
O Haiti não chegará à verdadeira democracia se o Judiciário seguir sem a intenção de condenar os crimes do passado
AMY WILENTZ, THE NEW YORK TIMES, É AUTORA DO LIVRO THE RAINY SEASON: HAITI SINCE DUVALIER
Foi doloroso ver Jean-Claude Duvalier, o herdeiro da brutal ditadura que outrora governava o Haiti, exibir-se nos locais mais frequentados de Porto Príncipe, ladeado pela escória do seu regime – até mesmo ex-integrantes da temida polícia secreta, os tontons macoute – como se ele fosse apenas mais um membro da despreocupada elite da capital amante dos divertimentos.
Desde 2011, quando regressou do exílio que durou 25 anos, Duvalier – Baby Doc – procurou se inserir na sociedade semirefinada, e até mesmo conseguir uma cadeira perto do novo presidente, Michel Martelly, na cerimônia em memória das vítimas do terremoto de 2010.
O presidente colocou em vários cargos do seu governo antigos funcionários de Duvalier e seus parentes. Em poucas palavras, ele está reabilitando Duvalier – e, com ele, o sistema extrajudiciário com o qual ele e seu pai, François Duvalier, governavam. No mês passado, Martelly propôs um perdão geral para Baby Doc – que foi acusado de corrupção e violação dos direitos humanos – e disse à agência Associated Press: “Eu estou convencido de que precisamos desta reconciliação no Haiti”.
No dia seguinte, depois dos gritos de indignação internacionais e de grupos haitianos, ele disse que suas palavras haviam sido mal entendidas. Entretanto, seu perdão não era nem mesmo necessário. Em 30 de janeiro, o juiz que investigava o caso recomendou que todas as acusações dos grupos de defesa dos direitos humanos contra Duvalier fossem anuladas e ele fosse processado num tribunal de instância inferior por crimes financeiros. A Anistia Internacional definiu a investigação como “uma farsa”.
Continua, assim, a tradição de impunidade do Haiti (o sentido velado de “reconciliação”), que provocou diretamente as violentas tentativas esporádicas e inconclusivas feitas pelo país de caminhar para a democracia depois da deposição de Baby Doc. O Haiti nunca chegará à verdadeira democracia se seu sistema judiciário seguir sem nenhuma intenção de condenar os crimes do passado, de punir seus autores e deixar claro que esses abusos não serão tolerados no futuro.
Violações. Em quase 30 anos de poder, o regime Duvalier ofereceu impunidade aos seus agentes. O Exército e os tontons macoute cometeram graves violações dos direitos humanos, entre elas prisões arbitrárias e prolongadas sem julgamento, mortes por inanição e tortura de prisioneiros políticos, perseguição e morte dos seus defensores e famílias.
A violência persistiu depois da queda de Baby Doc. Enquanto ele e a família fugiam para a França a bordo de um cargueiro dos Estados Unidos, multidões armadas de pedras e de facões destruíam as residências de notórios apaniguados de Duvalier e caçavam e matavam dezenas de tontons macoute.
Segundo um amigo haitiano, agiram desta maneira porque sabiam que os tribunais não poderiam ou não iriam julgar os tontons macoute.
Essas matanças foram na maior parte assassinatos motivados por sede de vingança. E ninguém na multidão foi posto na prisão ou processado por eles.
Enquanto o país preparava claramente os alicerces da democracia, conhecidos personagens que cometeram abusos dos direitos humanos raramente foram presos. A maioria era imediatamente solta; muitos fugiam. Poucos foram julgados, raros os condenados.
Em 1987, as eleições foram anuladas quando um grupo de antigos tontons macoute invadiu uma seção eleitoral e matou 34 eleitores. Muitos outros foram mortos em outras seções. Levou nove anos para Claude Raymond, o ex-comandante do Exército de Baby Doc e suspeito de ser o mandante desses ataques – se é que podemos usar este termo – ser levado à prisão. Na época, ele chegou a concorrer à presidência, embora fosse impedido de participar das eleições. Nunca foi processado e morreu na prisão em 2000.
