças oncológicas.
Antes de viajar a Havana, no dia 24 de fevereiro, Chávez adiantou que faria uma operação no início da semana. As informações divulgadas pelo governo de Caracas dão conta de que o presidente está bem e se recuperando do procedimento.

Se a responsabilidade de proteger civis é um elemento legítimo do direito internacional, por que esta lei valeria para a Líbia, mas não para o da Síria?
STEVEN ERLANGER – THE NEW YORK TIMES
Passado mais de um ano desde o seu início, o despertar árabe teve diferentes estações. Após uma primavera que abalou o mundo, seguida por verão, outono e inverno, os diferentes países – Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen – derrubaram um a um seus autocratas, derramando diferentes quantidades de sangue. Alguns governos sufocaram as revoltas, como ocorreu no Bahrein. Outros experimentaram reformas modestas, como o Marrocos, ou permaneceram inertes fora do palco principal – caso da Argélia e Arábia Saudita.
A primavera está agora voltando, e temos a situação na Síria. Enquanto os mortos se acumulam e a diplomacia fracassa em conter a violência, torna-se claro que esse conflito é único, difícil de prever e extremamente significativo para o mundo.
Diferentemente da Líbia, a Síria é um país de importância estratégica, localizado no centro de rivalidades étnicas, religiosas e regionais que trazem o potencial de transformar o local num redemoinho capaz de arrastar para o seu centro potências maiores e menores da região e de outras partes do mundo.
“A Síria é talvez o único país onde a Primavera Árabe tem o potencial de alterar a composição geoestratégica da região”, diz Olivier Roy, historiador francês que estuda o Oriente Médio. Como contraexemplo, ele indica Egito e Tunísia, onde os novos líderes parecem estar conservando as alianças e posições geopolíticas anteriores. “Na Síria, se o regime for derrubado, teremos uma paisagem absolutamente nova”, afirma.
Muitos consideram o conflito outra revolução inevitável que acabará depondo o presidente Bashar Assad. Mas, nos meses transcorridos desde que os sírios decidiram lutar contra Assad – que respondeu mobilizando o Exército contra eles -, o país já se converteu no cenário de uma guerra indireta entre potências da região e de outras partes do mundo.
Durante décadas, a Síria foi o ponto central da velha ordem da segurança no Oriente Médio. O país possibilitou que russos e iranianos expandissem sua influência enquanto sucessivos governos da família Assad proporcionavam estabilidade aos olhos dos EUA e uma fronteira segura para Israel, apesar do apoio concedido ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas nos territórios palestinos.
A incipiente guerra civil na Síria derrubou esse paradigma, colocando russos e americanos – e seus respectivos aliados – em lados opostos. Trata-se de um conflito que intensificou muito as tensões entre xiitas e sunitas, e entre o Irã e a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico. Uma situação explosiva que deixa Israel com a esperança de que um inimigo cairá, mas também com uma aguda preocupação em relação a quem irá assumir o controle do arsenal dele.
Para a Rússia, a queda de Assad – seu aliado e comprador de suas armas – reduziria a influência do país na região. Se Assad cair, o novo governo não poderá ignorar o apoio concedido pelos russos a ele, que incluiu um constante fornecimento de armas.
Árabes de toda a região, que estão exigindo seus direitos e liberdades, também podem se mostrar ressentidos desse apoio. “A essa altura, não adianta nem mesmo mudar de lado”, diz Dmitri Gorenburg, estudioso da Rússia a serviço do Centro de Análises Navais, grupo de pesquisas financiado pelo governo americano com sede na Virgínia.
Para os EUA, o conflito representa um conjunto de riscos e contradições que obrigou Washington a assumir uma posição muito mais cautelosa.
A repressão desencadeada por Assad apresentou ao mundo um difícil dilema moral envolvendo a intervenção. Se a responsabilidade de proteger civis é um novo elemento legítimo do direito internacional, por que essa lei valeria para o caso da Líbia, mas não para o da Síria? Será que a democracia e a igualdade de direitos defendidas pelo Ocidente vão sofrer as consequências, ajudando os radicais islâmicos a chegar ao poder?
