‘Ser convidado a voltar significa que você é um talento’
2 de julho de 2012 | 15h41
Redação
Pesquisa aponta que profissionais retornam a companhias em que já trabalharam por receberem boas propostas ou por afinidade
Márcia Rodrigues
Depois de ficar quatro anos fora e passar por três empresas diferentes, o executivo Walban Damasceno de Souza, de 37 anos, aceitou uma proposta para voltar à organização onde começou sua carreira: a Becton Dickson & Company, mais conhecida no mercado como BD.
O curioso é que o convite para o retorno partiu do atual diretor geral, Rodrigo Hanna, justamente o profissional contratado para substituir Souza na assistência de marketing, quando ele assumiu a gerência de vendas da Bencton antes de sair. Souza voltou como diretor de assuntos corporativos da companhia.
“Quando você é convidado a voltar em uma posição melhor do que a que ocupava anteriormente, e por um colega que interagiu com você e cresceu na empresa, significa que fez um bom trabalho e que o mercado o identificou como um talento.”
O vaivém de profissionais é mais comum do que se imagina. Pesquisa do portal Trabalhando.com Brasil aponta que 56% dos funcionários retornam a empresas em que já atuaram (veja mais informações abaixo). Segundo especialistas, a movimentação vem ocorrendo por causa da falta de talentos no mercado e a onda de fusões e aquisições.
Por conta desse movimento, o diretor de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Luiz Edmundo Rosa, afirma que o bom relacionamento com colegas e desempenhar as atividades com ética são as principais armas para deixar as portas abertas.
“Voltar é sempre positivo quando a pessoa sai, passa por experiências diferentes e descobre coisas novas que vão acrescentar algo. Se o funcionário fez um bom trabalho, teve um bom comportamento com os colegas e a empresa tem o perfil de aceitar a recontratação, certamente o receberá”, comenta Rosa.
Foi o que fez a gerente de auditoria contábil da BDO Brazil, Tabata Major, de 27 anos. Ela entrou na empresa em 2005, como trainee, e saiu em 2009, quando era supervisora, com o objetivo de adquirir experiência em contabilidade. “Queria sentir as dificuldades do cliente”, diz.
Tabata procurou a consultoria em novembro do ano passado. Pediu para voltar e recebeu a proposta de assumir a gerência. “Sempre gostei do ambiente e nunca tive problemas por aqui. Temos metas que nos garantem várias promoções e bonificações muito atrativas.”
O bom relacionamento com a empresa fez o editor de vídeo do Canal dos Concursos, João Azevedo, de 26 anos, voltar após três anos. Ele saiu, depois de apenas quatro meses de empresa ao receber uma proposta melhor. “Fui bem sincero com o meu gestor e ele me aconselhou a ir.”
Mesmo em outra TV, Azevedo começou a trabalhar nos fins de semana no Canal para complementar sua renda. “Avisei as duas empresas e ambas concordaram. Quando não aguentei mais, optei pelo Canal, porque ele me dá mais tranquilidade para fazer outras coisas que gosto.”
Há um ano e meio, Zico Goes, de 48 anos, voltou a comandar a programação da MTV, cargo que já havia ocupado por 16 anos antes de ser demitido, em 2008. “O diretor geral disse que eu era um profissional muito caro e que precisava me demitir, pois a emissora estava reduzindo custos.”
Após o comunicado, Goes ainda ficou um mês na empresa para finalizar projetos em andamento. “Não podia parar e deixar tudo no meio”, comenta.
Ao saber da sua demissão, a direção do canal GNT o convidou para assumir a mesma função na emissora, onde ficou até o início do ano passado. “Com a troca da direção da MTV, o pessoal que trabalhou comigo, aconselhou a nova diretora a me procurar para voltar. Ela me sondou, fez uma proposta e eu gostei.”
Para Goes, o que contou bastante ponto na decisão foi a chance de voltar para São Paulo, já que a outra emissora fica no Rio de Janeiro, e a possibilidade de comandar um projeto de renovação na MTV. “A saída faz você olhar de forma mais crítica para você e para a empresa. Por ter me olhado de fora, me forcei a mudar e ser um novo profissional. Passei a evitar vícios e não me permito acomodar.”
Falta de talentos, fusões e aquisições fortalecem regresso
Para garantir ‘trânsito livre’, funcionário deve, antes de sair, dar um tempo para empresa se organizar
O retorno de profissionais a companhias onde já trabalharam é visto de forma positiva tanto por especialistas quanto por funcionários. Na pesquisa feita pelo portal Trabalhando.com. Brasil, dos 56% que responderam ter voltado “para a antiga casa”, 14% afirmam que se arrependeram de ter saído e 42% dizem que voltaram por ter recebido uma proposta interessante da companhia.
Para o presidente do portal, Renato Grinberg, a falta de talentos disponíveis no mercado pode ser um dos motivos para a intensa recontratação de profissionais pelas companhias. “Áreas como tecnologia da informação e engenharia registram grande carência de mão de obra em todo o País. Por isso, a recontratação desses profissionais ocorre com mais frequência”, diz.
Outro aspecto vem aumentando as recontratações, na opinião da consultora da LHH/DBM, Irene Azevedo. “Quando ocorre o processo de fusão ou aquisição, muitos profissionais são desligados por causa da duplicidade de função, por exemplo. Mas depois que as coisas se estabilizam, a direção acaba reintegrando os bons profissionais, os considerados talentos”, observa Irene.
A consultora estima que o movimento de recontratações nas companhias aumentou em torno de 30% nos últimos anos.
Para manter o “trânsito livre” pelas empresas que passa ao longo da vida, Grinberg orienta o profissional a nunca falar mal da empresa e nem mesmo dos colegas de trabalho.
“Sempre é bom agradecer pela oportunidade de trabalho, até em caso de demissão. Tente apenas entender o motivo do desligamento para não cometer o mesmo erro em outra situação, se for o caso.”
Irene acredita que, para deixar as portas abertas, o ideal é passar suas atividades de forma adequada para quem vai assumir a sua função. “Também é importante se colocar à disposição para esclarecimento de dúvidas no futuro”, acrescenta.
O diretor de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Luiz Edmundo Rosa, orienta, ainda, o funcionário a dar um tempo para a empresa se organizar e treinar o substituto. “É uma atitude que demonstra muito profissionalismo por parte do funcionário que está deixando a companhia. Até mesmo a empresa que o está contratando vai gostar desse tipo de postura”, diz.
Se o funcionário for responsável pela área de atendimento a clientes da empresa, ele deve comunicá-los sobre sua saída e informá-los o nome da pessoa que irá substituí-lo.
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