Em 1991, o primeiro presidente legitimamente eleito no Haiti, Jean-Bernard Aristide, foi deposto, e em 1994, pelo menos 23 de seus partidários foram mortos por forças paramilitares em Raboteau, uma favela na costa ocidental da ilha. Em 2000, depois que Aristide voltou ao poder, 16 destes assassinos foram presos e declarados culpados. Depois que ele foi novamente tirado do poder e exilado pela segunda vez, a Suprema Corte do Haiti derrubou 15 dessas condenações. Somente um integrante do grupo ligado aos ataques está preso. Ele foi processado e condenado – por fraude hipotecária – em Nova York. Outro foi processado à revelia e seus ganhos na loteria da Flórida foram confiscados e distribuídos entre as vítimas do massacre.
Apesar de alguns fatos importantes – como a condenação, no mês passado, de oito policiais pela execução de prisioneiros após o terremoto – a impunidade continua sendo uma das principais manchas do país. Ela impossibilita o funcionamento do sistema judiciário e, portanto, da democracia.
É por isso que Duvalier precisa ser processado por seus crimes contra a humanidade. Se eles forem esquecidos, os que cometeram abusos no passado e os que cometerão no futuro se sentirão encorajados. Se ele for processado e condenado, os que gozam da impunidade saberão que também correm o risco de ser condenados.
O povo haitiano quer justiça, e a comunidade internacional precisa lhe dar seu apoio. Há poucos dias, no 26.º aniversário da queda de Baby Doc, uma pequena multidão composta por vítimas do seu regime protestou diante do Palácio de Justiça. Elas escreveram as palavras “Aba impinite” – abaixo a impunidade – com tinta spray azul na parede branca do tribunal. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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Os chefs dos famosos com os pratos em um hotel de Tel Aviv
TEL AVIV - Cinco chefs de líderes mundiais reuniram-se em Tel Aviv para cozinhar e levantar fundos para atividades que permitam aproximar crianças israelenses e palestinas, em uma iniciativa planejada pelo Centro Peres para a Paz. A informação é do jornal israelense Yedioth Aharonot.
Shalom Kadosh, que atua como chef no Leonardo Plaza Hotel, em Jerusalém, organizou o evento, do qual participaram 220 pessoas – israelenses e estrangeiros, segundo o site do jornal. A entrada foi preparada por Tommy Kurpradit, chef do presidente dos EUA, Barack Obama. Kurpradit preparou uma lasanha de vegetais com alcachofra e molho vinagrete trufado. O cozinheiro do presidente russo, Dmitry Medvedev, Jerome Rigaud, preparou como segundo prato uma típica sopa do país.
Já Christian Garcia, que cozinha para o príncipe Albert de Mônaco, elaborou um filé de salmonete com caldo de peixe, erva-doce e feijão como terceiro prato. O chef Kadosh ficou responsável pelo quarto prato e preparou uma salada de feijão com folhas de acelga e um molho de pimentões assados.
Bernard Vaussion, que cozinha para o presidente francês, Nicolas Sarkozy, elaborou o último prato – mas o jornal não informou do que se tratou. Por fim, a sobremesa ficou por conta do cozinheiro Ulrich Kerz, da chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Ele fez uma mousse de maçã com iogurte, rum e passas carameladas.
Os cozinheiros também participaram de um tour culinário organizado por Kadosh nos tradicionais shuks (mercados de rua) de Jerusalém, Mahane Yehuda, e Levinsky, em Tel Aviv. O evento ocorreu na semana passada.
NOVA DÉLHI – Fotógrafos e cinegrafistas capturaram imagens de três ministros indianos do Estado de Karnataka assistindo ao que seria um filme pornográfico no celular, durante uma sessão legislativa. O caso foi chamado pela mídia local de “Porngate”. Durante a sessão, os ministros também foram flagrados vendo fotos de mulheres jovens em um aparelho que parece ser um tablet. Veja as imagens na reportagem da CNN, abaixo.
As imagens geraram polêmica tão grande que os três políticos foram obrigados a se demitir, dizendo que “não queriam envergonhar seus partidos”. Segundo a CNN, eles alegam, contudo, que as acusações são falsas e pedem que o caso seja investigado. Um dos ministros acusados, Laxman Savadi, disse que não assistia a um vídeo pornográfico mas imagens de um estupro para se preparar para uma discussão sobre os perigos das festas rave que ocorrem no Estado.
