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“É preciso empreender dentro da empresa”

Redação

sábado 07/12/13

Cláudio Marques Apesar de formado em física pela Universidade de São Paulo (USP), a atração pela informática levou Ricardo Ikeda (foto), hoje com 42 anos, a trilhar um trajeto profissional nesse ramo. Até 1994, trabalhava no Colégio Santa Cruz, ao mesmo tempo em que era consultor da Mandic BBS, uma pioneira da internet brasileira. Em [...]

Cláudio Marques

Apesar de formado em física pela Universidade de São Paulo (USP), a atração pela informática levou Ricardo Ikeda (foto), hoje com 42 anos, a trilhar um trajeto profissional nesse ramo. Até 1994, trabalhava no Colégio Santa Cruz, ao mesmo tempo em que era consultor da Mandic BBS, uma pioneira da internet brasileira. Em 1995, decidiu seguir o próprio caminho e fundou a Ikeda, de serviços de plataforma de e-commerce. A atuação da empresa chamou a atenção da japonesa Rakuten, que atua no ramo de marketplace virtual voltado ao segmento de pequenas e médias empresas e também oferece serviços de plataforma de e-commerce para grandes empresas varejistas. Em 2011, o grupo oriental adquiriu a Ikeda e convidou seu fundador para ser o CEO da organização no Brasil. Desde então, Ikeda está no posto. A seguir, trechos da entrevista.

Você trabalhou para algumas empresas, como a Mandic. Depois, abriu seu próprio negócio, que foi vendido para a japonesa Rakuten e você passou a ser CEO dessa empresa. O que foi mais enriquecedor nesse trajeto?
Para mim, sem sombra de dúvida, foi ter uma visão global. Eu sei que o nosso negócio anterior, que era de comércio eletrônico, já tinha uma visão global. Mas a Rakuten, mais especificamente, possui uma visão global muito forte. A organização entendeu que o mercado dela é mais forte fora do Japão. Hoje, diariamente, membros da nossa equipe, aqui no Brasil, conversam não só com a matriz, mas com várias operações. Para você ter uma ideia, tivemos aqui um problema de operação numa aquisição, e ele foi resolvido trocando experiência com a Alemanha e Taiwan. Fizemos, então, um mix do que seria a melhor prática na Alemanha e em Taiwan, e isso gerou o nosso modelo. Essa interação global não seria possível com a minha antiga empresa. A nossa equipe no Brasil tem atualmente mais de 180 pessoas e mais de 10% já foram ao Japão, ou a outros países onde a Rakuten tem operação. Aliás, no Japão, a Rakuten contrata mais pessoas de fora do que japoneses.

Ou seja, globalizou-se.
É, globalizou totalmente. E hoje eu não acho possível existir um player de comércio eletrônico que pense só localmente. Se não tiver uma estrutura global, ele vai deixar de ser um player.

O que essa globalização mais exige do CEO?
Visão. Tem de ficar o tempo todo atento às coisas que acontecem não só no seu mundinho no Brasil, mas no mundo. Se não pensar em escala global, não estiver acompanhando todas as tendências, todos os acontecimentos, todos os movimentos fora do País, certamente vai ser surpreendido, porque não estava olhando o que acontecia fora do Brasil.
O que essa situação exige de você para a formação da equipe? É preciso ter uma segunda língua, ou uma terceira. Mas, mais do que isso, é preciso ter uma sintonia globalizada. Procuramos pessoas que estejam conectadas com todo esse ambiente de troca de informação; hoje, se você tem uma pessoa que não acesse diariamente cinco ou seis provedores de informações, que não sejam locais, é uma coisa realmente inadmissível.

E o conhecimento técnico?
Mesmo um desenvolvedor, quando sai da faculdade, ele precisa ter visão de negócio e algo mais. Antigamente, exigia-se que ele fosse um bom técnico. Depois, passou a ser preciso, além de ser um bom técnico, ter visão de negócio. Hoje, ele tem de ser um bom técnico, ter visão de negócios, e que essa visão de negócios seja globalizada, com ele conectado às tendências mundiais.

