China já tem 850 mil profissionais no exterior e enfrenta problemas
6 de fevereiro de 2012 | 11h31
Sílvio Guedes Crespo
Esse é o número de pessoas trabalhando fora do país em multinacionais chinesas ou no suprimento de matérias-primas, como informou artigo recente do ‘Financial Times‘. Leia abaixo comentário de Mailson da Nóbrega* (foto) a respeito
David Pilling escreveu interessante artigo sobre um dos dilemas que afligem a China em meio à sua ascensão ao posto de potência mundial. Trata-se da necessidade de manter expressivo contingente de chineses no exterior, trabalhando em suas multinacionais ou em atividades associadas ao suprimento de matérias primas de que o país necessita. E de como os chineses se relacionam com os países onde mantém interesses. Pilling começa lembrando um conhecido episódio, que foi também relatado no recente livro de Henry Kissinger (sobre a China). Em 1793, o rei inglês George III enviou um emissário à China para tentar abrir o país ao comércio internacional e, claro, aos produtos ingleses. O imperador Quianlong recusou-se a conversar, pois o seu país, que se considerava o centro do mundo, não precisava de importações. A China moderna, diz Pilling, não pode dizer o mesmo. “Além de tecnologia, agora Beijing demanda commodities estrangeiras: petróleo, cobre, minério de ferro e montes de outras matérias primas para sustentar a transformação que gerou o “made in China”.
É por isso que 25.000 chineses estão no Sudão e no Sudão do Sul, este último um país recentemente criado, que é o sétimo mais importante fornecedor de petróleo à China. “Este distante envolvimento tem um preço, que de vez em quando é pago com sangue”. Há duas semanas, 29 trabalhadores da construção de estradas foram raptados por rebeldes na região fronteiriça do Sudão, um dos quais pode ter sido morto. Em outro incidente, 25 trabalhadores chineses da construção civil foram liberados na semana passada, após ficarem reféns de assaltantes na região do Sinai do Egito. Em outubro, 13 marinheiros chineses foram mortos no rio Mekong, na Tailândia.
Proteger os próprios cidadãos no exterior é difícil para qualquer país, diz o autor. “Mas isso pode de ser mais difícil para a China, uma potência relutante que pretende manter a ilusão de ter baixo perfil internacional. “Esse desejo se choca com a realidade, pois as necessidades comerciais da China a atraem para um mundo problemático. A verdade chegou para muitos no país quando Beijing lutou para evacuar nada menos do que 35.000 trabalhadores chineses da Líbia, outro infeliz exportador de petróleo. No Sudão, a China se envolveu em desagradável disputa entre as capitais dos dois países em torno da divisão da receita do petróleo. A maior parte está no sul, mas precisa ser bombeado para o norte. Além disso, as estradas que os trabalhadores chineses estão ajudando a construir perto da fronteira estariam sendo usadas pelos tropas sudanesas contra os rebeldes.
A China tem cerca de 850 mil trabalhadores no exterior, com centenas de milhares deles em lugares potencialmente instáveis da África, Ásia e América Latina e no Oriente Médio. O país tem encorajado a criação de empresas “privadas” de segurança, muitas vezes por servidores do Exército de Liberação do Povo, que contratam membros “aposentados” das forças de segurança da China.
Alguns oficiais da Marinha dizem que a China precisará de bases no exterior para proteger seus interesses. Isso iria contra a ideologia oficial prevalecente desde 1949, segundo a qual somente as potências coloniais necessitam de presença militar no exterior. Jia Qinglin, membro do Politburo, tentou reforçar a mensagem de não-intervenção perante líderes africanos. “Nós sustentamos que todos os países, grandes ou pequenos, são iguais e por isso nos opomos a que os grandes, fortes e ricos intimidem os pequenos, fracos e pobres”, disse ele. Para Pilling, a única categoria que ele não mencionou é a do país que é grande, forte mas ainda pobre. Esse país é a China. “Ela é indiscutivelmente a primeira desse tipo na história”.
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Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.
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