Já C.C. Patel, ministro do Desenvolvimento da Mulher e da Criança, ficou conhecido no Estado após fazer uma declaração polêmica na qual responsabilizava as “mulheres seminuas” pelos aumentos dos estupros na região. O ministro-chefe do Estado, Sadananda Gowda, afirmou que “seus colegas não cometeram erros, já que voluntariamente apresentaram sua demissão”.

Uma avalanche de e-mails forçou o Congresso dos EUA a desistir de leis contra pirataria – democracia ou demagogia?
CARY H. SHERMAN
THE NEW YORK TIMES
O tsunami digital que inundou o Capitólio no mês passado, obrigando o Congresso a desistir de uma legislação para combater a pirataria online de músicas, filmes, livros e outras obras criativas americanas, suscitou questões sobre o funcionamento do processo democrático na era digital.
Os legisladores reconheceram uma necessidade constitucional (e econômica) de proteger propriedades americanas contra roubos, proteger consumidores de produtos falsificados e fraudes, e combater criminosos estrangeiros que empregam tecnologia para roubar criatividade e empregos americanos. Eles sabiam que as vendas de música nos EUA são menos da metade do que eram em 1999, quando o site de compartilhamento Napster surgiu. Sabiam que o emprego direto no setor caiu pela metade de lá para cá, para menos de 10 mil.
Eles estudaram o problema em todas suas dimensões. O resultado: a Lei de Proteção da Propriedade Intelectual (Pipa, na sigla em inglês), cuidadosamente elaborada com apoio bipartidário quase unânime no Senado, e sua congênere na Câmara, a Lei de Combate à Pirataria Online (Sopa, na sigla em inglês). Ambas têm base em estatutos e precedentes da Suprema Corte. Mas na undécima hora, uma avalanche de e-mails e telefonemas ao Congresso bloqueou a legislação. Isso foi resultado de democracia ou de demagogia?
A desinformação pode ser um truque sujo, mas funciona. Considere-se, por exemplo, a alegação de que Sopa e Pipa eram “censura”, um termo carregado e incendiário destinado a evocar imagens de repressão a sites pró-democracia na China ou no Irã. Desde quando é censura fechar uma operação que um tribunal americano determinou que era ilegal? Quando a polícia fecha uma loja que vende produtos roubados, não é censura, mas e quando esses produtos roubados são vendidos online? Wikipédia, Google e outros fabricaram a controvérsia equiparando injustamente a Sopa à censura. Eles também argumentaram de maneira enganosa que os projetos de lei teriam requerido que os sites “monitorassem” o que seus usuários carregam.
As inverdades exibidas nas páginas de alguns dos sites mais populares do mundo equivaleram a um abuso de confiança e um uso indevido do poder. Quando Wikipédia e Google pretendem ser fontes de informação neutras, mas usam seu alcance para apresentar informações que não só não são neutras como são incompletas e enganosas, estão induzindo usuários a aceitar como verdade o que são declarações de interesse próprio político. As redes de televisão que apoiavam ativamente a Sopa e a Pipa não se aproveitaram de sua credibilidade para defender sua posição. Isso, em parte, porque a “velha mídia” separa o que é “notícia” do que é “editorial”.
Aparentemente, Wikipédia e Google não reconhecem a divisão ética entre a reportagem informativa neutra e a apresentação de uma opinião editorial como fato. A violação de neutralidade é uma patente hipocrisia: há muito que essas empresas vêm argumentando que os provedores de serviços de internet precisavam ser regulamentados segundo a doutrina da “neutralidade líquida” por seu poder como donos dos canais de acesso à internet. Mas o que o blecaute de Google e Wikipédia mostrou é que são as plataformas que exercem o verdadeiro poder.
A sabedoria convencional é que a derrota desses projetos de lei revela o poder dos usuários comuns da internet. Claro, qualquer um pode clicar num link ou tuitar por ultraje, mas quantos sabiam o que estavam apoiando ou negando? Será que eles teriam depositado seus cliques se soubessem que estavam apoiando criminosos estrangeiros a vender remédios falsificados a americanos? Não há dúvida que alguns genuinamente estavam, de fato, preocupados com o modo como os termos da lei poderiam ser interpretados. Outros, porém, podem simplesmente acreditar que músicas, livros e filmes online deveriam ser gratuitos.