Fator Irã. Para Washington, a Europa e os sunitas do Golfo Pérsico e da Arábia Saudita, o destino de Assad é tão importante quanto o seu impacto sobre o Irã. A Síria é um dos aliados mais próximos da república islâmica. Os sírios apoiaram quase sozinhos o Irã na sua guerra contra o Iraque nos anos 80. A Síria é o principal corredor de acesso por meio do qual Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica recebem ajuda e armas do Irã. A queda de Assad representaria uma grande derrota para os iranianos que, por esse motivo, fornecem dinheiro, armas e conselhos ao governo dele.
Os EUA e a Europa isolaram o Irã econômica e diplomaticamente – com o tênue apoio de russos e chineses – na tentativa de retardar as tentativas de Teerã no sentido de construir um artefato nuclear. Um novo governo sírio poderia representar para os iranianos um golpe mais duro do que quaisquer sanções já aprovadas pelo Ocidente. Outro possível resultado seria o retorno de protestos democráticos em Teerã.
Por enquanto, Washington não pretende armar grupos da oposição síria. Os EUA estão também excluindo a possibilidade de uma intervenção militar direta. Depois de uma década de guerra no Iraque e no Afeganistão, e de uma intervenção limitada na Líbia criticada pelos republicanos, o presidente Barack Obama não deseja novas aventuras militares num ano eleitoral. A opinião é partilhada pelo Pentágono, que pensa especialmente no competente sistema sírio de defesa antiaérea, fornecido pela Rússia.
Outro fator considerado importante é a natureza incoerente e pouco clara da oposição armada a Assad, e representantes americanos destacam que o Exército de Libertação Sírio, formado por oficiais exilados do exército sírio, por desertores e milicianos, não controla territórios importantes na Síria por meio dos quais o fornecimento de armas poderia ser estabelecido.
Há provas de que radicais sunitas estariam voltando suas atenções para a Síria, com armas e combatentes atravessando a fronteira com o Iraque e os líderes da Al-Qaeda falando numa jihad na Síria. Mas há também motivo para ceticismo, pois a Al-Qaeda se tornou uma espécie de fantasma citado por quase todos.
A questão central é como acelerar o colapso do governo Assad, visto por muitos como inevitável, sem com isso mergulhar a sociedade numa guerra civil, afirma Volker Perthes, administrador do Centro Alemão para Questões Internacionais e de Segurança. “Armar os rebeldes e provocar a eclosão de uma guerra civil é algo que vai conferir mais tempo ao regime”, diz Perthes. “O que Assad quer é uma guerra de verdade, pois isso permitiria a ele superar a relutância em combater da ampla maioria nas Forças Armadas.”
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Ecos do período que antecedeu guerra do Iraque são inconfundíveis, mesmo sem certeza sobre objetivos do Irã
SCOTT SHANE, THE NEW YORK TIMES , É JORNALISTA
Os EUA sustentaram até agora aquela que é – de acordo com determinados critérios – sua guerra mais prolongada, com mais de 6.300 soldados americanos mortos e 46 mil feridos no Iraque e no Afeganistão, além de um custo estimado em US$ 3 trilhões. As guerras duraram muito mais do que o previsto, com resultados decepcionantes.
Então, por que já podemos sentir no ar um novo odor de pólvora? Os debates a respeito de um possível conflito envolvendo o programa nuclear do Irã alcançaram um tom estridente nas últimas semanas, com Israel intensificando as ameaças de um possível ataque, a oratória dos políticos americanos tornando-se mais belicosa e o Irã respondendo em geral num tom desafiador. Enquanto Israel e Irã trocam acusações e suspeitas de armar complôs assassinos, alguns analistas enxergam o perigo de precipitar uma guerra que inevitavelmente envolveria os EUA.
