A jornalista Chantal Rayes, há nove anos no Brasil como correspondente do jornal francês “Libération”, avalia que no exterior existe um entusiasmo nitidamente maior com o País do que aqui dentro, o que pode ser observado tanto na imprensa quanto na política.
“Na França, até a direita apóia o Lula”, afirma a correspondente. Ela considera que essa imagem se deve principalmente à figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que isso deve mudar com a troca de presidente.
Rayes participou da elaboração de um caderno especial do “Libération” sobre o Brasil e fez uma reportagem para o suíço “Le Temps” comparando o País com a China. No jornal de Genebra, o maior em língua francesa da suíça, a reportagem constatou que a economia brasileira se desenvolve com melhor qualidade do que a chinesa.
Assista à entrevista:
Veja também as demais entrevistas do Radar Econômico com correspondentes: Jonathan Wheatley, do “Financial Times”, Paulo Prada, do “Wall Street Journal”, Eleonora Gosman, do “Clarín”, Andrew Downie, da “Time Magazine”, e Makoto Danjo, do “Nikkei“.
Os investidores japoneses buscam cada vez mais informações sobre o mercado financeiro do Brasil e procuram especialmente dados sobre títulos da dívida do País, disse ao Radar Econômico o jornalista Makoto Danjo, chefe dos correspondentes na América Latina do jornal japonês “Nihon Keizai Shimbun”, conhecido como “Nikkei”.
Quem compra títulos do Japão consegue uma rentabilidade de apenas 0,1% ao ano. Já os papéis da dívida brasileira dão mais de 10% ao ano – uma rentabilidade 100 vezes maior. Os grandes investidores conseguem taxas de 1% no Japão, mas ainda assim a aplicação no Brasil é dez vezes maior.
Danjo vê o chamado “custo Brasil” como o principal problema do País. Para ele, não faz sentido que um carro popular fabricado aqui tenha o mesmo preço de um veículo híbrido, com tecnologia mais sofisticada, feito no Japão.
O “Nikkei” é um dos principais veículos de comunicação sobre economia e finanças do Japão. O jornal vende mais de 3 milhões de exemplares por dia. O conglomerado que controla o diário é dono também de outros jornais, além de revistas e canais de rádio e TV. O grupo criou o índice Nikkei 255, principal indicador da bolsa de valores de Tóquio.
A entrevista com Danjo faz parte de uma série com correspondentes da imprensa estrangeira no Brasil. O Radar Econômico já conversou com Jonathan Wheatley, do “Financial Times”, Paulo Prada, do “Wall Street Journal”, Eleonora Gosman, do “Clarín”, e Andrew Downie, da “Time Magazine”.
Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central entre 1997 e 1999 e um dos economistas que participaram da implantação do Plano Real, disse em entrevista ao blog Radar Econômico que não existe uma forma de o governo impedir a alta da moeda brasileira.
“Devemos pensar em como conviver com essa realidade [do real forte], e não achar que tem uma engrenagem em que se possa mexer para reverter esse problema, porque eu acho que não tem”, afirmou.
Ele está lançando o livro “Cartas a um jovem economista”, pela editora Campus, no qual reflete sobre a profissão e conta episódios de sua carreira, na academia, no mercado e no governo.
“Com esse livro, o que eu quis dizer foi o seguinte: ‘O mundo é dos nerds, é de quem estuda’”, afirmou Franco na entrevista. Assista à entrevista em vídeo. Se preferir, leia mais abaixo a transcrição editada dos principais trechos.
No livro, o senhor afirma que o emprego público pode ser o pior trabalho do mundo. Esse foi o momento mais difícil da sua carreira?
Foi. Agora, por parte ruim, eu não me refiro aos períodos de crise. O lado ruim tem a ver com a solidão da autoridade. Você combate minorias do mau que se dedicam a proteger os seus privilégios. Você tem inimigos em que você olha no olho, mas as pessoas que você beneficia não sabem que você existe. Ninguém o apoia.
O senhor diz também que, se um alto funcionário público se torna muito popular, alguma coisa está errada. E no cenário atual, em que o presidente é popular mesmo mantendo uma política monetária criada no tempo em que o senhor estava no governo?
Tem um certo exagero aí. Essa solidão faz com que você tenha a sensação de que o mundo é composto exclusivamente de inimigos seus. A agenda em Brasília é só de gente reclamando. Você sai de lá com a sensação de que o real foi um pesadelo. Mas quando você aterrissa no Rio ou em São Paulo, você encontra a maioria para a qual você estava trabalhando. Essa é a parte extraordinariamente boa de trabalhar no setor público e ter aquelas grandes maiorias reconhecendo o que você fez.