Quantos daqueles e-mails eram das mesmas pessoas que atacaram sites como represália pelo estouro da Megaupload, uma operação internacional de pirataria digital? Hackers como o grupo Anonymous é que se envolvem em verdadeira censura quando tentam calar o discurso de quem discordam.
Virtualmente, cada oponente reconheceu que o problema de falsificação e pirataria é real e danoso. O projeto de lei alternativo que eles esboçaram, a Lei Open, pouco faria para barrar os comportamentos ilegais e não estabeleceria uma estrutura, normas e soluções funcionais.
Todos nós compartilhamos o objetivo de uma internet segura e legal. Precisamos de mais razão e menos retórica na discussão de como alcançá-la. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
É PRESIDENTE DA RECORDING INDUSTRY ASSOCIATION OF AMERICA, QUE REPRESENTA OS SELOS MUSICAIS

ADAM LIPTAK, É COLUNISTA E ADVOGADO
A Carta dos EUA já não é modelo para nenhum país, pois ela é lacônica, antiga e garante relativamente poucos direitos
A Constituição dos EUA teve dias melhores. Certamente ela é o documento de fundação do país e um texto sagrado. E em todo o mundo, é a mais antiga Constituição nacional escrita ainda em vigor. Mas sua influência está decrescendo. Em 1987, no seu bicentenário, a revista Time calculava que, “hoje, dos 170 países, mais de 160 possuem constituições escritas copiadas direta ou indiretamente da versão americana”.
Um quarto de século depois, o quadro está muito diferente. “A Constituição dos Estados Unidos parece estar perdendo sua atração, deixando de ser modelo para projetos constitucionais por toda a parte”, segundo um estudo realizado por David S. Law, da Universidade Washington em St. Louis e Mila Versteeg, da Universidade de Virgínia.
O relatório, que será publicado em junho na The New York University Law Review, está repleto de dados. Seus autores codificaram e analisaram os dispositivos de 729 constituições adotadas por 188 países entre 1946 e 2006, e levaram em conta 237 variáveis no tocante a diversos direitos e modos de fazer com que estes sejam respeitados.
“Entre as democracias do mundo”, concluíram os professores, “a similaridade constitucional com os EUA claramente sofre uma forte queda. Nos anos 60 e 70, as constituições democráticas como um todo eram mais similares à Constituição americana, mas o curso foi revertido nas décadas de 80 e 90″.
“Na passagem para o século 21, contudo, teve início um mergulho radical que continuou até anos mais recentes, e temos dados a respeito, a ponto de as constituições das democracias do mundo hoje estarem, em média, menos similares à Constituição americana do que no final da 2.ª Guerra.”
Existem muitas razões prováveis. A Constituição dos Estados Unidos é lacônica e antiga e garante relativamente poucos direitos. O compromisso de alguns membros da Suprema Corte no sentido de interpretar a Constituição de acordo com seu significado original no século 18 pode ser um alerta para, digamos, uma nova nação africana. E essa influência cada vez menor da Constituição americana pode ser parte de um declínio geral do poder e do prestígio americanos.
Numa entrevista, o professor David Law identificou uma razão fundamental para essa tendência: a disponibilidade de sistemas operacionais mais poderosos, mais novos e mais atraentes no mercado constitucional. “Ninguém deseja copiar Windows 3.1 (um dos primeiros da Microsoft)”, afirmou.
Em entrevista pela TV durante visita ao Egito, na semana passada, Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte concordou. “Eu não recorreria à Constituição dos EUA se estivesse redigindo um projeto constitucional em 2012.” E recomendou, em vez disso, a Constituição da África do Sul, ou a Carta de Direitos e Liberdades do Canadá ou a Convenção Europeia de Direitos Humanos.
Os direitos assegurados pela Constituição dos EUA são poucos pelos padrões internacionais e estão cristalizados. Como Sanford Levinson escreveu em 2006, em seu livro Our Undemocratic Constitution (Nossa Constituição antidemocrática) que: “a Constituição dos EUA é mais difícil de ser emendada do que qualquer outra no mundo nos dias atuais” (a Iugoslávia detinha esse título, mas não sobreviveu).