Os ecos do período que antecedeu a guerra do Iraque, em 2003, são inconfundíveis, e acendem um debate já conhecido a respeito da possibilidade de a imprensa estar exagerando ao relatar os avanços do Irã na construção da bomba. Entretanto, há uma diferença considerável: diferentemente de 2003, quando o governo Bush retratava o Iraque como uma ameaça iminente, os representantes do governo Obama e os profissionais dos serviços de informações parecem ansiosos por acalmar a retórica febril e agressiva.
Recentemente, o general Martin Dempsey, chefe das Forças Armadas americanas, disse à CNN que os EUA alertaram Israel para o fato de que a decisão de atacar neste momento teria como resultado uma “desestabilização”, acrescentando que o Irã ainda não decidiu se construirá uma arma.
Graham Allison, um dos principais especialistas em estratégia nuclear da Universidade Harvard, comparou a evolução do conflito em torno do programa nuclear iraniano a uma “versão em câmera lenta da crise dos mísseis de Cuba”, na qual ambas partes dispõem de informações pouco claras e os ânimos estão exacerbados. “Observando Irã, Israel e EUA, podemos perceber que eles avançam lenta porém inexoravelmente para uma colisão”, disse ele.
Outra diferença fundamental em relação ao debate antes da guerra em 2003 é o papel central de Israel, que considera a possibilidade da construção de uma arma nuclear iraniana uma ameaça à sua própria existência e advertiu que em breve o Irã terá construído instalações nucleares muito abaixo da superfície, que não poderão ser alcançadas pelos bombardeiros.
A posição de Israel encontrou um ambiente politicamente favorável nos EUA. Com a notável exceção do deputado Ron Paul, do Texas, os candidatos republicanos à presidência disputaram espaço fazendo declarações em que ameaçavam o Irã e definiam-se como protetores de Israel.
Apesar de uma década de guerra, a maioria dos americanos parece apoiar o espírito marcial dos políticos. Numa pesquisa de opinião realizada este mês pelo Pew Research Center, 58% dos entrevistados disseram que os EUA deveriam usar força militar, se necessário, para evitar que o Irã desenvolva armas nucleares. Somente 30% dos participantes foram contrários à ideia. “Isso me parece curioso”, disse Richard K. Betts, da Universidade Columbia, que estuda ameaças à segurança desde a Guerra Fria. “Depois de sofrer tantos golpes no Iraque e no Afeganistão, seria de se imaginar que houvesse uma razão instintiva sugerindo a contenção dos ânimos.”
Micah Zenko, que estuda a prevenção de conflitos no Conselho das Relações Exteriores, enxerga um padrão: “Sempre existe a crença de que a próxima guerra terá resultado melhor do que a última”. Diante de um desafio à segurança, tanto políticos quanto o povo “desejam ‘fazer alguma coisa’”, disse Zenko. “E não há nada tão capaz de ‘fazer alguma coisa’ quanto o poderio militar.”
São as principais forças do establishment militar e de espionagem que buscam um contraponto à linguagem dos políticos quanto ao programa nuclear iraniano. Em audiência da semana passada, o senador republicano Lindsey Graham questionou James R. Clapper Jr., diretor da Inteligência Nacional dos EUA, se ele tinha dúvidas quanto às intenções iranianas de fabricar a arma atômica. “Tenho sim”, respondeu Clapper. “Há certas coisas que eles ainda não fizeram e coisas que não fazem há algum tempo”, acrescentou, referindo-se a etapas da preparação de um dispositivo nuclear.
