Lipe Fleury – estadão.com.br
Lá vem o Patton pataqui-patacolá: a segunda edição do SWU terminou com uma bombástica apresentação dos californianos do Faith No More. Não é metal. Não é rap. Não é punk, nem funk. E é tudo isso. Versátil, experimental, ou esquizofrênico, o grupo fez um show explosivo, e, com autoridade, colocou um ponto final no festival.
O nada menos que genial vocalista Mike Patton é um comandante frenético em cima do palco. Conjura palavrões em português, berra de maneira demente em um megafone, rouba a câmera da produção do festival para filmar takes da galera e se joga no plateia, para a inquietação dos seguranças de colete verde-limão.
Decorado com panos brancos e vasos floridos, citando a Umbanda – cujo dia nacional é celebrado em 15 de novembro -, o cenário transmite uma pureza que contradiz a aparente subversão alucinante da banda. Ninguém mais se preocupa com a chuva ou o barro. Patton cativou o maior público do SWU, um autêntico mar de gente a perder de vista.
Entre as canções tocadas, Caffeine, Surprise! You’re Dead, King for a Day e a clássica Epic chamam atenção. O som do Faith No More é autoral, criativo e cada um dos espectadores aguarda ansiosamente a próxima maluquice do vocalista.
Pads românticos tocados pelo tecladista Roddy Bottum se confundem com solos de guitarra que poderiam ter saído de um disco do Metallica. Patton urra, late e geme no microfone enquanto Billy Gould, baixista que tocou durante anos com a doentia banda de metal Brujeria, segura a parada na companhia do carismático baterista Mike Bordin.
Com a participação especial do coro infantil de Heliópolis, o show termina emocionante, sem fazer reféns.
Jair Stangler – estadão.com.br
O Alice in Chains foi a penúltima banda a se apresentar no palco principal do SWU. Com a chuva que continua a cair fortemente em Paulínia, a banda, que é da cidade americana de Seattle, berço do Grunge, deve ter se sentido em casa.
A banda mostrou competência no palco, em um show sem erros, e repleto de clássicos da banda. o grupo abriu o show com Them Bones, Dam That River e Rain When I Die. A surpresa ficou por conta de Check My Brain, que não estava no set list divulgado antes do show. O público, que cantou junto o tempo inteiro foi ao delírio quando a banda emendou Angry Chair com Man in the Box. Na sequencia, mais hits, finalizando com Would?
O vocalista DuVal, que substituiu Layne Staley, morto em decorrência de seu vício em heroína em 2002, se destacou. É impressionante a semelhança que seu estilo de cantar guarda com o de seu antecessor. O Alice in Chains, no entanto, não inventa. Poucas vezes , o guitarrista Jerry Cantrell pouco improvisou. Ainda assim, sua estave impecável. Basicamente, a banda repetiu, com muita competência e para deleite dos fãs, o que já está registrado em suas gravações.
Pedro Antunes – Jornal da Tarde
Parecia uma grande micareta, com caipirinhas e sujeitos rebolando no palco. Mas ao invés de É o Tchan, ou do Babado Novo, no palco estava o grupo canadense Simple Plan. Uma grande farofada de música emo pop, com os músicos batendo palminhas na ponta do palco. O dançarino Jacaré certamente faria melhor.
Com um atraso considerável de 45 minutos, a banda subiu no palco ao som de Shut Up, seguida pela saltitante (dã) Jump. O público era majoritariamente feminino – ao menos eram elas que mais gritavam – e jovem. Afinal, Stone Temple Pilots e Alice In Chains se apresentavam nos palcos principais.
O fato é que o Simple Plan sabe como agradar. Usam e abusam de uma fórmula que já foi mais do que gasta: refrões fortes, com frases prolongadas nas últimas notas, uso do backing vocal para reforçar a melodia na cabeça, linhas de guitarra crescentes e decrescentes. Pronto, você tem uma música pop. E, com pitadas de composições com coração partido, você fez uma música do Simple Plan!