Outras nações rotineiramente realizam reformas constitucionais, substituindo-as em média a cada 19 anos. Thomas Jefferson, numa carta escrita em 1789 a James Madison, afirmou que toda constituição “expira naturalmente no final de 19 anos”, pois “a terra pertence sempre à geração atual”. Hoje, as similaridades entre os direitos garantidos pela Constituição americana e aqueles mais contemplados em outras partes do mundo são muito poucas.
Defasada. Os americanos reconhecem direitos não protegidos amplamente, incluindo o direito a um julgamento público e rápido, e são extremados quando se trata de proibir o governo de se imiscuir na religião. Mas a Carta americana está defasada em relação ao restante do mundo ao não proteger, pelo menos com tantas palavras, o direito de ir e vir, da presunção de inocência e o direito à alimentação, educação e saúde. Ela tem suas idiossincrasias. Somente 2% das constituições do mundo protegem, como é o caso da 2.ª Emenda, o direito ao porte de armas (seus irmãos em armas são a Guatemala e o México).
A importância global decrescente da Constituição dos EUA condiz com a influência cada vez menor da Suprema Corte, que “vem perdendo seu papel central que outrora tinha entre as Cortes nas democracias modernas”, foi o que Aharon Barak, então presidente da Suprema Corte de Israel, escreveu em 2002 na The Harvard Law Review.
Muitos juízes estrangeiros têm afirmado que estão menos propensos a citar decisões adotadas pela Suprema Corte americana, em parte por causa do que consideram ser a sua visão mais centrada no seu próprio mundo.
“Os EUA correm um risco de estagnação no campo legal”, disse o juiz Michael Kirby, da Corte Suprema da Austrália em 2001, acrescentando que tem se voltado mais para a Índia, África do Sul e Nova Zelândia.
O juiz Barak identificou uma nova superpotência em matéria constitucional. “A lei canadense serve de fonte de inspiração para muitos países em todo mundo”. O novo estudo também sugere que a Carta de Direitos e Liberdades Canadense, adotada em 1982, hoje pode ser muito mais influente do que a americana.
“A Constituição do antigo império do mal, a União Soviética, era muito melhor do que a nossa”, afirmou o juiz Antonin Scalia à comissão do Judiciário do Senado em outubro. “Nós asseguramos a liberdade de expressão e da imprensa. Grande coisa. Eles asseguravam a liberdade de expressão, da imprensa, para realizar manifestações e protestos e qualquer pessoa que fosse pega reprimindo críticos do governo tinha de prestar contas a respeito. Que maravilha!” “Naturalmente, eram apenas palavras no papel, o que os autores de nossas leis chamaram de ‘garantia de pergaminho’.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Sob vários aspectos, Putin transformou a antiga União Soviética em um país pela metade
THOMAS L. FRIEDMAN – THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA
Como jornalista, o que há de melhor na cobertura da recente onda de protestos e levantes contra os autocratas é assistir a coisas que a gente jamais imaginou ver – como em Moscou, na semana passada, quando algumas pessoas contrárias à decisão de Vladimir Putin de se reeleger, talvez por mais 12 anos, instalaram uma enorme faixa amarela em cima de um edifício na frente do Kremlin com o rosto de Putin coberto por um grande X, e ao lado as palavras “vá embora Putin” em russo.
A simples ousadia dos protestos e a cólera contra o primeiro-ministro Putin alimentada pela classe média urbana russa, que se sentiu tratada como uma massa de idiotas ao anúncio da troca de cargos entre ele e o presidente Dmitri Medvedev, eram impensáveis há um ano. O fato de os jovens que colocaram a faixa, ao que tudo indica, não terem sido presos, também indica que Putin compreende que sua situação é bastante delicada e não pode criar novos “mártires” que enfureceriam os que protestam contra o governo, novamente reunidos em Moscou no sábado.