Peter Feaver, da Universidade Duke, que estuda a opinião pública em relação à guerra e trabalhou no governo de George W. Bush, disse que a política do governo Obama está agora “exatamente no ponto médio da opinião pública americana em relação ao Irã” – ou seja, assumindo uma linha dura contra um Irã armado com bombas nucleares, mas opondo-se a medidas militares no presente. Feaver alerta que, com a aproximação das eleições de novembro, a retórica belicosa deve aumentar. “Este é o perigo habitual de se debater crises de política externa numa campanha eleitoral”, disse ele. “Na tentativa de explicar uma posição complexa, acaba-se transmitindo a impressão de algo completamente vago.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E AUGUSTO CALIL
Especialistas divergem com relação à saída de Mohamed Nasheed, ex-presidente do país insular das Maldivas, do poder. Alguns acreditam que a iniciativa evitou um banho de sangue, enquanto outros asseguram que agora o caminho está livre para que os islâmicos tomem o poder.
Primeiro presidente eleito democraticamente após 30 anos de ditadura, Nasheed demitiu-se no dia 7 de fevereiro depois de intensos protestos contra uma polêmica ordem de prisão emitida contra um juiz. Apesar de os militares do país assegurarem que a iniciativa não foi fruto de um golpe, o ex-presidente disse que foi obrigado a abandonar o poder, sob ameaça de violência. Após a renúncia, Mohammed Waheed assumiu a presidência e partidários de Nasheed saíram às ruas principais da cidade de Male para protestar.
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GALERIA: Imagens da crise nas Maldivas e do paraíso turístico
COBERTURA ESPECIAL: A crise nas ilhas do Oceano Índico

Mohammed Waheed, novo presidente das Maldivas, fala a jornalistas em sua casa em Male
Mohamed Nasheed (dir.), ex-presidente, acusa Waheed de ter chegado ao cargo por meio de um golpe
Características
Menor país da Ásia em termos de área e população, as Maldivas são formadas por 1,2 mil ilhas e atóis com elevação média de 1,5 metro sobre o nível do mar. De religião muçulmana com constituição de 2008 complementada pela Sharia islâmica, contam com somente 200 ilhas habitadas, sendo que 80 delas são separadas para resorts turísticos, sem contato com o restante do país. A maior ilha é Malé, principal distrito e capital, que possui 100 mil habitantes. O ponto mais alto das Maldivas está a 2,4 metros sobre o nível do mar, o que torna o país fortemente suscetível à tsunamis e enchentes.
História
Sultanato durante 853 anos, as Maldivas foram protetorado britânico de 1887 a 1968. Em 1975, o primeiro-ministro, Ahmed Zaki foi deposto pelo presidente Ibrahim Nasir para um atol afastado. Em meio a revoltas, Nasir foge em 1978 para Cingapura, levando milhões do tesouro nacional. Eleições não contestadas e sem disputa levam ao poder Maumoon Abdul Gayoon, que permanece em um governo repressor e autocrático por 30 anos, sem permitir oposição. Do exílio, Nasir tenta dar três golpes de estado. É detido pela intervenção de militares da Índia.
Democracia
Em 2008, o primeiro presidente democraticamente eleito, Mohamed Nasheed, vence pelo voto popular. Ativista político, foi preso e torturado diversas vezes pelo governo de Gayoon. Nasheed promove uma limpeza nas forças militares e policiais demitindo aliados de Gayoon.
Golpe
Em 30 de janeiro de 2012, o vice-presidente, Dr. Mohamad Wazeed, se encontra com os líderes de partidos ortodoxos islâmicos e o líder do partido do ex-presidente Maumoon Gayoon, o PPM (Partido Progressista das Maldivas), Umar Naseer, uma semana após realizar um protesto convocando policiais da era Gayoon dispensados por corrupção e atrocidade a se rebelarem e tomarem o comando das forças nacionais.
