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Mailson: Por que os americanos trabalham mais que os europeus

21 de maio de 2012 | 11h17

Sílvio Guedes Crespo

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* chama atenção para pesquisa segundo a qual o baixo nível de divórcio e a alta carga tributária reduzem os incentivos ao trabalho

A crise europeia tem levado a indagações sobre a sustentabilidade fiscal do estado de bem-estar social do velho continente. Fala-se que os europeus trabalham cada vez menos por causa dos generosos benefícios sociais e de uma legislação que reduziu o número de horas trabalhadas ao longo dos últimos anos. A Vox publicou interessante artigo de Indraneel Chakraborty, que apresenta razões mais objetivas para explicar por que os americanos trabalham mais do que os europeus.

Recente pesquisa, afirma, mostrou que os americanos trabalham 30% mais do que os europeus. Era o contrário no início dos anos 1970. Os estudos de Chakraborty mostram que o divórcio e a carga tributária explicam 58% da diferença de horas trabalhadas entre os Estados Unidos e dezessete países europeus. “Verificamos que as mulheres fornecem a maior contribuição para a diferença. As mulheres europeias trabalham menos do que as americanas, independentemente de serem solteiras ou casadas, com ou sem filhos”.

Diferenças de tributação entre países são a mais popular justificativa para a discrepância em horas trabalhadas entre os EUA e a Europa. “A intuição básica é a de que maior tributação sobre a renda reduz os incentivos para trabalhar.  Acontece que para os dezoito países da amostra, apesar de existir uma  correlação negativa entre a tributação e as horas trabalhadas pelos homens, a mesma correlação para os mulheres é próxima de zero.” Ao mesmo tempo, Chakraborty constatou que há uma forte correlação positiva entre o divórcio e as horas trabalhadas pelas mulheres, enquanto essa correlação é inexistente para os homens.

O divórcio influencia as decisões femininas de trabalhar “porque o casamento provê uma segurança social implícita, já que as esposas podem participar da renda da família. “Se o nível de divórcio em uma sociedade é alto , “as mulheres têm maior incentivo para adquirir experiência profissional, para o caso de ficarem sozinhas no futuro. O incentivo é alto porque, em nossos levantamentos, as mulheres tendem a ser, mais do que os homens, a segunda fonte de renda da família. As mulheres europeias não imaginam se divorciar com frequência e assim encontram menores razões para se proteger trabalhando mais do que as mulheres americanas”.

A tributação impacta mais os homens. “A intuição diz que a causa é a progressividade da tributação. Quanto mais se ganha maior é a alíquota do imposto de renda. Países com maior tributação média tendem a ser os que impõem maior progressividade. De fato, a tributação sobre os trabalhadores de menor renda (mulheres) não costuma ser mais alta na Europa do que nos EUA, enquanto o oposto ocorre na tributação dos homens”.

O argumento do papel do divórcio é apoiado por estudos segundo os quais os Estados americanos que adotaram o divórcio imotivado nos anos 1970 experimentaram uma explosão da oferta de trabalho feminino. “Este é precisamente a período a partir do qual os americanos começaram gradativamente a trabalhar mais do que os europeus”. Muitos países europeus adoram o divórcio imotivado, mas o nível de separação ainda é muito baixo. “O argumento sobre a influência da tributação encontra apoio em estudos que mostram níveis de tributação semelhante nos EUA e na Europa nos anos 1970, quando começaram a divergir.”

A conclusão, diz Chakraborty, é a de que, “em resposta a mudanças sociais, as mulheres americanas buscaram proteger-se trabalhando mais, enquanto os homens europeus têm menos atrativo para trabalhar por causa da elevada tributação”.

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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