O que fará Putin agora? Cumprirá realmente a promessa de permitir o surgimento de novos partidos ou simplesmente deixará que a oposição acabe, dividida e ainda sem um líder nacional de fato? A Rússia de Putin encontra-se numa encruzilhada. Tornou-se de certo modo um país, mas não realmente. A Rússia hoje é de certo modo uma democracia, mas não chega a tanto. É uma espécie de livre mercado, mas não realmente. Criou de certo modo um estado de direito para proteger a economia, mas nem tanto. É uma espécie de país europeu, mas não realmente. Tem uma imprensa de certo modo livre, mas nem tanto. Sua Guerra Fria com os EUA de certo modo acabou, mas não totalmente. Está tentando tornar-se alguma coisa mais do que um petro-Estado, mas não realmente.
O próprio Putin é em grande parte responsável pelo yin e pelo yang.
Quando se tornou presidente, em 2000, a Rússia não estava “de certo modo” com problemas. Estava com problemas bastante concretos – e caminhava para o abismo. Com punho de ferro, Putin restabeleceu a ordem e consolidou o Estado. Entretanto, ele não foi cimentado por verdadeiras reformas políticas e econômicas, mas pelo aumento dos preços e das receitas petrolíferas. No entanto, muitos russos agradeceram a ele e continuam agradecendo.
Ao longo do processo, Putin criou uma nova camarilha rica e corrupta ao seu redor, mas também garantiu que parte da riqueza do petróleo e dos minérios russos fosse transferida para as grandes cidades, criando uma pequena classe média urbana que agora exige a liberdade de influir no próprio futuro. Mas Putin está num beco sem saída. Tirou a Rússia da beira do abismo, mas não consegue empreender as mudanças nos planos político, econômico e educacional necessárias para torná-la um moderno país europeu.
E a Rússia tem condições para tanto. Sob a liderança de Putin? Eu e a chefe da sucursal do New York Times em Moscou, Ellen Barry, conversamos na quinta-feira com o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, na Casa Branca russa. Quando saí do encontro, eu estava incerto.
Todos esses protestos urbanos, disse Peskov, são um sinal de que o crescimento econômico avançou em relação às reformas políticas, e isso foi resolvido: “Há dez anos, não tínhamos uma classe média. Essas pessoas pensavam como poderiam comprar um carro, comprar um apartamento, abrir uma conta num banco, pagar a educação dos filhos numa escola privada e assim por diante. Agora, elas já têm tudo isso. A parte interessante da história é que elas querem ter uma mais participação na vida política”.
Parece razoável. Mas e a sugestão de Putin de que os protestos seriam parte de um complô dos EUA para enfraquecer a ele e à Rússia? Peskov acredita realmente nisso? “Não acredito: eu sei disso”, afirmou. O dinheiro para desestabilizar a Rússia chega “de Washington pelos canais oficiais e pelos não oficiais. Para financiar diferentes organizações… Para provocar a situação. Não estamos falando isso apenas por falar. Estamos falando porque sabemos disso… Já sabíamos dois ou três anos antes que no dia seguinte às eleições parlamentares (de dezembro)as pessoas diriam que essas eleições não eram legítimas”.
É uma afirmação equivocada ou realmente descrente. E há questão de política externa. Putin foi mesmo útil na ONU não bloqueando a zona de exclusão de voos sobre a Líbia, mas ficou revoltado – pelo fato de que começamos protegendo civis e depois derrubamos seu aliado e cliente na compra de armas, Muamar Kadafi. É verdade.
Mas que aliado! Que coisa para lamentar! E agora, quanto mais Putin apoia a ditadura assassina de Bashar Assad na Síria, mais parece alguém que comprou uma passagem de ida e volta no Titanic – depois que ele já atingiu o iceberg. Assad é um morto vivo. Mesmo que vocês se preocupem apenas com a venda de armas, a Rússia quererá se alinhar com as forças emergentes na Síria? “Na política russa existe uma forte dimensão nacional em relação à Síria”, disse Vladimir Frolov, um especialista em política externa russa. “Se permitirmos que a ONU e os EUA pressionem um regime– que se parece com o nosso – a ceder o poder à oposição, que tipo de precedente isso poderá criar?” Tal abordagem para o mundo não é um bom prenúncio para as reformas no nosso país, acrescentou Frolov. “Putin foi feito para o monólogo”, ele disse. Ele criou “um sistema paternalista, muito personalizado, com base na arbitrariedade”.