Evidentemente, a banda tem um público fiel que, em dia de grunge e rock dos anos 90, foi até Paulínia para presenciar menos de uma hora de show de seu grupo preferido. E o Simple Plan não decepcionou essas pessoas.
O show era previsível, sim, igualzinho ao que eles já fizeram das outras vezes. Mas, para aquelas meninas (lembrando da maioria feminina), nada disso parece importar.
Com o atraso, a banda precisou apressar um pouco as coisas e começou a deixar músicas previamente selecionadas de fora do set.
O interessante é que a banda, que uma vez já foi classificada de emocore, deixou de executar algumas de suas odes à síndrome de coração partido, como Untitled (How Could This Happen to Me?) e Don’t Wanna Think About You.
A farofa veio com um medley esquisitíssimo de Fuck You (do Cee Lo Green), Dynamite (Taio Cruz) e Raise Your Glass (P!nk), enquanto o vocalista Pierre Bouvier pedia mais caipirinhas para o barman que estava instalado dentro do palco.
Em outro momento, uma menina ganhou o baixo de David Desrosiers por usar uma camista “cool”, segundo ele.
Depois da sequência arrebatadora de Welcome To My Life e Anything, a banda deixou o palco. Mas voltou para o bis, com uma versão semi-acústica de Perfect, maior hit do grupo do disco No Pads, No Helmets…Just Balls, de 2001. E o palco que já teve a explosão louca de Courtney Love se despediu do palco com o hardcore piegas do Simple Plan.

O Stone Temple Pilots volta ao Brasil dentro da mesma turnê. De terno e visual retrô, o vocalista Scott Weiland contrastava com os companheiros de banda.
O show começou com Crackerman e Wicked Garden, duas músicas de Core, disco de estreia da banda, que também teve Plush e Sex Type Thing no repertório. Outros grandes sucessos da banda dos anos 90 foram lembradas, como Silvergun Superman, Big Empty, Vasoline, Trippin’ on a Hole in a Paper Heart e Big Bang Baby. Do álbum mais recente, apenas Between the Lines foi tocada.
Com pouco mais de uma hora de duração, a apresentação exclui duas músicas do setlist divulgado antes do show: Hickory Dichotomy e Dead & Bloated.
Setlist
Crackerman
Wicked Garden
Vasoline
Heaven & Hotrods
Between the Lines
Stil Remains
Big Empty
Silvergun Superman
Plush
Intersate
Big Bang Baby
Down
Sex Type Thing
Trippin
Lipe Fleury – estadão.com.br
A flying V de Dave Mustaine estampa a arte da capa de Rust in Peace, disco que completou duas décadas no ano passado e foi apresentado na íntegra no Credicard Hall em 2010 em um show que comemorou uma das maiores obras da história do metal. No SWU, o fãs puderam conferir faixas deste e de outros grandes discos do Megadeth.
Riffs acelerados são tocados com peso e precisão, cativando a legião de headbangers dedicados que canta os refrões e imita em movimentos desvairados os solos de Dave Broderick em uma guitarra imaginária. A lealdade dos metaleiros aos seus ídolos é algo sincero e bonito de se ver.
Em Peace Sells, faixa-título do segundo álbum, a harmonia entre os integrantes do Megadeth fica clara. Tanto na argamassa sincronizada do baterista Shawn Drover com o baixista Dave Ellefson, único membro original além de Mustaine, quanto na dobradinha das guitarras, a consistência em viradas rápidas e bem articuladas é notável.
Apesar de calculado, o som da banda pioneira do thrash metal não deixa de ser cheio de vida, e sentimentos que vão da cólera à euforia são transmitidos a cada palhetada. Como em outras apresentações do dia, a proficiência dos músicos chama a atenção. O prolífico e celebrado Mike Patton fecha a noite só daqui a algumas horas, mas o último dia do SWU já pode ser considerado o melhor dos três.