Quando o BC estava usando um câmbio semi-fixo, a taxa de desemprego chegou a 19%, segundo o Dieese, o ritmo de crescimento da economia caiu e o País teve deflação. Olhando para trás, o senhor acha que usou explosivos fortes demais parta combater a inflação?
Lógico que não. Isso é bobagem. Não creio que seja possível demonstrar que o Plano Real tenha tido impactos negativos pelo menos nos dois ou três primeiros anos. Quando houve a crise da Rússia [1998], era preciso remover a âncora cambial. No governo não faltavam críticos [à política cambial]. Porém, eu falava com eles: “O que você sugere? Você tem certeza de que a hiperinflação não ia voltar?” E o crítico saía da sala e deixava que eu tomasse a decisão.
A gente trouxe a inflação de 7.260% ao ano para 1,6% em 1998. Veio a crise de 1999, mudou-se a âncora cambial, mas a estabilização já estava conquistada. Então, zero arrependimento sobre o curso que tomamos.
O senhor conta que, naquele momento de crise cambial, o então presidente Fernando Henrique Cardoso disse ao ministro Pedro Malan [Fazenda] que estava pensando em ser mais desenvolvimentista no segundo mandato. Como o senhor se posicionou em relação a isso?
No começo de 1998, o presidente estava começando a campanha eleitoral sem nenhuma perspectiva de haver a crise da Rússia, e o pensamento dele era: ‘No meu primeiro mandato fui tão comprometido com reformas e batalhas políticas difíceis, no segundo mandato quero governar mais leve’. Não estava em dissintonia com o que a gente pensava. Eu próprio fui autor de um texto de 1995 sobre o modo como o programa de estabilização se tornava um programa de desenvolvimento.
O livro lembra que o então ministro José Serra, que era um aliado, dizia que o Banco Central fazia ‘populismo cambial’. O senhor guarda rancor de Serra?
Não, essa é a opinião que ele tem e vale para a política cambial de hoje. Eu não vejo ele usar essa linguagem, ‘populismo cambial’, para o presidente Lula. Mas poderia. A taxa de câmbio hoje não está diferente da do meu tempo. Por que no meu tempo era populismo e hoje não é?
Em geral, a moeda de países que se desenvolvem fica mais forte. Isso está acontecendo com o Brasil, e agora descobrimos petróleo no pré-sal. Devemos pensar em como conviver com essa realidade, e não achar que tem uma engrenagem em que se possa mexer para reverter esse problema, porque não tem.
O livro critica tanto os marxistas como os desenvolvimentistas, e expõe o ponto de vista do senhor. O título poderia ser ‘Cartas a um jovem economista ortodoxo’?
Não. ‘Ortodoxo’ ou ‘neoliberal’ é uma linguagem do mundo marxista dirigida ao resto do mundo. Eu não reconheço como apropriada. Existe uma corrente amplamente dominante de pensamento econômico e uma pequena corrente de pensamento de teor marxista que, no entanto, tem um espaço de mídia absolutamente desproporcional à sua importância no mundo acadêmico. Sem julgamento sobre o mérito epistemológico da reflexão marxista sobre a sociedade capitalista, mas, no mundo prático, onde vai militar o jovem economista, a perspectiva marxista do mundo simplesmente não tem importância.
Existe conflito de interesse entre as três áreas em que o senhor atuou, a academia, o mercado e o governo?
Sim, a vida é feita de conflitos de interesse. A empresa e o mercado são um permanente alinhamento de conflitos de interesse. O acadêmico talvez seja o economista que está mais isento. Mas está sempre vulnerável a patrulhamento, ao permanente questionamento de se aquele saber especializado o faz qualificado a dar uma opinião. Para que ir para a faculdade, para que ler, se você não vai adivinhar o futuro? Esse é o tipo de armadilha que desincentiva a pessoa a estudar e a ler, como se o conhecimento especializado não servisse para coisa nenhuma. Essa é a patrulha mais danosa, que discrimina o estudante esforçado, o CDF, o nerd. O mundo é dos nerds, é das pessoas que estudam, e o economista vai ser tão melhor quanto mais ele ler e estudar. Sem estudar, ninguém vai ser nada, só patrulheiro.