Uma reforma real exigirá um amplo reajuste por Putin. Será possível que isso venha a acontecer? Ele compreenderá isso? Pelas evidências atuais, eu diria: de certo modo, mas não realmente. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
A greve iniciada pela Polícia Militar de Salvador, na Bahia, em 31 de janeiro colocou a cidade em meio aos assuntos destacados pela imprensa internacional. A situação na capital baiana – com o aumento de crimes como assaltos, saques e assassinatos, o clima de extrema insegurança e agora o envio do Exército – foi notícia em jornais e agências de todo o mundo. Veja abaixo as informações publicadas recentemente por algumas dos principais veículos globais.
Os venezuelanos lembram neste sábado, 4, com um misto de orgulho e vergonha, as duas décadas da tentativa frustrada de golpe liderada por Hugo Chávez contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Relembre a seguir a cronologia do golpe.
3 de fevereiro de 1992
16 horas. Chávez e outros quatro tenentes-coronéis do Exército venezuelano mobilizam oficiais na “Operação Zamora” para tentar derrubar o presidente Carlos Andrés Perez
23 horas. Em Caracas, militares rebelados tentam ocupar o Palácio de Miraflores, a residência presidencial, a base aérea Francisco de Miranda e outros pontos estratégicos
4 de fevereiro de 1992
Zero-hora. Tanques e paraquedistas tentam invadir Miraflores. Há confronto com militares leais ao governo, que se estende por toda a madrugada
1 hora. Pérez consegue fugir do palácio e se abriga na sede da TV Venevisión, de onde informa o país da insurreição armada
8 horas. O comando militar consegue controlar a situação
Meio-dia. Chávez entrega-se e pede que seus comandados deponham as armas: “Por ora, me retiro”, declarou
Hackers interceptaram e gravaram uma conferência telefônica entre investigadores de crimes cibernéticos do serviço federal dos Estados Unidos e da Scotland Yard, a polícia da Grã-Bretanha. O coletivo de hackers Anonymous divulgou cerca de 15 minutos de gravação do que parece ser uma conferência telefônica cujo objetivo era rastrear e processar membros do grupo. Ouça (em inglês) o áudio do que seria a suposta gravação.

SIMON ROMERO – THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA
Países em desenvolvimento veem a crise das nações ricas com preocupação, mas também com uma dose de prazer
Há vários meses, os latino-americanos acompanham as crises nos países em desenvolvimento com preocupação, perplexidade, ironia e, até mesmo, certo prazer maldoso com a desgraça alheia. Para eles, Europa e EUA apresentam, neste momento, problemas relativamente comuns à sua região – que, não faz muito tempo, era uma incansável defensora das operações de salvamento nas crises financeiras.
“O clima nas ruas de Paris é deprimente, as pessoas estão claramente preocupadas com seu futuro”, afirmou Maria Cristina Terra, uma economista brasileira que se mudou para a França quatro anos atrás e voltou ao seu país este mês. “É um choque para todos nós que vimos a Europa tão sólida e próspera, mas o contraste com o Brasil é imenso.”
Em 2011, o desemprego na América Latina caiu para 6,8%, a menor taxa em 21 anos – em comparação com a de 8,5% nos EUA e cerca de 10% na Europa. O Panamá registrou um crescimento de 10,5% nos primeiros nove meses de 2011. A economia da Argentina teve uma expansão de 9,3% no terceiro trimestre de 2011.
Em nenhum outro lugar esse novo clima está mais evidente do que no Brasil, que recentemente tirou da Grã-Bretanha o posto de sexta maior economia mundial. Apesar de certa fragilidade econômica recente, a taxa de desemprego do Brasil chegou a um nível histórico de 4,7%. A revista Veja comemorou com uma reportagem de capa: “Diariamente surgem no Brasil 19 novos milionários”. Segundo determinados aspectos, o setor financeiro de São Paulo faz inveja a Wall Street.