Como você se sente sendo CEO de uma empresa que, de certa maneira, já foi sua?
É uma situação curiosa mesmo. Mas, para mim, as duas coisas são muito próximas. Eu tive sorte de a Rakuten ter uma cultura muito próxima a que tínhamos, apesar de ser uma empresa global, de escala gigantesca no tamanho. Nós tínhamos por volta de 70 funcionários, e a Rakuten, que está em operação em mais de 25 países, tem mais de 2 mil colaboradores. Acho que o papel de empreendedor tem muita semelhança com o de executivo, principalmente em empresas como a nossa. Hoje, as pessoas precisam empreender dentro das empresas.

Existe uma ligação mais sentimental com a Rakuten?
Sinceramente, acredito que consegui fazer essa transição pessoal de uma maneira muito boa. Entre o que a Rakuten está me propiciando atualmente e o que eu tinha como empreendedor, penso que as duas coisas foram andando bem dosadas. E tudo foi feito no momento certo.

Que atributo o CEO precisa ter hoje em dia?
Ser empreendedor é o principal. Ele também precisa ter visão estratégica. No meu caso, de vários negócios que estão ocorrendo simultaneamente dentro da empresa. Tenho não só um modelo de negócio, mas vários modelos, além vários pequenos negócios ocorrendo na empresa, que têm de estar ligados a uma cultura, a uma filosofia, uma visão estratégica global. Então, eu tenho de casar essa visão global com todos os pequenos negócios que estão acontecendo. É manter o time sintonizado com essa estratégia, e também manter o time sempre sintonizado com a estratégia por meio dessa visão global e fazer todo mundo trabalhar como empreendedor

O que você pensa para sua carreira daqui para frente?
Os desafios dentro da própria Rakuten são muito grandes, no momento. Não me vejo atuando fora da Rakuten, que até criou uma filosofia de realmente ajudar pequenos e médios varejistas no comércio eletrônico. E isso é uma coisa bastante interessante, que me move. O mercado de varejo eletrônico é muito concentrado, onde empresas muito grandes têm muita vantagem competitiva. E ajudar pequenos e médios a tentar entrar nesse mercado não é só um desafio, mas é uma missão que me agrada muito.

O que você recomenda para a pessoa que pretende seguir carreira de executivo?
A minha dica é bem básica: fazer uma coisa pela qual ela seja apaixonada, ou com a qual ela se identifique, porque todos os negócios têm muitas dificuldades. Qualquer empreendimento ou qualquer carreira, que você seguir, vai ser difícil. E se não tiver paixão muito grande pelo que você está fazendo, não vai dar certo. Então, não escolha sua carreira por nada que não seja a sua paixão.

Você se graduou em física e foi trabalhar com comércio eletrônico. O que aconteceu?
Acho que, do ponto de vista pessoal, eu sempre vou ser físico, com muitos questionamentos e muita coisa filosófica que me interessa. Gosto muito de pensar. Mas, do ponto de vista de carreira, eu fiz, naquele momento, uma coisa que eu gostava: física. E à medida que a oportunidade foi se apresentando, fui caminhando, quando eu ia achando mais interessante. Mas, veja, o primeiro acesso à internet comercial eu montei junto com o(Aleksandar)
Mandic. E aquilo era muito bacana, era muito gostoso trabalhar. Então, isso foi moldando a minha carreira, que foi movida a paixão.

Quer dizer que a carreira precisa ter um pouco de planejamento e, ao mesmo tempo, deixar uma porta meio aberta?
Estou para ver o cara que planejou a carreira e seguiu à risca tudo o que planejou. Eu não gosto dessa coisa de seguir o mercado, porque não acredito que você tenha de ficar seguindo o mercado. Na realidade, tem de seguir aquilo em que você acredita e aquilo que gosta de fazer. E deve insistir nisso. Realmente não acredito que você tenha de seguir as tendências de mercado. Tem de pensar em coisas que sejam interessantes. Se você seguir seu gosto, vai se dar bem, ou pelo menos vai fazer uma coisa que gosta.