Mailson: Desatinos fiscais do Primeiro Mundo
23 de julho de 2012 | 13h04
SÃlvio Guedes Crespo
Artigo no Project Syndicate aponta que se inverteu a forma como os paÃses ricos e os emergentes gerem suas finanças públicas, observa Mailson da Nóbrega*
As economias mais ricas estão divididas quanto à gestão fiscal. Um lado defende cortes de gastos; o outro, advoga o uso da polÃtica fiscal para promover a recuperação da economia. Os que se preocupam com a desaceleração econômica provocada pelos cortes, chamam a primeira opção de “austeridade”. Os que olham a sustentação econômica de longo prazo preferem falar em “disciplina”. É assim que se inicia a análise do debate atual, feita pelo professor da Universidade Harvard, Jeffrey Frankel em artigo para o Project Syndicate. O texto conduzirá o leitor à percepção de que nos últimos tempos inverteu-se a forma como os paÃses ricos e os emergentes gerem suas finanças públicas.
Na teoria keynesiana, quando uma economia está em expansão, o governo deve gerar superávits fiscais; se em recessão, deve promover déficits. Acontece, diz Frankel, que “a macroeconomia keynesiana perdeu seu brilho porque os polÃticos fracassaram em graduar adequadamente a polÃtica fiscal, o chamado ‘ajuste fino’. Algumas vezes, o estÃmulo fiscal se expandia quando a recessão já havia acabado”. Não há razão, diz ele, para conduzir uma polÃtica fiscal procÃclica e desestabilizadora, que aumenta despesas e reduz impostos no auge da expansão econômica e corta gastos e aumenta a tributação quando existe recessão.
“PolÃticas fiscais procÃclicas aumentam os riscos de superaquecimento da economia, inflação e bolhas de ativos, mas exacerbam perdas de produto e emprego nas recessões, acentuando as mudanças do ciclo econômico”. Acontece que, afirma o articulista, muitos polÃticos nos Estados Unidos e no Reino Unido parecem desprezar essa realidade. Eles se opõem à disciplina fiscal quando a economia está forte, mas em seguida viram inimigos do déficit quando a economia se enfraquece.
Frankel comenta as posições adotadas nas últimas três décadas por polÃticos americanos. Em sua campanha eleitoral de 1980 e novamente em 1981, em um perÃodo de recessão, o presidente Ronald Reagan defendeu medidas urgentes para reduzir a dÃvida pública. Em 1988, todavia, quando se atingiu o pico do ciclo de negócios, o candidato H. W Bush não se preocupou com o déficit, mesmo quando a dÃvida pública atingia nÃvel três vezes maior do que na época de Reagan. “Leiam meus lábios; sem mais impostos”, foi a famosa frase de Bush.
Como era previsÃvel, Bush e o Congresso reuniram a vontade polÃtica para aumentar impostos e cortar gastos, precisamente no pior momento (1991), quando a economia entrava em recessão. Três anos depois, quando a economia americana iniciava a mais robusta recuperação da história, todos os deputados republicanos votaram contra a proposta do presidente Bill Clinton, de manter os cortes orçamentários da era Bush. Mesmo depois de sete anos de forte crescimento, no pico de ciclo de negócios de 2000 e no recorde de baixo desemprego, o presidente George W. Bush baseou sua plataforma de campanha em fortes cortes de impostos.
Depois que a recessão de 2001 caminhava para o fim e os superávits fiscais tinham virado déficits, o governo Bush foi à frente com uma segunda rodada de cortes de impostos, enquanto mantinha os gastos crescendo a um ritmo três vezes maior do que no governo Clinton. Tais polÃticas foram mantidas por mais cinco anos. Outros USD 4 trilhões foram acrescidos à dÃvida pública. Como seria de esperar, quando a pior recessão desde a Grande Depressão aconteceu entre 2007 e 2009, os polÃticos relutaram em dar uma resposta fiscal adequada, em face dos altos nÃveis de déficit e dÃvida públicos.
Os republicanos descobriram subitamente os males do déficit. Opuseram-se aos estÃmulos fiscais do presidente Obama em fevereiro de 2009 e conseguiram bloquear novos esforços nesse sentido quando os respectivos efeitos diminuÃram dois anos depois. Na visão do analista, “os cortes de gastos dos últimos dois anos constituem a maior explicação para o esgotamento da recuperação que começou em junho de 2009″.
Esse padrão de comportamento polÃtico é compreensÃvel, diz o autor. “Quanto a economia está em expansão, não existe apoio polÃtico para dolorosos cortes de gastos ou aumentos de impostos. Há um buraco no teto, mas o sol está brilhando. Quando vem a tempestade, os pecadores se convertem imediatamente ao clero das reformas, precisamente quando é muito difÃcil promovê-las”.
Historicamente, prossegue Frankel, “eram os paÃses em desenvolvimento, com seus sistemas polÃticos disfuncionais, os que conduziam polÃticas fiscais procÃclicas. Mas a situação mudou. Cerca de um terço dos mercados emergentes, incluindo China, Chile, Malásia, Coreia do Sul, Botswana e Indonésia, agiram para reverter essa lógica histórica. “Eles aproveitaram o boom de 2003-2007 para fortalecer sua situação fiscal, poupando para os maus tempos. Estavam, assim, em posição de usar estÃmulos fiscais quando a recessão global os atingiu em 2008-2009.
Na verdade, assinala o articulista, a maioria dos governos que haviam conduzido polÃticas fiscais contracÃclicas a partir de 2000 pertence ao campo dos mercados emergentes. “Eles lembraram de conduzir polÃticas fiscais contracÃclicas ao longo da década precisamente quando muitos polÃticos dos ‘paÃses avançados’ esqueceram disso.
–
* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.
Tópicos relacionados