Para ganhar dinheiro, o economista precisa trabalhar no mercado ou pode ter dedicação exclusiva à vida acadêmica?
Ele pode ter uma vida muito digna sendo acadêmico, sim. Se o trabalho é bom, ele vai ser bem remunerado.
Inclusive em uma universidade pública?
Sim. Institutos do mundo todo contratam trabalhos de pesquisa e pagam o preço devido. Você não vai ser nenhum milionário, mas vai ter uma vida intelectual intensa, e para muita gente isso é muito bom.
Qual foi o momento mais gratificante da sua carreira?
Acho que foi o dia em que a medida provisória da URV (Unidade Real do Valor) foi para a rua. O dia 1º de março de 1994 foi o primeiro dia de quatro meses em que nós, da área econômica do governo, ficamos explicando o que é a URV. Foi ao mesmo tempo um desafio e também uma missão espetacular. Inigualável.
O próximo presidente do Brasil aparecerá, como Luiz Inácio Lula da Silva, na famosa lista das pessoas mais influentes do mundo, elaborada pela “Time Magazine”? Se depender do jornalista escocês Andrew Downie, que veio ao País em 1999 como correspondente da revista, isso não deve ocorrer.
“Lula é um personagem, ame-se ele ou odeie-se ele”, disse Downie, em entrevista ao Radar Econômico. Para o jornalista, que colabora ou colaborou com a revista britânica “Monocle”, o jornal também britânico “Daily Telegraph” e outros veículos de comunicação, o carisma de Lula é um dos fatores que atraem a imprensa internacional.
Downie, que aos 16 anos trabalhou em uma fábrica de produtos eletrônicos na Escócia, costuma ser comparado com Lula. “As pessoas dizem que, no país do presidente operário, eu sou o correspondente operário”, disse, informalmente, fora das câmeras.
Ele conta que participou de outros processos de escolha das pessoas que comporiam a lista das pessoas mais influentes, mas não na edição em que Lula foi escolhido.
A Argentina está “sumindo” do cenário internacional, ao mesmo tempo em que o Brasil se torna cada vez mais proeminente, segundo avaliação da jornalista Eleonora Gosman, do diário Clarín (veja a entrevista em vídeo abaixo).
Correspondente do jornal em São Paulo desde 1995, ela conta que a rivalidade entre os dois países ficava clara nos primeiros textos que escreveu sobre o País, carregados de sarcasmo. “Eu não faria esse tipo de reportagem agora”, afirmou.
O correspondente do Wall Street Journal no Brasil, o norte-americano Paulo Prada, disse em entrevista ao blog Radar Econômico que considera positivo o atual momento do País, mas observa que, em situações como esta, “sempre existe o risco de otimismo exagerado e [da idéia de] que os problemas vão se solucionar sozinhos”.
Ele é o autor da mais recente reportagem especial do Wall Street Journalsobre o Brasil que tinha como título “Para o País do futuro, o amanhã chegou”. Há quatro meses em São Paulo como correspondente do Journal, ele dá sinal de como será sua cobertura por aqui: “Não dá para falar das promessas sem falar das coisas que podem estragar esse bom momento”.
Em entrevista ao blog Radar Econômico, Prada fala sobre o Brasil, a economia, o jornalismo e as mudanças no Wall Street Journal já implantadas pelo novo dono do jornal, o magnata das comunicações Rupert Murdoch.
Assista ao vídeo da entrevista, a segunda de uma série de conversas com correspondentes da imprensa estrangeira no Brasil. A primeira foi com o jornalista Jonathan Wheatley, do Financial Times.
A despeito de algumas reportagensnegativas sobre a economia brasileira publicadas nas últimas semanas na imprensa estrangeira, o correspondente do jornal britânico Financial Times em São Paulo, Jonathan Wheatley, diz que o País continua ‘atraindo muita atenção’ de investidores e empresas internacionais.
O jornalista considera que ”o Brasil caminhou para outra realidade” nos últimos 15 anos, mas que ainda “tem várias coisas a serem feitas”. Wheatley prepara mais um caderno especial sobre o Brasil, o terceiro em seis meses, desta vez sobre a questão da infraestrutura. Ele conta, também, que o diário financeiro cogita trazer mais um correspondente fixo ao País para cobrir a crescente demanda dos leitores.
Wheatley abre uma série de entrevistas com correspondentes de jornais estrangeiros que o Radar Econômico fará periodicamente. Assista: