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O perigo da deflação que ronda a Europa

Yolanda Fordelone

quinta-feira 05/06/14

BCE diminuiu taxa de juros para tentar estimular economia e evitar que bloco europeu caia em ciclo deflacionário

Foto: Stock Xchng

Se altos níveis de inflação podem ser perversos para a economia de um país, o efeito contrário, a deflação, também tem consequências avassaladoras, em especial sobre o emprego. O perigo da deflação é justamente o que ronda a Europa nos dias atuais, a ponto de o Banco Central Europeu (BCE) ter reduzido a taxa de juros de empréstimo aos bancos e ter adotado uma estratégia inédita de taxa negativa para os depósitos.

Com base em dados do Reino Unido, o economista Willian Phillips desenvolveu no século XIX uma teoria que até hoje é aplicada para relacionar inflação e desemprego. Segundo a curva de Phillips, há um tradde off, uma escolha, entre essas duas variáveis: no longo prazo, quanto maior o desemprego, menor a inflação. O contrário também é válido: quanto maior a inflação, menor o desemprego.

No curto prazo, dizem economistas, o efeito da deflação pode até ser positivo, pois as pessoas se sentem mais ricas e consomem, já que os preços caíram. No longo prazo, porém, a consequência atinge em cheio o desemprego. Isso porquê em um cenário de preços em queda as famílias tendem a poupar mais para consumir no futuro, sempre na expectativa de que os preços irão cair ainda mais.

Além do consumo, a deflação atinge investimento. Com os preços dos produtos em baixa, as empresas não aumentam a produção. Pelo contrário, podem diminui-lá. A parada da atividade econômica gera, assim, desemprego e mais quedas nos preços em um ciclo que, se prolongado, tende a ser difícil de ser combatido.

Quem tem dívida também sente os efeitos negativos da deflação, pois o bem que está sendo financiado só tende a valer menos. Esse é o caso dos imóveis, por exemplo. Ganha, teoricamente, quem conseguiu fazer uma poupança e agora neste cenário tem maior poder de compra no mercado.

Juro negativo. No caso da Europa, a inflação está em tendência de queda. Em maio, a taxa anual ficou em 0,5%, quando a meta do BCE em 2014 é de 2%. Ao reduzir a taxa de juros dos empréstimos aos bancos para 0,15%, o BCE tenta estimular investimento das empresas e consumo. Antes, para tomar empréstimo do BC europeu os bancos pagavam 0,25% de juro. A baixa da taxa deve estimular mais empréstimos aos bancos, que por sua vez se traduz em mais crédito às empresas e às famílias.

A autoridade monetária, além disso, tentou agir na outra ponta, no dinheiro depositado pelos bancos no BCE. Antes, a taxa estava em 0%, ou seja, não se pagava nada quando uma instituição financeira deixava recursos no BCE. A nova taxa de -0,10% desestimulou ainda mais que os bancos deixem o dinheiro parado no Banco Central, já que assim terão rendimentos negativos. Com isso, o BCE prevê que os bancos movimentem seu dinheiro para outros mercados, como o crédito ao consumidor final.

Taxas de juros e de depósito negativas já foram praticadas na história recente da economia. Em 2009, a Dinamarca adotou taxa de depósito negativa e em 2012, o próprio juro básico caiu para -0,2%. Tudo a fim de desestimular a poupança e incentivar consumo e investimento. Na União Européia, entre os países que utilizam o euro como moeda, é a primeira vez que a estratégia é adotada.

O problema é que como o bloco europeu adota moeda única a política monetária que é boa para um país pode não ser para outro. A Alemanha, por exemplo, teve inflação de 1,132% em abril de 2014 em relação a abril de 2013, enquanto a Grécia, que já passa por taxas negativas de inflação há meses, teve deflação de 1,582% no mesmo período. Isto significa que a política de incentivo ao consumo pode ajudar economias como a Grécia, mas, se errada a dosagem, pode descontrolar o preço em outras nações.

(Texto atualizado às 15h40)