O conflito começa na noite do dia 6 para 7/2, com os policiais tomando o quartel general das forças nacionais. O presidente Nasheed tenta aplacar os policiais revoltados mas há um embate entre policiais e parlamentares, que são espancados e feridos com spray de pimenta. Às 6h30 do dia 8/2 Nasheed é forçado a renunciar e adere aos protestos pacíficos que exigem eleições. Policiais respondem aos protestos com violências. Cerca de 10 mil manifestantes são atacados por policiais no dia 8/2. Dr. Mohamad Wazeed se declara presidente e aponta diversos aliados para postos chaves, ignorando leis do país. Desde o dia 19/2, a violência arrefeceu e os manifestantes tem se mobilizado de maneira pacífica, no lado leste da ilha de Male.

O governo dos EUA atua indevidamente como missionário quando tenta converter muçulmanos aspirantes a ações radicais e usa dinheiro público em seu esforço
SAMUEL J. RASCOFF FOI DIRETOR DE ANÁLISE DE INFORMAÇÕES SECRETAS DO DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE NOVA YORK DE 2006 A 2008, É PROFESSOR ADJUNTO DE DIREITO NA NEW YORK UNIVERSITY – THE NEW YORK TIMES
Há dois anos, John O. Brennan, principal assessor do presidente Barack Obama para contraterrorismo, falando aos integrantes de um grupo de estudantes muçulmanos em um auditório lotado na faculdade de Direito onde leciono, apresentou ao público a posição da Casa Branca sobre o que jihad significa e o que não significa. Mais tarde, no mesmo ano, o comentarista Haroon Moghul, que comigo fazia parte de um painel no mesmo auditório, chamou a atenção para os esforços das autoridades americanas para criar uma rede global de líderes muçulmanos “aceitáveis”.
Há outros exemplos como esses nos EUA. O Departamento de Segurança Pública de Ohio preparou e distribuiu um texto que declara que “quando extremistas atacam e matam em nome da jihad, os muçulmanos em geral consideram esses atos um total desvio da verdadeira religião do Islã”. Os representantes do Departamento de Segurança Interna foram convidados para uma conferência em 2010 na qual se discutia, entre outros tópicos, “A Busca de uma Contrarreforma no Islã”.
Em cada um desses casos, o contraterrorismo colocou as autoridades em rota de colisão com o pensamento e a prática islâmicos – e, o que é talvez bem mais perigoso, com a Constituição dos EUA. A 1.ª Emenda proíbe qualquer ação do governo “no que se refere ao estabelecimento de uma religião nacional”.
Do ponto de vista da segurança nacional, contestar as ideias que servem de fundamento ao Islã radical não é uma coisa absurda. O contraterrorismo diz respeito fundamentalmente a ideias. Por que as autoridades não deveriam tentar marginalizar ensinamentos teológicos citados por terroristas violentos? O problema é que quando as autoridades americanas intervêm nos ensinamentos islâmicos – interpretando-os para seus fiéis num contexto de segurança nacional e dizendo quais são aceitáveis e quais não são – criam tensões, tanto legais quanto estratégicas.
Será o governo uma autoridade digna de crédito no que diz respeito à interpretação da religião islâmica? Com base no resultado de tentativas feitas nesse sentido na Grã-Bretanha, a resposta é pura e simplesmente “não”. Em poucas palavras, os jovens muçulmanos à mercê de ensinamentos radicais não abraçam uma teologia mais pacífica porque o FBI manda que o façam, assim como os bispos católicos não cederiam ao projeto de Obama de obrigar os hospitais católicos a distribuir anticoncepcionais, se ele invocasse o direito canônico para defender a própria posição.
Há ainda o problema legal. Do ponto de vista da Constituição, um funcionário do governo que determina o que significa um conceito controvertido do Islã, ou o que os imãs podem ou não podem dizer a determinada comunidade, correria o risco de transgredir um dogma fundamental: o Estado secular não se tornará árbitro de qualquer doutrina religiosa.
Além de exercer o papel de teólogo com pronunciamentos oficiais sobre conceitos polêmicos como a jihad, o governo atua indevidamente como missionário quando procura converter os aspirantes a atuações radicais e respalda seus esforços com doações financiadas pelos contribuintes.