Cresce o número de brasileiros que visitam o exterior e podem comprovar o contraste in loco. “Estive no Zuccotti Park e me senti na América Latina, por volta de 1985″, observou Matias Spektor, professor da Fundação Getúlio Vargas, referindo-se ao local que se tornou o centro do movimento Ocupe Wall Street em Nova York, antes que a polícia retirasse todos os manifestantes, em novembro. “Esse clima geral de dissenso e a desconfiança em relação à classe alta e à classe governante não são coisas que normalmente associamos aos EUA”, afirmou.
O Brasil, evidentemente, estava mais habituado a receber lições de Washington sobre suas desigualdades do que a ver os americanos criticarem o fosso cada vez maior entre os ricos e a classe média nos EUA. O Brasil estava tão acostumado com as crises que o cidadão médio até mostra um conhecimento extraordinário dos mercados financeiros. Muitos no Brasil observaram com satisfação que o “risco Brasil” se reduziu abaixo do dos EUA no ano passado.
Alguns alertam contra esse triunfalismo. O Brasil ainda tem desigualdades chocantes e, embora tenha triplicado sua renda per capita nos últimos dez anos para cerca de US$ 12.500, parte desse aumento tem a ver com a valorização da sua moeda. Se é possível aprender com a história, os preços das commodities exportadas pelo Brasil e outros países latino-americanos não poderão permanecer tão elevados para sempre. Mas o fato de que milhões de pessoas recentemente saíram da miséria mais profunda, não só no Brasil, mas também nos seus vizinhos, estimula as pessoas a devolver a crítica aos que costumavam distribuir conselhos para a região com tanta liberalidade.
Moisés Naím descreveu que a ansiedade que ele observou numa viagem a Bruxelas fez com que ele lembrasse o início dos anos 90, quando foi ministro do Planejamento da Venezuela e tentava controlar a situação econômica que devastou países latino-americanos durante parte das décadas de 80 e 90.
“Esperemos que a Europa consiga administrar sua crise como a América Latina aprendeu a fazer”, disse Naím, em referência às transformações no Brasil, no Chile e na Colômbia. “Nesse sentido, seria desejável uma certa latino-americanização da Europa.”
Nem todos se mostram entusiasmados com as receitas latino-americanas, como o protecionismo que ainda permeia muitas grandes economias. Alguns observadores percebem certos paralelos entre a polarização da política nos EUA de hoje e a situação de certos países latino-americanos nos anos 60, quando as classes políticas não chegaram a um compromisso, permitindo o surgimento de uma crise após a outra.
Patricio Navia, cientista político chileno da Universidade de Nova York, disse que o debate sobre o teto da dívida em Washington mostrou que as batalhas ideológicas poderiam levar a uma tensão política mais duradoura. “Quando você brinca com fogo, sai queimado”, afirmou.
As opiniões sobre os problemas do mundo desenvolvido variam consideravelmente no hemisfério, assim como as condições de um país para outro. Enquanto o Brasil agora mostra a sua força, nem todos os vizinhos compartilham de seu excesso de otimismo. E apontam para o exemplo da Argentina, um século atrás um dos países mais ricos do mundo.
Uma longa série de crises mudou sua situação e a Argentina experimentou um assustador colapso financeiro há apenas dez anos. Desde então, graças em parte à alta impressionante do preço das commodities, seu crescimento econômico ultrapassou até o do vizinho Chile, cuja política voltada para o mercado frequentemente foi apontada como modelo.
Citando a vigorosa recuperação da Argentina depois do calote da dívida, especialistas afirmam que esse país deveria ser um exemplo auspicioso para a Grécia e outros países da Europa que enfrentam graves dificuldades.Outros dizem que a Argentina é um exemplo melhor ainda de como os países podem aprender a conviver com a ideia de que talvez seus melhores dias já tenham passado.
“A Argentina é o principal expoente do clube de nações totalmente obcecadas por seu declínio”, escreveu Gabriel Saez, um estudioso argentino, num ensaio sobre a possibilidade de os EUA “perderem parte do seu estilo”.
“Portanto, é com prazer que damos as boas-vindas aos EUA em nosso clube de sofredores”, acrescentou Saez, enumerando as vantagens de um fatalismo angustiado, pelo menos para os livreiros, os psicanalistas e os analistas políticos. “Venham e ocupem seu lugar lá, ao lado da França.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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