Setlist
Trust
Wake up dead
Hangar 18
A Tout le Monde
Whose Life
Headcrusher
Public Enemy
Sweating Bullets
Symphony of Destruction
Peace Sells
Holy Wars
Bonecos de astronautas inflados saúdam o público no fundo do palco, enquanto o cômico Primus conduz seu circo virtuoso misturando funk e metal com um resultado voluptuoso e de difícil definição.
O divertido Les Claypool, provavelmente um dos maiores baixistas vivos, slapeia elaboradas linhas em seu instrumento e canta letras irônicas simultaneamente com naturalidade. Les é sem dúvida uma das personalidades mais curiosas da música, lembrando Zappa em sua irreverência.
Quando o som é bom, não tem erro. Mesmo quem não conhece o trabalho do Primus pula, dança e assiste embasbacado à perícia do trio.
Jotabê Medeiros – O Estado de S. Paulo
“Velho, tinha informação da minha empresa no meu celular! O que faço, velho?”,suplicava a garota, procurando informação entre os seguranças do SWU. Dezenas de casos semelhantes foram registrados no início dessa noite do último dia do festival, furtos principalmente de celulares e carteiras e extravio de documentos. Os seguranças estavam encaminhando os reclamantes para a entrada do festival, o posto policial ao lado do Teatro Paulínia, que abriga o Fórum de Sustentabilidade.

“Muita gente, na verdade, acaba encontrando o que reclama lá nos ‘achados e perdidos’. São coisas que perdem na hora em que pulam, dançando, e acabam entregando lá. Quase não dá para conversar com eles, porque alguns já estão meio altos”, disse um dos orientadores, nas imediações do Palco Energia, logo após o show do 311.
O SWU não registrou até agora casos de arrastões com violência, como o Rock in Rio. Os banheiros também não estavam registrando filas, ao menos até agora. Com a chuva e a chegada da lama, os banheiros estão lotados e as poças de lama fazem com que parte deles esteja inacessível para os frequentadores.
Lama já confere ao festival aspecto de Woodstock do ano
Lipe Fleury – estadão.com.br
Quando Thurston Moore e Kim Gordon anunciaram seu divórcio no mês passado, dúvidas e rumores quanto ao futuro do Sonic Youth povoaram a internet.
No que pode o último show de sua história, a banda ignora qualquer tipo de especulação e capricha em uma performance entrosada e repleta de ruídos. “Mal posso esperar para vê-los novamente”, disse Thurston Moore antes de tocar Teenage Riot, a última música do show, o que pode contraria fãs mais pessimistas e dá a entender que a separação não vai acarretar no fim da banda.
Canções que fundamentaram o noise rock ao longo de uma respeitável carreira de quase 30 anos são executadas com a mesma pegada de sempre. As tradicionais dancinhas giratórias da vocalista também estão lá.
Apesar de previsíveis, as interações de Moore com sua guitarra, que incluem esfregar o instrumento contra os amplificadores e na quina do palco, evocando o feedback pelo qual é famoso, seguem divertidas para os fãs e perturbadoras para o resto. Barulho, barulho e barulho parece ser o lema do dia no SWU.
A neo-psicodelia arrastada do Black Angels não foi tão bem recebida no New Stage, embora o quinteto texano tenha oferecido uma boa apresentação.
Delays e reverbs nas guitarras e linhas de bateria repetitivas, por vezes alusivas ao krautrock, são as características mais marcantes do show.
Menos grooveados do que a Tame Impala, banda australiana com quem parecem compartilhar referências, os Black Angels não tem medo de exagerar nos efeitos barulhentos nos vocais e no feedback rasgado das cordas.
As raras canções mais aceleradas chegam a animar o público. Ao final da performance, volta a chover em Paulínia, e o lamaçal em frente ao palco secundário torna-se cada vez mais intimidador.
2012
2011
2010