Esses programas vão muito além da clara autoridade legal do governo para tratar de ameaças concretas à segurança dos cidadãos. Eles colocam os funcionários seculares na duvidosa façanha de tentar formular as crenças dos muçulmanos americanos. Se o governo corre cada vez mais o risco de estabelecer um “Islã oficial”, projeto que na melhor das hipóteses é funesto, quando não ilegal, existirão alternativas boas? Felizmente, sim.
Refutar a ideologia religiosa radical terá um fundamento constitucional muito mais sólido – e estratégico – se o trabalho mais pesado couber não ao governo, mas às organizações de base que se assentam na sociedade civil ou em comunidades religiosas. O governo não deve estar profunda e diretamente envolvido.
A relação entre o imperativo da segurança nacional e uma grande civilização religiosa é inevitavelmente complexa. Conciliar as duas não seria possível permitindo-se que as autoridades se tornassem mais ativas abraçando alternativas teológicas ao Islã radical – ou treinando profissionais da segurança e dos serviços secretos com odiosas caricaturas do Islã. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
VIENA – Cerca de 50 imagens de líderes – e ex-líderes – mundiais podem ser vistas até o final de abril na galeria de fotos Westlicht, em Viena, Áustria. Platon Antoniou, fotógrafo da revista norte-americana The New Yorker, retratou políticos como o italiano Silvio Berlusconi, o americano Barack Obama, o venezuelano Hugo Chávez, o líbio Muamar Kadafi e a argentina Cristina Kirchner em imagens reunidas na mostra “As caras do poder”. O ex-presidente Lula também foi retratado.
Platon fez retratos intimistas de lideranças políticas de todo o mundo, em um projeto que inclui mais de 100 presidentes, primeiro-ministros e ditadores. O fotógrafo, de 43 anos, já ganhou o World Press Photo em 2008 com um retrato do então presidente russo, Vladimir Putin. Segundo o profissional, cada líder fotografado impôs condições para o trabalho. “Chávez me deu 15 segundos”, contou. Segundo ele, houve chance apenas de fazer “uma ou duas” fotos do venezuelano. “Em um momento como esse, é preciso agir instintivamente”, contou.
Veja algumas das imagens:

Hugo Chávez, presidente da Venezuela

Vladimir Putin, primeiro-ministro da Rússia

Muamar Kadafi, ex-ditador da Líbia

Cristina Kirchner, presidente da Argentina

Silvio Berlusconi, ex-premiê da Itália

TIMOTHY EGAN – THE NEW YORK TIMES – É COMENTARISTA POLÍTICO
Em 50 anos, a população dos EUA triplicou, mas os eleitores que participam da escolha do candidato republicano não representam o perfil geral do país
No curto espaço de um século, a população dos Estados Unidos mais que triplicou. Chegou a 313 milhões. O país é um agrupamento assertivo, estridente, de quase todas as raças e religiões do mundo e de muitos idiomas do planeta sob uma mesma bandeira.
Ninguém diria isso se olhasse apenas para quem está votando em uma das campanhas das primárias para as eleições presidenciais mais estranhas da história. Não há outra maneira de expressar isso sem recorrer à pura e simples demografia: a pequena fração de americanos que está tentando escolher o candidato republicano é velha, branca, uniformemente cristã e não representativa do país em geral.
Nada disso causa surpresa. Mas quando se olha para os números, é um espanto como esse eleitorado das primárias republicanas se assemelha pouco ao restante dos Estados Unidos. Ele lembra mais a população de 1890 que a de 2012.
Dado o grau de atenção da mídia, sabemos que está havendo uma eleição de grande importância no lado republicano. Mas ela está ocorrendo num lugar diferente, guiada por extremistas radiofônicos e fanáticos religiosos, com uma vaga semelhança apenas com os Estados onde está se desenrolando. Desse pequeno mundo surgiu um conjunto de posições retrógradas, doidas e impopulares para a vasta maioria dos americanos.
Mas, antes de analisarmos como essa minoria conseguiu acuar o partido, consideremos o tamanho do eleitorado. Os nove Estados que realizaram assembleias (caucus) ou primárias até agora, abrigam um total aproximado de 28 milhões de eleitores registrados de todas as orientações políticas.
Até agora, 3 milhões de eleitores participaram das disputas republicanas, menos que a população de Connecticut. Isso significa que 89% de todos os eleitores registrados nesses Estados não participaram do que é, no linguajar de uma corrida de cavalos, uma disputa cabeça a cabeça.
Sim, é sabido que os republicanos não gostam de suas opções. Mas, em alguns Estados, essa eleição poderia estar ocorrendo numa cidade fantasma. Dos eleitores registrados, menos de 1% compareceu à votação do Maine. Em Nevada, onde o comparecimento republicano foi 25% inferior ao de 2008, somente 3% dos eleitores registrados participaram. Isso não é um regime majoritário sob nenhum parâmetro; mal se qualifica como uma democracia participativa.
Os resultados dos dois Estados populosos que realizaram primárias grandes, com cobertura extensa da mídia e mais propensas a atrair o eleitor médio, também são reveladores. Na Flórida, o Estado maior e mais diversificado entre os nove, o comparecimento foi 14% inferior ao de 2008. E 84% dos eleitores registrados do Estado não participaram na disputa republicana. A Carolina do Sul teve a maior discrepância deste ano. Foi o único Estado a mostrar um forte aumento no comparecimento, 35% maior que o de 2008. Mas, quando se olha quem votou, percebe-se um nicho muito específico.
Nesse Estado, 98% dos votantes na primária eram brancos, 72% tinham 45 anos ou mais e quase dois terços eram cristãos evangélicos, segundo pesquisas de boca de urna. Por esse quadro, daria para pensar que a Carolina do Sul é um Estado de população inteiramente branca, envelhecida, repleto de religiosos praticantes. Mas o Censo diz que o Estado é 66% branco, com uma idade média de 36 anos. As pesquisas de boca de urna de 2008 situaram o voto evangélico em 40% do total.
A Flórida ficou ao menos mais próxima – somente no voto latino – da eleição geral de 2008. Em ambos os casos, ele representou cerca de 14% do total. Mas os eleitores de 45 anos ou mais representaram 78% da primária, ante 59% na disputa geral de quatro anos atrás.
Com a exceção da Flórida, essa disputa foi um assunto quase inteiramente branco. A população de Nevada é 26% latina; na primária, somente 5% eram latinos. Na convenção em Iowa, 99% dos votantes eram brancos.
De novo, esses números representam uma pequena câmara de eco. Os brancos são 63,7% da população total dos Estados Unidos. Em 1900, eles eram 88% – ainda mais diversificados que os eleitores de hoje nas primárias republicanas.
Comparecimento. O ponto importante dessa primária republicana com baixo comparecimento e baixa representatividade não é focar totalmente em quem está votando, mas em por que os candidatos estão tomando posições tão extremas. Uma coisa explica a outra.
Uma pesquisa do New York Times esta semana revelou que os eleitores em geral, 66%, apoiam a exigência federal de que os planos de saúde privados cubram o custo integral do controle de natalidade para pacientes mulheres. Entre as mulheres, o apoio é de 72%. E entre os católicos, é de 67%. Sim, os católicos são um pouquinho mais liberais que a população em geral.
Outras sondagens mostram que uma enorme maioria de americanos quer aumentar os impostos para os ricos, defende a retirada planejada do Afeganistão e acredita que a Terra está se aquecendo por causa da ação humana. No entanto, o republicano Rick Santorum está com a minoria em cada uma dessas questões. Mitt Romney fica perto.
Uma vez que os dois candidatos estão fora de sincronia com o restante do país, como eles podem ser os concorrentes mais bem colocados? É simples: vejam quem está votando, uma nação em si mesma. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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